Pataniscas Satânicas

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quinta-feira, 14 de abril de 2016

Psicadélia com o Dr. Estranho

Mágicos foleiros dos anos 30? Trips psicadélicas alimentadas a drogas? Contra-cultura dos anos 60? Hype e mais hype acerca do Dr. Strange?

Vamos falar sobre isso!


Portanto com o Captain America: Civil War aqui mesmo à porta, a Marvel decidiu aproveitar a atenção e o entusiasmo dos fãs para nos largar o trailer do seu próximo filme, o Doctor Strange.

(só numa nota aparte: no momento em que escrevo isto, o Captain America: Civil War tem uma pontuação de 100% no Rotten Tomatoes! Eu sei que é cedo, é de uma pool de só 15 críticas, mas ainda assim weeeeeeeee!!!)

Acho que nunca li nenhuma banda-desenhada do Dr. Strange. Li muitas bandas-desenhadas onde ele aparece, sempre como personagem secundária, sempre a aconselhar as outras personagens, mas acho que nunca de facto li nenhuma história só dele.

Mas aquilo que me ficou sempre na cabeça é que o Dr. Strange é uma personagem estranha.


É um tipo com uma capa vermelha (coisa que não se vê assim tanto quanto isso na Marvel) que mais parece saído de uma banda desenhada dos anos 30, como o Mandrake The Magician.

Parece um bocado vistoso. A palavra "foleiro" vem à cabeça.


A personagem do Dr. Strange no entanto foi inventada em 1963, pelo artista Steve Ditko, famoso colaborador de Stan Lee.

O Dr. Strange é verdadeiramente uma personagem que usa magia negra para resolver os seus problemas, ao passo que no resto do universo marvel a maior parte dos poderes e habilidades das personagens estão habitualmente associadas a origens científicas.

O Captain America é fruto de um super-soro, o Bruce Banner é resultado de radiação gama, o Iron Man (também de 1963) é um homem dentro de um fato mecânico.

O Dr. Strange usa magia. É atípico.


No entanto, exactamente por causa dessa atipia, as narrativas do Dr. Strange começaram a expandir o universo da Marvel, construindo uma cosmologia coesa que incluia elementos de mitos egípcios, deuses sumérios e arquétipos Jungianos.

Steve Ditko teve dessa maneira liberdade para fazer o que lhe passasse pela cabeça, e criou cenários e ambientes verdadeiramente surreais.


Esta personagem, com as suas ideias de misticismo e cenários psicadélicos, apelou especialmente a um público mais velho, aos estudantes de universidade, que começaram a ver significados escondidos em tudo.



Não se esqueçam igualmente que os anos '60 na América foi a época em que a cultura das drogas e do LSD começaram realmente a fazer parte da cultura da juventude.


As bandas desenhadas do Dr. Strange conseguiram antever a fascinação que a contra-cultura dos anos '60 viria a ter com tudo o que estivesse relacionado com o misticismo oriental, e de antecipar-se às tendências artísticas psicadélicas do fim dos anos '60 antes destas se começarem a estabelecer.


Steve Ditko levou a personagem ainda mais longe ao começar a introduzir entidades abstractas como personagens contra as quais o Dr. Strange se defrontaria.

Por exemplo a Eternidade, uma personificação do Universo, representada como uma silhueta cheia de estrelas.



Apesar de o Dr. Strange nunca ter estado entre as personagens mais populares ou acessíveis da Marvel, conseguiu encontrar um nicho numa audiência que procurava uma alternativa mais desafiadora do que os super-heróis habituais.


Compreendem por isso que eu tenha ficado muito entusiasmado quando no ano passado quando li a notícia que o Director de Fotografia do Guardians of the Galaxy, Ben Davis, ia também fazer a fotografia do filme do Dr. Strange.

Fiquei ainda mais entusiasmado quando o próprio Ben Davis disse que o Dr. Strange iria ser o Fantasia da Marvel, inspirando-se nas perspectivas impossíveis de M.C. Escher.



Mais entusiasmado fiquei ainda (é tanto entusiasmo que estou prestes a rebentar uma veia) quando recentemente o produtor dos estúdios Marvel vei anunciar que o filme iria usar a tecnologia do 3D para aumentar ainda mais o efeito dos ambientes surreais do filme.


Até agora o 3D tem sido sempre algo que é distractivo ou inútil ao filme onde é usado.
Vai ser extremamente interessante ver de que maneira o 3D de facto é útil para contribuir e aumentar o efeito do filme e da narrativa.


Olhando para o trailer que saiu há poucos dias, eu diria que o meu entusiasmo e expectativas por este filme foram bem investidas, e que o filme vai mesmo ser a trip psicadélica que eu quero imenso que seja.

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domingo, 14 de fevereiro de 2016

Agent Carter e a Marvel no Feminino

Sexismo nas bandas desenhadas de super-heróis? As novas personagens femininas da Marvel? Eu a enfiar-me num buraco do qual não me consigo desenvencilhar?

Vamos falar sobre isso.


Já falei várias vezes sobre como a relacionabilidade (relatability) de uma personagem é importante para que nos importemos com ela.

Muito basicamente, se eu vejo uma personagem parecida a mim, a fazer coisas que eu faço, ou a dizer coisas que eu diria ou pensaria, identifico-me mais com ela. Se me identifico com ela começo a importar-me mais com o que lhe acontece, e o meu investimento emocional na personagem e na história aumenta.


Isto gera uma espécie de ciclo vicioso:

O público vai sempre gostar mais das personagens com as quais se relaciona mais (por isso é que toda a gente adora o Underdog), o que significa que os autores lhes vão dar personagens com quem se relacionem de maneira a pô-los a consumir mais dessa personagem, o que por sua vez aumenta e cimenta a base de fãs, o que leva a que os autores fiquem presos a esse tipo de personagens porque a sua base de consumidores foi seleccionada com base nisso.

A banda-desenhada americana nasceu na década de '30, altura em que o sexismo era transversal.

Eu ia agora começar a falar sobre o papel das mulheres na sociedade e a história das mulheres na banda-desenhada, mas 2 minutos de investigação acerca do assunto rapidamente me mostraram o quão pouco equipado eu estou para sequer iniciar essa discussão, portanto vamos saltar à frente para eu não me embaraçar mais do que o costume.


Muito basicamente, e mais recentemente, a maior parte do cinema e televisão de super-heróis é dirigido a um público masculino, e existe o estereótipo de que não só as mulheres não têm grande interesse neste género (o que é falso) o que faz com que filmes e televisão com protagonistas femininas não dão dinheiro (o que também é falso).

Mas honestamente eu até acredito que o público feminino não se sinta tão interessado e entusiasmado com filmes e séries de super-heróis como público masculino.

Vejam os Avengers, por exemplo.

Temos uma data de personagens masculinas espectaculares, cada uma com as suas características próprias (há o tipo que é forte, o tipo que é corajoso, o tipo que é espertalhão...) e perdida ali no meio a Black Widow, cuja única característica distintiva é ser uma mulher.


É uma aplicação perfeita do Príncípio da Smurfette, no qual é necessário incluir uma personagem feminina só para reduzir os tons homo-eróticos que uma equipa de super-heróis composta exclusivamente por homens poderia suscitar.

Isto não significa que a Marvel seja sexista, significa apenas que a Marvel conhece o seu público alvo (os homens) e está a dar a esse público o que eles querem.


Infelizmente, estas representações de personagens femininas acabam por ser pouco interessantes para o público feminino, o que faz todo o sentido.

Como eu disse ao início, a relacionabilidade é das coisas mais importantes para nos entusiasmarmos com uma personagem, e se houvessem poucas personagens masculinas, e as que houvessem fossem aborrecidas e unidimensionais, eu provavelmente também não via tanto cinema e séries de super-heróis.

Felizmente as coisas estão a mudar, os grandes Estúdios e Editoras começam a perceber que existem pelo menos tantas mulheres a gostar destas coisas ridículas quanto homens, e que são um público no qual vale a pena investir.

Os Estúdios Marvel estão a abrir portas nesse sentido.

Em Agents of S.H.I.E.L.D. quatro das personagens principais são femininas, extremamente bad-ass e construídas para apelar a públicos diferentes (ou seja não são cópias umas das outras).



Jessica Jones é toda uma exploração da violência contra as mulheres, abordando temas como a violação, a quebra de consentimento, direito ao aborto e violência doméstica.


Há todo um conjunto enorme de personagens femininas no MCU até agora, e obviamente que não vou falar de todas, mas fica aqui uma amostra, só para perceberem que não são poucas.



Agent Carter vai neste momento a meio da sua segunda temporada e a fazer uma das mais inteligentes desconstruções dos tropes das mulheres no cinema que eu já vi.

A série Agent Carter passa-se nos anos '40 do pós-guerra, e segue as aventuras de Peggy Carter uma super-agente-espiã que luta contra organizações criminosas geralmente associadas a super-poderes ou armas super-poderosas.


Num dos mais recentes episódios é-nos mostrado o passado da protagonista, Peggy Carter, e da sua principal antagonista, Whitney Frost.

Vemos que a protagonista, Peggy Carter era uma menina enérgica que gostava de brincar aos cavaleiros e dragões, mas assumindo ela própria a personagem do Herói que salva a Princesa do Dragão.
Ao meter-se numa bulha com o irmão mais velho, vemos que a sua mãe a censura, dizendo que ela tem de se começar a comportar como uma mulher, deixando implícito que ser uma heroína forte não é algo que as mulheres possam ou devam fazer.



Vemos mais tarde que Peggy assumiu verdadeiramente esse papel que a sua mãe e a sociedade querem para ela, estando noiva e recusando, juntamente com o noivo, uma proposta para pertencer à Special Operations Executive para ser uma espia e infiltrar-se em território inimigo, alegando que Peggy não seria é capaz de fazer esse tipo de trabalho.

O seu irmão, por outro lado, que conhece o seu lado mais aventuroso, critica-a por estar a deixar-se limitar, e diz-lhe para ser fiel a si mesma e para não duvidar das suas verdadeiras capacidades.

Só quando recebe notícia de que o seu irmão morreu na guerra é que Peggy Carter decide aceitar o trabalho na SOE. É uma excelente origin story, mostrando um crescimento extremamente interessante e que fundamenta perfeitamente bem a força e determinação da Peggy Carter, a Heroína que nos é apresentada na série.


O mesmo episódio mostra-nos também a origin-story da vilã Whitney Frost.

Whitney Frost é uma actriz de cinema de Hollywood que já está em fim de carreira. Descobrimos rapidamente que para além de ser actriz de cinema, Whitney Frost é uma cientista genial que desenvolveu uma nova forma de energia exageradamente poderosa chamada Zero Matter.

Whitney Frost é, claramente, uma personagem inspirada em Hedy Lamarr.


Vemos então que Whitney Frost era uma menina extremamente inteligente, capaz de consertar rádios com aparentemente 7 anos, cuja mãe se colocava numa posição de subserviência sexual para com o senhorio em troco de dinheiro. A mãe de Whitney em vez de a congratular por ela ter conseguido arranjar um rádio, diz-lhe para sorrir e ser querida para com o senhorio.

Já mais crescida, Whitney testemunha a sua mãe a ser rejeitada pelo senhorio, simplesmente porque está a envelhecer, e a ser trocada por uma mulher mais nova. Mais uma vez, em vez de estimular Whitney a prosseguir com os seus estudos científicos apesar de ter sido rejeitada de uma faculdade de ciências, diz-lhe que a única coisa que lhe dá valor é o seu aspecto físico, e que as suas capacidades intelectuais não valem nada.

Isto justifica perfeitamente que, já crescida e a tentar a sua sorte em Hollywood, Whitney aceite os avanços oleoso de um caçador de talentos que a manda sorrir, e que lhe diz que com a sua cara ela pode ir longe.

É a origin story perfeita para uma vilã manipuladora que enlouquece um bocado quando começa a ver a sua fama a desaparecer porque está a envelhecer


Portanto,

Começamos com duas personagens femininas a quem a sociedade diz que devem limitar-se aos papéis impostos. Uma desafia essas imposições e vem a transformar-se numa heroína, a outra cede essas limitações e transforma-se numa vilã.

A Marvel, depois de conquistar todo o seu público masculino com as personagens do Tony Stark e Steve Rogers, está claramente a tentar apelar ao público feminino.

Mas em vez de o fazer recorrendo às tramas romântico-cómicas do costume, que são pelo menos tão sexistas como tudo o resto que por aí anda, está a fazê-lo construindo personagens femininas que são complexas e profundas, com motivações fortes e agência nas suas acções, com quem o público feminino se possa identificar.


O mais brilhante é que este desenvolvimento das personagens ocorre exactamente por causa do sexismo e da forma como as personagens o enfrentaram, o que as torna ainda mais relacionáveis ao público feminino.
Simultâneamente, a Marvel consegue construir uma análise e comentário inteligente acerca do sexismo, informado pelo que actualmente compreendemos acerca do assunto.

Ao mesmo tempo, dá a esta temporada o que eu percebo agora que faltou na primeira, que é um vilão apelativo. Whitney Frost é a melhor vilã que Peggy Carter podia ter, porque é um reflexo corrompido da heroína. Uma Némesis!

É por causa destas coisas que eu tenho grandes esperanças na personagem da Carol Danvers no filme da Captain Marvel que já está anunciado para 2019.


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domingo, 17 de janeiro de 2016

Marvel v DC

 A diferença fundamental entre a Marvel e a DC? O humor como ferramenta de escrita? Fazer hijack de um comentário para escrever um artigo?

Vamos falar sobre isso.



Já antes analisei a fundo a história da competição cinematográfica entre a Marvel e a DC, mas mesmo assim nunca entrei especificamente sobre as diferenças fundamentais entre os dois universos.

A Marvel e a DC competem uma com a outra desde sempre, e continuam a par e passo a lançar obras paralelas.

Não é por acaso que neste ano saem o Batman v Superman (2016), que é sobre os dois principais heróis da DC a lutarem um contra o outro, e o Captain America: Civil War (2016) que é sobre os dois principais heróis do MCU, o Captain America e o Iron Man, a lutarem um contra o outro.


Os paralelismos entre o universo da Marvel e da DC são imensos. A maior parte dos heróis de uma e da outra são equivalentes entre si, e por vezes são mesmo cópias descaradas uns dos outros.

Mas apesar de podermos estabelecer paralelos tão claros como o Superman e o Captain America serem o The Leader para o The Lancer que são o Batman e o Iron Man, há diferenças fundamentais nestes heróis que tornam o mundo da Marvel um bicho muito diferente do mundo da DC.

Já há muito tempo que eu queria escrever sobre este tema, mas nunca soube exactamente por onde pegar.
Curiosamente foi o comentário do Ricardo no meu último post sobre o Avengers: Age of Ultron, que me deu a ponta perfeita por onde começar.

Ele diz assim, acerca do Age of Ultron:

"Acho que o tom leve e o humor excessivo são das melhores qualidades do filme!"

E tem toda a razão!



Nos últimos anos, à medida que a Marvel e a DC começam a construir os seus universos partilhados, nota-se uma diferença clara no tom dos seus filmes.

Enquanto que a DC constrói filmes com um tom sério e pesado, a Marvel vai sempre para um tom leve e cómico.
Isto não significa que os filmes da DC não tenham piadas ou que os filmes da Marvel não tenham momentos dramáticos, mas no geral o tom dos filmes têm-se mantido consistente.

O cerne disto tudo está no conteúdo: são filmes sobre super-heróis.

Filmes cujas personagens conseguem voar, disparar raios das mãos, e serem estupendamente inteligentes ou fortes, e lutarem contra palhaços assassinos, alienígenas genocidas ou exércitos de robots.

São histórias de aventura épicas, que funcionam tanto melhor quanto mais crescerem, quanto maior forem, quanto mais impossível parecer a tarefa e quanto menor forem as probabilidades de sucesso.
É um tipo de narrativa no qual os exageros são necessários para construir tensão e resoluções satisfatórias.

Ninguém se importa se o Herói salvar um gatinho de uma árvore, por muito realista que isso seja!

Mas se o Herói tiver de salvar New York de um gatinho gigante vindo do espaço com lasers na cabeça, subitamente temos uma história épica de aventura!


O problema reside no facto de que se se tentar contar a história ridícula do gatinho gigante vindo do espaço com lasers na cabeça que vai destruir New York com um tom sério e maduro, gera-se dissonância cognitiva e o ridículo da situação torna-se flagrante e desconcertante.

Se tentares contar a mesma história mas com um tom leve e cómico, o ridículo da situação está suportado por esse tom, não há dissonância cognitiva e os exageros não parecem descabidos.

O Man of Steel (2013) da DC leva-se muito a sério e cai no ridículo por isso.

Os Batmans também se levam a sério, e só não caem no ridículo porque têm o Christopher Nolan a fazer magia com a cinematografia. Mesmo assim a Bat-voz do Christian Bale está no limite do aceitável, e para muita gente quebra a suspensão da descrença.

A Marvel consegue ter coisas como o Guardians of the Galaxy (2014), que é o epítomo do tom leve e do humor excessivo!


Porque é que a DC não constrói então histórias com um tom leve e cómico, à semelhança da Marvel?

Devido a outra diferença fundamental entre a Marvel e a DC que está no nível de poder dos seus Heróis.

O Captain America consegue segurar um helicóptero, mas o Superman é um alienígena quase indestrutível que é capaz de destruir prédios com um murro. São ambos impressionantes à sua maneira, mas estão claramente em escalões diferentes.



E aí reside o problema.

Quando se começa com um herói que é indestrutível, imortal e tão poderoso que é frequentemente comparado com um Deus, é difícil arranjar um antagonista que crie alguma tensão.

Está bem que podem dizer que o Doomsday é AINDA mais forte que o Super Homem, mas ao nível ao qual o Super Homem é poderoso eu já não compreendo a diferença. São os dois inimaginavelmente fortes, e dizer que um é mais forte que o outro é o mesmo que dizer que existem infinitos que são maiores que outros.


São Gigantes a lutarem uns contra os outros lá em cima, e nós cá em baixo a vermos!
É espectacular, admito que sim, é impressionante! Mas não há maneira de eu me identificar com esses Gigantes.

Os Super-Heróis da Marvel, por poderosos que sejam, são pessoas normais. O Captain America era um escanzelado bem intencionado e o Iron Man era um fanfarrão irresponsável antes de ganharem poderes. É muito mais fácil identificarmo-nos com eles.

Mais importante que isso, não são todo-poderosos. Os seus poderes começam muito mais em baixo do que os Heróis da DC.

E como os Heróis da Marvel começam num patamar muito mais baixo, é muito mais fácil os conflitos tomarem proporções épicas simplesmente porque há mais espaço para construir escala e proporção; é muito mais fácil criar vilões muito mais poderosos do que eles, situações que parecem muito mais impossíveis, exactamente porque os heróis são quase mundanos.


E isto permite uma coisa extremamente interessante:

Um Herói mundano a olhar de baixo para cima para uma situação exageradamente épica vai reconhecer o exagero ridículo dessa situação com espanto e incredulidade.

Tal como nós.

E é esse reconhecimento do exagero ridículo, essa capacidade das personagens (com quem nos identificamos) de olhar para o mundo à sua volta e dizer "Isto é bizarro", que abre portas ao humor.
O espanto das personagens é o nosso espanto, portanto quando fazem piadas, mesmo que auto-conscientes, essas piadas reflectem o que nós próprios sentimos, e não parecem descabidas.

Um Deus indestrutível não chega a ficar incrédulo o suficiente com nada para que as piadas vindas da sua boca pareçam sinceras.

Mas desde que haja um tipo, que é pai-de-família, que diga:
"The city is flying and we're fighting an army of robots. And I have a bow and arrow. Nothing makes sense." 
fazendo um bocadinho de Lampshading e mostrar-nos que eles também estão por dentro da piada, que nós embarcamos alegremente em qualquer história estapafurdiamente épica que eles queiram vender!


De forma quase paradoxal, o facto de os Heróis da Marvel serem muito menos poderosos do que os Heróis da DC permite que se riam do seu mundo, e esse humor por sua vez abre portas a aventuras muito mais épicas do que as que a DC, com o seu tom sério, alguma vez conseguiria fazer sem cair no ridículo.

Portanto, sim, definitivamente, o tom leve e o humor excessivo destes filmes são uma das suas melhores qualidades.
São simultâneamente um sintoma de quão relacionáveis são as suas personagens, e uma ferramenta que permite que os filmes cresçam tanto quanto crescem.

Eu estou TÃO entusiasmado com isto tudo!!!!!!!


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domingo, 10 de janeiro de 2016

Avengers: Age of Ultron - a Análise Final

Uma defesa desnecessária do Age of Ultron? Quantas coisas é que um filme tem de fazer bem para as pessoas não se importarem demasiado com as suas falhas? Outra vez a falar de coisas da Marvel?

Vamos falar sobre isso.


A minha fixação por tudo o que é Marvel Cinematic Universe já se tem vindo a mostrar evidente neste blog há algum tempo, e hoje vou só alimentar isso ainda mais.

Quando em Abril do ano passado ano fui ver o Avengers: Age of Ultron, e escrevi a crítica do filme, fiquei logo na altura a sentir que me faltava dizer imenso acerca do filme.

Entretanto já devo ter visto o filme umas 6 vezes pelo menos, e já tenho mais coisas a dizer acerca dele (se bem que me parece que ainda vou escrever mais acerca dele no futuro).

Outra coisa que me surpreendeu durante este tempo é que houve pessoas que NÃO GOSTARAM DO FILME TANTO QUANTO EU!!!
Não percebo como estas pessoas têm o descaramento de apresentar argumentos bem fundamentados a apontar erros numa coisa que eu gostei TANTO! How dare they?!

Há várias coisas que as pessoas da internet costumam apontar ao Age of Ultron, e no geral encaixam nas seguintes categorias:

- O Vilão não era ameaçador o suficiente
- O tom leve e o humor excessivo diminuía a gravidade do que estava em jogo
- Vários sub-enredos pareciam supérfluos e afectavam o ritmo do filme - como a visão do Thor, e o romance Black Widow/Hulk
- Se o filme é tão bom assim porque é que os fãs estão sempre a sair do seu caminho para defender o filme?

A minha resposta a estes é que os primeiros dois são razoavelmente subjectivos, o terceiro é talvez o mais razoável e não sei do que é que estão a falar em relação ao quarto.

Em vez de demonstrar como pessoas que discordam comigo estão enganadas, vou em vez disso chamar a atenção para todas as coisas que eu acho que o filme consegue fazer bem.


É um excelente filme de banda-desenhada

Primeiro que tudo, o Age of Ultron pretende ser um filme de banda-desenhada, com super-heróis e super-vilões.
Assume-se como um filme de entretenimento, e o seu objectivo é dar-nos 2 horas de divertimento com acção over-the-top, personagens coloridas, one-liners e o mundo a ser salvo mais uma vez.

O Age of Ultron não é o Jessica Jones, que pretende ser a adaptação Noir do hard-boiled pulp-fiction das histórias de detectives. O filme desde o primeiro momento que a única coisa que nos pretende dar é o equivalente a (como dizem os tipos dos Honest Movie Trailers) a despejar a nossa caixa de brinquedos e brincar com eles todos ao mesmo tempo.

Uma das únicas coisas que eu tenho pena, é de não termos tido a visão original do Joss Whedon para este filme, que seria uma história íntima de desconstrução das personagens.
Mas o filme não é isso porque tentou e falhou, mas porque foi tomada uma decisão de ir numa direcção diferente.

E o que o filme promete, o filme dá. É extremamente divertido, entusiasmante, com sequências de acção exageradas e satisfatórias, digasnde uma banda-desenhada.

A própria sequência de abertura do filme é a coisa mais banda-desenhada que podíamos querer, com cada uma das personagens a ter o seu glamour-shot antes de se juntarem todas para um plano conjunto que parece saído de um painel de uma página.


O Enredo

Este filme, à partida, nasce com um estigma que é difícil de ultrapassar: é filho do meio.

Vem depois do The Avengers (2012), que foi um dos maiores sucessos da Marvel, e vem antes do The Avengers: Infinity Wars (2018) que vai ser o culminar de 10 anos de filmes.

Tipicamente o filme do meio numa trilogia é o que está na pior posição, porque não só tem de dar continuidade ao anterior, o que lhe impõe exigências narrativas muito específicas, como não pode já dar uma resolução ao conflito iniciado ao mesmo tempo que estabelece as bases para o fim da trilogia.
Ao mesmo tempo, tem de ter uma história só sua com princípio meio e fim, encapsulada dentro destas limitações narrativas.

Apesar de não ser um The Empire Strikes Back (para sempre o poster child de filmes do meio que são os melhores da trilogia), a verdade é que o Age of Ultron consegue fazer aquilo a que se propõe.



Temos uma história baseada no mito clássico do Pigmaleão, do criador ser ultrapassado pela sua criação. Tony Stark, na sua ambição e húbris, cria uma Inteligência Artificial, o Ultron, para defender o planeta e conseguir a paz no mundo.
Claro que segundos depois de nascer o Ultron decide que a melhor maneira de fazer isso é destruir a humanidade, à la SkyNet. A acção desenvolve-se de lógica, com cada acto a determinar o seguinte, mantendo o ritmo a andar para a frente.
Depois de várias complicações cheias de acção e one-liners Whedonescos, o Ultron está pronto para transformar uma cidade num asteróide e rebentar com o planeta, mas claro que no fim os heróis conseguem impedir a catástrofe.
Há muito mais para dizer acerca do Ultron, mas preciso de um artigo inteiro para dizer acerca dele.

É exagerado, é teatral. Há imensa gente que queria que o Ultron fosse uma máquina de matar implacável, fria e eficiente, mas o facto de não o ser só o torna mais interessante como vilão.
Os paralelos entre Ultron e Tony Stark dizem muito acerca de ambas as personagens e ajudam a aprofundá-las e caracterizá-las melhor, e tornam o Ultron um vilão com quem eu estabeleço uma relação emocional mais significativa. Isso não aconteceria se ele fosse o Exterminador.

Como disse o Daniel Rosa no Big Show Bit que fizemos esta quinta-feira, o Age Of Ultron serve também de reflexo do Avengers (2012).
Enquanto que no The Avengers temos cada um dos heróis a encontrar-se a si mesmo (o Capitão América a definir-se como líder, o Tony Stark como herói que se auto-sacrifica, o Banner a abraçar o Hulk) no Age of Ultron há o processo inverso, e cada uma das personagens é reduzida à sua condição inicial (o Capitão América é só um soldado, o Tony Stark é um cientista louco megalomaníaco, o Banner é mesmo um monstro, etc).

O Desenvolvimento de Personagens

Apesar de haverem Inteligências Artificiais homicidas a causarem problemas, este filme cosnegue ser um dos que mais desenvolve as suas personagens.

Como já disse anteriormente, é neste filme que o Tony Stark ultrapassa o limiar subtil que o põe no trajecto para se transformar num vilão. A sua arrogância e a culpa que sente por acreditar que as suas acções vão levar à morte dos amigos, levam-no a construir um murderbot, acto pelo qual ele não chega de facto a desculpar-se, e que acredito que o vai levar a tornar-se numa personagem cada vez mais vilanesca nos próximos filmes.


Como já disse, vemos também o Steve Rogers a questionar-se e a duvidar de si mesmo, quando numa sequência de sonho que para todas as outras personagens mostra os seus piores medos, ele se vê a si mesmo num salão de dança onde se celebra o fim da guerra.
Ele reage a isso tornando-se ainda mais exigente na sua luta para ser altruísta, corajoso e salvar toda a gente, mas a partir desse momento todas as suas acções estão contaminadas por essa ideia "Será que o Capitão América quer de facto terminar o conflito"



Há imensa gente que critica o sub-enredo do romance entre o Bruce Banner e a Natasha Romanoff, mas eu gostei, acho que faz sentido.
Esse enredo mostra-nos uma Black Widow que finalmente começa a revelar-se mais humana, que quer fugir das complicações e conflitos que definiram a sua vida, e isso torna-a muito mais relacionável e humana.
O Bruce Banner, por seu lado vê não só o Hulk destruir uma cidade e matar não se sabe quantos inocentes, mas mais do que isso, percebe que o Hulk vai para sempre impedi-lo de viver uma vida normal.
A relação entre os dois desenvolve-os como personagens muito melhor do que qualquer outra sequência de acção o poderia fazer.



Temos finalmente o Hawkeye que queríamos e merecíamos desde o início.
Várias vezes na internet vemos pessoas a queixarem-se de que o Clint Barton, como um tipo que usa arco e flechas, está a fazer pouco num grupo onde há deuses, mas neste filme isso está respondido.
A personagem do Hawkeye é desenvolvida não como um tipo altamente eficiente e capaz de destruir prédios, mas como um pai.
Temos todo um sub-enredo com uma temática da família e relações pais-filhos à volta do Hawkeye, e da figura paternal dele não só em relação à sua própria família, à equipa, mas também em relação aos gémeos.



Os gémeos, a Scarlet Witch e o Quicksilver funcionam como adolescentes rebeliosos, perdidos, que andam com más companhias (murderbots), e o Hawkeye percebe-os desde o início.
Ele é o único que não se deixa levar pelos jogos mentais deles, o único cuja atitude perante eles é mais de irritação, frustração e exasperação do que propriamente tratá-los como inimigos. É protector acerca da Scarlet Witch, aconselhando-a e guiando-a, e irrita-se com o Quicksilver como se ele fosse um puto mimado (que é).
É o Hawkeye que de alguma forma redime estas duas personagens, e lhes permite tornarem-se heróis.

Depois há o Vision, mas para ele eu preciso de um artigo inteiro.

Set-Up para outros filmes.

Portanto, para além de ser um filme divertido, com bom ritmo e cenas de acção entusiasmantes; para além de ser um filme do meio e mesmo assim ter um bom enredo épico, auto limitado, que consegue ao mesmo tempo desconstruir as suas personagens; para além de desenvolver as personagens, tornando-as mais profundas, mais humanas e pessoais; este filme consegue também:

Preparar o Thor: Ragnarok (2017) durante a sequência de sonho de Thor, no qual ele vê todos os seus amigos no mundo dos mortos Asgardiano.



Preparar o Civil War (2016) ao mostrar que os Avengers quando são deixados à solta tendem a destruir cidades inteiras sem que aparentemente alguém os  responsabilize disso ou lhes peça satisfações, e mostrando como o Tony Stark e o Steve Rogers estão a desenvolver visões do mundo cada vez mais mutuamente exclusivas.



Preparar o Black Panther (2018), ao introduzir não só a importância do elemento do Vibranium, como também o país de origem dele, Wakanda, e um dos principais vilões do Black Panther, o Ulisses Klaue.



Preparar o Infinity War (2018), estabelecendo pela primeira vez que as Inifnity Gems estão a surgir por todo o lado, e com aquele stinger fabuloso no final onde vemos o Thanos a prenunciar que vai dar porrada a toda a gente.


Em conclusão

É inegável que o filme tem algumas falhas, mas essas falhas empalidecem face ao número impressionante de coisas que o filme consegue fazer bem.
Como espectador eu prefiro muito mais ir à procura das coisas boas que me entusiasmam acerca dos filmes do que ir à procura dos pormenores que falham.

Dito isso, aqui vai o Honest Trailers do Age of Ultron, que é hilariante.


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