Pataniscas Satânicas

Pataniscas Satânicas

sábado, 26 de março de 2011

Lógica/Magia

Já me dei por várias vezes a conversar com pessoas inteligentes acerca de coisas e crenças que muito me surpreendem pertencer a pessoas inteligentes.

Dou como exemplo as auras, só porque foi o caso mais recente com que me deparei.

Passei uma boa porção de um serão nocturno a conversar com um tipo perfeitamente inteligente e eloquente, que me queria convencer de que as auras existem e de que ele as sentia.

Basicamente, as auras, tal como ele as explicava eram o seguinte: as pessoas libertam energia, essa energia muda conforme a personalidade e estado de espírito de cada pessoa, e é possível sentir e perceber, consciente ou inconscientemente, a energia dessa pessoa.

Por exemplo, dizia ele, se alguém enraivecido ou agressivo se aproximar de mim, eu percebo-o antes de haver alguma manifestação expressa ou externa disso.
Se várias pessoas estão a conversar a uma mesa, e uma vira a sua atenção para outra, então está a dirigir a sua energia para ela.

Eu disse-lhe que não havia nenhum tipo de fundamento lógico para supor que se tratava de "energia" que irradiava da pessoa e que se transmitia entre pessoas, que poderia haver uma explicação perfeitamente banal e prosaica para o que ele descrevia.

Ao que ele respondeu "Sim, mas isso é se fores lógico!"

E eu fiquei sem resposta... porque... quer dizer... que é que se pode ser se não lógico? Que maneira há de pensar, que não lógica?

Faz-me lembrar uma senhora francesa com quem conversei uma vez num avião, que me estava a tentar convencer dos benefícios da homeopatia. Eu expliquei-lhe que cientificamente era impossível a homeopatia funcionar ela disse-me também que isso era se eu acreditasse na ciência. Que podia haver mais coisas para além da ciência.

Também dessa vez me encontrei sem resposta.

A verdade é que nunca pensei ou operei sob nenhum outro sistema que não a lógica ou a ciência. Porque... basicamente... qualquer outro sistema não tem lógica ou é científico e eu não o consigo valorizar. Não faz sentido...

O que estas pessoas descrevem é pensamento mágico.
O pensamento mágico é, basicamente, quando uma criança acredita que se usar as meias azuis terá boa nota no teste.
É de facto uma das características da infância, e uma das coisas que a criança deve ultrapassar no seu desenvolvimento e maturação.

E no entanto todos os dias deparo-me com exemplos de pensamento mágico em adultos inteligentes e funcionais.
Pessoas que me aparecem nas consultas, absolutamente convencidas que aquela dor nas costas apareceu porque naquele dia beberam dois cafés ao pequeno almoço em vez de um.

A melhor explicação para a existência de pensamento mágico que encontro é de que as pessoas preenchem os espaços do seu conhecimento com a explicação mais simples e directa que encontram.

Há ignorância, e então como a mente humana recusa não compreender algum fenómeno, vai aplicar uma explicação a esse fenómeno, por mais absurda que possa parecer.

A maioria das pessoas não faz a mínima ideia de como funciona o seu corpo (o que é uma noção estranha, dado que nada é mais próximo e imediato que o próprio corpo), e então atribui causalidades mágicas ao que acontece.

As pessoas ignorantes atribuem a maioria das explicações a Deus, ou outro qualquer ser místico e incompreensível que faz acontecer as coisas.

Estas pessoas inteligentes, por não terem conhecimentos aprofundados de ciência, acreditam em coisas como as auras e a homeopatia.

No entanto elas fazem um argumento interessante. Porque é que a lógica há de ser o melhor modelo de pensamento?
Não estaremos perante um exemplo de Chauvinismo Lógico?

O problema é mesmo um de pensar de maneira não lógica.

A ciência ensina-nos que as teorias explicativas só servem enquanto não surgir nada melhor ou que explique as coisas de maneira mais exacta ou coerente.
No entanto a própria ciência é um modelo de pensamento lógico.

O que é que resta? A simples observação empírica da realidade? Mas isso não permite fazer previsões, e precisamos de fazer previsões para sobreviver.

Talvez um modelo de pensamento mágico seja de facto melhor que um modelo de pensamento lógico para algumas situações? Quais? Não faço ideia.

Poderá eventualmente surgir alguma coisa melhor que a lógica? A lógica diz-me que é possível. Mas isso não deita abaixo a própria lógica? Talvez não.

Não sei. Este é um assunto sobre o qual tenho de pensar mais.
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segunda-feira, 21 de março de 2011

I wanna look good naked

Como tantos outros IAC, comecei a ir ao Ginásio. Pareceu-me boa ideia. Mexer-me um bocado. Prevenir doenças cardiovasculares. Ver umas meninas a trabalharem os adutores. Vários motivos. Todos válidos.
Mas os ginásios não são o que eu me lembro... pelo menos no que diz respeito ao ambiente.
No primeiro dia que lá fui, estive com um rapaz muito simpático, que sabia menos de fisiologia que o animal de estimação médio, que me explicou muitas coisas sobre a minha massa gorda. Lembro-me de pensar que aquela conversa devia funcionar espectacularmente com as gajas. Depois fomos para a passadeira rolante, onde tivemos a fazer conversa de café, sobre o tempo. E depois de testar várias máquinas ele deu-me um cartãozinho com o que eu devia fazer para ''hipertrofiar''. Que aparentemente é um verbo pessoal, aplicável a um qualquer vulgar cidadão.
E assim comecei a ''hipertrofiar''.
Coisas que me divertem enquanto hipertrofio:

- Raparigas esqueléticas a maltratarem a eliptica, enquanto umas gordas ficam no café, à entrada do ginásio, a comer folhados mistos.

- Raparigas gordas que de facto vão ao ginásio, e escolhem fatos justos para acentuarem as suas pregas, ficando com um aspecto parecido ao do boneco da michelin. Mais divertido, só quando elas se sentam naquelas bolas gigantes de pilates, e me fazem lembram bonecos de neve. Quase que dá vontade de lhes pôr uma cartola e um cachecol, e cantar Frosty the snowman.

- Mastodontes injectados de esteróides a levantarem pesos horizontais, com máscaras distorcidas por um misto de raiva e esforço. As veias do pescoço destes meninos são da espessura de dedos. Eles divertem-me, porque tem pernas iguais às minhas, que parecem canetas. Quando caem de costas têm dificuldade em retomar o ortoestatismo. É o problema do hipertrofiânço assimétrico, e um flagelo ocupacional de muitos porteiros de discoteca do nosso país.

-Raparigas boazonas que olham em todas as direcções enquanto as suas glândulas baloiçam em roupas que pouco deixam à imaginação. Só para depois fazerem olhares reprovadores e ofendidos quando algum coitado de facto olha para aquela armadilha bamboleante.

- Grupos de amigos a discutirem qual o produto mais impressionante em termos de ganho de massa muscular. Adjectivando-se de ''inchado que nem um porco'', para descreverem o objectivo a almejar. Acho que a nandrolona é o último grito.

- Jovens que depois do banho se secam em frente ao espelho. Epa, evitem isto. Se há coisa que eu dispenso é usar um lavatório ao lado de um Narciso que esfrega a genitalia, enquanto contempla o seu próprio reflexo, com um olhar embevecido. Não aprecio. São gostos, que se há-de fazer...

- Treinadores amigos que me vêm explicar como devo fazer abdominais. São como os vendedores que te vêm perguntar se precisas de ajuda, quando só queres estar em sossego a ler contracapas de livros que não valem o preço marcado. Não me chateiem. Chateiem a miuda gorda, que ela ainda rebenta a bola de pilates.
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segunda-feira, 14 de março de 2011

Obsoleto

Costumo dizer que a minha é uma geração privilegiada (não deixamos de ser a geração à rasca, estou a falar de uma coisa diferente).

Eu, e os outros como eu, que nasceram na década de '80, vimos o surgimento dos computadores. Somos a última geração que poderá lembrar-se de uma altura em que não havia computadores em casa!

Crescemos com computadores, aprendemos a linguagem dos computadores.
E por linguagem não digo necessariamente programação, que é outro bicho completamente diferente. Digo saber mexer num computador, perceber se um problema vem da falta de RAM, ou de um programa mal instalado, só pela maneira como o computador se comporta.
É como aprender línguas estrangeiras ou música. Ou se aprende desde uma idade precoce e fica realmente integrada, ou nunca será mais que colado com cuspo no córtex pré-frontal.



É por isso que os nossos pais (ou qualquer geração anterior à nossa) tem imensa dificuldade em lidar com computadores.
Nunca aprenderam a linguagem de computadores, e tudo o que sabem foi decorado foneticamente, por assim dizer.
Imensas, imensas vezes uma tia minha, ou o meu pai, ou a minha mãe, vêm pedir-me para lhes ensinar a apagar as mensagens do telemóvel 3310, ou abrir o e-mail, ou pôr imagens no Word. Eu também não sei como se faz! Mas ando por ali a mexer e chego a uma solução.
Digo-lhes "é intuitivo!!!" mas só é intuitivo para mim, que aprendi a linguagem. Para eles é uma barreira intransponível.

Eu pensava que isto não ia mudar. Pensava que era privilegiado, e que nunca ia deixar de perceber intuitivamente de computadores.

Ah, the folly of youth...



Uma amiga minha arranjou um iPod Touch, e tinha aquilo cheio de aplicações, e queria livrar-se de algumas.
Andei eu, com ela, a vermos as definições to iPod, a tentar descobrir como se apagavam as apps, mas sem nenhum tipo de sucesso.
Finalmente desistimos, fomos ao google procurar como se fazia.

Encontrámos o seguinte.

Carrega-se no icon da aplicação, segura-se o dedo, e aparece uma cruzinha para apagar.
Tão simples como isso.

Qualquer puto de 15 anos teria lá chegado "intuitivamente".
Eu não cheguei lá. Fui ultrapassado.

Estou obsoleto.

Estou velho...
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terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

In Bruges



Sabem aqueles filmes do Guy Ritchie cheios de criminosos caricatos e gostáveis, com sotaques irlandeses cerrados interpretados por estrelas de hollywood a divertirem-se com o papel que matam pessoas a torto e a direito e fazem assaltos e tramam outros criminosos e no geral metem-se em sarilhos estapafúrdios e confusões intricadas cheias de eventos aparentemente desconexos até precisamente ao último momento em que todas as histórias se juntam e tudo faz sentido e depois vão todos beber uma caneca de cerveja felizes por terem sobrevivido mas sem terem ganho dinheiro apesar de tudo?

In Bruges não é um desses filmes.

Apesar de o trailer se esforçar muito por tentar convencer-vos que sim:



Quem vê este trailer é levado a pensar que vai ver uma mistura simpática e divertida entre o Snatch e o The Odd Couple.

Nada podia estar mais longe da verdade.

In Bruges é um filme compassado e calmo, muito intenso e pesado, sobre culpa, remorso e a futilidade da violência.

De facto tem os diálogos Tarantinescos dos gangsters a terem conversas banais enquanto matam pessoas, mas contrariamente aos filmes do Tarantino ou do Guy Ritchie, aqui o contraste entre a banalidade e a violência é desconcertante e perturbador ao invés de ser cómico.
Realmente também tem vários pormenores aparentemente sem importância que ao longo do filme vão ganhando significado, mas isso serve só para mostrar como estas personagens estavam lixadas desde sempre, e não para fazer o guionista parecer esperto.

Contar mais acerca do filme seria estragá-lo, por isso deixo apenas a recomendação, e a nota final de que a banda sonora está extremamente bem conseguida.
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quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

O Homem Mais Interessante do Mundo

O novo Chuck Norris?



(o autor deste post levou sumariamente com um round-house kick no olho esquerdo por ter posto em questão a superioridade de Chuck Norris)
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segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Preacher


Lembro-me de ver livros desta BD à venda na FNAC há muitos anos, provavelmente pouco depois de a série ter acabado (em 2000) e as colectâneas terem começado a chegar a portugal.

Na altura olhei para o desenho, e não gostei, por isso pus o livro de lado.

Entretanto fiquei melhor e depois de ter relido uma crítica do sempre grande M. no agora defunto Des1biga decidi ler a banda desenhada.

The Preacher é tudo o que M. prometia ser, e mais ainda.

"Esta é daquelas crónicas que sempre me apeteceu escrever. Depois de algum tempo a coleccionar BD chegou, finalmente, a hora de escrever sobre uma. The Preacher tem tudo aquilo que eu sempre odiei ler em BD: anjos, demónios, vampiros e até cowboys. Mas é perfeito. É tudo o que uma BD deve ser.
Garth Ennis escreveu uma crítica fabulosa à religião e ao american way of life, cruzada com mil e uma referências à cultura pop, passando do James Bond aos western spaghettis. The Preacher é a história de Jesse Custer, um reverendo no Texas que um dia é possuído por uma criatura que fugiu do céu e que lhe dá o poder de Deus. Tudo o que Jesse ordenar é imediatamente feito pela vítima dos seus poderes. Mas o que a criatura divina vem anunciar a Jesse é muito mais importante e fundamental: Deus existe, de facto. Mas desistiu do lugar.
E é com base numa premissa tão fantástica que a aventura se desenrola. Jesse entra numa jornada para procurar Deus, juntamente com a sua namorada e com um vampiro irlandês alcoólico como side - kick. Pelo meio junta-se uma organização religiosa poderosíssima - The Grail - que preserva fanaticamente o sangue de Jesus Cristo (ao ponto de ter feito com que os seus descendentes se cruzassem entre si, o que fez com que o descendente directo vivo de Jesus Cristo seja um atrasado mental que é visto pela organização como o próximo Messias) e que tem como braço armado um alemão com as parafilias mais incríveis. Há ainda Arse - Face, um adolescente que se quis suicidar como Kurt Cobain, mas que não foi eficaz. Há o Santo dos Assassinos, uma homenagem fabulosa a Clint Eastwood. E temos ainda o John Wayne himself, que aparece ao herói da série como guia espiritual.
The Preacher é escrito por um irlandês e desenhado por um inglês e é uma visão cínica e peculiar dos States. Se Tintim é politicamente incorrecto porque Hergé não conseguiu reprimir o discurso idioto-colonialista da época (apesar de reconhecer que em termos de construção de narrativa e de gags humorísticos Tintim e seus pares foram pioneiros absolutos), The Preacher é politicamente incorrecto da maneira que as coisas inteligentes são. As críticas ao conservadorismo e à estupidez política estão lá todas. Sem pretensões ou subterfúgios. The Preacher não é uma BD intelectual mas é extraordinariamente inteligente. E apesar de todas as críticas, de todos os tiros, lutas, explosões, palavrões e reviravoltas da história, há uma ética subjacente. Aquela ética dos wertern spaghettis, de frases old fashion enquanto se acende um cigarro.
É tudo o que uma BD deve ter: acção, humor, sexo, religião, política e drogas. É fantástico. Leiam. Como estava escrito na capa de um dos livros: "It will restore your faith. In comics.""

M., in Des1biga, 02/08/2007

Há pouco que eu possa acrescentar ao que M. já disse na sua crítica original, excepto que para além das personagens fantásticas (anjos, demónios, vampiros e até cowboys), da sátira (homenagem?) à cultura americana, das críticas mordazes, e das sequências de acção invulgarmente bem conseguidas, The Preacher é no fundo uma BD sobre relações humanas, especificalmente relações de amor e amizade.

O trio de Jesse, Tulip e Cassidy que passa por várias encarnações de amor, amizade e ódio com tudo o que há pelo meio, é uma tese acerca de relações românticas e emocionais.
Até o par Starr/Featherstone, por muito disfuncional e perturbador que seja, consegue ser um exemplo.

E, depois, Deus leva um tiro.

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terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

O país das alforrecas

À medida que o tempo passa fico mais surpreendido com os adultos. Os seniores, if you will. Estou cansado de ouvir conversas de café sobre o quão mal isto está. Porque não haja dúvidas, o quão mal isto está já destronou há anos a meteorologia como tema mais debatido em ascensores, cafés, e à mesa do jantar. O quão mal isto está, ou o já viste onde isto chegou.

Isto realmente já chegou a um ponto que... estou farto desta treta. Parece moda andarem de um lado para o outro a lamuriarem-se sobre coisas. Porra. Calem-se. Isto está mal. Já sei. O governo não presta. Vem aí o FMI. A oposição é pior. Estão a cortar-nos o salário. Estão a cortar-nos os apoios. Os impostos estão a subir. O desemprego está a aumentar. Não há condições de trabalho. estão a destruir a saúde e a educação. As crianças estão mais estúpidas. O Benfica não está a jogar nada.

Esta é uma excelente época para lamúrias.
Eu não tenho problema nenhum com lamurientos. Tenho problemas com frustrados lamurientos. É verdade que muitas coisas não estão brilhantes... Por exemplo, no barreiro, hospital distrital, não há hemoculturas para anaeróbios. Por exemplo. É uma coisa básica que falta. Mas isto não incomoda muita gente, excepto os desgraçados que tiverem sepsis por anaeróbios. E esses normalmente estão calados. E depois é só uma questão de uma pessoa ter sepsis pelo bicho certo. Também não é assim tão dificil...
O que incomoda, e com toda a justiça, é a baixa de salários, a desvalorização das horas extraordinárias, é a carga de trabalho para lá do razoável, são os bancos de 24 h sem saída de banco, é a falta de comodidade no trabalho.

Isso é que mobiliza as pessoas para fazer reuniões para discutir maneiras de lutar contra a situação. Foi isso que aconteceu a semana passada, no meu local de trabalho. Fez-se a reunião, e decidiu-se que era melhor não fazer nada. Porque as horas extraordinárias podiam estar a ser mal pagas, mas as pessoas têm que pagar contas... e manter um determinado estilo de vida. Por isso é melhor não enfrentar administrações. Greves então, nem pensar. Fazem azia. Sindicatos, vade retro. Nunca na vida. Que nojo. Esses charlatões não querem é trabalhar.

Assim, ontem tive o prazer de ver as coisas voltarem ao que deviam ser. Fomos todos almoçar, e dizer mal do governo, da administração, dos MGF's, dos doentes e do vizinho do lado. Bandidos. Querem é roubar. Chupistas.

Fazer alguma coisa... epa, o que é que nós podemos fazer?
Nada, claro. Nós somos alforrecas. As alforrecas não reclamam. As alforrecas ficam na areia a secar ao sol, até que vem um puto de 5 anos, obeso, espetá-las com canivetes que apanhou da areia.
As alforrecas são bichos simpáticos que habitam em cada um de nós.

Lembro-me de duas frases: ''a democracia é o único sistema que garante que nenhum povo tenha um governo melhor do que merece'', e outra, dita por um espanhol radicado em Portugal, que trabalha comigo: ''Mijam-nos em cima, e temos que acreditar que chove.''

Vivam as lamúrias.
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quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Primum Non Nocere

Existe este princípio ético que nos é inculcado durante todo o curso de medicina, que é o primum non nocere, que significa, basicamente "em primeiro lugar, não fazer mal".
É o princípio da não-maleficiência, de acordo com o qual a primeira preocupação para um médico será nunca prejudicar o seu doente.

Se pensarem bem no assunto, há qualquer coisa de perturbador nesta ideia.

Estão a dizer aos alunos de medicina, com muita veemência e muito ênfase, "Não façam mal aos doentes!!! Sobretudo não lhes façam mal! Preocupem-se sempre se não lhes estão a fazer mais mal que bem!"

Não deviam estar a dizer aos alunos de medicina: "Melhorem a vida dos vossos doentes! Ponham-nos melhores ainda do que estavam antes de ficarem doentes!"?

Eu sei que isto pode parecer idealista, mas consegue ser melhor que o realismo deprimente que é "Ao menos tentem não matar os vossos doentes!".

É como se um oficina de mecânicos, em vez de publicitar que "Pomos o seu carro como novo!", anunciasse orgulhosamente, com um sorriso e um piscar de olho, que "Prometemos que tentamos não destruir o seu carro!"

Que um mecânico não nos põe o carro pior do que estava está subentendido. A expectativa básica é que ele o conserte, o ideal é que o deixe melhor do que estava.

Anunciar, à partida, que não nos vão destruir o carro, não me parece uma boa estratégia publicitária.

É como os cartazes publicitários da Câmara Municipal de Lisboa que eu tenho visto pelas ruas ultimamente, que anunciam orgulhosamente que já não há esgotos não-tratados a desaguar directamente para o rio Tejo.

Ora se eu estivesse na Câmara Municipal de Lisboa e tivesse conseguido finalmente fazer com que não houvesse esgotos não-tratados a desaguar para o Tejo, o que eu definitivamente não fazia era anunciá-lo como se isso fosse o melhor do mundo! Calava-me muito bem caladinho com esperança que ninguém notasse que só agora é que isso tinha sido conseguido, e se alguém me perguntasse, respondia que não, nunca tinha havido esgotos não-tratados para o Tejo.

Se sentem necessidade de enfatizar Primum Non Nocere, isso dá a entender que acontece tantas, mas tantas vezes, um médico fazer mais mal que bem a um doente, que de facto se justifica fazer do Primum Non Nocere um dos pricípios éticos da medicina, e não o "Deixem o doente ainda melhor do que estava".

E isto não é especulação...

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segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

On the Road



Eu comecei a ler o On the Road sem saber bem o que esperar. Sabia que era um clássico da literatura americana do séc. XX, mas a verdade é que sabia pouco para além disso.

O livro segue as aventuras do seu narrador, Sal Paradise, enquanto este percorre a América de costa a costa várias vezes, na maioria das vezes acompanhado por Dean Moriarty, no fim dos anos '40.

Dean Moriarty é possivelmente a personagem mais irritante que eu já li até hoje. É irresponsável, inconsequente, impulsivo, incoerente, ininteligível a maior parte do tempo, um sacana cabrão que deixa os amigos apeados, inclusive o narrador, por várias vezes ao longo do livro.

E a história, se é que lhe posso chamar isso, progride bastante da mesma maneira: sem uma linha condutora, sem enredo ou tensão dramática. É só uma sequência aparentemente aleatória de desventuras que o narrador vai vivendo.
Desde andar à boleia, andar em vagões de mercadorias, engatar miúdas, tomar muita droga, meter-se em complicações enormes sempre à custa de Dean Moriarty, apaixonar-se, passar o livro inteiro quase sem dinheiro, e sobretudo viajar pela América profunda, encontrando dezenas de pessoas e histórias pelo caminho.

O livro consegue ter algumas passagens muito interessantes quando descreve as trips de ácido pelas quais o narrador passa, que são ainda mais confusas que o resto do livro.

Mas o livro não tem história, não tem nada que nos faça querer passar à página seguinte. E é enorme, foi quase um sacrifício acabar o raio do livro.

No entanto, o que o livro faz, e muito bem, é caracterizar a geração beat que anos depois viria a dar origem ao movimento hippy.
Vemos um conjunto de personagens que representam os beatnicks, que está a tentar descobrir-se, que está a encontrar uma identidade própria, e essa identidade é completamente diferente do resto da sociedade. As ideias de flexibilidade, hedonismo, paz com o mundo e muita muita droga estão presentes, bem como uma inocência que por vezes parece ingénua, mas que seria essencial à geração hippy.

Gostei do livro, mas definitivamente não o quero ler outra vez.

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quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Japão

Passado aproximadamente um mês da viagem ao Japão, e continuo sem conseguir sumarizar a experiência.
Estava à espera de ter um laivo de inspiração que me permitisse escrever um texto todo bonito e espirituoso, para me gabar de ter ido ao Japão.
Isso não aconteceu.

Penso na viagem, e imediatamente vem-me à cabeça Tokyo, com 10 milhões de pessoas embaraçadas por terem de viver tão próximas umas das outras. Lembro-me de Shibuya, com os néons e os prédios com fachadas que passam vídeos e as meninas a gritarem "Sumimasen!" incessantemente. O mercado de peixe de Tsukiji, com mais peixe do que eu conseguia imaginar que existia, e de comer sushi às 8:30 da manhã num restaurante de rua. O parque de Hana Rinkyu, com os pinheiros manicurados e as paisagens planeadas. Fazer karaoke em Roppongi. Ir a um banho público em Asakusa.

Depois Nikko, que é do mais diferente de Tokyo que se pode imaginar, com pontes sagradas, o mausoléu do Tokugawa com um gato sobre-valorizado e embriagar-me com Sake

Kyoto, andar de bicicleta pelo bairro das geishas com casas centenárias, ser entrevistado por miúdos japoneses da primária, e um dos momentos mais perfeitos da minha vida quando estive no templo Shoren-In, com o sol a pôr-se.

Ir ao Monte Koya, e passear por um cemitério cheio de campas cobertas por musgo, até anoitecer.
Miyajima, onde estive num hostel gerido exclusivamente por homossexuais, vi um Torii flutuante, subi a uma montanha e aprendi caligrafia.

Lembro-me de estar em Hiroshima, na fachada de um dos poucos edifícios a sobreviver à bomba, e de sentir um genuíno, literal, arrepio pelas costas abaixo.

Um vulcão activo, no Monte Aso, e comer bolos e ver anime noite dentro com um japonês bêbedo.

Conversar com um monge budista em Nagasaki, fazer festas a tubarões em Osaka, apanhar chuva e neve em Kanazawa, fazer snowboard em Hakuba.

Todos estes momentos aglomeram-se na minha cabeça, a acotovelarem-se, a tentarem vir à superfície.
Mas são demasiados, são todos demasiado bons, demasiado deliciosos para ter na cabeça ao mesmo tempo. Surgem-me desorganizadamente e provavelmente nunca os vou conseguir digerir todos.

O que significa que o Japão vai ficar sempre à beira da minha consciência. Como quando nos lembramos de algo que sonhámos na noite anterior e tentamos lembrar-nos do sonho, apenas para ele se escapar por entre os dedos, e ficarmos apenas com imagens soltas e o eco emocional que deixou.

Este não é um texto bonito ou espirituoso.
Mas eu tinha de escrever alguma coisa acerca do Japão e, sinceramente, acho que isto é o melhor que consigo fazer.

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quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Mammuth

Este filme foi só estranho... Ainda não sei o que pensar dele. Talvez nunca venha a saber.

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segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

First Day

Hoje um dia começou outra vez. Segundo muitos um dia importante. O primeiro dia de trabalho. Por isso, levantei-me e pus-me a caminho para Torres Vedras. Somos um grupo de 24 de recem-graduados, que foram recebidos como heróis locais pelo pessoal hospitalar.

Depois de uma recepcção calorosa da direcção hospitalar, dei por mim a receber um cafesito distribuido pela Directora clínica e a comer bolinhos que ela lá tinha. Tirámos a bela da foto de grupo e levaram-nos a conhecer o hospital.

Às 15h estava a caminho de casa. Feliz e contente. Hoje durmo em frente ao mar, amanhã entro às 9h e … os meus bancos são só em dias uteis. ;)

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sábado, 25 de dezembro de 2010

Feliz Natal

...antes da enxurrada de posts sobre o Japão, aqui fica o post comemorativo do Natal, ao estilo do Pataniscas:

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domingo, 5 de dezembro de 2010

Sake

Lembram-se do que vos disse no outro dia?

Estivemos este fim de semana em Nikko, que é uma cidadezinha com um grande complexo de templos, situada a 140 quilómetros a norte de Tokyo.
O principal templo é o do túmulo do Tokugawa Ieyasu, que unificou o Japão, iniciou toda uma nova dinastia e fechou as fronteiras do país durante cerca de 250 anos.

Mas o que realmente interessa é que hoje eu e o Ricardo decidimos que íamos comprar uma garrafa de Sake.
Estamos no Japão, em viagem, precisamos de sake. Tão simples quanto isso.

Já tínhamos feito uma experiência anterior, mas que não correu tão bem, porque bebemos alguma coisa que parecia vodka ou anti-congelante.

No entanto hoje fomos a uma lojinha de bebidas local, entrámos um bocado a medo porque aquilo parecia tudo muito caro. O dono da loja, como todos os lojistas, cumprimentou-nos quando entrámos, e fomos à procura de uma garrafinha.
Encontrámos uma pequenina a 390 yens e fomos pagar.

Depois pedimos ao homem que nos mostrasse copinhos de beber sake, e ele mostrou-nos uns pequeninos de porcelana brancos com umas letras azuis no fundo.
Eu perguntei-lhe "ikura deska?", que, disseram-me, significa "quanto custa?".
O homem parece pensar 2 segundos, abre-se num sorriso enorme e diz "present!".

Então eu aponto para um segundo copo, levanto dois dedos e volto a perguntar "ikura?". Ele pensa mais um bocado e repete "present!"

Resultado: eu e o Ricardo, estamos, neste momento, a beber sake em copos oferecidos por um japonês, em Nikko e a planear a viagem para Kyoto amanhã.

Não sei se isto compensa completamente meses de Harrison, mas estamos definitivamente no bom caminho.

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quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Tokyo

...é uma cidade gigantesca.

Maior que qualquer cidade que já tenham visto. Maior do que possam imaginar.

E tem milhões de pessoas. Em comboios, em escritórios, em escolas, em centros comerciais. Pessoas que se acotovelam e apinham, sempre muito delicadamente e silenciosamente.

Milhões de pessoas extremamente sozinhas. Sem falarem umas com as outras nos transportes públicos, nas ruas quase sempre a andar sem companhia.

A massa de pessoas é tão grande que se torna inindividualizável, sem cara, despersonalizada. Não é possível uma pessoa relacionar-se com a massa humana. Então as pessoas retraem-se e ficam no seu espaço pessoal sem dele saírem.

Mas quando falamos com elas, desfazem-se em amabilidade e simpatia. Mostram interesse genuíno, sorrisos sinceros, partilham uma piada se a entenderem.

Tokyo, apesar dos seus enormes arranha-céus, dos néons futuristas, dos templos e jardins perdidos no meio da urbe, é uma cidade carente de afecto.

Demorei a perceber que era isso que caracterizava esta cidade, mas é de facto isso.

All the lonely people, where do they all belong?

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quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Epilogo - Vemo-nos em Tokyo

Segundo dia depois do Harrison. E consigo ver o dia acabar sem pensar em nada de especial.
A vida costumava ser assim.

Lembro-me do dia em que acabamos medicina 2 na gastro. Saímos do hospital eufóricos metemo-nos no carro e eu conduzi furiosamente até carcavelos para enfiar os dedos dos pés na areia. Acabou. No caminho fizemos um epilogo para cada um de nós. Como se o filme tivesse acabado, e estivesse na altura de dizer ao espectador brevemente o que aconteceu a cada personagem.

He walks into the curve, waves back, and fades, in an Autumn afternoon...

Já me sentia a desaparecer há algum tempo. Nos dias em que estive sozinho na fml a estudar rodeado de crianças a fazer trabalhos, a contornarem-me como se eu já lá não estivesse, a ignorarem os meus olhares reprovadores ao barulho que estavam a fazer. Já não pertencíamos ali. Éramos como emigrantes retornados à terra 40 anos depois, sem contactos pelo meio. Estava tudo ali, mas era como se nada fosse o mesmo. O mesmo que começou a aplicar-se às olimpíadas, meses antes.

Claro que sei que este não é o fim da linha, mas é o fim de alguma coisa. O início do fim de uma infância/adolescência demorada, sem dúvida. Ano a ano, o mundo torna-se cada vez mais real. As nossas personalidades estão cada vez mais cristalizadas. Nós vamos ser assim.
Ontem, no juramento oficializaram a coisa. Parabéns, disseram-nos. Vocês já não são o futuro.
Ninguém pode viver para sempre na Terra do Nunca.

Agora deixo de ser o sidekick ao lado do doutor que põe em causa cada decisão que ele toma, para começar a tomar eu mais decisões. E fazer as minhas asneiras, de certeza.
I'm sure we'll have fun.

Pelo meio ficaram milhares de memórias. Umas mais interessantes, a maioria aborrecida. As minhas, as nossas memórias. Isso é que interessa.
O que interessa é que cantámos o white rabbit e o american pie, nos intervalos da chuva.
E conseguimos ver a letra.

.
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terça-feira, 23 de novembro de 2010

The Walking Dead



Sempre fui fã de zombies.

O primeiro filme de zombies que me lembro de ter visto foi o Night of the Living Dead de 1968, do George Romero.
Tinha 11 anos, e vi-o num especial de Halloween da TV5 que apanhava na parabólica (ainda se lembram quando havia antenas parabólicas?).
O filme meteu-me medo!!!
Mas medo a sério!

Já antes eu tinha visto filmes assustadores, mas eram sempre os sustos de gato-atirado-à-cara...
O filme começa de uma maneira brilhante, com dois irmãos num cemitério a discutirem, enquanto uma figura cambaleante em plano de fundo se vai aproximando cada vez mais deles até que subitamente os ataca.
A ameaça não é uma surpresa. Este à vista o tempo todo, foi sempre ameaçadora ou pelo menos estranha, e inevitavelmente, por muito que nos tenhamos arrepiado e querido fugir, cai-nos em cima.

Para 1968 era uma forma bastante original de criar terror e suspense, e acagaçou-me brutalmente quando eu tinha 11 anos.

Desde então que é o único género de terror que ainda me consegue meter medo num nível primário. Quando tenho pesadelos, são com zombies.

Fiquei viciado em zombies.

Tenho visto todos os filmes de zombies a que apanho mão. Bons, maus, não interessa. Se são zombies eu tenho curiosidade em ver.

Tenho visto coisas excelentes (28 Days Later, Shaun of the Dead) e outras bem mázinhas (Diary of the Dead).

Uma das melhores coisas com zombies que encontrei nos últimos anos foi uma banda desenhada chamada The Walking Dead, escrita pelo Robert Kirkman.




É particularmente boa, porque para além do facto de nos pedir para aceitar que aconteceu um Apocalipse Zombie, tudo o resto é uma progressão lógica de acontecimentos, que segue um grupo de sobreviventes à medida que estes tentam... sobreviver.
As personagens são todas extremamente complexas e vão-se tornando mais profundas à medida que passam experiências traumáticas (raramente até provocadas pelos zombies).

A banda desenhada tem um estilo gráfico muito próprio, a preto e branco, muito sangrento e peçonhento, sem no entanto deixar de parecer uma banda desenhada.



Recentemente, a BD foi adaptada para série de televisão.



A série está muito bem feita, sendo invulgarmente fiel à banda desenhada, e com um casting excelente!




Deixo-vos com um trailer:



E, por incrível que possa parecer, o Night of the Living Dead, de 1968, na íntegra.
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domingo, 21 de novembro de 2010

Prioridades


Só para despachar as coisas importantes, o meta-Deus Héh Rhy-Söhn foi mais uma vez aplacado com o sacrifício de centenas de almas, e provavelmente não come o nosso universo durante mais um ano.

...

Imaginem um jovem. Um rapaz ou uma rapariga de uma determinada idade, entre os 10 e os 18 anos.
Este indivíduo jovem, no início da vida, tem imensas qualidades e características e idiossincrasias, mas para este exercício de pensamento basta-nos saber duas: é razoavelmente inteligente e razoavelmente bom a memorizar coisas.

Agora imaginemos que por qualquer razão este jovem se dedica aos estudos. Uma razão qualquer... seja porque os outros meninos foram cruéis com ele e ele decidiu que preferia ficar a estudar em vez de ir brincar, seja porque a mãe o sobre-protegia e ele ficava mais tempo em casa ou simplesmente porque era míope e por não conseguir ver tão bem à distância não era bom a jogar à bola e por isso preferia ficar em casa a estudar.

"Um bom empreendimento" pensará o leitor "ao menos não se meteu nas drogas!".

Este jovem dedica-se aos estudos, é inteligente, lê coisas, tem interesses mais intelectuais e eruditos que a média. Tem boas notas, tem sucesso na escola, os professores dizem boas coisas dele, os pais ficam todos orgulhosos e encorajam-no, a família fica orgulhosa e com uma ponta de inveja, porque os seus próprios filhos querem é jogar computador e jogar à bola e fumar umas ganzas.

O nosso jovem não, o nosso jovem é trabalhador e dedicado. Durante toda a adolescência vai investindo tempo no estudo, que podia ser usado a socializar, a aprender a relacionar-se com os outros, a explorar as suas emoções, a aprender a empatizar, ou muito simplesmente a masturbar-se (até isso seria mais saudável).

Entra na faculdade, para um qualquer curso de topo, prestigiante e com estatuto. Do tipo de curso onde nas primeiras aulas do ano, os professores dizem coisas como "vocês são a elite do país" e outras parvoíces do género.

Na faculdade o trabalho é mais exigente, é preciso dispender mais tempo e energia, fazer mais cedências das coisas de que se gosta. Talvez o nosso jovem gostasse de ver filmes, ou ler livros, ou tirar fotografias, ou sair à noite, ou masturbar-se.
Mas agora está na faculdade e tem de trabalhar e essas coisas pode fazê-las depois, porque agora o importante é estudar.

Até porque à volta dele há tantos outros como ele que trabalham tanto ou mais que ele, e estudam tanto ou mais que ele e que até (gasp!) têm notas melhores que as dele! Ele agora tem mesmo de estudar.

Há uma coisa engraçada acerca dos interesses... toda a gente pensa que os passatempos e os gostos e o divertimento é uma coisa na qual se cai naturalmente se não nos disciplinarmos a trabalhar.
Mas isso não é verdade. Os gostos e os interesses precisam de dedicação e amor e carinho como qualquer outra coisa. Se não os tiverem... definham, ressecam-se e depois morrem.

Quando o nosso jovem um dia chega a casa e já trabalhou tudo e já estudou tudo, e finalmente hoje tem tempo livre pode então... hum... pode... nada.
Descobre, talvez sem grande surpresa e com uma ponta de tristeza que não tem realmente nada para fazer. Já não têm interesses. Já não tem coisas que o entusiasmem.
Então o que é que vai fazer? Vai estudar um pouco mais! Assim até pode ter melhor nota!!!

E então o nosso jovem acaba o seu curso! Acaba-o com uma grande média, não tem dificuldade nenhuma em encontrar emprego e vai para um lugar de renome e estatuto.
E lá encontra outros como ele, ainda mais competitivos.
O que é que ele faz? Vai dedicar-se ainda mais ao trabalho, até porque não tem nada de mais interessante para fazer.

E este homem (entretanto já cresceu) é completamente vazio. Não tem interesses, não tem paixões, não tem personalidade.
E no entanto por ser excelente no que faz é considerado um exemplo para a sua geração. As mulheres querem-no e os homens querem ser como ele.


Digo-vos... como este exemplo eu conheço dezenas. Pessoas a sério, da minha faculdade. Tipos vazios, desinteressantes, frios, que não sabem o que é que andam cá a fazer. Mortos por dentro.

É triste, a sério que é.

E será que alguma vez tiveram escolha? Será que era tão simples como alguém se ter apercebido que o puto era míope e terem-lhe arranjado uns óculos para ele poder ir jogar à bola?

O que houve definitivamente foi um momento em que se lhes deparou a escolha entre priorizarem o divertimento e priorizarem o trabalho.

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terça-feira, 16 de novembro de 2010

Isto não está morto!!!

O blog não está morto!

O mesmo não se pode dizer dos seus escritores, que por esta altura daqui a duas noites estarão prontos a comer cérebros.
Provavelmente os seus, mas quem é que está a prestar atenção.
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segunda-feira, 8 de novembro de 2010

A Teoria dos Círculos

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