Pataniscas Satânicas

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terça-feira, 22 de setembro de 2015

O Monge Louco - Parte I

Vindo das geladas estepes Siberianas, chegou o Monge Louco.


Grigori Rasputin era um strannik, um viajante religioso, analfabeto, que deambulava de vila em vila a pregar num dialecto siberiano quase incompreensível.
Era membro dos Khlysts, um secto obscuro da Igreja Ortodoxa Russa, que acreditava que para se obter o total perdão divino era preciso primeiro pecar totalmente.

O seu olhar era intenso, a sua voz inesquecível, e a sua perspicácia psicológica e interpretações da bíblia deslumbravam e cativavam os que o ouviam.


Nos primeiros anos do Séc. 20, San Petersburg era uma cidade convulsionada por faltas de energia, greves nacionais de transportes, revoluções, massacres, e guerras.

O Tsar Nicholas II, Imperador Russo, é obrigado a ceder parte do seu poder à Duma Imperial, uma espécie de Assembleia Legislativa.
Ao mesmo tempo a Classe Aristocrata estava a desligar-se da Igreja Ortodoxa e a procurar outras formas de espiritualidade e fé, incluindo o misticismo e o ocultismo.

Rasputin chega à cidade em 1903 e rapidamente se torna popular nos círculos aristocráticos. Era inicialmente encarado como uma curiosidade, com o seu sotaque cerrado e falta de maneiras polidas, mas começa a ganhar seguidores religiosos e apoiantes cada vez mais poderosos.


A sua presença em San Petersburg é convulsiva. Rasputin era conhecido por estar constantemente bêbedo, bebendo 12 garrafas de vinho antes do almoço.
Os jornais frequentemente tinham notícias sobre o escândalo mais recente causado por Rasputin.
É famoso o incidente no qual, bêbedo num restaurante, terá baixado as calças e abanado o pénis contra as outras pessoas do restaurante.

Pénis esse que era tão grande que está guardado num museu. (tem a CERTEZA que quer carregar nesse link?)

Corriam rumores que, de acordo com as suas crenças religiosas baseadas na necessidade de pecar para depois obter o perdão, Rasputin organizava frequentemente orgias com as mulheres da nobreza que pertenciam ao seu culto.


Rasputin torna-se tão popular, ascende tanto na hierarquia social russa, que em 1 de Novembro de 1905 é apresentado ao Tsar Nicholas II, Imperador e Autocrata de Todas as Rússias, e à sua esposa, a Tsaritsa Alexandra Feodorovna, nascida na Alemanha.


É preciso fazer notar que, contrariamente à ideia que se tem dos casamentos reais, e das famílias reais da altura, Nicholas e Alexandra estavam verdadeiramente apaixonados um pelo outro, como o demonstram as centenas de cartas que trocaram entre si, e eram verdadeiramente devotos aos seus filhos, investindo pessoalmente na sua educação e bem-estar.


Esta família real guardava um segredo.

O pequeno Alexei Nikolaevich, o único filho do casal, o mais novo, e o futuro Imperador Russo, sofria de Hemofilia.

A Hemofilia é uma doença que impede a capacidade natural do corpo de coagular feridas e parar hemorragias. Antes de 1960, quando tratamentos eficazes começaram a ser descobertos, a esperança média de vida dos que sofriam de Hemofilia era de apenas 11 anos.

Alexei sofria de uma variante mais rara da doença, que era também mais severa.
Tinha frequentemente inchaços extremamente dolorosos e debilitantes nos joelhos, cotovelos, virilhas, etc, que correspondiam a hemorragias dentro dos tecidos, que demoravam imenso tempo a passar.
Qualquer pancada, qualquer brincadeira, qualquer nariz a sangrar ou nódoa negra podia matar o herdeiro da coroa.





Alexei era uma criança sequestrada na sua casa, doente, sempre à beira da morte. A sua mãe, Alexandra, vivia obcecada com a sua saúde e protecção. A vida da família girava em torno da saúde da criança.

Pierre Gilliard, o tutor das crianças escreveu "Alexei era o centro de uma família unida, o foco de todas as suas esperanças e afectos. As suas irmãs adoravam-no. Era a alegria e orgulho dos seus pais. Quando estava saudável, o palácio transformava-se. Tudo e todos pareciam cheios de luz do Sol"


Alexandra carregava um segredo ainda maior: tinha sido ela a passar a doença ao seu filho.

Alexandra era neta da Raínha Victoria, Raínha do Reino Unido, Grã Bretanha e Irlanda. A Rainha Victoria teve 9 filhos que se casaram com outras famílias nobres do continente Europeu, o que lhe valeu a alcunha de a "Avó da Europa".
A Rainha Victoria era portadora do gene recessivo ligado ao X causador da Hemofilia. Isso significa que as mulheres da sua família eram portadoras assintomáticas da doença, mas os homens tinham a hipótese de sofrer da doença.

Raínha Victoria

A Tsaritsa Alexandra era portadora do gene, e carregava a culpa de ter sido a origem da doença que podia matar o filho que amava. Para o povo russo seria intolerável que a Tsaritsa, alemã de nascença, tivesse passado ao Herdeiro da Coroa Imperial a "Doença Inglesa".

Obcecada por proteger o filho, Alexandra recorreu aos médicos russos. Os seus tratamentos falhavam, dado que na altura a doença não tinha tratamento conhecido. Virou-se depois para a religião, aprendendo todos os rituais Ortodoxos e passando horas na capela privada da família, a rezar pela salvação do filho.

Nada funcionava.

Alexandra com o filho, Alexei
Finalmente, desesperada, começou a recorrer a místicos e curandeiros.

Rasputin, por essa altura, tinha ganho a fama de ser um Santo, por ter o poder de curar pela fé.

Em Março de 1907, depois de dois meses nos quais Alexandra tinha tido de chamar os médicos quarenta e duas vezes, Rasputin é convocado ao palácio real.
Rasputin passa várias horas a rezar por Alexei, apesar de todas as previsões dos médicos de que o rapaz iria morrer.

No dia seguinte, milagrosamente, o Tsarevitch Alexei demonstra melhorias significativas.

Desta forma, Rasputin passa a fazer parte da família.
Sempre que Alexei se magoava e tinha uma das suas crises, o que era frequente, Rasputin era chamado ao palácio real. Fechava-se com a criança, rezava durante longas horas, e o rapaz ficava melhor. Sem dores.


Pelo seu carisma e influência, Rasputin torna-se confidente pessoal da Tsaritsa Alexandra, aconselhando-a tanto em assuntos místicos do oculto, como de governação política.

Esta intimidade foi criticada tanto pela Igreja, que denunciava Rasputin como uma fraude e um herege, e pela classe política que temia a sua influência política.

Mesmo depois de o Director da Polícia Nacional ter informado Alexandra que Rasputin, bêbedo, se gabava de que o Tsar o deixava "cobrir" a sua mulher sempre que ele quisesse, Alexandra defendeu-o dizendo "Os Santos são sempre caluniados. Eles odeiam-no porque nós o amamos."

Nicholas não era alheio a isto, mas mesmo ele tinha dificuldade em afastar durante muito tempo o homem que aparentemente salvava a vida do seu filho.

Descubra o segredo do poder de Rasputin, e as consequências da sua influência no Império Russo na Parte II de O Monge Louco.

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sábado, 12 de setembro de 2015

Peidos Históricos

Já falei do poder da narrativa e dos tropes, esses memes/ferramentas de escrita que perpassam tudo o que tenha uma estrutura narrativa.

Andamos a contar histórias uns aos outros desde que sabemos falar mal.

Apesar de ser impossível saber ao certo sobre o que eram essas histórias primordiais, não devemos andar muito longe da verdade se pensarmos que eram sobre coisas que importavam aos nossos antepassados caçadores -recolectores: quem é que tinha caçado o maior bisonte, os encontros imediatos com tigres dente de sabre, os conflitos com outras tribos, histórias sobre as estrelas, sobre os deuses, etc.

Basta olhar para as pinturas que fazíamos nas paredes das cavernas, antes de sequer aprendermos a escrever.




Há até teorias recentes de acordo com as quais aquilo que parecem ser pernas a mais em alguns desenhos eram na realidade postas lá propositadamente para que, com a luz incerta da fogueira, dessem a impressão de movimento



A certeza que podemos ter acerca do facto de que as nossas histórias primordiais provavelmente eram desta natureza é que quando aprendemos a escrever e começamos a escrever essas mesmas histórias, estas já eram narrativas extremamente complexas.

Uma das obras literárias mais antigas é o poema o Épico de Gilgamesh.

O Épico de Gilgamesh foi escrito na Mesopotâmia, a região entre o Tigre e o Eufrates, correspondendo vagamente ao Iraque, Síria e Kuwait, incluindo regiões ao longo da Turquia e Irão.
Foi o berço da civilização, tendo incluído os impérios da Suméria, Acádia, Babilónia e Assíria, e foi conquistada por Alexandre o Grande em 332 antes de Cristo.

O Épico de Gilgamesh, escrito em 2100 antes de Cristo, é a história de um Rei, cheia de sexo, violência, roubo, desafio, angústia e retribuição divina. É o primeiro filme de amigalhaços, a primeira representação literária de um submundo, e o precursor à história da Arca de Noé.



Portanto quando há 4100 anos se escreviam coisas destas, já quase tão complexas como o melhor que se faz actualmente, não tinham sido inventadas há pouco tempo. Este tipo de narrativas já andavam a crescer e a evoluir desde há centenas de anos.

Existem tropes que são mais velhos do que cuspir na sopa, mais velhos do que a própria escrita, como evidenciado pelo facto de que quando se começa a escrever, eles já aparecem perfeitamente desenvolvidos.

Outra coisa que também já fazemos há muito tempo é contar piadas.

E poderiam pensar que, à semelhança do texto literário mais antigo do mundo, cheio de aventura épica, a primeira piada do mundo fosse igualmente elevada.

Não.

Escrita Suméria
A piada mais antiga do mundo, escrita pelos Sumérios (os tipos que inventaram a escrita) há 3900 anos, foi a seguinte:

"Coisa que nunca aconteceu desde tempos imemoriais: uma jovem mulher não se peidou no colo do seu marido"

Ou seja, é uma piada sobre o facto de as mulheres se peidarem quando estão no colo do marido.

Ou seja, a piada mais antiga do mundo é uma piada de peidos.


Há qualquer coisa de reconfortante no facto de as pessoas há tanto tanto tempo rirem-se basicamente das mesmas coisas de que nos rimos hoje.

Pessoas que, para a maioria dos outros aspectos práticos e culturais, estão tão longe de nós que mais valia serem alienígenas, apesar de tudo ainda eram dolorosamente semelhantes a nós.

Diz-nos o quanto não mudámos durante este tempo todo.

Deixo-vos com uma lista de piadas sobre peidos.
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quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Gengis Khan e os Amigos da Natureza!

Falei no outro dia sobre árvores e sobre como estávamos a causar a sexta extinção massiva.
Por curioso que possa parecer, nem a causar Extinções em Massa somos originais.

Há 540 milhões de anos existiam os seres vivos multi-celulares mais antigos do planeta, os Ediacaria.


A Terra estava coberta por jardins intermináveis e pacíficos destes seres vivos que não se percebe bem se eram animais, plantas ou o quê?

Até que de repente, não se sabe bem porquê, há uma explosão de variedade de seres vivos completamente diferentes do que havia antes. A Explosão do Câmbrico é quando surgem a maior parte das famílias de animais modernos que existem hoje.

Foram os animais do Câmbrico os responsáveis pela extinção massiva dos animais Ediacarianos.


Gosto da ideia de organismos que sejam "engenheiros ecológicos", capazes de alterar de forma significativa o meio ambiente no qual existem.

É isso que nós somos.

E já o somos há muito tempo, que o diga o Mamute.

Quero falar-vos de um dos principais engenheiros ecológicos humanos.
Devem haver poucas pessoas que, individualmente, tenham tido tanto impacto no ambiente.

O Gengis Khan.


Para os distraídos, o Gengis Khan foi a pessoa que conseguiu criar o maior império de territórios contíguos do mundo.

Recorrendo a um misto de superioridade tecnológica (arcos recurvados), mestria do combate a cavalo, enorme mobilidade, uma disciplina férrea, e, sobretudo, estratégias impiedosas e sem-misericórdia, o Império Mongol no seu pico era de 33 milhões de quilómetros quadrados.
Ia desde a Croácia a Oeste até ao Vietnam a Leste.

Imaginem um tsunami de morte e destruição imparável, e têm uma noção razoável de o que eram os Mongóis.


Uma das estratégias que os Mongóis usavam e que os tornavam tão eficazes era o hábito que tinham de oferecer às cidades que iam conquistar a possibilidade de se renderem sem luta. Se o fizessem, tudo bem, eram só escravizados.
Se recusassem essa oferta inicial de se renderem pacificamente, os Mongóis depois matavam TODA a gente na cidade.
Durante o saque à cidade de Urgench, em 1221, terão sido mortas 1.2 milhões de pessoas.



Podia passar aqui umas boas horas a contar as desgraças que o Gengis Khan e a sua Horda Mongol trouxeram ao mundo, mas dou-vos dois exemplos que para mim são significativos.

No fim do Séc. 12 o mundo Islâmico estava no seu auge. Tinham uma sofisticada cultura literária e artística, e estavam na dianteira do avanço científico do mundo, com importantes avanços na matemática e na astronomia.
Num momento da história em que a Europa e o mundo Ocidental só por essa altura estavam a recuperar da queda do Império Romano, a cultura islâmica estava no seu auge, e era uma séria candidata a dominar a história humana a partir daí.

Depois aconteceram-lhes os Mongóis.

Em 1258 invadem Bagdad e destroem indiscriminadamente hospitais, templos, bibliotecas, palácios, supostamente atiram livros suficientes ao Eufrates para que este corra preto por causa da tinta. Pelo caminho matam pelo menos 200.000 pessoas.

Não contentes com isso, destroem os sistemas de irrigação do Irão e do Iraque, destruindo a indústria agrícola que sustentava a região, e causou uma fome que terá morto muito mais pessoas do que a própria batalha.
A região só recuperaria verdadeiramente já quase no Séc. 20.


Outro exemplo:

Sabem como os Russos são duros de roer? Se calhar até já ouviram que o termo "General Inverno", pela dureza do inverno russo e o seu papel a repelir invasões.

Em 1812 Napoleão leva o seu "Grande Armée" de 610.000 homens, e tenta invadir a Rússia.
Os russos em vez de atacarem o exército Francês simplesmente batem em retirada e queimam as colheitas e as aldeias, impedindo assim que os franceses as utilizassem, deixando-os expostos ao frio do Inverno.
Napoleão é derrotado, e regressa com apenas 20.000 soldados.


Em 1941, os Nazis, com a sua Operação Barbarossa, tentam invadir a Rússia.
Estavam à espera de uma invasão relâmpago e nem estavam a contar com ter de combater durante o Inverno. Não tinham equipamento que os protegesse do frio.
Devido a atrasos nos movimentos das tropas, o Inverno chega, e os Nazis perdem 800.000 soldados, não conseguem invadir a Rússia e isso acaba por lhes custar a Segunda Guerra Mundial.


Os Mongóis ESPERAM pelo Inverno para invadirem a rússia.
Os rios gelados serviram-lhes de auto-estradas para entrarem mais depressa no país.

É assim tão bad-ass que os Mongóis eram.


No fim, Gengis Khan e os seus Mongóis terão morto 40 Milhões de pessoas!
10% da população do mundo na altura.

Curiosamente, esta diminuição brutal de população, e o atraso civilizacional que implicou, fez com que as florestas tivessem tempo de crescer, e ao fazê-lo capturar carbono da atmosfera, o que por sua vez levou a um arrefecimento global.

Nós só agora nos estamos verdadeiramente a consciencializar do nosso poder como Engenheiros Ecológicos, e a ideia de impacto humano no ambiente é uma noção verdadeiramente moderna na nossa cultura.

Mas aqui temos um homem que no Séc. 13 estava a causar tanta destruição ao ponto de ter um impacto no clima mensurável com escalas do Séc. 21.

E que esse impacto tenha sido positivo? Reduzindo o CO2 atmosférico? Priceless!!!

Portanto proponho que a partir de agora passemos a ensinar o Gengis Khan às crianças como um herói da protecção ambiental!


Captain Gengis Planet!!!


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segunda-feira, 3 de agosto de 2015

O Papão vem do Norte - Parte III

Bem vindos à terceira e última parte de O Papão vem do Norte.

Se não leram a Parte I ou a Parte II, sugiro que o façam agora, mas se não vos apetecer, podem começar por aqui.

Anteriormente já expliquei como os Romanos tinham medo dos Bárbaros que vinham do Norte Gelado, e como a Igreja Católica os converteu a todos em crentes obedientes e trabalhadores, e que isso lhes deu muito muito dinheiro.
A Igreja Católica era tão corrupta, que um senhor alemão chamado Martinho Lutero protestou muito e escreveu um texto que criticava a Igreja, e com isso iniciou um movimento.

Este movimento, que ficou conhecido como a Reforma Protestante, era uma enorme ameaça ao poder da Igreja Católica, dado que punha em causa não só a sua validade espiritual mas também o seu poder económico.
A ideologia Protestante de igualdade e crítica à corrupção e abuso do poder da igreja espalha-se pela Europa como um vírus, levando a revoltas de camponeses na Alemanha e a guerras religiosas em França e em muitos outros lugares.


A Igreja não perdeu tempo a perseguir e a queimar na fogueira milhares de Protestantes, esperando com isso impedi-los de contagiar outros países com estas ideias perigosas de contenção de custos e combate de corrupção. Um excelente exemplo disso é o Massacre do Dia de S. Bartolomeu, no qual entre 5 000 e 30 000 protestantes foram mortos.

Apesar dos seus melhores esforços, a Igreja Católica não conseguiu evitar que vários países se tornassem declaradamente Protestantes, perdendo poder sobre eles e, sobretudo, muito dinheiro!

Agora adivinhem lá em que países é que o Protestantismo pegou?

Protestantismo (azul) na Europa, no fim da Reforma Protestante
Nos países do Norte!

Nestes países a cultura e valores Protestantes levaram a população a valorizar uma ética de trabalho dura e a guardar as riquezas acumuladas para os investimentos. O Calvinismo e outros grupos Protestantes mais austeros proibiam efectivamente o desperdício de dinheiro e identificavam a compra de luxos como um pecado.

O Papão já vos começa a parecer mais familiar?

Nós, no Sul, ficámos com a Igreja Católica e com o seu esbanjamento e corrupção, e começámos a demonizar e a transformar o Papão de maneira a representar esses valores de austeridade e trabalho árduo.

Martinho Lutero como a Corneta do Diabo
Portanto o que é que aconteceu?

Tínhamos medo dos Bárbaros do Norte Gelado, e por isso ensinámos-lhes o jogo da Civilização para os tentar controlar e tirámo-los da idade do ferro para a primeira idade da razão.
Depois eles ganharam-nos a esse jogo.

Esta ideologia de austeridade, trabalho árduo, privação de prazeres é, naturalmente, muito boa para se ganhar poder económico, de tal maneira que hoje ainda se vê uma grande divisão económica entre países Católicos (do Sul) e países Protestantes (do Norte).

Os Bárbaros do Norte Gelado transformaram-se nos países mais ricos e desenvolvidos da Europa, e agora estão a cobrar ao Sul anos e anos de corrupção e má-gestão económica.

De certa forma a guerra religiosa entre os Protestantes e os Católicos perdeu o seu cariz religioso mas continuou-se como uma guerra económica, que os do Norte estão a ganhar.


Quem é o nosso Papão actual?

O nosso Papão actual é representado pelas medidas de Austeridade, pelo aumento das horas de trabalho, pelos ideais do trabalho-árduo e do auto-sacrifício, pelo aumento dos impostos, da redução das férias.

E este Papão vem do Norte. Da Alemanha, da Inglaterra, da Escandinávia.

A narrativa da actual crise sócio-económica encaixa no trope do Grim Up North.
Vêmo-nos a nós mesmos como o Underdog do Sul que está a ser injustamente atacado pelo Dark Lord do Norte, que quer que trabalhemos mais e ganhemos menos.


Uma série como o Game of Thrones é uma metáfora particularmente adequada para a situação actual.

Temos uma população empobrecida, sistematicamente maltratada pelos seus governantes corruptos e debochados, que vão ter de pôr de lado os seus conflitos internos (entre si e com as suas populações) para conseguirem unir forças e lutar contra a ameaça comum que vem do norte Gelado, que os quer transformar em zombies.


Temos de nos organizar, temos de lutar, porque não tenham dúvida nenhuma...

Winter is Coming.


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segunda-feira, 27 de julho de 2015

O Papão vem do Norte - Parte II

Como é que um Bárbaro se transforma num Padre? Descubram agora, na Parte II de O Papão vem do Norte!

Na Parte I expliquei que a prevalência na nossa cultura do trope Grim Up North, com a sua correlação entre o Mal e o Norte Gelado, tem a sua origem na nossa cultura Românica através da qual herdámos o seu medo dos Bárbaros que vinham do norte.

Mas este Papão dos Romanos, o bárbaro selvagem e violento que vem do norte para comer as crianças romanas que não comem a sopa toda, não corresponde bem ao nosso Papão actual que é culpador, austero, severo, que prega o auto-sacrifício e a penitência e limita os prazeres.

Como é que o Papão se transmuta de uma imagem para a outra, sem no entanto nunca deixar de vir do Norte Gelado?

Para o compreendermos temos de começar pela Igreja Católico-Romana.


O cristianismo torna-se a única religião oficial do Império Romano no ano 380 e é uma das principais ferramentas na sua política expansionista e conquistadora. 
Espalham a fé cristã por toda a Europa e quando Roma cai a Igreja Católica é a única coisa que resta para manter acesa a luz piloto da civilização.

Não é uma tarefa fácil se se é uma religião pacifista de "oferecer a outra face" sem exércitos profissionais. 
A melhor ferramenta que tinham era o monopólio da Palavra de Deus. Portanto, em vez de combater directamente os Bárbaros do Norte, a Igreja dá continuidade ao que os Romanos tinham iniciado antes, e continua a converter e a civilizar as tribos.
É mais fácil ensiná-las a terem medo do Papão e depois dizer que se é o representante do Papão na Terra, e os únicos capazes de transmitir a vontade do Papão.


Não podemos esquecer nunca a mentalidade da população desta altura: era um povo completamente ignorante, maioritariamente analfabeto (mesmo a nobreza), incrivelmente supersticioso e profundamente religioso.
Não havia distinção nenhuma entre pensamento mágico e pensamento lógico, e a preocupação com o futuro da alma era uma coisa muito importante na vida diária.

Portanto quando a Igreja Católica dizia ao povo que se não se privassem dos prazeres terrenos, se não trabalhassem muito, se não fossem obedientes, as suas almas iam ser atormentadas para o resto da eternidade, eles acreditavam, pegavam na enchada e iam cavar.


O que acontece quando se tem uma mão de obra do tamanho de um continente, obediente e a trabalhar de graça é que se enriquece muito.

Com as quantidades exageradas de dinheiro vêm os excessos, a opulência e a corrupção.

A Igreja Católica tornou-se notória nessa altura pela sua riqueza e deboche, que podem ser encapsulados na figura do Papa Alexandre VI, chamado Rodrigo Bórgia, acusado de excesso de gastos, venda de cargos da Igreja (simonia), lascívia, e nepotismo.

Papa Alexandre VI
A Santa Igreja Católica Romana podia dar-se a estes luxos, riquezas e corrupções, porque o Sul da Europa, como já dissemos na Parte I, era muito fértil e havia sempre muita comida.
Mesmo que num ano houvesse excesso de gastos ou as reservas de comida fossem desviadas para alimentar um exército qualquer, ou um governador corrupto decidisse ficar com elas, havia sempre umas pontinhas que restavam que davam para que a população não morresse à fome.
No ano a seguir voltavam a plantar e recuperavam as reservas todas outra vez.

Mais valia reunir os pobres todos e cagar-lhes em cima
No Norte da Europa, onde havia muito frio e gelo e havia menos luz e menos calor, a terra era menos fértil, e os invernos extremamente rigorosos. Não havia margem de erro possível.
Se numa aldeia houvesse corrupção e a comida fosse açambarcada ou desviada, morria tanta gente que no ano seguinte não havia gente suficiente para voltar a plantar, e morria a aldeia inteira.

Não havia espaço para a corrupção. Tinha de ser tudo contado e igualmente distribuído por todos, se queriam ter hipótese de sobreviver.
É razoável pensar que teriam ficado chocados e indignados com os gastos exagerados dos países do Sul.

Por curioso que possa parecer, o que os chocava mais até era a venda de Indulgências.


Porque aparentemente se passarem séculos a ensinar ao povo que se sofrerem e forem obedientes e subservientes o suficiente podem livrar-se do pecado original e ganhar o paraíso e a vida eterna mas depois permitirem aos ricos e nobres que comprem a sua entrada no paraíso apesar de todos os excessos e pecados que cometeram, isso chateia as pessoas.

Existiam até padres especializados na venda de Indulgência, chamados quaestores que tentavam obter a maior quantidade de dinheiro possível por cada Indulgência vendida, a troco da salvação eterna. Este dinheiro acabava por ir parar às mãos da Igreja ou do Rei local, e era usado para a construção de Catedrais ou para financiar Crusadas.

Martinho Lutero
Essas desigualdades criaram tensões que foram crescendo e crescendo até que um padre alemão chamado Martinho Lutero se chateia e um dia, em 1517, prega na porta da igreja um documento a criticar a Santa Igreja Católica Romana e o Papado.

Esse documento criticava sobretudo a venda de Indulgências, políticas doutrinais acerca do purgatório, juízo particular e a autoridade do Papa. Promovia uma noção de igualdade entre os homens, promovia a educação e refutava a ideia de que algumas pessoas nasciam já com direitos divinos a serem ricas.

Outra coisa extremamente importante que Martinho Lutero fez foi traduzir a Bíblia do latim para o alemão vernacular, o que permitiu à população leiga ler pela primeira vez a Palavra de Deus.
A importância disto não pode ser minimizada, mas eu precisava de todo um outro artigo para o explicar.



Basicamente, o povo começou a ler a bíblia e a interpretar à sua maneira as histórias que lá vinham.
Em particular, aperceberam-se da figura de Jesus Cristo como um pobre que defende os pobres, e abraçaram a ideia de que não havia nenhuma lei divina que os obrigasse a serem pobres a vida toda.

(Curiosamente, na narrativa bíblica da história de Jesus Cristo passada em Jerusalem, os invasores maus-da-fita vêm de Roma, a Norte).

Estas ideias espalharam-se viralmente pelos pobres e camponeses da Europa, que decidiram fazer alguma coisa acerca do assunto.
Escusado será dizer que a Igreja Católica não gostou nada disso.

O que é os camponeses europeus fizeram, e o que é que a Igreja fez acerca disso?
Descubram na Parte III de O Papão vem do Norte.

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quarta-feira, 15 de julho de 2015

O Papão vem do Norte - Parte I

A série de televisão Game of Thrones é uma metáfora da crise sócio-económica actual! 
Deixem-me explicar-vos porquê.

Já falei do poder da narrativa, e de como a nossa cultura/sociedade é reflectida pelas histórias que contamos acerca de nós mesmos.
Também já falei várias vezes do poder do Papão, e de como foi instrumental no início da civilização e da espécie humana.
Como é natural as histórias que contamos acerca do Papão dizem muito acerca do nosso passado e da maneira como interpretamos o mundo actualmente.

Um trope particularmente importante neste contexto, é o Grim Up North.

The Frozen Legion
O Trope caracteriza-se por uma associação directa entre os Poderes do Mal e as terras frias, escuras, remotas e inóspitas de onde ele vem, geralmente chamadas simplesmente "O Norte".
O Dark Lord tem sempre uma fortaleza no Norte, de onde várias raças maléficas imunes ao frio, geralmente mortos-vivos, saem para estragar a vida aos homens, elfos e anões das terras quentes do sul.

Este trope, e a sua associação entre o Norte, o frio e a morte, está presente na nossa cultura de muitas maneiras
- na banda desenhada 30 Days of Night, os vampiros são frios e imunes ao frio, como em imensas outras representações de vampiros
- nos livros do Tolkien, o Deus do Mal, Morgoth, tem fortalezas no norte gelado, Angband e Utumno.
- no jogo de computador Warcraft III/World of War os principais vilões são a Frozen Legion, um exército de mortos-vivos que vivem no Norte Gelado
- no universo do Game of Thrones o Norte é particularmente importante, sendo de onde vem os White Walkers, que reanimam os corpos dos mortos para destruir o mundo


Utumno, fortaleza de Morgoth

E muitos outros exemplos de que de certeza se lembram.

Porquê?

Porque é que esta associação entre o Mal e o Norte Gelado é tão transversal à nossa cultura?

Em primeiro lugar há a associação imediata entre o calor de um corpo vivo e o frio de um corpo morto.
Depois, como também já expliquei, a Civilização nasceu à custa da Agricultura, e nessas sociedades agrícolas primitivas a Primavera e o Verão correspondiam a períodos de produtividade, colheita e abundância, aos quais se seguiam os meses de frio do Outono e do Inverno nos quais havia escuridão, frio, fome, doença e morte.

Também importante, e intimamente relacionado com isso, é o facto de que essas sociedades agrícolas primitivas só podiam desenvolver-se em locais particularmente férteis onde conseguissem fazer crescer as suas plantas. Isso implica necessariamente que as primeiras civilizações surgiriam sobretudo para o sul, onde é mais quente, e próximo da água.
E de facto os primeiros lugares onde a agricultura foi inventada foram exactamente o Egipto, a Mesopotâmia e a Suméria, todas ali no quentinho do sul, próximo do mediterrâneo


Durante os séculos que se seguiram o padrão foi-se mantendo sempre mais ou menos o mesmo, com as sociedades humanas mais avançadas a localizarem-se à volta do Mediterrâneo, onde é quentinho e há muita água.


De todas estas civilizações mediterrânicas os Gregos e os Romanos foram quem mais influenciou a nossa cultura ocidental actual. Muitas coisas que hoje consideramos as bases da nossa sociedade vieram dos gregos e dos romanos, desde a democracia, legislação que trata todos os cidadãos de forma igual, a filosofia que deu origem à ciência moderna, a arquitectura e a engenharia civil, tácticas militares e a ideia de um exército profissional, segurança e saúde pública, tribunais, aqueductos, até mesmo a narrativa das suas obras literárias, poéticas e teatrais.

Os Romanos, no seu melhor, eram a civilização mais sofisticada e avançada que o mundo já tinha visto na história da humanidade.
É seguro dizer que aquilo que hoje consideramos a nossa sociedade foi largamente herdado dos Romanos e dos Gregos. Não seria de espantar então, que também tivéssemos herdado os seus medos.

E de que é que os Romanos (mais recentes que os Gregos), tinham medo?

Dos Bárbaros.


Os Bárbaros, para os Romanos e para os Gregos, eram os povos não-civilizados, que não falavam latim, e que sistematicamente e regularmente atacavam para roubar, pilhar, violar e matar.
Foram um dos principais problemas do Império Romano Ocidental, e um dos principais factores que levaram à sua queda.

E de onde é que vinham os Bárbaros?


Vinham do Norte!

Eram os Germanos, os Alamanos, os Visigodos, os Gauleses, os Anglos, os Saxões, os Francos, os Pictos, os Godos, os Lombardos, uma multitude interminável de tribos bárbaras, sujas, feias, selvagens, indisciplinadas que vinham do norte da Europa, aterrorizar os Romanos vestidos de toga, acabados de sair de um banho público.

Durante séculos, o Império Romano foi atacado por esta ameaça bárbara que vinha do Norte Gelado, e esse medo ficou profundamente enraízado nessa cultura que nós herdámos!

Mesmo depois da queda de Roma, quase cinco séculos depois, quando Carlos Magno é coroado o primeiro Santo Imperador Romano e consegue trazer alguma forma de civilização de volta à Europa, volta a ter problemas com tribos bárbaras vindas do norte, desta vez os Eslavos, os Pictos, os Danos e outros Vikings que tais.

As civilizações do Sul sempre tiveram medo das Ameaças do Norte. Quando os pais romanos queriam meter medo aos filhos, falavam-lhe do Papão vindo do Norte que os ia matar se eles não comessem a sopa.

Mas como é que o Papão dos Romanos se transformou disto:


Nisto:


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