O Wes Anderson é um génio do cinema e um dos realizadores actualmente que melhor utiliza a linguagem visual nos seus filmes.
As simetrias perfeitas, as grandes angulares, as composições invulgares das cenas.
Em todas as coisas a atenção ao detalhe é assombrosa.
No seu filme mais recente, o The Grand Budapest Hotel, não pude deixar de reparar no seguinte.
é um filme sobre frames
Ou seja...
a narrativa está framed/emoldurada
começa com uma jovem num país de leste a ir visitar o busto de um herói nacional, que numa entrevista conta uma história, uma história de como quando era novo encontrou o dono do famoso Grand Budapest Hotel, o dono do Grand Budapest Hotel conta a história da narrativa propriamente dita, e no fim do filme a narrativa propriamente dita é terminada pelo dono do GBH, comentada pelo escritor jovem, concluída pelo escritor velho no fim da entrevista, e depois a jovem afasta-se do seu busto.
o filme muda constantemente o seu aspect/ratio, ou seja, o frame/moldura da imagem
As mudanças narrativas são pontuadas com mudanças subtis de um formato de 16:9 para um de 6:4
a história é sobre um retrato numa moldura/frame
A narrativa centra-se à volta de um retrato que foi roubado
e sobre uma personagem que está a ser tramada/framed por um crime que não cometeu
...
Portanto isto tudo só para chamar a atenção ao facto de que o Wes Anderson é um dos génios mais sub-apreciados do cinema actualmente.
Porque é que vocês se andarem a encharcar voluntariamente, e vestidos, ajuda os doentes com esclerose lateral amiotrófica?
Qual é a relação entre as duas coisas?
Porque é que gastar 50 litros de água, e apanhar uma pneumonia ajuda os outros doentes? É uma mostra de solidariedade? É promessa que vão ocupar a cama de hospital ao lado do desgraçado com esclerose lateral? É por serem famosos? E o parvalhão do meu vizinho, para que é que eu ando no facebook, a ver o video dele a tomar banhos gelados?
É capaz de ajudar num sentido: a mulher dele não quer nada com ele há algum tempo, e dizem que os banhos gelados acabam com o tesão de mijo à velocidade da luz. (peço desculpa pela falta de nível)
Se eu fosse famoso e quisesse ajudar, dava era um banho a um doente com esclerose lateral, que o desgraçado não se consegue mexer, quanto mais esfregar as costas. Ou então pagava a uma enfermeira atraente para lhe dar um banho de esponja.
Isso é que ajuda um gajo! Perguntem aos doentes com esclerose lateral!
Eu proponho o desafio de tirar macacos do nariz e colá-los nas sobrancelhas, para ajudar os doentes com queda de cabelo. Nomeio o Ronaldo, o Ministro da Saúde, e uma gaja boa que vi numa novela ontem, que agora não me recordo do nome. Força gaja boa!
This is a song that onyrically takes you through the dream-like perspective of a person who's realized that people care way too much about mundane things.
Note that the song starts with "Let me take you down, cause i'm going to Strawberry Fields"
He's not taking you down to Strawberry Fields, he's taking you down, meaning taking you down a peg and getting you feeling low and blue (as in "i'm feeling down"), because he's going to Strawberry Fields.
Nothing is real, there are no really important things, it's all an illusion, a construct of our mind's attempt to make sense of it all and impose structure on events outside our control, There's really nothing to get hung about, because it's all strawberry fields forever.
Living is easy with eyes closed, if you obstinately refuse to see that it's all in the mind, if you refuse to see the real value of stuff, and making attributions and giving value to stuff that's really not worth all that much, misunderstanding all you see.
It's getting hard to be someone, to make a name for yourself, to make yourself feel and seem important in society, it's hard to be someone of note and importance, but you know what, it all works out either way.
It doesn't matter much to me, you know, all that running around trying to be someone.
No one i think is in my tree, not many people are with me on this or think the same way i do, because you can't have both, you can't care and not care, it must be high or low, you can't just tune in when you want to, you have to either know or not.
But it's alright if you don't. At least i think it's not too bad. Nothing really matters anyway.
So let me take you down, let me take your mind down, your expectations down, let me release you from that daily bustle, and just come with me to strawberry fields, because nothing is real, and there's really nothing to be hung up about, there's just endlessly stretching strawberry fields. It's all good, if you just learn to relax.
And i know you always think this is just me talking. Or rather, you sometimes think this is just me talking, there are moments where you do wonder if i'm right.
But you know what? I do know the difference between the rambling flow-of-thoughts that takes me down through these ideas, I know when it's a dream.
In all the confusion and absolute relativity of it all, all i can safely say is: i think that all these things i know, they mean a resounding "yes", it is all relative, it is all for show, you can let it down, you can not care that much.
But then again, it's all wrong, all of these things i'm saying could just be plain wrong.
But no, there's no right or wrong, you're not right and i'm not right. All i know is that i disagree with your worldview.
So let me take you down, cause i'm going down and i'm going to free-flow my thoughts, i'm going to listen to music and enjoy life and smoke drugs and release my mind, and go to that child-like fascination of the world, as if i'm just walking through endless fields of Strawberry Fields, just waiting to be picked, in immeasurable beauty, where nothing is real, and there's nothing to get hung up about.
from Wikipedia:
Strawberry Field was the name of a Salvation Army children's home just around the corner from Lennon's childhood home in Woolton, a suburb of Liverpool.[9] Lennon and his childhood friends Pete Shotton, Nigel Walley, and Ivan Vaughan used to play in the wooded garden behind the home.
A premissa da narrativa é de que esta é a aventura imaginada de uma criança de oito anos e meio que está a brincar com os seus legos. Lembram-se de como a sequência de acção no início do Toy Story 3 é realmente uma interpretação das aventuras que a criança imagina no início do Toy Story 1? Toda a narrativa do Lego Movie é também a interpretação de uma aventura imaginada por uma criança. Mas está tão bem escrita e assume a sua infantilidade de forma tão aberta, que se poderia perdoar ao espectador não notar isso.
A narrativa consegue criar uma crítica a uma sociedade que está cada vez mais normalizada e conformada consigo mesma, na qual toda a gente se rege pelas mesmas instruções e toda a gente gosta das mesmas coisas que as corporações nos mandam gostar, e as pessoas que não se enquadram com isto são de alguma forma postas de lado. É uma história acerca do conflito incessante entre ter uma individualidade própria que seja um reflexo das ideias e convicções e personalidade de cada um e a pressão tremenda para ninguém se desviar muito da norma, porque quando isso acontece o Papão zanga-se.
Mas também uma história que tem como tema central a auto-estima e o auto-valor. Pode parecer cheesy e demasiado feito, mas todos os filmes são sobre o under-dog e sobre como o under-dog vence todas as adversidades e dificuldades para vir salvar o dia.
Todos nós nos identificamos com o under-dog, todos nós SOMOS o under-dog das nossas histórias pessoais, e esta história é sobre o under-dog mais underdog de todos.
A personagem central do Emmet é aquela que é mais genérica, os outros ainda têm salsichas grandes ou patilhas ou gatos, mas o Emmet não tem nada que o distinga.
Ele esforça-se imenso por seguir as instruções sociais, e as normas e convenções do mundo à sua volta, porque foi assim que lhe ensinaram que devia ser, porque lhe disseram que se fizesse isso, ia ter amigos e ser aceite e ser gostado pelas outras pessoas.
Mas descobre que fez isso tão bem tão bem, que se tornou absolutamente genérico e indistinguível de toda a gente. Tanto que ninguém repara nele, que ele se tornou absolutamente secundário na vida de toda a gente e que ninguém realmente se importa com ele o suficiente para sequer se lembrar claramente dele.
E isto é um medo tão transversal a todas as pessoas. É um medo muito fundamental, muito primário, de que se fala pouco, mas é absolutamente central à construção da personalidade de qualquer pessoa. Todos nós precisamos de sentir que somos especiais e únicos de alguma forma, mas não só a sociedade nos pressiona a gostarmos todos das mesmas coisas, como nos diz que ser demasiado diferente é mau, e deixa-nos sozinhos a tentar perceber o que é que significa realmente "demasiado diferente". Por medo tendemos a pecar por excesso de precaução, e escondemos o que nos torna únicos, correndo a consequência de deixar de ter o que quer que seja que nos torne especiais.
E não há coisa mais importante para uma criança do que sentir que é especial.
A narrativa do Lego Movie é exposta pela perspectiva de uma criança. E aquilo que as personagens dizem acerca do The Special, uma figura messiânica que vem salvar o mundo da conformidade forçada, é que ele é a pessoa mais criativa, mais interessante, mais importante e melhor do mundo.
Que parece, e é, o discurso interno algo infantil de uma criança. É a fantasia de qualquer criança sentir-se dessa maneira. Ver os seus amigos e as pessoas que gostam dele a pensarem e a dizerem isso dele. É uma fantasia que a criança quer sentir e ambiciona imenso experienciar, mas que já sabe que é rara na vida, e então arranja um bonequinho de lego, o mais genérico e desinteressante de todos, para se representar a si mesmo, e cria-he uma aventura fabulosa na qual o bonequinho se transforma naquilo que a criança gostaria de ter para si mesma.
Mas a verdade é que este diálogo interno de "eu sou bom, eu sou importante, eu sou interessante, eu tenho valor, eu não sou menos que os outros" é o diálogo interno que cada um de nós, no seu íntimo, tem de fazer obrigatoriamente todos os dias para não entrar em depressão!
Quais fantasias sexuais e fetiches estranhos, é muito mais fácil uma pessoa admitir que tem esses do que admitir que o que gostava mesmo era que os amigos achassem genuinamente que ela era mesmo uma pessoa muito muito porreira e interessante.
Portanto o Filme Lego é uma história sobre esses medos muito primários que subsistem em nós, adultos, sobre a forma como são experienciados por uma criança, e a maneira como essa criança sublima esses medos na pele de um bonequinho lego para quem imagina uma aventura que comprova a esse bonequinho todas as coisas que a criança gostaria de ver comprovadas em si.
E como é uma coisa apresentada de forma infantil, para crianças, para nós adultos é mais fácil vê-la e aceitá-la. Se a mesma história fosse contada de forma diferente, acerca de um adulto de 30 e tal anos num emprego mediano, seria uma lição demasiado próxima, demasiado reveladora e difícil de engolir.
Mas como é com uma criança está tudo bem. Posso ver a história, aceitá-la, sentir-me bem comigo mesmo e ainda assim dizer a mim mesmo que na realidade não tenho aqueles medos todos, que não sou assim tão frágil. A própria história fornece as ferramentas para podermos sentir-nos bem com ela e ainda assim protegermos o nosso próprio ego.
E é isto que acontece à figura do Pai, no fim do filme, que através do que percebe que o filho está a sentir, vê em si mesmo os seus erros, sem ter de os admitir abertamente, e por causa disso redime-se e muda os seus hábitos, aumentanto a sua felicidade e a do seu filho.
E faz isto tudo usando exclusivamente peças de lego animadas por computador, num filme maravilhosamente bonito, divertido e engraçado.
Com peças de Lego, porque as crianças brincam com peças de Lego, porque as peças de lego permitem fazer tudo o que se queira, sem limites para além dos da imaginação.
I know, what're ya gonna do? It's this or nothing else, so you might as well enjoy it.
Guardians of the Galaxy is fun, its entertaining, it does a LOT of things right. And it does that by following some central ideas that have proved to be very successful. These ideas are the kind that fuels every single story, they get repeated because they are good. These ideas are called tropes.
Guardians of the Galaxy is as successful as it is, because it is borrowing some very old tropes, and very much the same tropes as the already, very successful The Avengers
You see. Guardians of the Galaxy, is basically The Avengers in SPAAACE.
There are many other aspects, but i'll talk about the main characters.
They're both Five-Man Bands composed of mismatched outcasts who are reluctantly put together to fight a Big Bad to prevent a catastrophic event from destroying their worlds. They bicker between themselves at first but are eventually united by The Power of Friendship.
Star-Lord, Peter Quill - Captain America, Steve Rogers
Both are the central characters, both are the heart and leader of the team, both are displaced in time with references and jokes made at the expense of their outdated taste, both are slightly goofy but kindhearted. Both were weak fragile younsters who against all odds became extremely competent and confident. Both are normal human beings, at the top of their game.
Gamora - Black Widow
Both are highly skilled and deadly assassins with a shady past and a suggestion of a cruel training as children. Both serve as sidekick to the Leader and as suggested but never accomplished love-interest. Both, despite their professional and cold outward demeanor, actually do care deeply about the morality of their actions.
Rocket Racoon - Iron Man
Godamnit even their godamn names are paralel, one is a man in iron, the other is a raccoon on a rocket. They are both reluctant users of implanted technology (Rocket is a cyborg), but use it to their advantage, both are technical geniuses able to build complex machines with a tendency to assemble powerful weapons. Both are thee short tempered, manic one-lining sarcastic of the group. They're even both short and furry.
Drax - Hulk
What? Two characters who are loquacious, socially awkward, don't pick up on social clues, and both are endowed with great durability and physical strength while having do deal with issues of anger and restraint?
Grooth - Thor
The magical, kinda dumb, honour-bound brave-hearted big guy. Extremely tough and powerfully strong, definitively the toughest guy in the fight and flatly valiant and corageous. The mystical/magical element of the group, both could have come straight from a fairy-tale. Both are even royalty (Groot in the comics is a monarch of his tree-people).
Toda a gente tem falado do Good Will Hunting, e do Dead Poet's Society, e do Hook, e do Mrs. Doubtfire, que são sem dúvida excelentes filmes, possivelmente os melhroes filmes dele.
Vou falar de filmes dele que correm o risco de serem esquecidos:
Uma comédia negra, com uma história muito estranha sobre um tipo desenquadrado a tentar ter uma vida nromal, cheia de personagens secundárias bizarras, entre elas a Glenn Close e o John Lithgow.
Um filme dramático, profundamente triste, sobre um neurologista que descobre que doentes catatónicos podem melhoar, com uma das interpretações mais discretas do Robin Williams, e uma das melhores do Robert DeNiro.
Este filme dominou a minha infância. Sobre o dono de uma fábrica de brinquedos que não quer deixar corromper o seu sonho. Um dos filmes com a imagética mais bonita e criativa de sempre.
Um filme de espionagem com o Bob Hoskins, a Patricia Arquette, o Gérard Depardieu, um Christian Bale muito novinho, e o Robin Williams a fazer uma personagem secundária absolutamente intensa e arrepiante.
E desta forma o Pataniscas Satânicas se torna num blog de música.
Cheguei a estes gajos, os Glitch Mob, começando na banda sonora do Blade Runner, para a banda sonora do Deus Ex, para a banda sonora do Tron, para a banda sonora do Portal 2.
E já agora, porque descobri que era possível fazer isto, uma playlist de música Cyberpunk.
Dois dos melhores livros que já li na minha vida são banda desenhada (Watchmen e The Sandman, para quem está a contar), e tenho dificuldade em ver filmes dos X-Men porque eles mudam pequeninos pormenores acerca das personagens e da continuidade para facilitar a escrita dos screenplays.
Da mesma forma sou um grande fã dos filmes da Marvel, geralmente chamados de Marvel Cinematic Universe (MCU), que apresentam de uma forma global estas pequenas alterações e desvios do material original. Estes filmes são de uma forma geral muito bem feitos, consistentemente divertidos e com personagens fortes.
Não são filmes com profundos significados ou devaneios estilísticos revolucionários, não são obras de arte da produção cinematográfica, mas daqui a 20 ou 30 anos vamos ter uma geração cujas bases cinematográficas serão fortemente baseadas nos filmes da MCU da mesma maneira que gerações anteriores foram influenciadas pelo Star Wars, pelo Indiana Jones ou o Back to the Future.
E isso é uma coisa boa, porque estes filmes são muito bons.
Mas a Disney/Marvel está a fazer uma coisa especial, que nunca foi feita antes na história do cinema: está a construir o maior e mais complexo universo cinemático/televisivo desde sempre.
O MCU já conta com 17 títulos entre filmes, curtas metragens e uma série televisiva, e estão planeados mais 13 filmes até 2019. Todos estes filmes tomam lugar dentro do mesmo universo, com as personagens de uns a aparecerem nos filmes dos outros, com os eventos de uns a condicionarem os eventos dos outros, com as narrativas todas de alguma forma interrelacionadas.
Até a série televisiva Agents of Shield, com 22 episódios, tem a sua narrativa intimamente ligada aos eventos dos filmes que vão sendo lentamente estreados no cinema. Mas o Agents of Shield merece um post só para falar da série, e não é este.
Todo este universo cinemático, que vai buscar alguns dos melhores aspectos das bandas-desenhadas, está lentamente a crescer, a evoluir. Os primeiros filmes eram mais fraquinhos, mas não podiam deixar de o ser. Serviram apenas para construir as bases do que viria a seguir, para introduzir personagens que vão crescer e para nos apresentar uma narrativa que está consistemente e inexoravelmente a ganhar velocidade, ritmo e a avançar para eventos que parecem vir a ser climáticos.
O Guardians of the Galaxy é só mais um destes filmes.
Comentários ao Guardians of the Galaxy:
- a história começa demasiado depressa, temos pouco tempo para nos habituarmos às personagens, muitas das quais, sobretudo o vilão, têm motivações quase inexistentes.
- apesar disso é uma história sólida, com um ritmo fantástico, muito muito divertida e satisfatória
- as personagens centrais são fabulosamente divertidas e interessantes, e apesar de serem quase completamente desconhecidas, tornam-se imediatamente gostáveis
- os diálogos são cómicos, estranhos e invulgares para este tipo de filme,
- tem algum do melhor CGI que eu já vi no cinema, o filme é visualmente lindo e impressionante
- a banda sonora é fantástica e ajuda a tornar familiar um filme em que quase todos os elementos são bizarros/desconhecidos
- foi realizado pelo James Gunn, que já há anos anda a realizar coisas associadas à Troma e filmes estranhos de super-heróis, e isso nota-se
Estou a falar do conflito entre a Amazon e a Hachette.
VS
Provavelmente já ouviram falar da Amazon, gigante das vendas online, mas provavelmente nunca ouviram falar da Hachette, uma das cinco maiores editoras dos EUA, pertencente à maior editora francesa que é a terceira maior editora do mundo, que detém os direitos de livros de autores como Stephen Colbert, Emiliy Dickinson, Christopher Hitchens, Martin Luther King, Nelson Mandela, Stephenie Meyer, J.D. Salinger e Nicholas Sparks.
O que é que acontece, então?
Acontece que os e-books são o futuro.
Sim, sim, eu sei, vocês gostam de mexer nas páginas e ter o livro nas mãos e gostam do cheiro do papel, e essa snobice pretensiosa toda.
Não estou a dizer que estão enganados, essas coisas são de facto agradáveis.
Mas eu sou um snob pretensioso e sei reconhecer snobice pretensiosa quando a ouço e isso são tretas snobs e pretensiosas, portanto calem-se.
Os e-books são o futuro. E a Amazon vende muitos e-books.
E, ao que parece, é muito muito fácil vender produtos digitais online. Basta ter um único ficheiro de meia dúzia de kilobytes guardado num servidor qualquer, as pessoas transferem uma quantidade relativamente enorme de dinheiro e podem fazer download do ficheiro.
Sem custos de impressão, de transporte, nada. Depois de comprar o direito de vender o livro, tudo o resto é quase 100% lucro.
Outra vantagem muito grande de ter uma plataforma online de venda de produtos digitais, é que é muito muito fácil brincar com preços e promoções e saldos. Basta ir à base de dados e alterar os preços. Tão simples como isso.
Isso permite uma grande flexibilidade e um grande poder de manipulação do mercado, permite adaptar com grande fineza os preços às procuras dos compradores.
Tem funcionado ás mil maravilhas para a Steam, por exemplo.
O problema foi que a Hachette não achou piada que a Amazon andasse a brincar assim com os preços dos seus livros. Exigiram mais controlo sobre os preços. Provavelmente exigiram uma maior percentagem dos lucros.
Imagino que a conversa tenha corrido mais ou menos assim:
Hachette - vocês não podem mexer assim nos preços dos nossos livros!
Amazon - claro que podemos! somos a Amazon, fazemos o que quisermos! voltem para as vossas prensas móveis, imprimir bíblias do Gutenberg, enquanto nós definimos o futuro.
Hachette - ai é? olhem que se não fizerem o que mandamos, não vos deixamos mais vender os nossos livros!
Amazon - ok, vamos deixar de vender os vossos livros.
Hachette - óptimo! Isso - não! esperem, o quê?
E não foi só tornarem indisponíveis para venda livros da Hachette, porque a Amazon percebe como as pessoas na internet funcionam. A amazon tornou mais lenta a expedição de livros da Hachette, tirou o botão de pré-venda dos livros da Hachette. Basicamente começou a irritar os compradores.
Perderam dinheiro, mas a Hachette perdeu ainda mais.
Outro grupo de pessoas que ficou irritado foram os autores. Aquelas pessoas que precisam que os seus livros sejam vendidos para comerem ao fim do mês.
A Amazon fez a seguinte proposta: enquanto durasse esta disputa legal entre a Amazon e a Hachette, os autores da Hachette receberiam 100% dos lucros da venda dos seus livros.
KA-BLAM!!!
A Amazon acabou de oferecer aos autores mais lucro do que alguma vez eles tiveram com a Hachette.
Obviamente alguns autores não gostaram, vieram dizer que não querem ser usados na guerra, mas isso é inconsequente.
Alguns autores, muitos, provavelmente, vão aceitar. Porque dinheiro.
E vão passar a escrever directamente para a Amazon, cortando um intermediário, que lhes vai dar mais dinheiro do que eles recebiam antes, o que os vai motivar a escrever mais livros.
E isso é bom.
A não ser é claro que a Amazon consiga um monopólio da venda de livros, e os monopólios nunca são coisas agradáveis, mas isso, mais uma vez, também é provavelmente inevitável.
Fui hoje operado. Não se preocupem as minhas legiões de fãs, estou bem, de tal maneira que estou de perna cruzada na minha cama de hospital a escrever acerca do assunto.
Nota: a melhor maneira de convencerem os enfermeiros e os médicos de que estão bem e que vos devem dar alta é estar de pernas cruzadas na cama durante a visita.
Valorizo sempre imenso qualquer oportunidade de experienciar o Serviço Nacional de Saúde, ou qualquer serviço de saúde, porque é sempre fácil perder a perspectiva das coisas.
Tive uma experiência engraçada, e que não foi partirem ossos dentro da minha cabeça. Foi o seguinte:
Muitas vezes ouço ou leio acerca da despersonalização ou desumanização que acontece dos doentes nos hospitais.
Quando me despi completamente, vesti aquele pijama horroroso de hospital e me sentei numa cadeira de rodas com um saco de soro ao colo e fui arrastado corredor fora, consegui perceber bem essa despersonalização. Estava vulnerabilizado, nem a dignidade de andar pelo meu próprio pé me restava.
Não sabia bem o que dizer à enfermeira, que estava a tentar ser simpática. Senti-me particularmente embaraçado quando entrámos para o elevador apinhado de gente, e a cadeira de rodas em que eu estava ficou numa posição estranha, desconfortável para as outras pessoas. Senti vontade de lhes pedir desculpa.
Mas depois, e porque tenho o benefício da perspectiva, lembrei-me de uma coisa muito importante: eu era subitamente um doente!
Tinha um pijama horroroso e uma cadeira de rodas para prová-lo!
E os doentes ficam imediatamente despersonalizados e desumanizados!
Portanto que é que eu tinha para me preocupar?
A enfermeira não queria que eu lhe dissesse nada de especial. O dia dela ia correr tanto melhor quanto menos comentários e conversa da treta eu fizesse. O melhor que eu lhe podia fazer era ser um doente inexigente, silencioso e cordial.
As pessoas olhavam para mim e ignoravam-me ou, na pior das hipóteses, tinham pena. Eu estava desumanizado, era completamente invisível.
O meu embaraço e ansiedade social desvaneceram-se tão rapidamente como tinham surgido.
Depois drogaram-me e deram-me umas marteladas dentro da cabeça, mas se falarem com as pessoas certas eu provavelmente estava a merecê-las.
Em condições estranhamente específicas, um dia num café, fiz uma afirmação igualmente específica e estranha que era muito tola mas que também exemplificava de alguma forma a maneira fútil como os recursos são usados.
Mas sobretudo tola.
A afirmação era a seguinte:
O Orçamento de Defesa dos EUA é grande o suficiente para pagar uma Missão a Marte, Resolver o Problema da Fome no Mundo, e ainda restava o suficiente para dar umas Cuecas de Ouro a todas as pessoas do planeta.
Não ofereço nenhuma justificação que me possa redimir.
Mas não, nós não queremos roupa interior feita de ouro desenhada por um estilista qualquer.
Bastam-nos umas simples cuecas feitas de ouro sólido.
Para o efeito vou considerar cuecas de algodão, em que apenas o algodão é substituído por ouro. Os elásticos ou outras substâncias não são substituídas por ouro. Vou fazer as contas por cima porque a maioria das fontes que encontrei foram para cuecas de mulheres.
- Existem 7,177 biliões de pessoas no planeta, portanto 7,177x10^9 pessoas
Portanto... fazendo as contas por cima: 124968 x 7,177x10^9 = 897 x 10^12
Ou seja, umas cuecas de ouro para cada pessoa no planeta custaria 897 triliões de dólares.
É assim falsa a minha proposta original de que o Orçamento da Defesa dos EUA seria suficiente para pagar uma Missão a Marte E Resolver o Problema da Fome no Mundo E dar umas Cuecas de Ouro a toda a gente no planeta.
Infelizmente o Orçamento de Defesa dos EUA durante 1 Ano serviria apenas para pagar uma Missão a Marte E Resolver o Problema da Fome no Mundo E dar cerca de 5 milhões de Cuecas de Ouro às pessoas do mundo.
Que, quanto a mim, é um número vergonhosamente baixo de pessoas cuja roupa interior é feita de ouro sólido.
Um dia uma pessoa pensa um bocado na vida de uma forma um pouco mais profunda que o habitual, ou lê qualquer coisa um bocadinho mais científica que o costume e tem uma revelação.
Descobre que os seres humanos são criaturas biológicas como as outras todas, percebe que os humanos lá por saberem andar sobre dois pés ou escrever ou masturbarem-se intelectualmente mais do que as galinhas, não são inerentemente melhores. Não tem nenhum valor acrescido verdadeiro. Não são nem mãos nem menos do que qualquer outro animal. Somos todos animais de igual forma e os nossos feitos enquanto humanos não são mais do que meras inevitabilidades biológicas sem mais ou menos valor que uma torre de lama construída por formigas.
Isto é rigorosamente verdade. Não é uma opinião, é um facto científico.
Compreendem de uma forma muito profunda e intensa a que somos todos animais e que é tão monstruoso fazer sofrer um animal quanto seria fazer sofrer uma criança.
Esta é a deixa para todas as tretas empáticas.
Salvem as baleias, não abandonem os animais no Verão, não comam carne, tratem bem os cãezinhos...
E eu compreendo, até concordo em grande medida!
A maioria destas pessoas até esse momento sentiam um vazio nas suas vidas e subitamente têm uma causa pela qual lutar. Tem uma coisa sem ambiguidade moral nenhuma que dê um sentido às suas vidas até então bastante desprovidas de propósito.
Têm um motivo para se sentirem moralmente superiores às outras pessoas, e isso sabe sempre bem.
Eu compreendo. Tenho um gato. Gosto dele. Ele tolera-me.
Mas pensem no seguinte, e vamos dar aqui alguns saltos de lógica, que é para não perder tempo.
O corpo humano é composto sobretudo de hidrogénio, oxigénio, azoto e carbono, muito cálcio, fósforo, potássio e sódio, mais alguns elementos residuais como o ferro e o magnésio, etc, vocês percebem.
O carbono que compõe o nosso código genético, a base de toda a vida como a conhecemos, sem excepções, é mesmo só isso. Carbono.
Ou seja se pegássemos num átomo de carbono do nosso ADN e o puséssemos ao lado de um átomo de carbono vindo de um grão de areia da praia, seriam indistinguíveis.
São exactamente iguais. Tal como todos os outros átomos do nosso corpo. Exactamente iguais.
São as mesmas substâncias, sem tirar nem pôr. Só estão organizadas de uma maneira diferente.
Somos todos elementos químicos organizados de forma peculiar, e os nossos feitos enquanto seres vivos não mais do que meras inevitabilidades físico-quimicas sem mais ou menos valor que uma duna num deserto.
Não somos melhores ou piores que uma pedra, é o que eu estou a dizer.
Isto é rigorosamente verdade. Não é uma opinião, é um facto científico.
E se isto vos faz sentir desvalorizados ou desmotivados e com a sensação de que havia muitas coisas às quais estavam a dar demasiada importância, não se preocupem. Essa é a reacção normal e expectável e até saudável. Nunca é bom ser-se comparado a uma pedra seja em que termos for. Não faz bem ao ego ouvir que não somos nada de especial quando comparados a qualquer sopa química.
Mas não deixa de ser uma discussão interessante, quando é que uma coisa passa a ser vida; se a vida é um fenómeno mecanisticamente inevitável dadas as condições certas que se calhar até nem são assim tão raras quanto isso.
Ainda nem sequer está bem decidido se os vírus estão vivos ou não.
O que acontece é que qualquer razão pela qual se queira argumentar que a vida ou os seres humanos são de qualquer maneira mais valorosos do que a radiação cósmica, será uma razão baseada num sistema de valores inventado por humanos. Curioso.
Mas o verdadeiro ponto é que se estamos a discutir que os humanos não são melhores que areia, os cãezinhos já ficaram muito lá para trás, e a empatia e a moralidade do da questão já ficou irremediavelmente relativizada quase ao ponto do irrelevante.
Mas eu compreendo. A sério que sim. Tenho um gato. Gosto dele. Só que um dia descobri que não sou melhor que uma pedra, e isso retira um bocado a importância a tudo o resto.
Continuando a minha interpretação pessoal, que não é definitivamente over-reading porque o texto suporta as interpretações e que não é uma interpretação dogmática como a que as professoras de português faziam do Gil Vicente >glares< Se ainda não leram a Parte I, devem fazê-lo agora, a não ser que sejam o tipo de pessoas que gosta de ler as coisas fora da ordem prevista, e nesse caso estejam à vontade.
Helter skelter in a summer swelter The birds flew off with a fallout shelter Eight miles high and falling fast A música remete-nos de seguida para as convulsões sociais que mexeram com a América no fim dos anos '60 e a grande desilusão dos anos '70.
"Helter Skelter" é uma expressão anglófona que significa confusão ou desordem, caracterizante dos verões quentes americanos marcados pelo movimento dos direitos civis e estudantis. Não por coincidência, é também uma das músicas mais atípicas dos Beatles, também famosa por ter sido referenciada por Charles Manson a propósito dos seus famosos assassinatos.
Os Byrds lançam em 1966 uma canção chamada Eight Miles High, que fazia referências não só a drogas (high), mas que neste contexto serve mais como referência a uma fuga à queda da esperança que tinha nascido nos anos '60, e que agora cai que nem uma bomba (McLean até o canta com um som de bomba a cair - faaaaaAAAAST) It landed foul on the grass The players tried for a forward pass With the jester on the sidelines in a cast
A mistura de imagens americanas, agora com os desportos, continua um duplo sentido da palavra foul que significa simultâneamente algo grosseiramente ofensivo ou uma falta desportiva quando essa esperança cai no relvado.
Os players, podem ser interpretados como a força política/governamental/policial que tentou combater e controlar os movimentos civis, e levar a sua avante, enquanto que o ex-símbolo desses movimentos, o Bob Dylan, está parado nos camarotes com um gesso. Now the half-time air was sweet perfume Durante o intervalo do jogo o ar estava cheio do cheiro adocicado da marijuana a ser fumada While sergeants played a marching tune Os Beatles (Sergeant Pepper's), tocavam uma melodia de marcha, de liderança We all got up to dance Toda a gente se levantou para dançar e para os seguir Oh, but we never got the chance Mas nunca tiveram essa hipótese Cause the players tried to take the field Porque as forças políciais tentaram controlar os campus universitários e os espaços de revolução The marching band refused to yield Mas ainda assim os Beatles e os movimentos recusaram-se a desistir. Do you recall what was revealed The day the music died? E o narrador urge a que nos lembremos da realidade feia que foi revelada quando a música e o espírito idílico e dourado dos anos cinquenta morreu com Buddy Holly. We started singin' [Chorus] Oh, and there we were all in one place A generation lost in space With no time left to start again McLean, o trovador, remete-nos agora para mais um evento específico que terá sido o culminar da morte do sonho americano e da sua música. Portanto todos os jovens idealistas das estrofes anteriores estavam num único lugar (provavelmente Altamont devido a referências que vêem a seguir) perdidos nas suas drogas, e tendo já perdido a sua oportunidade. So come on Jack be nimble, Jack be quick Jack Flash sat on a candlestick Cause fire is the devil's only friend A música dos Rolling Stones, com um som mais agressivo e letras com um tom niilista e violento começa a ganhar peso. É paradigmática a canção Jumpin' Jack Flash, sobre brincar com o fogo, sendo fácil identificar Mick Jagger como o diabo nesta famosa fotografia dele no seu concerto em Altamont.
And as I watched him on the stage My hands were clenched in fists of rage No angel born in Hell Could break that Satan's spell As tensões eram grandes em Altamont, e o gang de motociclistas Hell's Angels tinham sido contratados para serem seguranças no concerto, se bem que fomentaram mais violência do que a que preveniram, tendo até violado mulheres. O homem de chapéu branco que se vê na fotografia tinha em sua posse uma pistola, que revelou à medida que se aproximava do palco, enquanto Mick Jagger cantava. Foi rapidamente morto por uma facada de um membro dos Hell's Angels. Os Stones não se aperceberam e continuaram a cantar. And as the flames climbed high into the night To light the sacrificial rite A imagética satânica e demoníaca, que contrasta com a imagética religiosa do início da canção, atinge assim o seu pico com a figura do sacrifício ritual (o homem de chapéu branco) envolto em chamas. I saw Satan laughing with delight The day the music died Mick Jagger e a sua música personificam assim a antítese da ingenuidade doce da música dos anos '50, e riem-se enquanto esta morre finalmente. He was singin' [Chorus]
I met a girl who sang the blues And I asked her for some happy news But she just smiled and turned away A música no seu epílogo toma um tom mais triste, com o Narrador a ir procurar os últimos resquícios da música de que gostava. Encontra uma rapariga que cantava blues, possivelmente Janis Joplin, e pergunta-lhe por boas notícias, mas ela sorri, e morre de uma overdose em 1970. I went down to the sacred store Where I'd heard the music years before But the man there said the music wouldn't play Retorna a imagética religioso/sagrada, equacionando as lojas de venda de discos a lugares sagrados. Mas, e no seguimento do resto da canção, o narrador descobre que a música já não é tocada. And in the streets the children screamed The lovers cried, and the poets dreamed But not a word was spoken The church bells all were broken Apesar da perda da música, a vida continuou como normalmente, com as crianças a gritar e os poetas a sonhar. Mas a morte da música dos anos '50 fez com que o verdadeiro significado, aquele que inicialmente fazia as pessoas sentirem-se felizes e dançar, já não está presente. Os sinos da igreja, eventualmente os artistas originais dessa música, estão todos quebrados pela inexorável marcha do tempo. And the three men I admire most- the Father, Son, and the Holy Ghost- They caught the last train for the coast The day the music died O narrador menciona mais uma vez os três grandes nomes da música dos anos '50, Buddy Holly, Ritchie Valens, e Tthe Big Bopper, equacionando-os directamente à Santíssima Trindade do catolicismo e pondo-os definitivamente num pedestal divino. Interessantemente não diz que eles morreram, mas que simplesmente se foram embora, no dia em que a música, o espírito, da idade dourada dos E.U.A. morreu. And they were singing
Encontrei um pedaço de cadáver numa patanisca. ou pelo menos uma gótica/bruxa. Pessoas sobre as quais vale a pena tentar escrever...
Escrevia com determinação contrafeita e resignada. Batia nas teclas, exalava impacientemente quando tinha que apagar parte do texto. A indignação escapava-lhe por entre os dentes, juntamente com um liturgia de sílabas, que ficavam marteladas no teclado. Frequentemente reconhecemos que estamos a ser engrupidos e não podemos fazer muito sobre isso.
O rosto dela irradiava de um nariz pequeno, com duas sobrancelhas rasgadas, que sublinhavam rugas horizontais, muito proeminentes. O sobrolho dela fazia lembrar gaivotas em voo coordenado que dançavam de acordo com a excentricidade da situação, impondo respeito com voos cerrados simultâneos com pergunta desconfiadas, cuspidas de maneira seca e impaciente.
E este era o outro lado. O fim do caminho. E agora tinha mais liberdade! Era assistente. Finalmente podia assumir todas as posições que antes calava. Defender convicções, opinar... mas os batráquios regurgitados por alguém ex-impotente, fazem-se acompanhar de bílis suficiente para afogar quase todos os tipos de empatia, que ela podia ter granjeado.
Na hora do café em cochichos cúmplices com o chefe de serviço, confessava que achava os colegas invejosos e subservientes. O chefe de serviço sabia que ela não estava errada... mas apesar dos seus olhos rasgados, das sobrancelhas exponenciais de gavião em voo picado, não conseguia enxergar-se. Hipermetropia de especialista.
Agora eu tinha que a ouvir a descrever uma interacção que ela tinha tido com o chefe, em tom embevecido e sonhador...
Ele tinha-lhe pedido um favor, e ela salientava a própria independência, enquanto tomava a atitude que ela tinha escolhido, de acordo com o que percepcionava que seriam as preferências do chefe. Tapava as lacunas neste raciocínio com ''muita intimidade'', e um suposto ''respeito recíproco'', tipicamente atribuídos a figuras paternais.
Eu concordava efusivamente, colocava dúvidas de acordo com a minha percepção dos gostos dela, e bajulava-lhe os estados de espírito magnânimos. As reverberações da auto congratulação da cadeia de comando terminavam em mim... e como todos os rebentos de estetoscópio e bata branca, eu ficava calado. Apanágio do elo mais fraco. Os internos que tentassem passar este tipo de peneiras para as enfermeiras, tinham hipóteses iguais de ouvirem um elogio sarcástico, ou de apanhar com um escarro no olho.
Existem momentos incoerentes. Momentos em que a mente divaga
do mundo e se isola num local onde a dor não atinge, onde deixamos de ser sencientes.
Existem lugares assim.
E existem músicas que nos acompanham nestes momentos. Esta música
é baseada no Folk do século XVIII. Originalmente cantada, sobre um soldado que
gastava o seu dinheiro em prostitutas e que morre de doença venérea. Eu voto em
sífilis. Louis Amstrong reavivou-a nos anos 30 e tornou-a intemporal. Eu deixo
a versão instrumental de Pete Fountain dos anos 60.
É raro as pessoas gostarem de peixe. A maioria das pessoas gosta de carne.
Mas agora que penso nisso, a maioria das pessoas não gosta realmente de carne. A maioria das pessoas gosta de hamburgers do McDonalds e de bifes bem passados, isso não é gostar de carne.
Carne bem passada sabe a sal e a gordura e o hamburger do McDonald's sabe a madeira.
Isto é um bife:
Mas estamos aqui para falar de peixe.
Ora peixe.
A maioria das pessoas prefere a carne ao peixe, e porquê, pergunto eu?
Porque o peixe não sabe a nada!
Vamos fazer aqui um parêntesis e assumir que estamos a falar da maioria das receitas normais que por aí andam. A maioria das pessoas que cozinha carne ou peixe, cozinha-os ao ponto em que deixam de ter sabor, e depois substitui o sabor natural da carne ou do peixe pelos temperos.
Pela minha vida nunca compreenderei porque é que as pessoas cozem carne até ela ficar cinzenta:
Mas peixe.
O peixe, quando cozinhado, sabe a muito pouco, e no geral não tem uma textura lá muito boa.
É ligeiramente esponjoso, molhado e gorduroso.
Não admira que as pessoas não gostem.
Mas toda a gente se sente na obrigação de comer peixe. Porque é Saudável!
E obrigam as crianças a comerem peixe, outra vez porque é Saudável!
Mas o peixe saudável não sabe a nada! Parece esferovite cozida!
E depois nasce toda uma indústria cujo único objectivo é fritar o peixe cozido, de maneira a que as crianças o comam, porque as crianças comem o que quer que seja, se estiver frito.
E os paizinhos ficam todos de consciência tranquila porque os filhos estão a comer peixe, que é Saudável, mesmo que tenha sido coberto em pão, gordura e depois frito.
Mas não foi sempre assim...
Lá muito para trás, quando éramos todos homens das cavernas e pescávamos, sabem o que é que comíamos?
Isto:
Este peixe tem sabor! Este peixe tem textura!
Quando éramos primitivos comíamos o peixe cru! E gostávamos!
Onde é que nos perdemos pelo caminho?
Aposto que houve um padre qualquer que achou que o peixe era demasiado saboroso, e que tínhamos demasiado prazer com o peixe, e então obrigou-nos a cozer o peixe para o tornar "saudável".
Mas não tenham medo, porque podemos recuperar o peixe!
Sushi!
Sim, sushi!
O Peixe Cru deixou de ser uma coisa normal para passar a ser uma iguaria! E é uma iguaria exótica! Vinda do oriente!
No sushi a textura e o sabor do peixe são realçados pelo sabor suave e subtil do arroz, com um toque ligeiramente salgado do molho de soja e o paladar indescritível do wasabi.
>salivação<
E o sushi é uma iguaria tão alienígena! É o que eu imaginaria diplomatas alienígenas a comerem, enquanto discutem planos para invadir a terra!
E não se esqueçam de ovas e caviar.
São, de facto, células reprodutoras de peixe, gâmetas de peixe.
É uma noção tão estranha! Comemos gâmetas de peixe.
Como é que se obtêm gâmetas de peixe?
Há pessoas cuja profissão é arranjar gâmetas de peixe. Que fazem a vida disso.
- Qual é a sua profissão?
- Eu masturbo peixes e depois recolho as suas células reprodutoras para você comer.
E se pensam que ele o faz de maneira aborrecida, com umas luvas de borracha azuis, não...
Ele fá-lo com carinho...