''Tenho falta de um medicamento que me dê força de manhã... Para fazer a minha vida... ''
e que medicamentos faz?
''Estes''
hum
''Tomo estes de manhã, estes à tarde, e estes, à noite...''
sim, e como se tem sentido?
''Não me sinto bem. Todos estes medicamentos me fazem mal.''
hum hum... e como é que acha que eu posso ajudar?
''Não sei bem... Trouxe aqui a lista dos medicamentos que tomo, para mostrar. E gostava que escolhesse aqueles que me estão a fazer bem, e aqueles que me estão a fazer mal... Para eu saber...''
hum, consigo começar a imaginar o que possa ter levado alguém a iniciar alguns destes...
''O que eu precisava mesmo, é de um que me desse força de manhã. Para eu fazer a minha vida''
hum hum...
''e não posso deixar de fazer os meus normais...''
hum hum....
''Então o que acha...?''
''Isto é algo que as pessoas precisam de saber. Alucinar não é ver gafanhotos gigantes a passearem de mão dada com elefantes cor de rosa. É muito mais pessoal. É perceber que o teu nariz é a coisa mais estranha da tua cara. É interpretar alguma coisa que esteve à tua frente a vida toda, hoje está totalmente diferente. Ver que os teus dedos são curtos demais em relação à memória que tens deles, que a explicação e os porquê se esvai entre eles. Alguma coisa que sentes. Não é necessariamente alguma coisa que vês.
Dizes que alucinar é uma percepção sem objecto, que me refiro distorções de percepção/pensamento. Digo-te que essa divisão é artificial, as experiências sensoriais são integrais com a percepção. Porque têm apenas um observador.
The shadows flicker a lot more than usual, for a sun that has been shining all day. A luz à qual observas as tuas emoções também é diferente. Mais viva e carregada. 'Sentes' as tuas emoções como se elas não te pertencessem. Porque sentir alegria/elação/euforia, altera a maneira como te vês a ti próprio e o mundo que te rodeia. Se alguma coisa te tirar do centro dessa relação, consegues aperceber-te das mudanças subtis que as emoções operam na tua percepção de estímulos.
All the dials and levers working. Sentes-te como se tivesses sido alexitímico a vida toda. E também que apenas começaste a entender isto. Por isso não percas demasiado tempo com a luz. É apenas a luz da mesa de cabeceira, numa noite estranha, em que acordaste desgrenhado, fora de ti.
Levanta-te e anda. Anda ver o nascer do sol. Os raios laranjas a rasgas e a colorir as nuvens, os cirros coloridos de tons violáceos.
Dizes que falo de cortinas de fumo, de crenças sobrevalorizadas. Nada palpável. Mas não estou a fingir que sei do que estou a falar. Tento descrever impressões subjectivas. Só quero chamar à atenção que a periferia das tuas percepções encaixa de maneira cada vez mais aberrante na realidade. Um termo cuja substância se dilui numa poça, de onde nasce um arco íris. Se fechares os olhos, as cores aparecem.
E isto é só o princípio.''
''Consigo perceber o pânico de alguém que vê a sua cara pela primeira vez ao espelho, como se pelos olhos de outra pessoa. Produz um sentimento análogo a ouvir a minha voz numa gravação. Mas mais bizarro. Tenho que fazer a barba... Nós somos feios em comparação com a ideia que temos de nós próprios, metida atrás dos nossos olhos.''
''Quebra de continuidade. Ao longe o outono faz as árvores restolharem. O vento desenha caminhos por entre os arbustos e as ervas rasteiras, os gatos brincam uns com os outros num recanto. Subitamente percebes que tens dificuldade em evocar palavras. Linguagem. Não é que as palavras não venham, se encurraladas, é só que se tornaram desnecessárias. As emoções são suficientes para interpretar o mundo à tua volta, com toda a complexidade e reactividade que a linguagem permite.
Não penso, mas sinto. Será que existi naquele momento? Será que interessa?''
Eu gosto de ler. Sempre gostei de ler, mas como tudo na
vida este gosto alterou-se com os anos. Se no inicio li histórias adequadas
para a idade, na faculdade tornei-me uma snob relativamente à leitura. Eu não
lia qualquer coisa. Eu lia histórias com qualidade comprovadamente superior. Eu
lia autores existencialistas e críticos sociais e era uma deprimida… Yup.
Quando lês demasiadoDostoyevsky nasce
um desespero em relação ao mundo, uma apatia continuada e uma incapacidade inexplicável
de perceber que existe uma possibilidade de mudança. Ou simplesmente a minha
depressão maravilhosa adorava banhar-se nas histórias de personagens com finais
miseráveis.
Após
estes anos gloriosos de leituras profundas que moldaram a minha personalidade
de maneira incontornável, a verdade é que a depressão passou. E não, não deixei
de gostar de ler clássicos ou livros de qualidade, mas passei a apreciar (e a
culpar-me muito por isso) ler livros com finais felizes, romances que me façam
sorrir. Descobri todo um mundo de romances contemporâneos, históricos,
fantasia, steampunk, paranormal e distopia. Tornei-me numa leitora
relativamente aleatória. Sim, continuo a seguir a lista dos “1001 livros a ler
antes de morrer”, mas sou muito mais comedida. E como sou fan do Goodreads
descobri um género extraordinário: New Adult.
Resumidamente,
este género é o somatório de todos os clichés do Young Adult (típica personagens
principais decalcadas do “Twilight”, insta-love, triângulos amorosos, dinâmica amor-ódio,
declaração amorosa dramática, rapaz possessivo e anulação da personagem
feminina em prol do “amor”), mas com descrições de cenas sexuais desde os
primeiros capítulos da história. As descrições sexuais fariam corar as
escritoras do “Harlequim e Bianca” que via a minha mãe ler nas velhas praias de
Quarteira. Assim tão pormenorizadas, com tudo para todos os gostos. É só uma
questão de procurar. Deixem-me apenas avisar, comparativamente com o que é
descrito nos livros não há homem que se compare. A quantidade e qualidade sexual
descrita mata qualquer desejo pelo vosso parceiro atual… Just saying…
E
nem é componente sexual exagerada sem nexo que me faz realmente confusão nestes
livros. O que me preocupa e não me faz sentido é ter lido partes de livros em
que as violações são justificadas pelas autoras. Em que a violência verbal e física
é demonstrada como sendo uma prova de carinho e amor. E isto arrepia-me.
Desculpem, provavelmente estou a ser moralista, mas ler um livro em que o raciocínio
da personagem feminina após ser violada é “Ele utilizou o meu corpo sem a minha
permissão, mas é tão bonito e musculado”, dá-me náuseas. Ler um livro em que
tudo aquilo que ainda hoje se luta em termos de igualdade de géneros é jogado
para o lixo e a realidade é distorcida e apresentada a jovens como sendo algo
aceitável e até mesmo um objetivo a alcançar diz que não avançámos muito como
seres humanos.
E
porque é que me interesso? Bom, primeiro, porque estudos têm demonstrado um
aumento da violência entre casais jovens. Segundo porque eu trabalho também com
jovens e noto uma aceitação das vicissitudes da vida como se fosse algo a
aspirar. Terceiro, porque sou um ser humano do sexo feminino que tem um imenso
orgulho do trabalho que tantas mulheres tiveram para que eu hoje pudesse ter os
direitos que tenho. Quarto, porque violações e violência simplesmente não são
aceitáveis… Quinto, porque o Ricardo e o Gui estavam fartos de me chatear a dizer que não contribuía em nada para este blog, e assim calo-os por mais um ano. :P
É o centro da nossa progressão científica. Fazemos as coisas porque estão ao nosso alcance, porque podemos. O que quer que seja possível vai necessariamente acontecer.
É uma espécie de corolário da lei de Murphy, ou a lei de Murphy é um corolário desta, não sei, não interessa, adiante.
Case in point.
De certeza que não começou aqui, mas é um ponto tão bom como qualquer um para ilustrar o que quero dizer:
É uma prótese vitoriana. Tem 150 anos. Alguém que não tinha um braço arranjou um braço artificial, mecânico. Transformou-se numa junção de homem e máquina. Porque era possível.
Desde há anos que os recordes estabelecidos nas Olimpíadas são feitos por margens cada vez menores. O que faz sentido. Há limites para o que o corpo humano, estruturalmente, consegue atingir. Mas recorrendo a próteses, subitamente há todo um novo campo de recordes que podem ser batidos! Por pessoas que são ciborgues!
E o que é que vai acontecer nestas Olimpíadas? As empresas de biotecnologia vão poder mostrar os seus protótipos mais avançados, vão competir entre si para terem melhores resultados, provavelmente recorrendo a modelos mais potentes e radicais.
Fomos quem fomos. O Passado não pode ser alterado. Mas se alguma vez, aquilo que fomos nos permitiu sentir felicidade em algum momento, teve necessariamente que ter sido influenciado por aspectos positivos. Algumas coisas boas aconteceram. Podemos ter passado por meses de preocupações, a sentir a perseguição da vida, que, se a dada altura percebemos que não temos nada real a perseguir-nos, sentimos-nos bem. Equilibrados com nós próprios.
Para este equilíbrio ser possível, foi relevante descobrir que Papão não existe. Apesar de não nos podermos dar ao luxo de parar de cavar buracos, sabemos que não existe nenhuma autoridade divina, nenhum caminho sagrado. Ninguém nos pode vai mandar para um poço em chamas, com monstros, criados pelo papão durante a sua adolescência, cujo único propósito de existência é torturarem aqueles de nós que, em vida, desobedecerem ao papão. E isto portanto, seria eternamente. Para sempre.
O papão bom que vem no livro a seguir - uma sequela chamada novo testamento, está a lutar contra o mal (as asneiras que fez no primeiro livro), mas não conseguiu desfazer isso da tortura eterna, para malta mal comportada. O que foi uma pena. Por isso teríamos que continuar a cavar buracos. Isto, apesar do papão ser um gajo tão porreiro, que mandou para a terra o filho dele. O Papão engravidou uma menina, mas com toques mágicos, nada de andar aí a pôr a pila em monhés do médio oriente. O Papão ainda apanhava uma comichão na virilha, e o marido da senhora podia ficar incomodado. Mal o marido da senhora soube a notícia da divina concepção, pensou logo que devia começar a ter relações com a esposa com mais regularidade, para pelo menos ter uma hipótese. Mas não se atreveu a tocar na Maria até o puto nascer... Eu percebo... Um alien põe qualquer coisa na barriga da tua mulher, a última coisa que queres é meter lá a pila. Sei lá o que pode acontecer. Até podes levar uma dentada. José pagou a cobardia, porque assim, o pénis do filho do Papão, foi o primeiro a atravessar a vagina da esposa, sem recurso a poderes mágicos, claro. E é assim que tu vês como o Papão é espectacular.
Imagino que o José tivesse ficado preocupado com a perspectiva do Papão agora começar engravidar-lhe a esposa de tempos a tempos. E tendo o Papão poderes mágicos, sabe-se lá a frequência com que lhe conseguia engravidar a esposa. O Papão pode fazer tudo, por isso teria que ser bom na cama e provavelmente seria extra fértil. Bem, mas estou a perder-me...
O nascimento foi importante o suficiente, para 2000 anos depois, em algumas sítios, todas a família se juntarem, para festejar os anos do filho do papão.
Depois, ele passou a adolescência a dizer-nos para não nos chatear-mos tanto uns com os outros, e para dividirmos o que temos irmãmente. Não existirem tão poucas pessoas com todos os recursos, e a maior parte a passar fome. O filho do papão do Papão armou-se em sindicalista, e na altura a vida podia correr muito mal aos sindicalistas... o papão do primeiro livro já tinha escrito no plano divino que era melhor o filho dele levar um castigo valente, tipo pregarem-no a uns paus de madeira. O papão da sequela depois arrependeu-se e ressuscitou o filho, mas mandou-o lá de volta para o condomínio privado onde o papão mora, não ficou cá com a gente, e foi uma pena. O condomínio privado onde tuuudo é perfeito. E no entretanto, o filho dele não tem dito muito. O que é uma pena. Está, no entanto, previsto que o filho do papão vai voltar para por ordem nesta merda. So look busy.
Ok, pronto, parem com os e-mails, a minha caixa de correio já não aguenta.
Peço desculpa pelo que escrevi, claramente ultrapassei uma linha e ofendi muitas pessoas.
Sensibilidades foram magoadas, susceptibilidades foram injuriadas, moralidades foram ultrajadas. Toda a gente tem uma opinião, e há outras opiniões diferentes. É preciso respeitá-las, não é?
Não tenho o direito de dizer coisas que vão magoar os sentimentos das outras pessoas, por muito estúpidos que eu ache que sejam esses sentimentos. Quer dizer, se andássemos por aí a dizer coisas desagradáveis uns aos outros só porque sim, onde é que isto ia parar?
E eu compreendo que dizer este tipo de coisas acerca de crianças é sempre inapropriado, sobretudo quando estamos a falar de crianças deficientes. É um assunto sensível eu compreendo.
Porque quer dizer, se começamos a dizer tudo o que nos vem à cabeça, onde é que isto vai parar? Corremos o risco de que as outras pessoas ouçam as nossas ideias e se ofendam! E magoamos os sentimentos delas!!!
Mesmo que estas pessoas adiram com demasiada convicção a ideas e crenças abstractas, largamente arbitrárias acerca do que é apropriado ou não. São as ideias delas, não tenho o direito de vir brincar com isso ou mostrar como são ridículas. Essas pessoas têm o seu direito.
E quer dizer, sobretudo quando no mesmo contexto falo de cães. Envolver cães E crianças deficientes? O que é que eu pensava? Que as pessoas iam simplesmente reconhecer o exagero absurdista pelo que é e pôr a ideia de lado de tão parva e desprovida de sentido que é depois de darem uma gargalhada?
Claro que não, as pessoas têm as suas crenças e têm o direito a essas crenças, e eu não tenho o direito de sair do meu caminho e gozar com essas crenças, por muito superficiais que me pareçam. É preciso respeitinho.
Mesmo que tenham sido só palavras, sem nenhum impacto real ou mensurável, ofensivas apenas para quem se importa, e essas pessoas possam simplesmente não olhar para o que eu escrevo.
Não tenho o direito de dizer determinadas coisas, há claramente coisas que são demais. Toda a gente sabe isso, e eu devia sabê-lo, também.
Acho que o pior foi mesmo a comparação entre os cães e as crianças deficientes. Isso é errado. Não se pode deixar acontecer. As pessoas iam ofender-se.
E nem posso dizer que não sabia. Claro que sabia, foi por isso que o fiz. Diverte-me o facto de isto ofender as pessoas. Põem-me uma linha à frente e um sinal a dizer "Não ultrapassar esta linha" e eu tenho o impulso de pôr o dedo do outro lado da linha.
Que as pessoas se sintam ultrajadas e pessoalmente magoadas quando pego em ideias e brinco com as atribuições quasi-sagradas que elas fazem delas, e as mexo e remexo com o único propósito de chegar a uma frase que tenha o maior impacto e a maior ofensividade possível, especificamente dirigida para essas atribuições arbitrárias acerca do que se pode dizer ou não.
Diverte-me.
É preocupante a quantidade de tempo e energia que dispendo a pensar sobre este tipo de coisas...
Acho que o que ofendeu mais as pessoas até foi a inversão da comparação, ou seja, que de igual forma as crianças deficientes seriam comparáveis a cães.
Compreendo quando as pessoas se sintam atacadas de uma forma subtil e sub-reptícia, quando eu com uma dúzia de palavras as faço considerar noções horríveis, mesmo que estas sejam concretamente observáveis. Sobretudo se forem concretamente observáveis.
Quer dizer, eu não digo explicitamente que babarem-se, cagarem por todo o lado e ficarmos felizes quando aprendem truques são alguns dos termos nos quais são comparáveis.
Eu não digo isto explicitamente, mas o facto de levantar a comparação faz com que as pessoas pensem sozinhas nestes pontos de comparação, e isso fá-las sentirem-se mal.
Sobretudo mal porque não fui eu que o disse, só pus a primeira ideia dentro da cabeça delas, e elas chegaram lá sozinhas.
Portanto o que as ofendeu mais foi o que elas pensaram sozinhas. Eu só chamei a atenção para o facto de que essas ideias já lá estavam, potencialmente. É sobretudo isso que as chateia, a dificuldade em aceitar que parte da responsabilidade dessas ideias é delas. Há ideias que não deviam ser expressas, mesmo que sejam ridículas, porque podem ofender alguém! E não podemos permitir que as pessoas se ofendam, pois não? Isso justifica que algumas ideias sejam censuradas. Há ideias que merecem ser censuradas, é isso?
Mas compreendo que se zanguem comigo.
Havia uma linha e eu ultrapassei-a. O Papão não gosta.
As minhas críticas de cinema são tão simples como a minha bagagem cinematográfica.
Gostei do filme.
E agora quero falar de coisas absolutamente tangenciais.
No prefácio o autor lamentava o facto de a versão americana não incluir o último capítulo.
Também não retratado no filme, neste capítulo da versão inglesa, o protagonista retoma a vida que levava, de violência gratuita e absoluto hedonismo, até encontrar um dos quatro vândalos com que confraternizava no início.
Pete. Pete tinha uma noiva e estava prestes a casar. Ia ter um filho. E este facto tem o impacto catártico em Alex, por que esperamos o livro todo. Ele imagina-se a procurar uma noiva e a ter um filho. Um pequeno Alex. E subitamente abandona o novo grupo de vândalos, no bar onde tudo começou. Para se deitar cedo.
What's it going to be, eh?
Alex têm dimensão de crescimento pessoal na versão inglesa. Que é o propósito da história. Será que o ser humano é passível de mudança, ou somos apenas matéria orgânica com propriedades mecânicas? Mais precisamente, será que somos reabilitáveis?
A questão é filosófica. E como tantas outras, sem resposta. Parece-me que ficamos reféns de conceitos que não reflectem a realidade completa. Será que mudamos? Claro que mudamos! Mudamos para nos adaptar à realidade. Será que somos matéria orgânica com propriedades mecânicas, num ambiente fundamentalmente determinista? Somos roldanas no mesmo sentido que uma paramécia desliza numa gota de água à procura de proteínas? The jury is still out on that one, mas é cada vez mais inevitável responder que sim.
Somos laranjas mecânicas, ofendidas com a perspectiva de não termos escolha, senão sermos o que somos. Por isso caímos nos mesmos hábitos, nos mesmos erros.
A resposta não é satisfatória, porque a pergunta não faz sentido. Temos tanta capacidade de compreender o nosso livre arbítrio, como a paramécia tem de cogitar sobre porque é que necessita de proteínas. Quem perceber, de maneira fundamental, porque gosta do que gosta, porque faz o que faz, porque erra da maneira que erra, e souber definir os seus comportamentos de acordo com a sua vontade, estará perto da omnisciência. Isto partindo do princípio que define precisamente qual a sua vontade, integrando (não sei como) as emoções. Que, por definição, não dependem de aspectos volitivos...
O condicionamento pavloviano não chega, e o condicionamento operante pouco mais é que tentativa-erro.
Não conseguimos mudar a nossa maneira de ser como gostaríamos, mas conseguimos fazer alguma coisa, que não sabemos explicar bem. Talvez seja só desejar com muita força. Talvez seja só uma ilusão.
Seja como for, é uma ilusão que não conseguimos abandonar. Por algum motivo estúpido, a nossa parte emocional fica menos ansiosa, se acreditarmos que a parte cognitiva controla os nossos comportamentos, o nosso futuro.
Independentemente da conclusão a que chegarem, não me mandem emails a dizer que: ''a vida é o que acontece enquanto estás ocupado a fazer planos.'' ou ''se quiseres fazer deus rir, conta-lhe os teus planos!''. Consigo perceber que estas manifestações fazem parte da vossa natureza lamechas. Mas a minha parte emocional deseja que se sentem em cima de um pionés.
Portanto acabei de ver um dos melhores e mais estranhos filmes que já vi ultimamente.
Basicamente adorei o Guardians of the Galaxy, que, incidentalmente ja fez 700 milhões de dólares em receitas worldwide, e fui à procura de outros filmes do mesmo realizador, o James Gunn.
O James Gunn começou a sua carreira cinematográfica com a Troma Pictures, que nos anos 80 e 90 fez vários filmes gore, nomeadamente a saga do super herói Toxic Avenger.
Depois realizou algumas coisas que eu ainda não vi mas que supostamente são muito boas, como o Tromeo and Juliet e o Specials.
O que eu vi de facto foi o Super.
Ora é razoavelmente difícil descrever o Super porque há imensa coisa a acontecer ao mesmo tempo.
De certa forma é um filme de desconstrução do conceito de super-heróis, no qual um homem normal decide vestir um fato de super-herói e combater o crime, a lá Kick-Ass, com o qual tem muitas semelhanças.
Tem simultaneamente aspectos estilísticos de filme indie de baixo orçamento e de filme gore com baixo orçamento e com uma violência física muito, muito agressiva que provavelmente não é para toda a gente. E o filme tem todos os actores. O Kevin Bacon, a Liv Tyler, o Michael Rooker, até tem o Nathan Fillion FFS!
A narrativa não é nada de estupendamente inovador ou original, está lá só para permitir que as personagem centrais se revelem e cresçam.
O tema central destas personagens é a insanidade, mais especificamente insanidade mental face a uma sociedade injusta e cruel.
O personagem principal é o Frank Darbo, aka o Crimson Bolt, maravilhosamente interpretado pelo Rainn Wilson do The Office americano.
Mas apesar de o personagem principal ser claramente doido, muito violento e mesmo homicida o filme não tenta desculpá-lo ou redimi-lo. No entanto as suas motivações são tão claras e compreensíveis que é difícil não empatizar com ele, mesmo quando está a partir a cabeça de pessoas que se metem à frente em filas. O facto de empatizarmos com este personagem torna-nos cúmplices dele. Ele faz aquilo que nós gostaríamos de fazer: sair e combater o crime, corrigir as coisas erradas na sociedade. Nós não o fazemos porque não somos doidos, mas ele fá-lo!
Depois há a personagem secundária, a Libby, aka Boltie, que é a geek que é demasiado intensa a gostar de banda desenhada. Se o Frank é quem gostaríamos de ser mas não somos, a Libby é quem somos, mas preferíamos não ser.
A Libby é uma espectadora, é obcecada com banda-desenhada e super-heróis. Passa a vida a ler banda-desenhada e a desejar estar dentro das aventuras, com uma obsessão quase doentia. Naturalmente quando a oportunidade surge para participar de facto nisso, enlouquece um bocadinho e as piores partes vêem ao de cima.
Enquanto que para o Frank a motivação para combater o crime passa por um sentido de justiça e moralidade (mesmo que deturpado) para a Libby é uma coisa catártica, fetichista quase-sexual que vem da sua obsessão por super-heróis. É a sublimação do voyeur subitamente estar directamente envolvido nas suas fantasias. É desconfortável...
Sobretudo porque ela é a substituta do espectador, de nós. Nós somos os voyeurs. Somos os espectadores tanto das bandas-desenhadas como do próprio filme no qual a metáfora é apresentada.
Mais especificamente a agricultura. Esse foi o ponto de viragem.
Porque percebam, durante muito, muito, muito tempo, nós fomos caçadores-recolectores.
E quando digo "nós" refiro-me a seres humanos modernos.
Os seres humanos, o Homo Sapiens, existe e tem o aspecto que tem hoje desde há 200 000 (duzentos mil) anos. Éramos nós, humanos sem excepção. E éramos caçadores-recolectores. E o que é que isto significava?
Significava que toda a nossa alimentação, aquilo que nos mantinha vivos, tinha de ser caçada ou recolhida na sua forma selvagem. Colhíamos bagas e frutos para comer quando estavam maduros, caçávamos gazelas ou bisontes ou mamutes quando eles migravam por perto, ou tínhamos nós de acompanhar a migração deles.
Era uma subsistência duvidosa, incerta, muito dependente de factores externos. E não morríamos sequer de maneira simpática, na caverna com os outros homens das cavernas. Provavelmente morríamos assim: "AAAAAAAAAAH AHHHHHHH AHHHHHHHA AHHHHHHHH ESTOU A SER COMIDO VIVO!!!!! AHHHHAHAA ISTO DÓI IMENSO!!! AAAAAAAAAAHHHHHHHHHHH!" Devia ser mais ou menos assim. De qualquer modo, estávamos sempre à beira da fome e da morte. Mas não dava muito trabalho. Caçavam um bisonte uma vez por mês e comiam-no até terem de ir caçar outro. E o resto do tempo? Provavelmente fornicavam muito, porque era a única maneira de contrabalançar a mortalidade enorme que sofriam. Ou faziam pinturas nas paredes quando se aborreciam, provavelmente. E nós ficámos assim durante muito muito tempo, a viver desta maneira precária!
Foram precisos pelo menos uns 180 000 anos para que um dia, um desses humanos pré-históricos, se lembrasse de uma coisa melhor. Imagino que tenha corrido mais ou menos assim.
Homo Sapiens Esperto (HSE): Ouçam, e se em vez de estarmos à beira de morrer à fome todos os meses, fôssemos ali abrir uns buracos no chão, pôr lá umas sementes, e tomar conta daquilo todos os dias até essas plantas crescerem e depois comêmo-las?
Homo Sapiens Idiota (HSI): Isso dá muito muito trabalho, acho que prefiro continuar a fornicar e a pintar as paredes. HSEsperto: Mas se decidires prescindir dessas coisas e trabalhar muito, talvez em vez de andarmos sempre a morrer que nem tordos, possamos construir uma fonte renovável e confiável de comida com a qual podemos subsistir com mais segurança. HSIdiota: Mas isso demora tanto tempo! E dá tanto trabalho! Eu prefiro correr o risco de morrer numa caçada selvagem todos os meses, do que sujeitar-me todos os dias a trabalho físico intenso, rigoroso e muito aborrecido! E tu já comeste essas plantas? Não sabem a nada! Prefiro carne de búfalo cozinhada nas brasas! HSEsperto: Ouve... se estiveres disposto a parar de fornicar durante 5 minutos, podes ir lá fora, cavar uns buracos todos os dias, e os teus filhos e a tua tribo não correm o risco de morrer à fome de 15 em 15 dias. HSIdiota: ... mas fornicar o dia todo!!! HSEsperto: Ouve, estúpido, se tu não fores trabalhar no duro vão-te acontecer coisas más! Há um Papão, muito grande e muito poderoso! Que te faz mal, se tu não parares de fornicar e fores cavar buracos! BoooOOOO! Olha o Papão!!! HSIdiota: mas como é que o Papão pode saber que eu estou sempre a fornicar? HSEsperto: o Papão sabe tuuuudo! E vê tudo o que tu fazes!!! Eu sei porque ele disse-me! Portanto vá... cavar buracos...
Ok, se calhar não foi exactamente assim, mas o ponto é que, a determinada altura, depois do fim da última idade do gelo há 11 000 anos, os povos caçadores-recolectores do sudoeste asiático, médio-oriente e egipto começaram a domesticar espécies selvagens de trigo, lentilhas, favas, grão e cevada e a tomar um estilo de vida mais sedentário.
A agricultura é dura, dá muito trabalho, mas é segura (mais segura do que lutar contra tigres dente de sabre) e razoavelmente confiável nos seus resultados.
Mas com a agricultura estávamos presos ao chão, deixámos de viajar. Com a agricultura começámos a acumular bens e, pela primeira vez, tínhamos mais coisas do que aquelas que conseguíamos transportar connosco. Pela primeira vez tínhamos possessões em números grandes que podíamos comparar uns com os outros. Precisámos de números para contar o que tínhamos. Pela primeira vez tivemos excedentes que podiam ser trocados por outros bens. Precisámos de letras para registar essas trocas.
Estas ideias de bens, comércio, economia, poder, estas consequências mecanísticas da mudança do nomadismo para um sedentarismo agrícola, foram a base da civilização humana como a conhecemos hoje.
A agricultura permite uma explosão populacional global, e estabilidade suficiente para que as primeiras cidades, estados, reinos e religiões organizadas possam começar a emergir. Estes estados primordiais eram usualmente teocracias, nas quais o poder político era justificado por prestígio religioso. Pouco tempo depois, há cerca de 6000 anos, a escrita e a roda são inventadas, algures na Mesopotâmia e na Suméria e a evolução tecnológica e científica começa a acelerar a uma velocidade que nunca diminuiu desde então.
E não se esqueçam que isto tudo aconteceu mesmo mesmo muito recentemente! Fomos humanos durante cerca de 190 000 anos até que isto começasse a acontecer, e a história escrita só está registada desde há cerca de 6000 anos. Isto tudo porque uns avós nossos decidiram meter medo uns aos outros com histórias do Papão. "Aquela bola de fogo no céu? É um sinal de que o Papão não está satisfeito e tens de cavar mais buracos", "A gruta desabou e matou a tua família? O Papão estava zangado contigo porque tiveste pensamentos de que ele desaprova, tu sabes quais foram...", "Não queres trabalhar o dia todo? Olha que o Papão zanga-se!", "Achas que a vida devia ser mais do que cavar buracos? Depois de morreres, se cavares muitos muitos buracos, e fizeres sempre o que o Papão manda, tens tudo o que queres! Como é que aproveitas se estás morto? Olha que o Papão não gosta de perguntas dessas..." E nós somos os descendentes directos destas pessoas. Somos os descendentes dos que decidiram um dia parar de vaguear, parar de fornicar o dia todo, prescindir de muitos prazeres, arregaçar as mangas e trabalhar no duro todos os dias à espera de recompensas futuras. Somos descendentes dos que tiveram medo e decidiram jogar pelo seguro, dos que foram crentes e aceitaram ser obedientes. E quanto mais o fossem mais sucesso tinham, mais sobreviviam, mais netos tinham. Somos o resultado de uma selecção social que dava vantagem à obediência e à crença.
São... quer dizer, isso está sequer em discussão? Como? De que maneira?
Não podemos todos simplesmente concordar que os Beatles são a melhor banda de sempre e pronto?
Qualquer discussão sobre música e sobre bandas musicais tem de começar com a premissa de que os Beatles são os melhores, porque senão não há discussão possível.
E eu sei que há por aí snobs pretensiosos que gostam de parecer superiores e espertos dizendo mal de bandas globalmente aceites como sendo boas! Eu sei porque sou um deles!
Vejam:
Os Radiohead são uma banda monótona e desinteressante!
Mas tentar isso com os Beatles? Honestamente? É com os Beatles que vão tentar fazer isso? De todas as bandas com que isso poderia funcionar, vão escolher exactamente aquela com que não há discussão possível! A banda que obviamente é a melhor? É isso que decidiram que vos ia fazer parecer espertos?
Mais do que ser simplesmente sem-sentido, argumentar que os Beatles não são os melhores, só faz com que a pessoa que o diz pareça estúpida.
Como aquela pessoa que não percebeu a piada, mas não percebeu que não a percebeu, e então diz de forma assertiva e incisiva algum comentário à piada que é tão ao lado que as pessoas à volta dela se sentem constrangidas com tamanha estupidez e têm vergonha de a corrigir porque explicar a piada só ia reforçar ainda mais a estupidez da pessoa.
É isso que acontece quando alguém tenta dizer mal dos Beatles.
Quer dizer... ouviram sequer as músicas deles? Dizer mal dos Beatles só chama a atenção para o quanto não percebem de música. Qualquer comentário musical que queiram fazer depois disso será sempre pontuado pelo facto de que disseram mal de Beatles.
Eu sei que estão a falar mas eu não estou a prestar atenção porque disseram mal de Beatles, e nesse caso que valor é que realmente pode ter o que quer que tenham para dizer?
Parvos: Ah, mas os Beatles não- Eu: os Beatles são a melhor banda de sempre! Parvos: não, mas- Eu: Melhor. Banda. De sempre! Parvos: mas eles nunca- Eu: em todos os aspectos! Não há nenhuma medida pela qual os Beatles não sejam a melhor banda de sempre! Parvos: não, mas os Beatles- Eu: Eleanor Rigby!!!
Até podem não gostar de Beatles! Podem preferir outras bandas! Não é isso que está aqui em discussão. O problema é não reconhecerem que os Beatles são os melhores.
É mais ou menos o mesmo que dizer "Ah, eu acho que o Mozart não era assim tão bom quanto isso, e o Van Gogh também era sobrevalorizado e não percebo porque é que toda a gente gosta assim tanto de Bacon!"
E não têm de perceber. As pessoas não têm todas de saber as mesmas coisas, não temos todos de compreender a fundo os mesmos temas! Eu não percebo nada de moda, ou de fotografia!
Aquilo que têm de pensar é o seguinte: "Se eu não percebo porque é que os Beatles são tão bons, então é porque não percebo nada de música. Vou guardar as minhas opiniões para mim mesmo, ficar caladinho, e ouvir as tretas de que gosto. Provavelmente Buraka Som Sistema."
That's what happens when you feel bad for a long time. You go to the doctor, and tell him: ''doc, i've been feeling like shit lately.'' The doctor will then proceed to ask you some questions to see if you mean business: ''Have you lost weight? How do you sleep? Do you find less pleasurable some activities that you once enjoyed?...''
If you convince the doctor, he will give you some pills, and a rest from work. He'll call it a ''psych leave''. Apparently you are now depressed.
You ask what does that mean. Well, it means you feel like shit most of the time! Let's pretend you hadn't noticed that yet, and focus on the more important aspect, which is, you convinced a doctor that you are depressed! That guy is your accomplice now! You are entitled to fuck with him a little. Arrogant prick! Thinks he knows everything. You are probably depressed because you had to park your crappy car next to his Aston Martin. And you had to pay him half of your salary! That didn't help either.
First things first. Throw those pills away, they suck. They don't do anything at all. Then, go home, and throw a huge party! Spend all your social security money on it! Invite all your friends, and dance all night!
The next day, throw an even bigger party, under the theme: ''Celebrating my depression money!'' Get a lot of prostitutes on this one, and do a lot of drugs. This is important. Are you taking notes?
After the party, burn down your house, while laughing hysterically.
This way you will be in the paper the next day. How grandiose! You are famous now!
And that way, the doctor can read in the paper about you! Let him question his training over breakfast. Bastard!
After that, steal the doctors Aston Martin and drive it like the wind! Against a wall. Remember to dress flashy! Oh, and to get out of the car before the crash. You are crazy. Not stupid. It's not a fine line.
At some point, the competent authorities will come and take your social security money away. When that happens, go back to the doctor. He's your accomplice, tell him you need more money, or you will go to the police, and divulge your little ''ruse''. Use shady language, and threaten the fucker. Treat him like shit. Smack him in the head, like he's a schmuck. They are used to that.
Eventually, he will start to get hostile. If not, open his spatule box, and french kiss all his spatules. Fuck him. When he gets really pissed, tell him you are jesus christ, his lord and savior, and you will transform his body into solid gold, with the magic touch of your cock!
Answer his questions, until he tells you, with a heavy heart, that you are bipolar. And them the real fun can begin! You are now legally insane! And if you are worried about being forcefully committed for the rest of your days, rest easy, that was in the old days! Now, they want you on their wards, like they want you to shove their stethoscope in your arse, asking if they can hear the farts you are going to pass tomorrow! You'll be in the hospital a couple months, tops, and asleep most of the time.
After that, it's easy street, living on the government tit, whenever you want, for the rest of your life, you burden of the state!
She had thick, dark, slightly curled hair. It framed perfectly her diamond shaped face. And you could guess an intelligence shining in her eye, confirmed by a half smile, just above mona lisa, and just below sarcasm. A smile of understanding. Her likely natural state, judging by the light smile lines, drawn like joy on her face. It looked like the stereotype for swan neck had been invented to describe her.
This might be the absolute truth. Or maybe the music, the poor lighting in the night club, the third gin and tonic and my loneliness, for some reason all kicked in at once. Well, for the desired effect, is of little importance.
She notices me, staring, but her expression remains unchanged. Perhaps a nanosecond blink of the eyes, a second of a shy look at the floor.... Perhaps i want my staring to have some impact on her.... Perhaps she notices the stare of the guy next to me.
Perhaps i'm overanalyzing it. This is not my habitat. I've drowned in this waters many times, choked by the ecstasy in the tides of the crowd, turned into a storm by the violent rising metal beat of the bass.
The flashes of lighting, the thunder in the 'music', the drunken tidal waves of the sweaty, blurry, human mass, transform the scenery in a frame-by-frame utter bedlam.
She looks like a tropical island in the midst of this, with the bright shine in her eyes, and the little umbrella in her orange sunrise drink.
I'm old... Lately my ego has been increasingly rejection resistant. I intentionally mistake that for confidence. For the desired effect, it is of little importance.
I move.
I can't dance, I don't know any good pick up lines. I can't adjust my voice to scream at someone's ear, above the roar of the 'music', and below tympanic rupture volume. I can't read the frame-by-frame club body language. I don't know what i'm going to say.
My odds dismay even the most optimistic gambler. But i move. I'll run the track, behind everybody, if need be.
O Wes Anderson é um génio do cinema e um dos realizadores actualmente que melhor utiliza a linguagem visual nos seus filmes.
As simetrias perfeitas, as grandes angulares, as composições invulgares das cenas.
Em todas as coisas a atenção ao detalhe é assombrosa.
No seu filme mais recente, o The Grand Budapest Hotel, não pude deixar de reparar no seguinte.
é um filme sobre frames
Ou seja...
a narrativa está framed/emoldurada
começa com uma jovem num país de leste a ir visitar o busto de um herói nacional, que numa entrevista conta uma história, uma história de como quando era novo encontrou o dono do famoso Grand Budapest Hotel, o dono do Grand Budapest Hotel conta a história da narrativa propriamente dita, e no fim do filme a narrativa propriamente dita é terminada pelo dono do GBH, comentada pelo escritor jovem, concluída pelo escritor velho no fim da entrevista, e depois a jovem afasta-se do seu busto.
o filme muda constantemente o seu aspect/ratio, ou seja, o frame/moldura da imagem
As mudanças narrativas são pontuadas com mudanças subtis de um formato de 16:9 para um de 6:4
a história é sobre um retrato numa moldura/frame
A narrativa centra-se à volta de um retrato que foi roubado
e sobre uma personagem que está a ser tramada/framed por um crime que não cometeu
...
Portanto isto tudo só para chamar a atenção ao facto de que o Wes Anderson é um dos génios mais sub-apreciados do cinema actualmente.
Porque é que vocês se andarem a encharcar voluntariamente, e vestidos, ajuda os doentes com esclerose lateral amiotrófica?
Qual é a relação entre as duas coisas?
Porque é que gastar 50 litros de água, e apanhar uma pneumonia ajuda os outros doentes? É uma mostra de solidariedade? É promessa que vão ocupar a cama de hospital ao lado do desgraçado com esclerose lateral? É por serem famosos? E o parvalhão do meu vizinho, para que é que eu ando no facebook, a ver o video dele a tomar banhos gelados?
É capaz de ajudar num sentido: a mulher dele não quer nada com ele há algum tempo, e dizem que os banhos gelados acabam com o tesão de mijo à velocidade da luz. (peço desculpa pela falta de nível)
Se eu fosse famoso e quisesse ajudar, dava era um banho a um doente com esclerose lateral, que o desgraçado não se consegue mexer, quanto mais esfregar as costas. Ou então pagava a uma enfermeira atraente para lhe dar um banho de esponja.
Isso é que ajuda um gajo! Perguntem aos doentes com esclerose lateral!
Eu proponho o desafio de tirar macacos do nariz e colá-los nas sobrancelhas, para ajudar os doentes com queda de cabelo. Nomeio o Ronaldo, o Ministro da Saúde, e uma gaja boa que vi numa novela ontem, que agora não me recordo do nome. Força gaja boa!
This is a song that onyrically takes you through the dream-like perspective of a person who's realized that people care way too much about mundane things.
Note that the song starts with "Let me take you down, cause i'm going to Strawberry Fields"
He's not taking you down to Strawberry Fields, he's taking you down, meaning taking you down a peg and getting you feeling low and blue (as in "i'm feeling down"), because he's going to Strawberry Fields.
Nothing is real, there are no really important things, it's all an illusion, a construct of our mind's attempt to make sense of it all and impose structure on events outside our control, There's really nothing to get hung about, because it's all strawberry fields forever.
Living is easy with eyes closed, if you obstinately refuse to see that it's all in the mind, if you refuse to see the real value of stuff, and making attributions and giving value to stuff that's really not worth all that much, misunderstanding all you see.
It's getting hard to be someone, to make a name for yourself, to make yourself feel and seem important in society, it's hard to be someone of note and importance, but you know what, it all works out either way.
It doesn't matter much to me, you know, all that running around trying to be someone.
No one i think is in my tree, not many people are with me on this or think the same way i do, because you can't have both, you can't care and not care, it must be high or low, you can't just tune in when you want to, you have to either know or not.
But it's alright if you don't. At least i think it's not too bad. Nothing really matters anyway.
So let me take you down, let me take your mind down, your expectations down, let me release you from that daily bustle, and just come with me to strawberry fields, because nothing is real, and there's really nothing to be hung up about, there's just endlessly stretching strawberry fields. It's all good, if you just learn to relax.
And i know you always think this is just me talking. Or rather, you sometimes think this is just me talking, there are moments where you do wonder if i'm right.
But you know what? I do know the difference between the rambling flow-of-thoughts that takes me down through these ideas, I know when it's a dream.
In all the confusion and absolute relativity of it all, all i can safely say is: i think that all these things i know, they mean a resounding "yes", it is all relative, it is all for show, you can let it down, you can not care that much.
But then again, it's all wrong, all of these things i'm saying could just be plain wrong.
But no, there's no right or wrong, you're not right and i'm not right. All i know is that i disagree with your worldview.
So let me take you down, cause i'm going down and i'm going to free-flow my thoughts, i'm going to listen to music and enjoy life and smoke drugs and release my mind, and go to that child-like fascination of the world, as if i'm just walking through endless fields of Strawberry Fields, just waiting to be picked, in immeasurable beauty, where nothing is real, and there's nothing to get hung up about.
from Wikipedia:
Strawberry Field was the name of a Salvation Army children's home just around the corner from Lennon's childhood home in Woolton, a suburb of Liverpool.[9] Lennon and his childhood friends Pete Shotton, Nigel Walley, and Ivan Vaughan used to play in the wooded garden behind the home.
A premissa da narrativa é de que esta é a aventura imaginada de uma criança de oito anos e meio que está a brincar com os seus legos. Lembram-se de como a sequência de acção no início do Toy Story 3 é realmente uma interpretação das aventuras que a criança imagina no início do Toy Story 1? Toda a narrativa do Lego Movie é também a interpretação de uma aventura imaginada por uma criança. Mas está tão bem escrita e assume a sua infantilidade de forma tão aberta, que se poderia perdoar ao espectador não notar isso.
A narrativa consegue criar uma crítica a uma sociedade que está cada vez mais normalizada e conformada consigo mesma, na qual toda a gente se rege pelas mesmas instruções e toda a gente gosta das mesmas coisas que as corporações nos mandam gostar, e as pessoas que não se enquadram com isto são de alguma forma postas de lado. É uma história acerca do conflito incessante entre ter uma individualidade própria que seja um reflexo das ideias e convicções e personalidade de cada um e a pressão tremenda para ninguém se desviar muito da norma, porque quando isso acontece o Papão zanga-se.
Mas também uma história que tem como tema central a auto-estima e o auto-valor. Pode parecer cheesy e demasiado feito, mas todos os filmes são sobre o under-dog e sobre como o under-dog vence todas as adversidades e dificuldades para vir salvar o dia.
Todos nós nos identificamos com o under-dog, todos nós SOMOS o under-dog das nossas histórias pessoais, e esta história é sobre o under-dog mais underdog de todos.
A personagem central do Emmet é aquela que é mais genérica, os outros ainda têm salsichas grandes ou patilhas ou gatos, mas o Emmet não tem nada que o distinga.
Ele esforça-se imenso por seguir as instruções sociais, e as normas e convenções do mundo à sua volta, porque foi assim que lhe ensinaram que devia ser, porque lhe disseram que se fizesse isso, ia ter amigos e ser aceite e ser gostado pelas outras pessoas.
Mas descobre que fez isso tão bem tão bem, que se tornou absolutamente genérico e indistinguível de toda a gente. Tanto que ninguém repara nele, que ele se tornou absolutamente secundário na vida de toda a gente e que ninguém realmente se importa com ele o suficiente para sequer se lembrar claramente dele.
E isto é um medo tão transversal a todas as pessoas. É um medo muito fundamental, muito primário, de que se fala pouco, mas é absolutamente central à construção da personalidade de qualquer pessoa. Todos nós precisamos de sentir que somos especiais e únicos de alguma forma, mas não só a sociedade nos pressiona a gostarmos todos das mesmas coisas, como nos diz que ser demasiado diferente é mau, e deixa-nos sozinhos a tentar perceber o que é que significa realmente "demasiado diferente". Por medo tendemos a pecar por excesso de precaução, e escondemos o que nos torna únicos, correndo a consequência de deixar de ter o que quer que seja que nos torne especiais.
E não há coisa mais importante para uma criança do que sentir que é especial.
A narrativa do Lego Movie é exposta pela perspectiva de uma criança. E aquilo que as personagens dizem acerca do The Special, uma figura messiânica que vem salvar o mundo da conformidade forçada, é que ele é a pessoa mais criativa, mais interessante, mais importante e melhor do mundo.
Que parece, e é, o discurso interno algo infantil de uma criança. É a fantasia de qualquer criança sentir-se dessa maneira. Ver os seus amigos e as pessoas que gostam dele a pensarem e a dizerem isso dele. É uma fantasia que a criança quer sentir e ambiciona imenso experienciar, mas que já sabe que é rara na vida, e então arranja um bonequinho de lego, o mais genérico e desinteressante de todos, para se representar a si mesmo, e cria-he uma aventura fabulosa na qual o bonequinho se transforma naquilo que a criança gostaria de ter para si mesma.
Mas a verdade é que este diálogo interno de "eu sou bom, eu sou importante, eu sou interessante, eu tenho valor, eu não sou menos que os outros" é o diálogo interno que cada um de nós, no seu íntimo, tem de fazer obrigatoriamente todos os dias para não entrar em depressão!
Quais fantasias sexuais e fetiches estranhos, é muito mais fácil uma pessoa admitir que tem esses do que admitir que o que gostava mesmo era que os amigos achassem genuinamente que ela era mesmo uma pessoa muito muito porreira e interessante.
Portanto o Filme Lego é uma história sobre esses medos muito primários que subsistem em nós, adultos, sobre a forma como são experienciados por uma criança, e a maneira como essa criança sublima esses medos na pele de um bonequinho lego para quem imagina uma aventura que comprova a esse bonequinho todas as coisas que a criança gostaria de ver comprovadas em si.
E como é uma coisa apresentada de forma infantil, para crianças, para nós adultos é mais fácil vê-la e aceitá-la. Se a mesma história fosse contada de forma diferente, acerca de um adulto de 30 e tal anos num emprego mediano, seria uma lição demasiado próxima, demasiado reveladora e difícil de engolir.
Mas como é com uma criança está tudo bem. Posso ver a história, aceitá-la, sentir-me bem comigo mesmo e ainda assim dizer a mim mesmo que na realidade não tenho aqueles medos todos, que não sou assim tão frágil. A própria história fornece as ferramentas para podermos sentir-nos bem com ela e ainda assim protegermos o nosso próprio ego.
E é isto que acontece à figura do Pai, no fim do filme, que através do que percebe que o filho está a sentir, vê em si mesmo os seus erros, sem ter de os admitir abertamente, e por causa disso redime-se e muda os seus hábitos, aumentanto a sua felicidade e a do seu filho.
E faz isto tudo usando exclusivamente peças de lego animadas por computador, num filme maravilhosamente bonito, divertido e engraçado.
Com peças de Lego, porque as crianças brincam com peças de Lego, porque as peças de lego permitem fazer tudo o que se queira, sem limites para além dos da imaginação.
I know, what're ya gonna do? It's this or nothing else, so you might as well enjoy it.
Guardians of the Galaxy is fun, its entertaining, it does a LOT of things right. And it does that by following some central ideas that have proved to be very successful. These ideas are the kind that fuels every single story, they get repeated because they are good. These ideas are called tropes.
Guardians of the Galaxy is as successful as it is, because it is borrowing some very old tropes, and very much the same tropes as the already, very successful The Avengers
You see. Guardians of the Galaxy, is basically The Avengers in SPAAACE.
There are many other aspects, but i'll talk about the main characters.
They're both Five-Man Bands composed of mismatched outcasts who are reluctantly put together to fight a Big Bad to prevent a catastrophic event from destroying their worlds. They bicker between themselves at first but are eventually united by The Power of Friendship.
Star-Lord, Peter Quill - Captain America, Steve Rogers
Both are the central characters, both are the heart and leader of the team, both are displaced in time with references and jokes made at the expense of their outdated taste, both are slightly goofy but kindhearted. Both were weak fragile younsters who against all odds became extremely competent and confident. Both are normal human beings, at the top of their game.
Gamora - Black Widow
Both are highly skilled and deadly assassins with a shady past and a suggestion of a cruel training as children. Both serve as sidekick to the Leader and as suggested but never accomplished love-interest. Both, despite their professional and cold outward demeanor, actually do care deeply about the morality of their actions.
Rocket Racoon - Iron Man
Godamnit even their godamn names are paralel, one is a man in iron, the other is a raccoon on a rocket. They are both reluctant users of implanted technology (Rocket is a cyborg), but use it to their advantage, both are technical geniuses able to build complex machines with a tendency to assemble powerful weapons. Both are thee short tempered, manic one-lining sarcastic of the group. They're even both short and furry.
Drax - Hulk
What? Two characters who are loquacious, socially awkward, don't pick up on social clues, and both are endowed with great durability and physical strength while having do deal with issues of anger and restraint?
Grooth - Thor
The magical, kinda dumb, honour-bound brave-hearted big guy. Extremely tough and powerfully strong, definitively the toughest guy in the fight and flatly valiant and corageous. The mystical/magical element of the group, both could have come straight from a fairy-tale. Both are even royalty (Groot in the comics is a monarch of his tree-people).
Toda a gente tem falado do Good Will Hunting, e do Dead Poet's Society, e do Hook, e do Mrs. Doubtfire, que são sem dúvida excelentes filmes, possivelmente os melhroes filmes dele.
Vou falar de filmes dele que correm o risco de serem esquecidos:
Uma comédia negra, com uma história muito estranha sobre um tipo desenquadrado a tentar ter uma vida nromal, cheia de personagens secundárias bizarras, entre elas a Glenn Close e o John Lithgow.
Um filme dramático, profundamente triste, sobre um neurologista que descobre que doentes catatónicos podem melhoar, com uma das interpretações mais discretas do Robin Williams, e uma das melhores do Robert DeNiro.
Este filme dominou a minha infância. Sobre o dono de uma fábrica de brinquedos que não quer deixar corromper o seu sonho. Um dos filmes com a imagética mais bonita e criativa de sempre.
Um filme de espionagem com o Bob Hoskins, a Patricia Arquette, o Gérard Depardieu, um Christian Bale muito novinho, e o Robin Williams a fazer uma personagem secundária absolutamente intensa e arrepiante.