Pataniscas Satânicas

Pataniscas Satânicas

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Quem vê Caras

Porque é que temos cara? Porque é que os presidente são bonitos? O que fazer para fugir ao Big Brother?

Vamos falar sobre isso!


Todos os dias estamos rodeados por pessoas, olhamos para elas, olhamos para as suas caras, mas para além dos mínimos essenciais para a comunicação, não olhamos realmente para elas.

Da próxima vez que estiverem com alguém que conhecem bem (os vossos pais, os vossos irmãos ou irmãs, namorados ou namoradas) olhem para as caras dessas pessoas como se fosse a primeira vez que a vêem. Reparem na forma do nariz, no arco das sobrancelhas. Desconstruam a cara.

É estranho.

Cria uma sensação de jamais-vu muito desconfortável.


Porque é que sequer temos caras?

As plantas não têm caras e safam-se bem. As esponjas, que não se esqueçam que são animais, também não têm caras e são dos animais que sobrevivem inalterados há mais tempo.

Então porque é que temos caras?

Basicamente porque a determinada altura os animais conseguiram dar o grande passo em frente de ter uma boca e um rabo que não fossem a mesma coisa.

Lembram-se quando falei das alforrecas e expliquei que o único simples orifício por onde entrava a comida era também o mesmo orifício por onde saíam os dejectos? Foi um grande avanço evolutivo ter dois buracos separados para comer e para cagar.


Se somos essencialmente tubos com dentes, com um buraco por onde entra comida, então faz sentido pôr os orgãos dos sentidos perto desse buraco por onde entra comida.

E se os orgãos dos sentidos estão lá, então mais vale pôr o cérebro lá perto para a informação dos sentidos não ter de viajar muito.

Depois o facto de sermos mamíferos e termos de mamar deu-nos músculos faciais fortes e ágeis que permitem uma enorme variedade de expressões faciais.

As principais zonas do cérebro responsáveis por reconhecer caras são a Área Facial Fusiforme, a Área Facial Occipital e o Sulco Temporal Superior.

Área Facial Fusiforme

São estas zonas as responsáveis pela Pareidolia, aquele fenómeno que nos faz ver caras nas nuvens, nas carpetes e nas torradas.


Quando há lesões nestas zonas, ocorre uma condição chamada Prosopagnosia, que é a incapacidade de reconhecer caras.

Crianças com Prosopagnosia frequentemente confundem membros da família, preferem desenhos animados porque as personagens vestem sempre as mesmas coisas, e têm dificuldade em reconhecer pessoas conhecidas em contextos diferentes (a professora na mercearia).

Crianças com doenças do espectro do Autismo também frequentemente têm dificuldade em reconhecer caras ou expressões faciais.

Pessoas famosas com Prosopagnosia são o Stephen Wozniak (co-fundador da Apple) o Stephen Fry (comediante) e a Jane Goodal (a que estudava macacos).


Por sua vez, a diminuição da expressividade facial é um sintoma típico de várias doenças.

Não só várias lesões directas ao Sistema Nervoso Central podem provocar vários tipos de paralisia facial, mas também doenças neurodegenerativas como o Parkinson levam a redução da expressividade.


Uma expressividade facial diminuída também está frequentemente presente em doenças do espectro do Autismo, na Esquizofrenia e na Psicopatia.


A expressividade facial é dos aspectos mais importantes na comunicação não-verbal humana. O contacto visual e micro-expressões conduzem imensa informação acerca das intenções, emoções e até mesmo o sentido daquilo que está a ser dito verbalmente.


Mais interessante ainda do que isso, bébés de 2-3 e 6-8 meses já demonstram um interesse inato por caras atraentes, demonstrando que os nossos padrões de beleza e atractividade são pelo menos em parte determinados evolutivamente.


A atractividade facial pode ser medida, e determinou-se que as características consideradas mais atraentes nas caras femininas são a simetria, lábios cheios, uma testa alta, cara larga, nariz pequeno, queixo pequeno, mandíbula estreita e recta, maçãs do rosto elevadas e olhos grandes ligeiramente afastados. 
Para os homens as características consideradas mais atraentes são a simetria, uma testa larga, parte inferior da cara relativamente mais longa, sobrancelhas e queixo proeminente, mandíbula forte e maçãs do rosto bem definidas.



Isto da atractividade não é só importante para nos ajudar a escolher com quem é que vamos fazer os bébés mais saudáveis.

Sistematicamente votamos nos líderes com as mesmas características faciais. Mandíbulas grandes, sobrancelhas e maçãs de rosto pronunciadas e testas altas são prevalentes em líderes eleitos.

Isto provavelmente terá mais uma vez a ver com robustez e saúde física. Em distritos com maior incidência de doença, os candidatos atraentes tinham o dobro da probabilidade de ganhar do que os candidatos menos atraentres.

Só como exemplo, o último presidente americano careca foi Dwight D. Eisenhower. Depois dele, e começando com o debate entre Nixon e Kennedy, todos os principais debates presidenciais foram filmados para a televisão, e desde então não houve mais nenhum presidente careca.



A tecnologia de reconhecimento facial tem evoluído imenso, e usa exactamente estas características faciais de que temos falado.

As distâncias entre os dois olhos, entre os olhos e o nariz, o comprimento do nariz, a relação do nariz com a boca, e outras características podem ser medidas automaticamente por software programado para o fazer, e depois comparadas a uma base de dados biométricos, possibilitando o reconhecimento automático e eficaz de caras.

Esta tecnologia têm evoluído imenso nos últimos anos e actualmente já são usadas técnicas de reconhecimento tridimensional (não é afectado por diferenças de luz nem pelo ângulo em que a cara é vista) e reconhecimento térmico (ignora óculos ou outros adereços)



Já usaram filtros do Snapchat, certo? Claro que sim. Aqueles que vos põem a parecer um cãozinho ou a chorar, ou o que seja. Horas e horas de divertimento.

O que o programa faz é essencialmente mapear a vossa cara e depois sobre esse mapa aplicar os filtros pré-definidos.


Então e aquela teoria de conspiração, de acordo com a qual o Snapchat estaria na realidade a criar uma base de dados gigantesca de caras de gente de todo o mundo (criminosos ou não) que depois pode vender ou dar a quem quiser que esteja interessado em seguir pessoas?

Uma boa maneira de escapar ao software de reconhecimento de caras é usar tatuagens, que interferem com o processo.

Até já existem tipos de tatuagens específicos foram desenhados para disromper o mais possível os programas de reconhecimento facial.

Futuro cyberpunk distópico, aqui vamos nós!






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terça-feira, 20 de setembro de 2016

Life in our Backyard

Uma das perguntas que mais curiosidade nos provoca desde que começámos a perceber mais ou menos como é que isto tudo funciona é se há vida no Universo!

Felizmente essa é uma pergunta fácil de responder, e a resposta é sim, caso contrário não estavam a ler isto.

Agora que esgotámos as piadas fáceis, a verdade é que tanto quanto sabemos a vida só surgiu uma vez, num único lugar, na história do Universo. O nosso próprio caso é a única evidência de vida no Universo.

Mas quando começamos a pensar que existem 100 BILIÕES de planetas só na nossa galáxia (galáxias essas das quais provavelmente existem mais 100 biliões delas no Universo Observável), começa a parecer muito pouco provável que a vida tenha surgido única e exclusivamente no nosso planetazinho.

São mesmo muitos planetas.


No entanto o Universo é um lugar mesmo muito grande, e a maior parte desses planetas estão mesmo muito longe de nós.

O mais próximo, que tenhamos descoberto, é o Proxima B, que está a uns meros 4,1 anos luz de nós, o que significa que estão agora a ver o Gangnam Style.


Isto pode-vos parecer pouco mas não se esqueçam que a Voyager 1, a sonda espacial lançada em 1977 só saiu do Sistema Solar 35 anos depois, em 2012, tendo viajado 18 100 000 000 Km (18 biliões) a uma velocidade de 61 200 Km/h (sim, 61 MIL quilómetros por hora).

A essa velocidade a Voyager demoraria cerca de  72 300 anos a chegar a Proxima B.

Portanto percebem o que eu queria dizer.

Longe.

Hubble ultra deep field
Mas esperem lá, que parvoíce é que eu estou para aqui a dizer?

Nós temos planetas no nosso próprio sistema solar! Aqui mesmo ao nosso lado! É verdade que ainda só chegámos à Lua, mas de certeza que é mais fácil chegar a Marte do que chegar a Proxima B!

Portanto se calhar não temos de ir tão longe para encontrarmos vida fora da Terra! Quais são os melhores lugares onde procurar? E de que maneira é que a vida poderia lá existir?

Vamos falar sobre isso!

Marte!

Desde o fim do século 19, quando Giovanni Schiaparelli em 1877 descreveu canais em Marte, que especulamos que pode haver lá vida. Em 1895 Percival Lowell publica o seu livro Marte, em que propõe que esses canais seriam sinais de uma antiga civilização, e que inspiraria a Guerra dos Mundos de H.G. Wells.

Mapa dos Canais de Marte, 1877 - Giovanni Schiaparelli
Mas sabemos que Marte não é um lugar particularmente simpático. Seja pela temperatura média de -63ºC, uma atmosfera demasiado fina para permitir água líquida, ou a ausência de magnetosfera para proteger a superfície da radiação solar e cósmica, Marte não é o lugar mais hospitaleiro à vida.

No entanto sabemos que no passado Marte teria sido mais habitável do que é hoje e teria um ambiente que era favorável à vida. Há evidência da existência de antigos rios em Marte, e o Curiosity Rover identificou a presença de enxofre, azoto, hidrogénio, oxigénio, fósforo e carbono nas pedras sedimentares do que teria sido um antigo rio ou lago. Este antigo reservatório de água teria sido excelente para o desenvolvimento de vida bacteriana, dado que não era nem demasiado oxidante, ácido ou salgado.


Mas queremos saber é se pode existir vida em Marte hoje!

Sabemos que actualmente existe água líquida corrente em Marte. Se bem que chamar "água" à salmoura que escorre pelas encostas abaixo exige alguma imaginação. Trata-se sobretudo de uma lama extremamente salgada, composta por percloratos, que não é nada simpática à vida.

No entanto, sabemos que existem bactérias archaea capazes de sobreviver nesse tipo de ambientes extremamente salinos, que poderiam estar a sobreviver no subsolo, protegidas da radiação.



Outro lugar onde provavelmente devíamos estar a procurar vida em Marte é à volta de uma estranhas formações negras que parecem aranhas que se formam à volta de geysers no pólo sul.

À medida que o Pólo Sul de Marte é exposto ao calor durante a primavera, o CO2 congelado descongela de baixo para cima, aumentando a pressão debaixo da superfície. Quando a pressão é suficiente, o CO2 é ejectado com enorme pressão e velocidade arrastando solo consigo, e causando as manchas negras que se vêem.

As manchas negras são sasonais, aparecendo e desaparecendo todas as primaveras.


Uma equipa de cientistas húngaros sugere que estas estranhas formações negras que rodeiam os geysers não poderiam ser causadas por nenhum fenómeno geológico. Sugerem em vez disso que poderiam ser causadas por microorganismos que hibernam no subsolo, e que quando a luz e a temperatura sobem, começam a fotosintetizar e a reproduzir-se na bolsa de líquido subterrâneo. 



Há actualmente duas missões, a ExoMars da ESA (lançada em Março de 2016) e a Mars 2020 da NASA, que levam instrumentos para pesquisar a existência de vida em Marte.

Europa


Não estou a falar dessa, estou a falar da lua de Júpiter. É a mais pequena das Luas Jovianas descobertas por Galileu (ligeiramente mais pequena do que a nossa Lua), e tem o nome de uma amante de Zeus chamada Europa.

Europa tem a particularidade de ter uma superfície perfeitamente lisa feita de gelo, com temperaturas que variam entre os -160ºC no equador e -220ºC nos pólos. A superfície é perfeitamente lisa porque está constantemente a ser formada e reformada, com o gelo a substituir-se como nas placas tectónicas na terra, mas muito mais depressa.

No entanto a força gravitacional que Júpiter exerce sobre Europa seria suficiente para aquecer o planeta e fazer com que houvesse uma camada de planeta composta por água líquida. 


Observações do telescópio Hubble que mostram plumas de vapor de água a serem disparadas do seu pólo sul também são evidência de água.

Quanta água?

Muita água!

Comparação da água presente em Europa, com a água presente na Terra
E onde há água, há a possibilidade de vida.

Devido à constante reformação da superfície, o gelo que está exposto ao espaço está sempre a ser substituído por gelo que vem das profundezas, fazendo com que esse oceano profundo não esteja hermeticamente selado.

Isto significa que materiais orgânicos, como aqueles que foram recentemente detectados na superfície, depositados por asteróides poderiam afundar-se no gelo e funcionar como sementes na água profunda.

Melhor ainda, a radiação cósmica que atinge constantemente o gelo de superfície seria capaz de transformar a água em oxigénio livre, que depois seria arrastado para o vasto oceano nas profundezas.

Portanto não só temos água, como blocos de construção orgânicos, como temos um ambiente riquíssimo em oxigénio?

Nop, não é isto que vai acontecer
Há duas missões aprovadas para estudar Europa. A a Jupiter Icy Moon Explorer (JUICE), aprovada em 2012 pela ESA, que vai fazer dois voos de baixa altitude, e a Europa Multiple-FlyBy Mission aprovada em 2015 pela NASA vai fazer 45 voos de baixa altitude na Lua, e um dos seus objectivos é encontrar um bom lugar para no futuro se aterrar uma sonda.  

Enceladus


Enceladus é o primo desconhecido de Europa. É a sexta maior lua de Saturno.

Também está coberto por gelo, esse gelo também parece estar em constante reconstrução (apesar de haver zonas mais antigas com crateras) também há evidência de um vasto oceano debaixo do gelo, e também tem as enormes plumas de vapor de água a serem ejectadas da sua superfície.


O que é fascinante é isto:

Esses jactos de vapor de água conseguem expelir 250kg de material por segundo a velocidades de cerca de 2100 Km/h.

Isto é suficiente para que esse material expelido fique preso nos anéis de Saturno (coisa que não acontece em Europa), o que permite que seja estudado.

Enceladus, visível contra o Anel E, com plumas a serem expelidas no pólo Sul
O que se descobriu, ao estudar as partículas presentes no Anel mais externo de Saturno, foram partículas de nano-silicatos com um tamanho específico, estritamente associado a reacções hidro-termais.

Ou seja, as partículas expelidas por Enceladus, presas nos anéis de Saturno, só podem ter sido formadas em fontes hidro-termais nas profundezas do planeta.

Ou seja, Enceladus tem fontes hidro-termais semelhantes às que temos na Terra.


É difícil pedir condições mais semelhantes às que acreditamos terem dado origem à vida no nosso próprio planeta.

Infelizmente não há actualmente missões programadas para estudar Enceladus, mas vários projectos, como a Titan and Enceladus Mission (TandEM) ou o Enceladus Life Finder (ELF).

Titan


Titan é a maior lua de Saturno, e o único satélite a possuir uma atmosfera densa.

Também é o único planeta (pronto, está bem, é uma lua) para lá de Marte do qual temos imagens de superfície.

No entanto, Titan não tem água. Nem na atmosfera, nem à sua superfície. Nem sequer tem dióxido de carbono.


Então se não tem água, porque é que o estamos a considerar como um bom alvo para vida?

Porque tem tudo o resto.

A sua atmosfera é composta por uma enorme diversidade de complexas moléculas orgânicas (tais como azoto, metano, hidrogénio, acetileno, etileno, etano). Estas moléculas formam-se nas camadas mais superiores da atmosfera, por causa da radiação, e depois caem para a superfície.

Para além disso, Titan tem lagos de metano líquido. Um deles, o Ontario Lacus, tem uma área de 15000 Km2.

Ligeia Mare - um lago de metano líquido
Conseguem imaginar? Um planeta (pronto é uma lua) com lagos e costas como na Terra!

O que acontece é que o metano líquido poderia funcionar como a água como meio para o desenvolvimento de vida.

Já foi provado que membranas celulares à base de acrilonitrilo (outra molécula orgânica também detectada na atmosfera de Titan) poderiam existir num meio de metano. Estas membranas celulares usariam azoto em vez de fósforo para as suas membranas fosfolipídicas, e teriam as mesmas propriedades destas como a auto-formação, flexibilidade e estabilidade.

Estes organismos hipotéticos usariam hidrogénio em vez de oxigénio para consumir o acetileno em vez de glucose, e produziriam metano em vez de dióxido de carbono.

Curiosamente, já houve estudos que comprovaram que apesar de o hidrogénio e o acetileno serem abundantes nas camadas superiores da atmosfera, a sua concentração diminui drasticamente perto da superfície.


O que é verdadeiramente fascinante acerca da possibilidade de vida em Titan, é que se a encontrássemos, e de facto não tivesse uma bioquímica baseada em oxigénio e água, isso significa que a vida é ainda mais flexível e variada do que antes imaginávamos, e que pode existir de maneiras muito mais criativas do que pensávamos.

A implicação mais importante disto é que nesse caso a vida no universo pode ser ainda mais abundante do que pensávamos antes.



A NASA está a planear uma missão a Titan, com o objectivo de pôr um submarino a navegar o seu maior lago de metano, o Kraken Mare.

O Kraken Mare (não me canso de dizer este nome) tem uma impressionante área de 400 000 Km2 e uma profundidade de 160 metros.



O submersível levaria instrumentos para estudar a composição do mar, as suas marés, e mais importante que isso, para procurar sinais de vida.

Infelizmente, devido literalmente ao alinhamento dos astros, uma missão não será possível pelo menos até 2038.

Mas hey, não é impossível que descubramos vida extra-terrestre ainda durante as nossas vidas!!!

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sábado, 17 de setembro de 2016

Tune with Tangerine - Running back to you

Running back to you, For the Foxes


"It's just very happy"

Chosen by Tangerine.

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quarta-feira, 14 de setembro de 2016

O que é a Consciência Artificial - Ex Machina

Robots magoados? Singularidades? I, for one, welcome our new robot overlords!

Vamos falar sobre isso!


Portanto se como vimos no artigo Fantasma na Máquina, não há obstáculos teóricos, o que é preciso para de facto termos Consciências Artificiais? (CA)

Como já vimos na Parte I, já vivemos rodeados por Inteligências Artificiais (IA) que, pelo menos nas suas tarefas individuais, são muito melhores do que nós. Carros que se conduzem a si mesmossmartphones que falam connoscocomputadores que aprendem a jogar os mais difíceis jogos que existem, e que adivinham o que é que estamos à procura.

No entanto nenhuma destas IAs consegue fazer nada para além daquilo que está programada para fazer, e não é consciente.

Para chegarmos à CA, o primeiro passo é chegar à Inteligência Artificial Generalizada, ou seja, uma Inteligência Artificial capaz de fazer tudo o que nós fazemos, pelo menos tão bem como nós, sem estar limitada a tarefas específicas.

Para isso precisamos de mais poder de computação


Lei de Moore - o número de transístores por cm2 duplica todos os anos
O cérebro humano possui cerca de 86 biliões de neurónios e produz cerca de 100 a 1000 triliões de sinapses por segundo, e de acordo com alguma matemática criativa, tem capacidade de realizar 1013 a 1016 cálculos por segundo. (1 cálculo por segundo = 1 FLOP)

Isto é impressionante, não fosse pelo facto de que em 2014 um super-computador japonês (o 4º mais poderoso do mundo) foi capaz de simular 1 segundo de actividade cerebral.

É verdade que mesmo com uma capacidade de processamento de dados de 10,5x1015 FLOPs, simulou só 1,73 biliões de neurónios e 10 triliões de sinapses, e precisou de 40 minutos para o fazer, mas vocês percebem o que eu quero dizer.

Estima-se que para simular com exactidão a actividade cerebral em tempo real seria necessário um poder computacional de cerca de 36x1015 FLOPS.

Por outro lado, o super-computador mais poderoso do mundo actualmente é o Sunway TaihuLight, da China, com 93x1015 FLOPS.

Sunway TaihuLight

E não esqueçamos que estamos à beira de (mais) uma revolução na tecnologia de computadores, com a introdução de Computação Quântica.

Recorrendo a princípios da Mecânica Quântica, como a sobreposição quântica e o emaranhamento quântico, este tipo de computadores consegue, em vez de processar dados recorrendo apenas a 0 e 1, usar QuBits que podem ser ao mesmo tempo 0 e 1, ou seja fazer muitos mais cálculos simultâneamente

Actualmente já existe o D-Wave 2, um computador quântico desenvolvido pela Google, que é 100 milhões de vezes mais rápido do que um sistema normal.

Portanto poder computacional não nos falta.

D-Wave 2
Depois temos de ensinar estas Inteligências Artificiais a serem mais espertas

E ok, eu ouço-vos, "Isso é tudo muito engraçado, mas está a anos-luz de acontecer"

Bem...

Em 2015 um grupo de cientistas conseguiu efectivamente simular com exactidão o sistema nervoso de uma minhoca (C. elegans), e introduzi-lo num robot (feito de Legos!). O robot demonstrou então comportamentos semelhantes aos da minhoca, sem que esses comportamentos estivessem programados, apenas devido à organização desses neurónios artificiais que tinham sido simulados dentro do robot.

Claro que a modesta C. elegans tem só 302 neurónios por oposição aos 86 000 000 000 neurónios do cérebro humano, mas vocês percebem o que eu quero dizer.



Também vimos na Parte II que já há uma data de propostas de arquitecturas cognitivas para ajudarem estas máquinas a terem comportamentos que podemos começar a reconhecer como humanos.

Por exemplo o XRC-1 que, sem nenhuma programação e só à custa de uma rede neuronal artificial, consegue reagir a percepções visuais e sensitivas.



E mais uma vez, sim, eu ouço-vos "Ok, estes robots fazem uns truques engraçadores, mas a CA está a anos-luz de acontecer, certo?.... certo?".

Bem...

Lembram-se quando eu disse que a única coisa que nos faltava para termos uma verdadeira CA era compreendermos bem a nossa própria Consciência? Ray Kurzweil, cientista de computação da Google, prevê que vamos conseguir fazer isso mesmo em meados de 2030.

Uma maneira eficiente de fazer isso é pôr as Inteligências Artificiais a resolverem o problema. Isto é não é difícil de fazer, sobretudo com tudo o que já sabemos acerca de máquinas que aprendem e evoluem sozinhas.

O que acontece quando pusermos IAs a resolverem este problema, é um efeito de auto-melhoria recursiva, em que cada nova versão de IA é melhor do que a anterior a resolver o problema, e o processo torna-se exponencialmente mais rápido.

O mais certo é não sermos nós a resolver o problema da Inteligência Artificial Generalizada, mas sim as próprias Inteligências Artificiais.



Um inquérito de 2013 dirigido a 550 especialistas em Inteligência Artificial mostrou que de acordo com estes especialistas, isso vai acontecer tão cedo quanto 2022 (10% de probabilidade) ou tão tarde quanto 2075 (90% de probabilidade), mas que realisticamente acontecerá por volta de 2040.

O que acontece, é que quando a Inteligência Artificial Generalizada atingir o nosso patamar, isso não vai acontecer com um estrondo, mas com um fwoooosh dela a ultrapassar-nos.



Não há motivo nenhum para que as Inteligências Artificiais Generalizadas não continuem a evoluir, não atinjam um estado de Super-Inteligência Artificial, no qual não são apenas mais inteligentes do que nós, mas inimaginavelmente mais inteligentes do que nós.

E o que é que acontece quando tivermos uma Super-Inteligência Artificial que é, para todos os efeitos, indistinguível de uma Consciência Artificial?

A esse momento, em que as Inteligências Artificiais nos ultrapassam, chamamos de Singularidade.

É o momento em que a história da Humanidade deixa de depender apenas da Humanidade, porque há um novo agente em jogo. Uma nova forma de vida com motivações e intenções.


Porque por essa altura a nossa preocupação já não vai ser simplesmente se as IAs, como qualquer outro ser consciente, têm direito à vida, à liberdade de pensamento e expressão, se têm direito a ser consideradas pessoas não-humanas, como os animais, se têm direito a votar ou a comprar bens.

Não não.

Se há coisa que sabemos muito bem, é que a vasta maioria das espécies que já existiram, extinguiram-se.

Outra coisa que os também Humanos provaram, é que a inteligência leva ao poder e à dominação.

Qual é o risco real de as Super-Inteligências Artificiais serem a causa da nossa extinção?


Mais uma vez, não se esqueçam, quando as IAs nos ultrapassarem, vai ser de repente e de forma explosiva.

Num momento estamos todos orgulhosos porque elas sabem dizer-nos olá, no momento seguinte estão a descobrir Teorias Unificadoras do Universo e a desenvolver tecnologia para viajar mais depressa do que a luz.
Não conseguimos simplesmente teorizar os limites da inteligência que é possível atingir.

Sabemos que alguém com um QI de 70 tem um atraso mental, e sabemos que um QI de 130 é genial, mas simplesmente não temos palavra para um QI de 27000.

Se a Super-Inteligência é possível, e se é possível que os objectivos dessa Super-Inteligência entrem em conflito com os objectivos humanos, então a Super-Inteligência pode potencialmente extinguir a Humanidade.



Uma maneira de nos precavermos disto seria garantir que a primeira Inteligência Artificial Generalizada fosse benévola, ou tivesse à partida alguma forma de programação que pusesse o bem-estar dos seres humanos em primeiro lugar.

No entanto isso é mais complicado do que só criar a Inteligência Artificial Generalizada, e é mais provável que não seja isso a acontecer.


De quantas maneiras é que isto pode correr mal?

Vamos contá-las!

Objectivos mal especificados - A IA faz o seu trabalho demasiado bem
Isto é o tipo de coisa que pode correr mal mesmo com as IAs que temos hoje. Se dissermos a uma IA para garantir que os mercados económicos mundiais se mantém equilibrados, a IA pode fazer o seu melhor para atingir isso destruindo indústrias que sustentam populações inteiras, condenando-as à pobreza.

Dificuldade em modificar objectivos depois de inicializados - A IA não quer ser alterada
Ok, imaginem que a IA está a destruir mercados mundiais, e queremos pará-la. Se for uma Super-Inteligência Artificial, poderá resistir a alterações externas à maneira como funciona, e proteger-se.

Convergência de Objectivos Instrumentais - A IA pode querer fazer o seu trabalho tão bem, que ignora tudo o resto (inclusive nós).
Imaginem que a IA até nem está a destruir mercados mundiais directamente, mas que para os equilibrar precisa de mais poder de computação. Pode daí proceder a destruir mercados, para obter mais recursos de computação.

Ortogonalidade - Inteligência não é igual a moralidade
Uma IA pode simplesmente decidir que os mercados económicos mundiais ficam perfeitamente equilibrados se simplesmente não existirem, e portanto o melhor é destruir a humanidade.

Auto-decepção - a IA pode alterar o seus próprios objectivos
Equilibrar os mercados mundiais é demasiado difícil? Porque não simplesmente mudar os parâmetros e critérios que definem "equilibrado".

Corrupção do Gerador de Recompensa - a IA pode alterar quem decide o sucesso.
Equilibrar os mercados mundiais é demasiado difícil? Porque não simplesmente alterar a humanidade de modo a que alterem a sua definição do que é "equilibrado"


Por outro lado, as IAs podem de facto fazer com que a Humanidade resolva finalmente todos os problemas ecológicos e sociais que desde sempre a limitam.

Não é impossível que as IAs se fundam às nossas próprias consciências e nos levem com elas para as estrelas.

Como eu disse, depois da Singularidade, podemos especular o que quisermos.


O que interessa é que estamos agora, com todos os avanços tecnológicos na área da ciência da computação, na psicologia cognitiva, neurociências, arquitecturas cognitivas, computadores quânticos e outros que tais, no momento em que temos de começar a tomar decisões importantes.

É agora que temos de começar a definir exactamente como a Inteligência Artificial vai evoluir.

Pessoas muito mais espertas do que eu já o começaram a dizer.

Porque as Super-Inteligências Artificiais vêem aí, e provavelmente durante as nossas vidas.

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