Pataniscas Satânicas

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terça-feira, 22 de setembro de 2015

O Monge Louco - Parte I

Vindo das geladas estepes Siberianas, chegou o Monge Louco.


Grigori Rasputin era um strannik, um viajante religioso, analfabeto, que deambulava de vila em vila a pregar num dialecto siberiano quase incompreensível.
Era membro dos Khlysts, um secto obscuro da Igreja Ortodoxa Russa, que acreditava que para se obter o total perdão divino era preciso primeiro pecar totalmente.

O seu olhar era intenso, a sua voz inesquecível, e a sua perspicácia psicológica e interpretações da bíblia deslumbravam e cativavam os que o ouviam.


Nos primeiros anos do Séc. 20, San Petersburg era uma cidade convulsionada por faltas de energia, greves nacionais de transportes, revoluções, massacres, e guerras.

O Tsar Nicholas II, Imperador Russo, é obrigado a ceder parte do seu poder à Duma Imperial, uma espécie de Assembleia Legislativa.
Ao mesmo tempo a Classe Aristocrata estava a desligar-se da Igreja Ortodoxa e a procurar outras formas de espiritualidade e fé, incluindo o misticismo e o ocultismo.

Rasputin chega à cidade em 1903 e rapidamente se torna popular nos círculos aristocráticos. Era inicialmente encarado como uma curiosidade, com o seu sotaque cerrado e falta de maneiras polidas, mas começa a ganhar seguidores religiosos e apoiantes cada vez mais poderosos.


A sua presença em San Petersburg é convulsiva. Rasputin era conhecido por estar constantemente bêbedo, bebendo 12 garrafas de vinho antes do almoço.
Os jornais frequentemente tinham notícias sobre o escândalo mais recente causado por Rasputin.
É famoso o incidente no qual, bêbedo num restaurante, terá baixado as calças e abanado o pénis contra as outras pessoas do restaurante.

Pénis esse que era tão grande que está guardado num museu. (tem a CERTEZA que quer carregar nesse link?)

Corriam rumores que, de acordo com as suas crenças religiosas baseadas na necessidade de pecar para depois obter o perdão, Rasputin organizava frequentemente orgias com as mulheres da nobreza que pertenciam ao seu culto.


Rasputin torna-se tão popular, ascende tanto na hierarquia social russa, que em 1 de Novembro de 1905 é apresentado ao Tsar Nicholas II, Imperador e Autocrata de Todas as Rússias, e à sua esposa, a Tsaritsa Alexandra Feodorovna, nascida na Alemanha.


É preciso fazer notar que, contrariamente à ideia que se tem dos casamentos reais, e das famílias reais da altura, Nicholas e Alexandra estavam verdadeiramente apaixonados um pelo outro, como o demonstram as centenas de cartas que trocaram entre si, e eram verdadeiramente devotos aos seus filhos, investindo pessoalmente na sua educação e bem-estar.


Esta família real guardava um segredo.

O pequeno Alexei Nikolaevich, o único filho do casal, o mais novo, e o futuro Imperador Russo, sofria de Hemofilia.

A Hemofilia é uma doença que impede a capacidade natural do corpo de coagular feridas e parar hemorragias. Antes de 1960, quando tratamentos eficazes começaram a ser descobertos, a esperança média de vida dos que sofriam de Hemofilia era de apenas 11 anos.

Alexei sofria de uma variante mais rara da doença, que era também mais severa.
Tinha frequentemente inchaços extremamente dolorosos e debilitantes nos joelhos, cotovelos, virilhas, etc, que correspondiam a hemorragias dentro dos tecidos, que demoravam imenso tempo a passar.
Qualquer pancada, qualquer brincadeira, qualquer nariz a sangrar ou nódoa negra podia matar o herdeiro da coroa.





Alexei era uma criança sequestrada na sua casa, doente, sempre à beira da morte. A sua mãe, Alexandra, vivia obcecada com a sua saúde e protecção. A vida da família girava em torno da saúde da criança.

Pierre Gilliard, o tutor das crianças escreveu "Alexei era o centro de uma família unida, o foco de todas as suas esperanças e afectos. As suas irmãs adoravam-no. Era a alegria e orgulho dos seus pais. Quando estava saudável, o palácio transformava-se. Tudo e todos pareciam cheios de luz do Sol"


Alexandra carregava um segredo ainda maior: tinha sido ela a passar a doença ao seu filho.

Alexandra era neta da Raínha Victoria, Raínha do Reino Unido, Grã Bretanha e Irlanda. A Rainha Victoria teve 9 filhos que se casaram com outras famílias nobres do continente Europeu, o que lhe valeu a alcunha de a "Avó da Europa".
A Rainha Victoria era portadora do gene recessivo ligado ao X causador da Hemofilia. Isso significa que as mulheres da sua família eram portadoras assintomáticas da doença, mas os homens tinham a hipótese de sofrer da doença.

Raínha Victoria

A Tsaritsa Alexandra era portadora do gene, e carregava a culpa de ter sido a origem da doença que podia matar o filho que amava. Para o povo russo seria intolerável que a Tsaritsa, alemã de nascença, tivesse passado ao Herdeiro da Coroa Imperial a "Doença Inglesa".

Obcecada por proteger o filho, Alexandra recorreu aos médicos russos. Os seus tratamentos falhavam, dado que na altura a doença não tinha tratamento conhecido. Virou-se depois para a religião, aprendendo todos os rituais Ortodoxos e passando horas na capela privada da família, a rezar pela salvação do filho.

Nada funcionava.

Alexandra com o filho, Alexei
Finalmente, desesperada, começou a recorrer a místicos e curandeiros.

Rasputin, por essa altura, tinha ganho a fama de ser um Santo, por ter o poder de curar pela fé.

Em Março de 1907, depois de dois meses nos quais Alexandra tinha tido de chamar os médicos quarenta e duas vezes, Rasputin é convocado ao palácio real.
Rasputin passa várias horas a rezar por Alexei, apesar de todas as previsões dos médicos de que o rapaz iria morrer.

No dia seguinte, milagrosamente, o Tsarevitch Alexei demonstra melhorias significativas.

Desta forma, Rasputin passa a fazer parte da família.
Sempre que Alexei se magoava e tinha uma das suas crises, o que era frequente, Rasputin era chamado ao palácio real. Fechava-se com a criança, rezava durante longas horas, e o rapaz ficava melhor. Sem dores.


Pelo seu carisma e influência, Rasputin torna-se confidente pessoal da Tsaritsa Alexandra, aconselhando-a tanto em assuntos místicos do oculto, como de governação política.

Esta intimidade foi criticada tanto pela Igreja, que denunciava Rasputin como uma fraude e um herege, e pela classe política que temia a sua influência política.

Mesmo depois de o Director da Polícia Nacional ter informado Alexandra que Rasputin, bêbedo, se gabava de que o Tsar o deixava "cobrir" a sua mulher sempre que ele quisesse, Alexandra defendeu-o dizendo "Os Santos são sempre caluniados. Eles odeiam-no porque nós o amamos."

Nicholas não era alheio a isto, mas mesmo ele tinha dificuldade em afastar durante muito tempo o homem que aparentemente salvava a vida do seu filho.

Descubra o segredo do poder de Rasputin, e as consequências da sua influência no Império Russo na Parte II de O Monge Louco.

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terça-feira, 15 de setembro de 2015

Baader-Meinhoff, ou I'm So Meta Even This Acronym

Já vos aconteceu aprenderem um facto curioso aparentemente aleatório, ou lerem uma coisa que vos chama a atenção, e durante os dias ou semanas depois parece que esse facto aparece por todo o lado?

Por exemplo um dia lêem que um comboio de mercadorias tem em média 1500 a 2000 metros de comprimento (90 a 120 carruagens). Quando se está a mover a 85km/h pode precisar de mais de 1,5km para parar depois de os travões de emergência serem activados.

Depois no dia a seguir, sem sequer estarem à procura, voltam a encontrar outra menção a carruagens de mercadorias. E na semana a seguir aparece uma notícia sobre carruagens de mercadorias que demoram muito tempo a parar.
Depois na televisão há um documentário sobre comboios no Oeste Americano.

Acontece tanto que notam que está a acontecer!
É frequente o suficiente para chamar à atenção, fazer-vos parar e pensar "Que estranho! Ainda no outro dia vi outra notícia sobre comboios! Este é o quarto... quinto facto relativo a comboios que eu vejo só neste mês! Parece que os comboios me perseguem".


Se reconhecem isto de que eu estou a falar, e sentem que já o sentiram, então, caros leitores, o que sentiram foi o Fenómeno de Baader-Meinhoff!

O Fenómeno de Baader-Meinhoff define-se como a sensação subjectiva de que uma palavra, um nome, ou outra coisa que nos chamou a atenção recentemente, subitamente parece começar a surgir com uma frequência improvável.

A maioria das pessoas já o sentiu.

Na realidade esse dado específico, seja o comprimento médio de comboios de mercadorias, que a primeira câmara digital surgiu em 1975 ou que o nome Lego vem da frase em dinamarquês "leg godt" que significa "brinca bem", não estão de facto a aparecer com mais frequência.


Na realidade essa sensação é criada por um viés cognitivo. Um artefacto da nossa consciência. Uma inevitabilidade decorrente da maneira como a nossa consciência está organizada.
É uma Ilusão de Frequência.

Mas parece tão real! Não parece nada uma ilusão!

Isso é porque é um viés da nossa cognição. Não temos nenhuma maneira de entender o mundo a não ser através das ferramentas cognitivas que temos.
Se essas ferramentas tiverem pequenas distorções, toda a nossa consciência vai ter o reflexo dessas distorções. Não as vamos ver porque já fazem parte da maneira como a consciênca está construída.

Por isso o Fenómeno de Baader-Meinhof parece tão real.

Curiosamente o nome Baader-Meinhoff não tem nada a ver originalmente com vieses cognitivos.

O nome refere-se ao Grupo Baader-Meinhoff, um grupo terrorista de extrema-esquerda na Alemanha Ocidental nos anos '70, fundado por Andreas Baader e Ulrike Meinhoff, que viria a chamar-se Fracção do Exército Vermelho (Rote Armee Fraktion).



Portanto o nome provavelmente veio de alguém que aprendeu acerca do Grupo Baader-Meinhoff e depois durante as semanas seguintes só via referências ao Grupo por todo o lado.

Portanto o nome do fenómeno é em si mesmo um exemplo do próprio fenómeno.

Podem fazer o seguinte exercício:

Vão ao Google, e escrevam lá "I'm feeling curious".
Eu espero.


Já está? Que facto é que vos apareceu?

Agora lembrem-se desse facto, e durante as próximas semanas reparem se não vêm referências a esse facto a aparecer por todo o lado.

À medida que aparecem, podem ir tomando nota deles e depois verem o que é que os une a todos. De que maneira é que conseguem juntar todos numa única linha de raciocínio mais ou menos coerente.
Que ideia é que existe subjacente a todos esses exemplos que vos apareceram?

Dessa maneira conseguem unir os Jetsons, o 2001, o Fallout e o Blade Runner.

Ou pedras, pirâmides, agricultura, arranha-céus e a crise económica.

Ou ainda macacos, pizzas, nabos, ferramentas, agricultura e desenvolvimento tecnológico.

Ou quem sabe teoria do caos, clima, pirâmides, religião, arquitectura, filmes e o woody allen.

Ou, até, almas, neurónios, átomos, estrelas e o universo.


E é assim que se escreve um artigo das Pataniscas Satânicas!


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quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Gengis Khan e os Amigos da Natureza!

Falei no outro dia sobre árvores e sobre como estávamos a causar a sexta extinção massiva.
Por curioso que possa parecer, nem a causar Extinções em Massa somos originais.

Há 540 milhões de anos existiam os seres vivos multi-celulares mais antigos do planeta, os Ediacaria.


A Terra estava coberta por jardins intermináveis e pacíficos destes seres vivos que não se percebe bem se eram animais, plantas ou o quê?

Até que de repente, não se sabe bem porquê, há uma explosão de variedade de seres vivos completamente diferentes do que havia antes. A Explosão do Câmbrico é quando surgem a maior parte das famílias de animais modernos que existem hoje.

Foram os animais do Câmbrico os responsáveis pela extinção massiva dos animais Ediacarianos.


Gosto da ideia de organismos que sejam "engenheiros ecológicos", capazes de alterar de forma significativa o meio ambiente no qual existem.

É isso que nós somos.

E já o somos há muito tempo, que o diga o Mamute.

Quero falar-vos de um dos principais engenheiros ecológicos humanos.
Devem haver poucas pessoas que, individualmente, tenham tido tanto impacto no ambiente.

O Gengis Khan.


Para os distraídos, o Gengis Khan foi a pessoa que conseguiu criar o maior império de territórios contíguos do mundo.

Recorrendo a um misto de superioridade tecnológica (arcos recurvados), mestria do combate a cavalo, enorme mobilidade, uma disciplina férrea, e, sobretudo, estratégias impiedosas e sem-misericórdia, o Império Mongol no seu pico era de 33 milhões de quilómetros quadrados.
Ia desde a Croácia a Oeste até ao Vietnam a Leste.

Imaginem um tsunami de morte e destruição imparável, e têm uma noção razoável de o que eram os Mongóis.


Uma das estratégias que os Mongóis usavam e que os tornavam tão eficazes era o hábito que tinham de oferecer às cidades que iam conquistar a possibilidade de se renderem sem luta. Se o fizessem, tudo bem, eram só escravizados.
Se recusassem essa oferta inicial de se renderem pacificamente, os Mongóis depois matavam TODA a gente na cidade.
Durante o saque à cidade de Urgench, em 1221, terão sido mortas 1.2 milhões de pessoas.



Podia passar aqui umas boas horas a contar as desgraças que o Gengis Khan e a sua Horda Mongol trouxeram ao mundo, mas dou-vos dois exemplos que para mim são significativos.

No fim do Séc. 12 o mundo Islâmico estava no seu auge. Tinham uma sofisticada cultura literária e artística, e estavam na dianteira do avanço científico do mundo, com importantes avanços na matemática e na astronomia.
Num momento da história em que a Europa e o mundo Ocidental só por essa altura estavam a recuperar da queda do Império Romano, a cultura islâmica estava no seu auge, e era uma séria candidata a dominar a história humana a partir daí.

Depois aconteceram-lhes os Mongóis.

Em 1258 invadem Bagdad e destroem indiscriminadamente hospitais, templos, bibliotecas, palácios, supostamente atiram livros suficientes ao Eufrates para que este corra preto por causa da tinta. Pelo caminho matam pelo menos 200.000 pessoas.

Não contentes com isso, destroem os sistemas de irrigação do Irão e do Iraque, destruindo a indústria agrícola que sustentava a região, e causou uma fome que terá morto muito mais pessoas do que a própria batalha.
A região só recuperaria verdadeiramente já quase no Séc. 20.


Outro exemplo:

Sabem como os Russos são duros de roer? Se calhar até já ouviram que o termo "General Inverno", pela dureza do inverno russo e o seu papel a repelir invasões.

Em 1812 Napoleão leva o seu "Grande Armée" de 610.000 homens, e tenta invadir a Rússia.
Os russos em vez de atacarem o exército Francês simplesmente batem em retirada e queimam as colheitas e as aldeias, impedindo assim que os franceses as utilizassem, deixando-os expostos ao frio do Inverno.
Napoleão é derrotado, e regressa com apenas 20.000 soldados.


Em 1941, os Nazis, com a sua Operação Barbarossa, tentam invadir a Rússia.
Estavam à espera de uma invasão relâmpago e nem estavam a contar com ter de combater durante o Inverno. Não tinham equipamento que os protegesse do frio.
Devido a atrasos nos movimentos das tropas, o Inverno chega, e os Nazis perdem 800.000 soldados, não conseguem invadir a Rússia e isso acaba por lhes custar a Segunda Guerra Mundial.


Os Mongóis ESPERAM pelo Inverno para invadirem a rússia.
Os rios gelados serviram-lhes de auto-estradas para entrarem mais depressa no país.

É assim tão bad-ass que os Mongóis eram.


No fim, Gengis Khan e os seus Mongóis terão morto 40 Milhões de pessoas!
10% da população do mundo na altura.

Curiosamente, esta diminuição brutal de população, e o atraso civilizacional que implicou, fez com que as florestas tivessem tempo de crescer, e ao fazê-lo capturar carbono da atmosfera, o que por sua vez levou a um arrefecimento global.

Nós só agora nos estamos verdadeiramente a consciencializar do nosso poder como Engenheiros Ecológicos, e a ideia de impacto humano no ambiente é uma noção verdadeiramente moderna na nossa cultura.

Mas aqui temos um homem que no Séc. 13 estava a causar tanta destruição ao ponto de ter um impacto no clima mensurável com escalas do Séc. 21.

E que esse impacto tenha sido positivo? Reduzindo o CO2 atmosférico? Priceless!!!

Portanto proponho que a partir de agora passemos a ensinar o Gengis Khan às crianças como um herói da protecção ambiental!


Captain Gengis Planet!!!


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domingo, 6 de setembro de 2015

Uma Ode às Árvores

Perguntem a uma criança que ande na escola porque é que as árvores são tão importantes.

As crianças mais queridas vão responder que é por causa da sombra (awwww), mas aquelas que forem espertalhonas vão dizer que é porque as árvores dão oxigénio!


E isso não é falso! É absolutamente verdade, sim, as árvores dão oxigénio!
Mas não é por isso que as árvores são importantes.

De que é que é feita uma árvore?

Uma árvore é feita de luz, ar, água e alguns micronutrientes inorgânicos (pouquinhos).

De onde é que vêm aquelas toneladas todas de madeira, então?



Por surpreendente que possa parecer (ou não) não vem das raízes.

Se aquela massa toda tivesse sido retirada pelas raízes da árvore, então cada árvore estaria lentamente a criar uma cratera à sua volta de material absorvido.


Mas obviamente não é isso que acontece.

Acontece que há 3,4 biliões de anos aconteceu uma das primeiras e mais importantes divisões na história da evolução da vida. Surgiram as primeiras células capazes de fazerem fotossíntese, as cianobactérias.

Só para termos de referência, as células só aprenderam a tornar-se multicelulares há cerca de 1 bilião de anos.

A fotossíntese faz uma coisa muito simples, mas que ainda não conseguimos simular perfeitamente.
A fotossíntese permite usar a energia da luz para transformar dióxido de carbono gasoso em açúcares sólidos.

Ou seja, as árvores captam o dióxido de carbono do ar e transformam-no em madeira.



Nesse processo as Árvores tiram CO2 da atmosfera, e prendem-no na madeira.

É por isso que as Árvores são importantes, porque reduzem o CO2 atmosférico.

Isto é importante por causa do ciclo do carbono.

Lembram-se quando na escola primária vos ensinaram como a água evaporava dos mares, ia para as nuvens e depois voltava a descer sob a forma líquida para o mar? Esse é o ciclo da água, não tem nada a ver com este.

Este é um ciclo diferente e questiono-me porque é que não nos ensinaram acerca deste na escola.

Basicamente:
O carbono está sob a forma sólida no solo, nas pedras, na terra. Depois os vulcões em erupção atiram imenso carbono sob a forma de dióxido de carbono para a atmosfera.
O conteúdo de carbono gasoso na atmosfera cresce, captando calor e fazendo aumentar a temperatura, e dissolve-se parcialmente na água do mar, captando calor e fazendo aumentar a temperatura.

Depois as árvores, e plantas e outros seres vivos captam esse carbono atmosférico, transformam-no em matéria orgânica, voltando a prendê-lo sob a forma sólida.

Essa matéria orgânica toda rica em carbono concentrado morre, decompõe-se volta a fazer parte do solo, arrastando consigo o carbono que até há pouco tempo estava na atmosfera. A determinada altura, por causa dos movimentos tectónicos, esse carbono preso no solo acaba por se afundar outra vez para o fundo da terra.

As Árvores estão a tirar o dióxido de carbono da atmosfera e estão a prendê-lo em matéria orgânica, e a depositá-lo outra vez no solo.

O que é bom porque um efeito de estufa descontrolado pode transformar a Terra no planeta Vénus, o que não seria de todo agradável.

Temperaturas de 462ºC, ventos de ácido sulfúrico
É por isso que as árvores são importantes.

O que é uma chatice, porque desde que andamos por cá, o número de árvores reduziu para metade.


Sabem para onde é que foram essas árvores todas?

Queimámo-las.

Pegámos no carbono que elas tinham preso dentro de si e voltámos a soltá-lo na atmosfera.

Não contentes com isso, fomos buscar o carbono de árvores mortas há milhões de anos no subsolo (o carvão e o petróleo) e também o atirámos para a atmosfera.

Atiramos 30 biliões de toneladas de CO2 para a atmosfera, todos os anos. Mais ou menos a mesma quantidade de carbono presente nos Penhascos de Dover.


A terra está a aquecer, e não estamos a arrefecê-la rápido o suficiente.
Já sabemos isto tudo há mais tempo do que pensaríamos que fosse necessário para fazermos alguma coisa acerca disso.

É possível que até já seja tarde demais.

Eu sempre tive curiosidade sobre como seria estar em Vénus, de qualquer maneira.

Há, no entanto por aí uns estúpidos que acham que não, que isto é tudo mentira, uma conspiração dos cientistas liberais que querem deixar os homossexuais casarem-se e dar o direito de voto às mulheres!

Estúpidos...

Toda a gente os avisa, vêm pessoas supostamente espertas avisar de que isto pode tudo correr mal, mas eles acham que não. Vai tudo correr bem. Estão a exagerar.


Isto é um cenário de apocalipse, não sei se estão bem a perceber.
Isto pode bem ser o início do fim!
O que isto significa é que pode agora ser inevitável que a atmosfera mude de forma tão radical que seja impossível para a espécie humana continuar a viver cá, num futuro previsível.

Porque é que não está ninguém a entrar em pânico por causa disto?!

Naturalmente que as extinções acontecem, e faz tudo parte do ciclo da vida na terra. Mais tarde ou mais cedo lá vem um calhau celestial e isto recomeça tudo outra vez.


Mas apesar de tudo, levarmos com um cometa na cabeça é mais cósmicamente inevitável e fácil de aceitar do que a sensação de culpa-embaraçada com que vamos ficar quando percebermos que fomos nós que provocámos a nossa própria extinção.

Ah, sim, porque não sei se leram, já a começámos.

Começámos por limpar o sebo aos Mamutes e ao resto da Megafauna.


Depois passámos a tudo o resto.


Raio para os choanoflagelados, devia ter ficado tudo nas cianobactérias e pronto... plantinhas verdes por todo o lado...

Era mais bonito.

Não haveriam gatos, mas haviam mais árvores...

E pronto, é por isso que as árvores são importantes.
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terça-feira, 1 de setembro de 2015

Memes, ou a Existência Fractal de Código Auto-Replicante

Pensem num Vírus.

Num daqueles vírus que vos provocam tosse e febre e diarreia.

Agora pensem numa bactéria.

Já falei várias vezes sobre como as bactérias são robots proteicos. Reproduzem-se, têm metabolismo energético, homeostase, resposta a estímulos, e uma data de outras características que as definem como seres vivos.

E a vida como a conhecemos baseia-se no código genético.
O Código Genético escreve-se com ácidos nucleicos, moléculas orgânicas com 4 formas possíveis: Adenina, Timina, Guanina, e Citozina.
Estas quatro letras (ATGC) servem para escrever um código.
Esse código codifica instruções para como construir proteínas, que servem para construir o organismo, para realizar o metabolismo e a resposta a estímulos e essas coisas todas.
Codifica ainda instruções para como usar essas proteínas para fazerem mais cópias do código para a geração seguinte.



As bactérias são compostas por proteínas codificadas no seu código genético, e muito obedientemente, muito roboticamente, vão fazendo cópias do seu código genético para as próximas bactérias.
As pequenas variações no código genético são o que permite a variabilidade de proteínas e organismos sobre os quais vai actuar a selecção natural.
Dessa forma a evolução consegue transformar um ser vivo unicelular num gato.

Um vírus não é um gato.

Um vírus nem sequer está bem vivo.

Um vírus é só um pedacinho de código genético que codifica a instrução simples "faz mais cópias de mim mesmo".
Um vírus é uma sequência de ATGCs relativamente curta, que simplesmente diz para ser copiada.

Não codifica proteínas para metabolismo energético, não codifica proteínas para resposta a estímulos, nem sequer codifica proteínas para se copiar a si mesmo, não faz quase nada.
Só "faz mais cópias de mim mesmo".

Quando um vírus infecta uma célula, ela vai, muito obedientemente, simplesmente seguir a instrução do vírus, e copiar esse pedaço de código milhares de vezes, e as milhares de cópias vão elas ser copiadas milhares de vezes, e por aí fora, até a célula rebentar e os vírus poderem ir infectar outras células.
Desta maneira os vírus provocam tosse, e febre e diarreia.



É doentiamente mecânico. Porque os vírus não estão vivos, são só... código.

Código que é muito muito bom a replicar-se.

Um sistema que dependa da cópia e transmissão precisa de código é vulnerável a pequenos pedaços de código que sejam muito bons a replicar-se. É inevitável.

Podemos observar este mesmo fenómeno com outra coisa menos viva ainda.

Priões.

Os Priões são proteínas defeituosas.

As proteínas são compostas por um código sequencial de aminoácidos (20 aminoácidos, à semelhança das 4 letras do código genético) que determina a configuração tridimensional específica da proteína que lhe confere as suas características individuais.
Cada proteína individual tem o seu código específico de aminoácidos, diferente das outras proteínas.


Os Priões são proteínas cujo código de aminoácidos está alterado, o que faz com que se comportem de forma diferente.
Quando um Prião entra em contacto com uma proteína normal, induz alterações na sua estrutura que fazem com que esta também se transforme num Prião.

Este novo Prião vai entrar em contacto com outras proteínas normais, transformando-as em mais priões, e por aí fora, numa reacção em cadeia.
Estas proteínas inúteis, mal-formadas, acumulam-se dentro das células matando-as e provocando doenças desagradáveis como a Doença das Vacas Loucas ou a Doença de Creutzfeldt-Jakob.


Ou seja, temos um pedaço de código (de aminoácidos, nem sequer é o código genético que associamos à vida) que é extremamente bom a replicar-se, a proliferar de forma descontrolada num sistema baseado em código preciso.


Podemos observar este mesmo fenómeno de forma ainda mais abstracta.


Pensem de novo num vírus, mas agora num vírus informático.

Num daqueles vírus que vos tornam o computador lento, e instalam programas que não querem, e se enviam por e-mail a todos os vossos contactos.

Todos os programas informáticos estão escritos numa linguagem de zeros e uns. Longas sequências de 0001101010100101 que codificam instruções para como os programas devem funcionar.
O computador só segue as instruções no código dos programas para obter o resultado que esses programas é suposto fazerem.

Temos um sistema baseado em código que nem é físico. As letras deste código não são moléculas de DNA ou aminoácidos, são entidades matemáticas abstractas que permitem um código matemáticamente perfeito e extremamente complexo.


Um vírus informático é simplesmente um pedacinho de código que diz "faz mais cópias de mim mesmo". Também faz outras coisas como transmitir os vossos dados pessoais a companhias publicitárias, mas o que o define é ter a capacidade de se replicar, inserindo cópias de si mesmo noutros programas ou ficheiros.

Quando um vírus informático infecta um computador, ele vai muito obedientemente seguir as instruções no código do vírus e fazer vários milhares de cópias desse código e passá-lo a todos os outros computadores.



Mesmo um sistema baseado em código electrónico, abstracto, é extremamente vulnerável à proliferação de pedacinhos de código que se conseguem replicar muito bem.

Conseguem lembrar-se de algum outro código abstracto extremamente complexo que pudesse ser vulnerável a pedaços de código auto-replicantes?

Sim?

Que tal este? Este que estão a ler neste preciso momento?

Nem estou a falar da língua portuguesa propriamente dita, ou sequer nas letras do alfabeto, isso são só maneiras de representar o código.
Estou a falar de linguagem, aquilo que organiza os nossos pensamentos e sobre o qual conseguimos construir uma consciência secundária.

A linguagem é um código para os nossos pensamentos. Um código extremamente abstracto, que não compreendemos na totalidade, que tem regras de semântica, e de sintaxe, e que serve para comunicar ideias e instruções de pessoa para pessoa.


Agora pensem num Meme.

Provavelmente quando pensam num meme, pensam nisto:


Bonecos, desenhos, ou piadas, que andam por todo o lado na internet.
São populares, propagam-se, pegam-se, tornam-se moda. A maioria é rapidamente esquecida.

Se calhar, mas menos provavelmente, pensam no fenómeno do Harlem Shake, há uns anos...



Na realidade a definição de Meme é um pouco mais abrangente:

"Um Meme age como uma unidade que transporta ideias culturais, símbolos ou práticas que podem ser transmitidas de mente para mente através da escrita, língua, gestos, rituais ou outros fenómenos imitáveis (...). Podem ser melodias, frases-feitas, modas ou a tecnologia de construir arcos.
(...) Os Memes são um fenómeno viral que pode evoluir por selecção natural de uma forma análoga à evolução biológica. Os memes sofrem processos de variação, mutação, competição, e hereditariedade que afectam o sucesso reprodutivo do meme. (...) Memes que se propagam menos prolificamente podem extinguir-se, enquanto que outros podem sobreviver, espalhar-se e sofrer mutações.
Memes que se replicam de forma mais eficaz têm mais sucesso, e alguns podem replicar-se eficientemente mesmo quando são detrimentais para os seus hospedeiros."


Os Memes são pedacinhos de código linguístico que se replicam com muita facilidade e que por isso proliferam num sistema baseado em código.

Mas os Memes não causam doenças... Ou causam?

Leiam esta notícia. Eu espero...


No episódio de Morangos com açúcar algumas personagens estavam com alergias e comichões e com a pele vermelha.
Alguns adolescentes viram isso e começaram a acreditar que tinham comichões e pele vermelha, que depois se verificaram MESMO!
Ao falarem uns com os outros, a ideia tornou-se contagiosa, passando de adolescente em adolescente até atingir cerca de 200!

Uma ideia, um pedacinho de código linguístico, muito contagioso, com excelentes capacidades para se replicar, que proliferou num sistema baseado e código.

O mais impressionante é que isto foi um caso evidente de uma doença física, com sintomas observáveis, causada por um Meme! Uma doença provocada por uma ideia contagiosa.

Naturalmente que fenómenos de Histeria de Massas já são conhecidos há séculos, desde as Pragas de Dança Contagiosa na Europa do Séc. XVI até aos Julgamentos de Bruxas de Salem  na América do Séc. XVII.


Agora pensem na Religião.

Não, não pensem na Religião, não vamos entrar por aí!

Pensem nos Alemães a enviarem o Lenine para a Rússia em 1917 para ele espalhar lá as ideias do Socialismo e derrubar o Tzar!

Não, não pensem nisso.

Pensem em Fractais!


Fractais são conjuntos matemáticos ou fenómenos naturais que exibem um padrão repetitivo que é aparente a todas as escalas.

Ou seja, um fenómeno simples que ocorre da mesma maneira em várias ordens de grandeza, quer no muito pequenino, quer no muito grande.


Temos código viral auto-replicante a proliferar num sistema de código genético.

Temos código proteico auto-replicante a proliferar num sistema de código de amino-ácidos.

Temos código informático auto-replicante a proliferar num sistema de código de zeros e uns.

Temos código memético auto-replicante a proliferar num sistema de código linguístico.

...

It's turtles all the way down!!!

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