Pataniscas Satânicas

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domingo, 10 de maio de 2015

O Segredo

Ontem tive uma experiência que mudou a minha vida.
Slowly but surely, todos os dias mudam a nossa vida. Mudam tanto que um dia somos enterrados no solo, no jardim das tabuletas. Mas antes que isso aconteça, quero falar sobre uma epifania que eu tive, em que me apercebi, por acaso, de um dos segredos mais bem guardados da humanidade.

E não é como se fosse uma coisa desconhecida, é praticamente do senso comum, mas baseia-se em ferramentas fundamentais da nossa mente, que usamos diariamente, mas que não damos atenção suficiente. Quando vos contar o segredo, vão perceber que sempre o souberam. Mas há uma diferença entre ler um livro que está guardado na nossa biblioteca, e termos sublinhado o mais importante do texto, sabendo as nossas passagens preferidas de memória. O uso que lhe podemos dar, o impacto na nossa vida!

Mais do que isso, este é um segredo milenar, que pode bem ter sido parte essencial da base da construção da civilização humana como a conhecemos hoje. Acredito que o primeiro macaco que começou a usar deste segredo, começou uma reacção em cadeia que pode ter gerado impulsos humanos tão primordiais como o altruísmo e o egoísmo, conceitos tão negativos como a xenofobia e o racismo, coisas como o sentido de humor, e ajudou mesmo a moldar as artes do espectáculo moderno. Mas as implicações reais são inimagináveis.

O segredo é que se quiseres muito uma coisa ela vem ter contigo.


44 linguas, 21 milhões de cópias, 300 milhões em vendas (só do livro)

E agora dizer a quem não percebeu o segredo, que explicar-lho não ajudaria nada.
(ler o livro também não)
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domingo, 1 de março de 2015

Reality is just Bad Writing - or the Troperization of Reality

Ouço-o todos os dias.

"Estou constipado porque apanhei frio"

Causalidade.

Não que a causalidade não exista! Obviamente que existe, e tanto quanto sabemos a lógica do universo baseia-se na causalidade. Não é isso disso exactamente que estou a falar.
Estou a falar da maneira como percepcionamos a causalidade.
Ou melhor, como somos, geralmente, incapazes de a percepcionar. 


As mudanças importantes que acontecem à nossa volta frequentemente devem-se a tantos factores a interagirem de maneiras inesperadas durante tanto tempo que se torna quase impossível de prever.
O clima, por exemplo. O clima depende da interacção de todas as moléculas de ar e de água que estão na atmosfera ao mesmo tempo. Ou conhecemos a posição inicial e comportamento de cada molécula individual na atmosfera, ou então qualquer previsão que queiramos fazer nunca será mais do que uma tentativa de adivinhar.
Teoria do Caos. Borboletas e Tufões explicados pela matemática.

Porque na realidade a matemática é a única coisa que descreve com exactidão a realidade.

O melhor que se conseguiu durante muito tempo foi "Trovoada - Deus está zangado".
Era o melhor modelo explicativo que existia, e se se permitir uma grande margem de erro, até havia de acertar metade das vezes.



Ou seja, há mais factores do que aqueles que conseguimos processar, então inventamos atalhos, explicações que funcionem mais ou menos. Precisamos de modelos que nos permitam dar sentido aos acontecimentos. Um dos nossos preferidos é a causalidade, mais especificamente a narrativa.

Usamos a narrativa para explicar as coisa que nos acontecem.
Contamos histórias acerca das coisas. De tudo.

"Estou constipado porque apanhei frio". Uma causa e um efeito. É uma pequenina narrativa. 

A consciência humana é particularmente propensa à narrativa. É um caso de galinha e ovo. 
Será que foi a consciência humana que originou a narrativa ou a narrativa que moldou a consciência?

Desde sempre que contámos histórias uns aos outros. Foi assim que começou a cultura humana, foi assim que começámos a existir enquanto seres humanos. Tribos sozinhas numa caverna, à noite, à volta de uma fogueira, a contar histórias uns aos outros. A caçada, a tempestade, o leão, o nascimento, a morte, o que haveria a seguir à morte, deuses, demónios, heróis, lutas épicas do bem contra o mal.





A tradição oral, a cultura passada de boca em boca durante dezenas de milhares de anos, até que alguém finalmente inventasse LETRAS, definiu tudo o que éramos enquanto humanos.

Esses mitos primordiais, que ajudaram a construir a nossa consciência, determinam o nosso futuro ainda hoje.

Construíram-se pirâmides porque pessoas suficientes acreditaram em Homens-Deuses com poderes sobrenaturais que quando morriam precisavam de veículos celestiais que os guiassem para uma afterlife mística e divina.

You know i'm gonna talk about pyramids, right?

As pirâmides são o testemunho do poder do mito e da narrativa. São a prova do quanto se pode construir atrás de sonhos e magia.

Havia civilizações inteiras cujos Deuses iam em batalhas épicas contra as forças personificadas da Entropia



Reconhecemos com facilidade que os gregos e os romanos estabeleceram os fundamentos do que é hoje a cultura e a civilização ocidental, desde a noção de governo até à matemática e a filosofia, mas depois rimo-nos dos Deuses engraçados deles.

Mas essas religiões ERAM realidade. A magia e os deuses eram verdadeiros. Tanto que eles passavam o tempo a construir-lhes templos! E a gastarem inquantificáveis recursos e tempo e energia a adorarem histórias e ideias e mitos. Era isso que movia a civilização. A sociedade funcionava à custa desses mitos.




Ou seja... a narrativa é uma coisa muito mais de fundamento e base a tudo o que nós somos do que habitualmente lhe damos crédito. As melhores coisas que já fizemos até hoje, com as quais mais nos impressionamos, foram à custa de narrativa.

As pirâmides, o coliseu, a Capela Sistina, o Requiem do Mozart, o Midsummer's Night Dream do Shakespeare, a maioria das coisas mais bonitas que temos são feitas à custa de, e com base em, narrativa.




Passamos muito tempo a matar-nos uns aos outros, mas quando finalmente deixamos de o fazer durante 5 minutos conseguimos fazer coisas como as 4 Estações do Vivaldi.




Ou seja...

Começámos por contar histórias acerca das estrelas à volta de fogueiras que nos permitiam fazer sentido dum mundo grande e confuso, que nos davam alguma segurança perante uma realidade assustadora e com incontáveis factores, e essa ferramenta carregou-nos até onde estamos hoje.


In case you were wondering, the underpoint of all this is that the Bogey-Man is fueled by narrative, and that narrative/myth is used effectively by the Bogey-Man to keep people controlled


E ainda hoje, pouco mais fazemos do que continuar a contar histórias que nos ajudam a fazer sentido de um mundo confuso e com incontáveis factores.

"Estou constipado porque apanhei frio."

Vemos a nossa própria vida de uma perpectiva narrativista. Conseguimos narrar a nossa vida! Há conflitos e obstáculos, climaxes, protagonistas, secundários, vilões! E somos sempre o underdog da nossa própria narrativa pessoal! Somos sempre aquele que sofreu as adversidades e superou os obstáculos, e imaginamo-nos a ter grandes sucessos e a encontrar o amor conta todas as expectativas!

Por isso é que toda a gente adora o underdog nos filmes.



Estas pequeninas ideias narrativas, estes tropes, que nos acompanham desde sempre, e que ajudaram a construir a estrutura da nossa consciência, continuam a ser a melhor e talvez única ferramenta para lidarmos com o dia a dia. 
É por isso, mais uma vez que somos obcecados com a narrativa. É por isso que a vasta maioria da nossa arte, desde os livros, à música, ao cinema, jogos de computador, bandas-desenhadas, toda ela está centrada na narrativa.

E esta narrativa pode ser desmontada nas suas unidades individuais, que são os tropes. Qualquer narrativa consegue ser descrita recorrendo a tropes. E os tropes presentes nas obras consideradas boas e com sucesso são surpreendentemente coerentes e estáveis entre si e ao longo dos milénios.

Ou seja...

A narrativa faz parte da estrutura da nossa consciência, e a narrativa pode ser descrita em tropes.
Os tropes são a unidade narrativa da consciência humana.



É por isso que quando nos confrontamos com uma realidade descrita por números e matemática ficamos tão desiludidos e sub-impressionados. Esses momentos que fogem à narrativa cuidada que tínhamos construído confrontam-nos com o quão pouco controlo temos sobre o que nos acontece, sobre o mundo à nossa volta. Deixam-nos sem saber como reagir porque não são narráveis, e a melhor ferramenta que temos para reagir às coisas é a narrativa.

"Estou constipado porque as condições atmosféricas geradas por 1.09 x 10^44 moléculas atmosféricas (por extenso, 1.09 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 moléculas) todas a interagirem umas com as outras determinaram que neste lugar onde estou agora a temperatura média baixasse e isso fez com que as pessoas se juntassem mais em espaços fechados o que facilitou a disseminação de um rinovírus"

That's just some bad writing man, no one wants to hear that story!


"Estou constipado porque ontem à noite fiquei na rua a conversar com uma rapariga"

There you go




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quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Je Suis Charlie


Porque lutamos contra o Papão.

Porque nos rimos do Papão.

Porque noutras circunstâncias podíamos ser nós.




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quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

O início dos Calhaus

Eu vejo-vos a falarem da produtividade. E a criticarem esta geração de preguiçosos. Ah, as virtudes do trabalho árduo para aqui, o valor do esforço e da perseverança contra as frustrações profissionais. Enaltecem os jovens empreendedores.
Porque é bom para a sociedade, porque temos todos de contribuir.
Pois...

Houve um dia, há muitos anos (há cerca de 5 mil anos, mais ou menos) um Rei no meio do deserto que disse assim "Olha, a partir de hoje é que é a contar!" e foi assim o início da civilização.
"A partir de agora os calhaus começam a contar".



E porque os calhaus passaram a contar, ele decretou que se iam empilhar uma data deles. Montes de calhaus, uns em cima dos outros! Calhaus enormes e muito pesados. Uma Pirâmide! Sim, é isso que lhe vou chamar, parece-me um bom nome. Uma Pirâmide para mim, porque eu mereço!


Mas para isso ia precisar de imensa gente para trabalhar. Montes de gente para arrastar aqueles calhaus todos.
Há imensa gente que se espanta e demonstra sempre imensa incredulidade acerca de como os Egípcios construíram as pirâmides. Insistem que usaram magia, ou foram ajudados por alienígenas, ou qualquer coisa dessas.

Não.

Querem saber como é que os Egípcios construíram as pirâmides?
Com muita dificuldade.

Não houve truques nenhuns. Foi muito acartar calhau monte acima, a partir costas. Parece que isso desilude as pessoas. Era mais interessante se fosse magia.

E também costumam pensar que estas pessoas todas eram escravos. Não eram. Na realidade eram trabalhadores pagos. Tinham salário, e férias pagas, e podiam pedir baixa por doença.
Eram empregados. Especialistas de relocalização de calhaus. Altamente treinados.


E todos estes trabalhadores precisavam de comida, de uma indústria agrícola que os sustentasse, e de quem partisse as pedras, e as transportasse rio acima, quem construísse as ferramentas. E todos estes negócios podiam ser alvo de impostos, que iam para o Império, que os usava para pagar aos trabalhadores.
Que estavam a construir uma pirâmide.

Um monte enorme de calhaus apontados para o céu.

A pirâmide estava no centro desta espiral de dinheiro e capital. Todo o fluxo económico do império confluía na pirâmide. A cada pedra da pirâmide poderia ser atribuído um valor monetário cumulativo de todo dinheiro e horas de trabalho que tinham acontecido desde o primeiro gajo a partir a pedra, ao último tipo a pô-la em cima das outras.

É toda a economia de um império centrada, suportada e justificada pela construção de uma pirâmide.
O Faraó, que estava sentado em cima da pirâmide, era imensamente poderoso. Àquele nível o conceito de dinheiro nem fazia sentido. Faraó quer, Faraó tem. A distância que o separava dos trabalhadores, as ordens de grandeza de riqueza que o separavam dos cidadãos normais era tão grande tão grande, que mais valia ele ser Deus.



Não é por acaso que era de facto um Deus na terra. O Faraó era um Rei-Deus. Distante, inatingível, perfeito, cujas vontades eram éditos divinos.
Era assim tão longe que ele estava das pessoas normais.

Mas o Faraó chega ao fim da sua vida, quase a morrer, e reparava que a Pirâmide ainda nem sequer ia a meio.
Então olha, tem de ser o meu filho a continuar isto.
E assim se formavam dinastias. Gerações atrás de gerações de Faraós que iam construindo templos e pirâmides, umas atrás das outras, cada vez maiores e com mais calhaus.

E os egípcios iam atrás. Que escolha poderiam ter? Eram Deuses que lhes mandavam construir as Pirâmides, que lhes pagavam e sustentavam. E eram Deuses e Pirâmides que já lá estavam antes de eles nascerem, e que, obviamente, iam continuar lá. Era assim que o mundo funcionava.


E esta ideia de civilização é tão poderosa, tão eficiente, que é a que se mantém até hoje. Por alguma razão ainda hoje falamos dos Egípcios. As pirâmides ainda lá estão, e só foram sendo substituídas por outras.
Ou seja: o egípcio médio não tinha significativamente mais controlo ou compreensão sobre a sua posição na sociedade do que nós temos actualmente.


Quem de nós realmente percebe o que é que se passa com a economia? Sabemos papaguear algumas palavras, apontar algumas das pessoas que tomam decisões.
Mas uma compreensão completa e precisa da situação é rara.
Eu não a tenho. Se vocês a têm, bom para vocês, mas estatisticamente é provável que estejam enganados.

E também temos pouco ou nenhum controlo sobre o que se passa connosco.

Ou seja: estamos nós, também, todos os dias, a arrastar calhaus monte a cima, a levantar-nos cedo, a preencher papéis, a atender telefones, a resolver problemas, a ser produtivos, para pôr pedras umas em cima das outras.


Para ajudar a construir este grande monolito que é a sociedade. A pirâmide só se tornou um pouco mais abstracta, mais invisível, mas continua lá.



Sabem como é que eu sei?

Porque continuo a ver os Reis-Deuses lá sentados em cima. A tomarem decisões, a mandarem bocas sobre a produtividade e sobre a virtude do trabalho. Numa pirâmide de administratividade corporativista e capitalista (whew!, try saying that three-times fast! My my! Don't we use fancy words!! We must know a lot about this, if we use such big fancy words!)



A produtividade e o trabalho árduo são coisas boas, sem dúvida que são. Mas para quem?

Lá porque nos fizeram acreditar nestas coisas, quem nos disse que éramos NÓS que íamos beneficiar disso?



Estas ideias e crenças não surgiram de forma benévola. Não se implantaram para o nosso bem.
Fizeram-nos acreditar nisto porque rapidamente se aperceberam que cansa arrastar calhaus, e que se houver outros papalvos que os arrastem, melhor.

Portanto vá, larguem a internet e vão trabalhar. É importante.
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quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

O Papão

Somos crianças, estamos  geneticamente programados para acreditarmos nos nossos pais. Para lhes obedecermos. Faz sentido. Todas as crianças que não acreditaram à primeira que não deviam comer as bagas vermelhas ou fazer festas ao tigre dentes-de-sabre não viveram para passar os seus genes de descrença à geração seguinte. Estamos geneticamente programados para acreditar numa autoridade superior. E porque quando desobedecemos, levamos porrada. Há isso.

Mas um dia crescemos e percebemos que os pais são humanos e falíveis. E deixamos de acreditar. Pomos em causa. O medo diminui. A autoridade dilui-se.

Então surge o Papão ele próprio, a coca, o Homem do Saco. Qualquer figura com a qual se mete medo às crianças para que estas se portem bem. A criança provavelmente nem sabia que essa figura existia até ao momento em que os pais, em tons sussurrados, apelam a uma entidade externa ameaçadora que lhes fará mal de forma indefinida, se elas não se portarem bem e obedecerem.
Eventualmente deixamos de acreditar também nesses.

O Papão precisa de evoluir, de crescer. Então cresce. O Papão passa a ser uma figura cósmica, por definição para além da compreensão humana. Uma entidade mal-definida, muito poderosa, razoavelmente omnisciente, ameaçadora, vingativa, punitiva e eternamente reprovadora.
Sabe o que se passa dentro dos pensamentos privados de cada um. Não há lugares seguros. O Papão internaliza-se. Há pessoas que não sabem viver sem o Papão a dizer-lhes o que é que não podem fazer.

Mas há pessoas que se conseguem libertar. Ou em quem o Papão não pegou. Mas o Papão perdura.

Perdura porque que queiramos quer não crescemos rodeados do Papão. O Papão integra a nossa cultura e a das pessoas à nossa volta. Respiramos e comemos o Papão a vida toda. Mesmo que não se acredite, a essência do Papão persiste. É a crença no valor do trabalho árduo e na privação do prazer,  na necessidade de ajudar sempre os outros em detrimento do próprio. O valor de aguentar o sofrimento e de se ser estóico frente às adversidades.
Quando nos sentimos culpados porque passamos o fim de semana sem fazer nada, sem nenhuma produtividade. Quando sentimos vergonha por admitir que não fizemos aquele esforço extra no trabalho. 

Isso é o Papão implantado na nossa mente, a sussurrar que temos de trabalhar mais, descansar menos.
Mas mesmo assim há pessoas que se libertam do Papão. Que conseguem ver as mentiras e manipulações do Papão e aproveitar o fim de semana. 

Mas ainda assim o Papão perdura.

Perdura em todas as outrad pessoas que acreditam no Papão. Mesmo que não saibam que acreditam. Não podemos rir muito alto, não fica bem criticar as pessoas, não devemos gozar com coisas sérias, há palavras que é feio dizer em público. É a convenção social, é o politicamente correcto, são as boas maneiras, são as regras arbitrárias. E neste Papão não é preciso acreditar, basta que todos os outros acreditem. 

E pode parecer que o podemos ignorar, pode parecer que podemos quebrar estas convenções, mas a longo prazo as consequências acumulam-se e tornam-se notórias. O sarcasmo é criticado, não é produtivo, as eminências devem ser respeitadas, por ridículas ou incoerentes que sejam.
Todos os chefes estão bem barbeados e têm crocodilos na camisa. Todas as chefes de serviço acreditam na virtude do trabalho árduo e no valor do sacrifício pessoal.

O Papão persiste nas estruturas de poder e autoridade. Onde mais poderia estar?
A vida não corre bem a quem desafia o Papão. Até podemos gozar com ele, chamar a atenção à sua existência, mas desafiá-lo é arriscado. 

Não há muito tempo o Papão queimava na fogueira quem discordava dele, ou arrancava as unhas a quem dizia coisas  desagradáveis.

É saudável ter medo do Papão.
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quinta-feira, 9 de outubro de 2014

A história que me contaram sobre o Papão (com detalhes sórdidos...)

Fomos quem fomos. O Passado não pode ser alterado. Mas se alguma vez, aquilo que fomos nos permitiu sentir felicidade em algum momento, teve necessariamente que ter sido influenciado por aspectos positivos. Algumas coisas boas aconteceram. Podemos ter passado por meses de preocupações, a sentir a perseguição da vida, que, se a dada altura percebemos que não temos nada real a perseguir-nos, sentimos-nos bem. Equilibrados com nós próprios.

Para este equilíbrio ser possível, foi relevante descobrir que Papão não existe. Apesar de não nos podermos dar ao luxo de parar de cavar buracos, sabemos que não existe nenhuma autoridade divina, nenhum caminho sagrado. Ninguém nos pode vai mandar para um poço em chamas, com monstros, criados pelo papão durante a sua adolescência, cujo único propósito de existência é torturarem aqueles de nós que, em vida, desobedecerem ao papão. E isto portanto, seria eternamente. Para sempre.

O papão bom que vem no livro a seguir - uma sequela chamada novo testamento, está a lutar contra o mal (as asneiras que fez no primeiro livro), mas não conseguiu desfazer isso da tortura eterna, para malta mal comportada. O que foi uma pena. Por isso teríamos que continuar a cavar buracos. Isto, apesar do papão ser um gajo tão porreiro, que mandou para a terra o filho dele. O Papão engravidou uma menina, mas com toques mágicos, nada de andar aí a pôr a pila em monhés do médio oriente. O Papão ainda apanhava uma comichão na virilha, e o marido da senhora podia ficar incomodado. Mal o marido da senhora soube a notícia da divina concepção, pensou logo que devia começar a ter relações com a esposa com mais regularidade, para pelo menos ter uma hipótese. Mas não se atreveu a tocar na Maria até o puto nascer... Eu percebo... Um alien põe qualquer coisa na barriga da tua mulher, a última coisa que queres é meter lá a pila. Sei lá o que pode acontecer. Até podes levar uma dentada. José pagou a cobardia, porque assim, o pénis do filho do Papão, foi o primeiro a atravessar a vagina da esposa, sem recurso a poderes mágicos, claro. E é assim que tu vês como o Papão é espectacular.

Imagino que o José tivesse ficado preocupado com a perspectiva do Papão agora começar engravidar-lhe a esposa de tempos a tempos. E tendo o Papão poderes mágicos, sabe-se lá a frequência com que lhe conseguia engravidar a esposa. O Papão pode fazer tudo, por isso teria que ser bom na cama e provavelmente seria extra fértil. Bem, mas estou a perder-me...
O nascimento foi importante o suficiente, para 2000 anos depois, em algumas sítios, todas a família se juntarem, para festejar os anos do filho do papão.

Depois, ele passou a adolescência a dizer-nos para não nos chatear-mos tanto uns com os outros, e para dividirmos o que temos irmãmente. Não existirem tão poucas pessoas com todos os recursos, e a maior parte a passar fome. O filho do papão do Papão armou-se em sindicalista, e na altura a vida podia correr muito mal aos sindicalistas... o papão do primeiro livro já tinha escrito no plano divino  que era melhor o filho dele levar um castigo valente, tipo pregarem-no a uns paus de madeira. O papão da sequela depois arrependeu-se e ressuscitou o filho, mas mandou-o lá de volta para o condomínio privado onde o papão mora, não ficou cá com a gente, e foi uma pena. O condomínio privado onde tuuudo é perfeito. E no entretanto, o filho dele não tem dito muito. O que é uma pena. Está, no entanto, previsto que o filho do papão vai voltar para por ordem nesta merda. So look busy.


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domingo, 14 de setembro de 2014

A História do Papão

Eu, pessoalmente, culpo os vegetais.

Mais especificamente a agricultura. Esse foi o ponto de viragem.

Porque percebam, durante muito, muito, muito tempo, nós fomos caçadores-recolectores.
E quando digo "nós" refiro-me a seres humanos modernos.

Os seres humanos, o Homo Sapiens, existe e tem o aspecto que tem hoje desde há 200 000 (duzentos mil) anos. Éramos nós, humanos sem excepção.

E éramos caçadores-recolectores. E o que é que isto significava?

Significava que toda a nossa alimentação, aquilo que nos mantinha vivos, tinha de ser caçada ou recolhida na sua forma selvagem. Colhíamos bagas e frutos para comer quando estavam maduros, caçávamos gazelas ou bisontes ou mamutes quando eles migravam por perto, ou tínhamos nós de acompanhar a migração deles.


Era uma subsistência duvidosa, incerta, muito dependente de factores externos. E não morríamos sequer de maneira simpática, na caverna com os outros homens das cavernas.  Provavelmente morríamos assim:


"AAAAAAAAAAH AHHHHHHH AHHHHHHHA AHHHHHHHH ESTOU A SER COMIDO VIVO!!!!! AHHHHAHAA ISTO DÓI IMENSO!!! AAAAAAAAAAHHHHHHHHHHH!"

Devia ser mais ou menos assim. 
De qualquer modo, estávamos sempre à beira da fome e da morte.

Mas não dava muito trabalho. Caçavam um bisonte uma vez por mês e comiam-no até terem de ir caçar outro. E o resto do tempo? Provavelmente fornicavam muito, porque era a única maneira de contrabalançar a mortalidade enorme que sofriam. Ou faziam pinturas nas paredes quando se aborreciam, provavelmente.
E nós ficámos assim durante muito muito tempo, a viver desta maneira precária!

Foram precisos pelo menos uns 180 000 anos para que um dia, um desses humanos pré-históricos, se lembrasse de uma coisa melhor.

Imagino que tenha corrido mais ou menos assim.


Homo Sapiens Esperto (HSE): Ouçam, e se em vez de estarmos à beira de morrer à fome todos os meses, fôssemos ali abrir uns buracos no chão, pôr lá umas sementes, e tomar conta daquilo todos os dias até essas plantas crescerem e depois comêmo-las?
Homo Sapiens Idiota (HSI): Isso dá muito muito trabalho, acho que prefiro continuar a fornicar e a pintar as paredes.
HSEsperto: Mas se decidires prescindir dessas coisas e trabalhar muito, talvez em vez de andarmos sempre a morrer que nem tordos, possamos construir uma fonte renovável e confiável de comida com a qual podemos subsistir com mais segurança.
HSIdiota: Mas isso demora tanto tempo! E dá tanto trabalho! Eu prefiro correr o risco de morrer numa caçada selvagem todos os meses, do que sujeitar-me todos os dias a trabalho físico intenso, rigoroso e muito aborrecido! E tu já comeste essas plantas? Não sabem a nada! Prefiro carne de búfalo cozinhada nas brasas!
HSEsperto: Ouve... se estiveres disposto a parar de fornicar durante 5 minutos, podes ir lá fora, cavar uns buracos todos os dias, e os teus filhos e a tua tribo não correm o risco de morrer à fome de 15 em 15 dias.
HSIdiota: ... mas fornicar o dia todo!!!
HSEsperto: Ouve, estúpido, se tu não fores trabalhar no duro vão-te acontecer coisas más! Há um Papão, muito grande e muito poderoso! Que te faz mal, se tu não parares de fornicar e fores cavar buracos! BoooOOOO! Olha o Papão!!!
HSIdiota: mas como é que o Papão pode saber que eu estou sempre a fornicar?
HSEsperto: o Papão sabe tuuuudo! E vê tudo o que tu fazes!!! Eu sei porque ele disse-me! Portanto vá... cavar buracos...


Ok, se calhar não foi exactamente assim, mas o ponto é que, a determinada altura, depois do fim da última idade do gelo há 11 000 anos, os povos caçadores-recolectores do sudoeste asiático, médio-oriente e egipto começaram a domesticar espécies selvagens de trigo, lentilhas, favas, grão e cevada e a tomar um estilo de vida mais sedentário.

A agricultura é dura, dá muito trabalho, mas é segura (mais segura do que lutar contra tigres dente de sabre) e razoavelmente confiável nos seus resultados. 
Mas com a agricultura estávamos presos ao chão, deixámos de viajar. Com a agricultura começámos a acumular bens e, pela primeira vez, tínhamos mais coisas do que aquelas que conseguíamos transportar connosco.
Pela primeira vez tínhamos possessões em números grandes que podíamos comparar uns com os outros. Precisámos de números para contar o que tínhamos.
Pela primeira vez tivemos excedentes que podiam ser trocados por outros bens. Precisámos de letras para registar essas trocas.
Estas ideias de bens, comércio, economia, poder, estas consequências mecanísticas da mudança do nomadismo para um sedentarismo agrícola, foram a base da civilização humana como a conhecemos hoje.
A agricultura permite uma explosão populacional global, e estabilidade suficiente para que as primeiras cidades, estados, reinos e religiões organizadas possam começar a emergir. Estes estados primordiais eram usualmente teocracias, nas quais o poder político era justificado por prestígio religioso.

Pouco tempo depois, há cerca de 6000 anos, a escrita e a roda são inventadas, algures na Mesopotâmia e na Suméria e a evolução tecnológica e científica começa a acelerar a uma velocidade que nunca diminuiu desde então.

E não se esqueçam que isto tudo aconteceu mesmo mesmo muito recentemente! Fomos humanos durante cerca de 190 000 anos até que isto começasse a acontecer, e a história escrita só está registada desde há cerca de 6000 anos.

Isto tudo porque uns avós nossos decidiram meter medo uns aos outros com histórias do Papão. "Aquela bola de fogo no céu? É um sinal de que o Papão não está satisfeito e tens de cavar mais buracos", "A gruta desabou e matou a tua família? O Papão estava zangado contigo porque tiveste pensamentos de que ele desaprova, tu sabes quais foram...", "Não queres trabalhar o dia todo? Olha que o Papão zanga-se!", "Achas que a vida devia ser mais do que cavar buracos? Depois de morreres, se cavares muitos muitos buracos, e fizeres sempre o que o Papão manda, tens tudo o que queres! Como é que aproveitas se estás morto? Olha que o Papão não gosta de perguntas dessas..."

E nós somos os descendentes directos destas pessoas. Somos os descendentes dos que decidiram um dia parar de vaguear, parar de fornicar o dia todo, prescindir de muitos prazeres, arregaçar as mangas e trabalhar no duro todos os dias à espera de recompensas futuras. Somos descendentes dos que tiveram medo e decidiram jogar pelo seguro, dos que foram crentes e aceitaram ser obedientes. E quanto mais o fossem mais sucesso tinham, mais sobreviviam, mais netos tinham. Somos o resultado de uma selecção social que dava vantagem à obediência e à crença.

Temos todos medo do Papão.
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quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Lego Movie

Coisas que o Lego Movie faz:

>>CUIDADO: HÁ SPOILERS<<



A premissa da narrativa é de que esta é a aventura imaginada de uma criança de oito anos e meio que está a brincar com os seus legos. Lembram-se de como a sequência de acção no início do Toy Story 3 é realmente uma interpretação das aventuras que a criança imagina no início do Toy Story 1? Toda a narrativa do Lego Movie é também a interpretação de uma aventura imaginada por uma criança. Mas está tão bem escrita e assume a sua infantilidade de forma tão aberta, que se poderia perdoar ao espectador não notar isso.

A narrativa consegue criar uma crítica a uma sociedade que está cada vez mais normalizada e conformada consigo mesma, na qual toda a gente se rege pelas mesmas instruções e toda a gente gosta das mesmas coisas que as corporações nos mandam gostar, e as pessoas que não se enquadram com isto são de alguma forma postas de lado. É uma história acerca do conflito incessante entre ter uma individualidade própria que seja um reflexo das ideias e convicções e personalidade de cada um e a pressão tremenda para ninguém se desviar muito da norma, porque quando isso acontece o Papão zanga-se.

Mas também uma história que tem como tema central a auto-estima e o auto-valor. Pode parecer cheesy e demasiado feito, mas todos os filmes são sobre o under-dog e sobre como o under-dog vence todas as adversidades e dificuldades para vir salvar o dia.
Todos nós nos identificamos com o under-dog, todos nós SOMOS o under-dog das nossas histórias pessoais, e esta história é sobre o under-dog mais underdog de todos.



A personagem central do Emmet é aquela que é mais genérica, os outros ainda têm salsichas grandes ou patilhas ou gatos, mas o Emmet não tem nada que o distinga.
Ele esforça-se imenso por seguir as instruções sociais, e as normas e convenções do mundo à sua volta, porque foi assim que lhe ensinaram que devia ser, porque lhe disseram que se fizesse isso, ia ter amigos e ser aceite e ser gostado pelas outras pessoas.
Mas descobre que fez isso tão bem tão bem, que se tornou absolutamente genérico e indistinguível de toda a gente. Tanto que ninguém repara nele, que ele se tornou absolutamente secundário na vida de toda a gente e que ninguém realmente se importa com ele o suficiente para sequer se lembrar claramente dele.

E isto é um medo tão transversal a todas as pessoas. É um medo muito fundamental, muito primário, de que se fala pouco, mas é absolutamente central à construção da personalidade de qualquer pessoa. Todos nós precisamos de sentir que somos especiais e únicos de alguma forma, mas não só a sociedade nos pressiona a gostarmos todos das mesmas coisas, como nos diz que ser demasiado diferente é mau, e deixa-nos sozinhos a tentar perceber o que é que significa realmente "demasiado diferente". Por medo tendemos a pecar por excesso de precaução, e escondemos o que nos torna únicos, correndo a consequência de deixar de ter o que quer que seja que nos torne especiais.

E não há coisa mais importante para uma criança do que sentir que é especial.

A narrativa do Lego Movie é exposta pela perspectiva de uma criança. E aquilo que as personagens dizem acerca do The Special, uma figura messiânica que vem salvar o mundo da conformidade forçada, é que ele é a pessoa mais criativa, mais interessante, mais importante e melhor do mundo.
Que parece, e é, o discurso interno algo infantil de uma criança. É a fantasia de qualquer criança sentir-se dessa maneira. Ver os seus amigos e as pessoas que gostam dele a pensarem e a dizerem isso dele. É uma fantasia que a criança quer sentir e ambiciona imenso experienciar, mas que já sabe que é rara na vida, e então arranja um bonequinho de lego, o mais genérico e desinteressante de todos, para se representar a si mesmo, e cria-he uma aventura fabulosa na qual o bonequinho se transforma naquilo que a criança gostaria de ter para si mesma.

Mas a verdade é que este diálogo interno de "eu sou bom, eu sou importante, eu sou interessante, eu tenho valor, eu não sou menos que os outros" é o diálogo interno que cada um de nós, no seu íntimo, tem de fazer obrigatoriamente todos os dias para não entrar em depressão!
Quais fantasias sexuais e fetiches estranhos, é muito mais fácil uma pessoa admitir que tem esses do que admitir que o que gostava mesmo era que os amigos achassem genuinamente que ela era mesmo uma pessoa muito muito porreira e interessante.



Portanto o Filme Lego é uma história sobre esses medos muito primários que subsistem em nós, adultos, sobre a forma como são experienciados por uma criança, e a maneira como essa criança sublima esses medos na pele de um bonequinho lego para quem imagina uma aventura que comprova a esse bonequinho todas as coisas que a criança gostaria de ver comprovadas em si.
E como é uma coisa apresentada de forma infantil, para crianças, para nós adultos é mais fácil vê-la e aceitá-la. Se a mesma história fosse contada de forma diferente, acerca de um adulto de 30 e tal anos num emprego mediano, seria uma lição demasiado próxima, demasiado reveladora e difícil de engolir.
Mas como é com uma criança está tudo bem. Posso ver a história, aceitá-la, sentir-me bem comigo mesmo e ainda assim dizer a mim mesmo que na realidade não tenho aqueles medos todos, que não sou assim tão frágil. A própria história fornece as ferramentas para podermos sentir-nos bem com ela e ainda assim protegermos o nosso próprio ego.

E é isto que acontece à figura do Pai, no fim do filme, que através do que percebe que o filho está a sentir, vê em si mesmo os seus erros, sem ter de os admitir abertamente, e por causa disso redime-se e muda os seus hábitos, aumentanto a sua felicidade e a do seu filho.

E faz isto tudo usando exclusivamente peças de lego animadas por computador, num filme maravilhosamente bonito, divertido e engraçado.
Com peças de Lego, porque as crianças brincam com peças de Lego, porque as peças de lego permitem fazer tudo o que se queira, sem limites para além dos da imaginação.

E é por isto que o Lego Movie é tão bom.


E depois podemos comprar isto...

...i have the weirdest boner right now...
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