Pataniscas Satânicas

Pataniscas Satânicas

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Gatos

Vou agora explicar porque é que gosto tanto de gatos.

Para isso vou começar por falar de cães.



De todas as coisas que os seres humanos inventaram, os cães são definitivamente uma das mais impressionantes. 

Há toda uma discussão mais ou menos razoável sobre organismos geneticamente modificados, que geralmente esquece o facto de que os humanos andam a modificar geneticamente organismos há milhares de anos.



Há cerca de trinta mil anos (30 000) anos os humanos roubaram as primeiras crias de lobos e criaram-nas no seio da tribo. Educaram-nas, ensinaram-nas e fizeram criações. Iam escolhendo que lobos iam procriar com quais, seleccionando as crias que eram mais dóceis, inteligentes e cooperantes.
Ou seja, foram domesticados. Pegámos neles e à custa de selecção artificial mudámos o padrão genético e fenotípico destes animais de maneira a que se adaptassem melhor às nossas necessidades.

Os cães foram provavelmente dos primeiros organismos geneticamente modificados. Muito antes das plantas, que só começámos a domesticar há cerca de dez mil anos (10 000).



As pessoas dizem que os cães são os melhores amigos dos homens, como se sequer pudesse haver uma alternativa. Nós fizemos com que os cães fossem os nossos melhores amigos. Domesticámo-los e fomo-los seleccionando ao longo dos milénios de maneira a que fossem mais semelhantes a nós.

É claro que quando fazemos testes à inteligência dos cães, eles são tão inteligentes. A única inteligência a sério que conhecemos é a nossa, e quando pegamos em ferramentas criadas para avaliar a inteligência humana e usamo-las para avaliar a inteligência animal, não devia ser nenhuma surpresa que os animais que nós manipulámos durante mais tempo tenham os melhores resultados.



Também existe a discussão típica sobre qual é que é mais inteligente, os cães ou os gatos.
A verdade é que é quase impossível avaliar a inteligência dos gatos, porque eles simplesmente não cooperam com os testes.
Ou seja, não é que os gatos sejam mais ou menos inteligentes, simplesmente têm um tipo de inteligência que nós não sabemos avaliar.

Mas temos a certeza que são inteligentes.
Os gatos têm um entendimento rudimentar do mecanismo de apontar (ou seja, quando apontamos para alguma coisa, eles olham para ver para o que é que estamos a apontar). Isto é um indicador provável da presença de teoria de mente, e consequentemente de consciência. Os chimpanzés têm mais dificuldade em compreender o apontar do que os gatos.



Porquê estas diferenças?

Basicamente porque os gatos só foram domesticados muito recentemente. Estima-se que a domesticação dos gatos tenha acontecido há cerca de sete mil e quinhentos anos (7 500), por contraste com os trinta mil anos dos cães (30 000).
Os gatos domésticos (Felis domesticus) são praticamente idênticos aos gatos selvagens (Felis silvestrus), enquanto que os cães são significativamente diferentes dos lobos.

Nenhum humano foi roubar crias do gato selvagem para criar. Os gatos não foram alvo de selecção artificial humana. Foram os próprios gatos selvagens que evoluíram para aproveitar a vantagem evolutiva de estarem próximo de comunidades humanas, provavelmente para se alimentarem dos ratos que comiam as reservas daquelas outras plantas que também domesticámos e cultivámos.



Os gatos domesticaram-se a si mesmos, porque isso lhes era vantajoso.
Ou seja, sofreram uma selecção natural, que lhes permitiu adaptarem-se melhor aos seres humanos, serem cada vez mais tolerados, e até apreciados pelos seres humanos, para poderem continuar a aproveitarem-se de nós.

É por isso que há pessoas que não gostam de gatos. Os gatos não evoluíram de maneira a reflectir as nossas emoções e a nossa inteligência, como os cães. Os gatos não foram seleccionados com base na sua empatia, mas sim na sua capacidade de serem espertos e aproveitarem-se de nós.

Os cães ficam genuinamente felizes por nos verem, porque nós garantimos através da selecção aritificial que fizémos que assim fosse.
Os gatos se são queridos e fofinhos isso não é mais do que camuflagem para nos enganar.
Evoluíram para aproveitar este nicho evolutivo que são os seres humanos. Aproveitaram-se deste recurso fácil, que somos nós. Quase como se fossem parasitas.

Hot damn, os egípcios adoravam gatos, you KNOW i'm gonna write about that!

Quando um cão brinca connosco, está genuinamente a brincar e a interagir. Quando um gato caça as nossas pernas e as nossas mãos, está literalmente a caçar-nos. Nós somos a presa dele.
Só que ele descobriu que matar-nos logo dava muito trabalho, então vai-se aproveitando durante anos a fio, até morrermos, altura em que nos come.

Ah, sim, porque aquelas histórias muito bonitas e sentimentais, que dão filmes lamechas, do cãozinho que gostava muito do dono e que quando o dono morre o cãozinho vai todos os dias esperar por ele à estação, não acontecem com os gatos.
Se o dono do gato morrer em casa e o gato ficar com fome, o gato vai comê-lo. E nem sequer perde muito tempo. Provavelmente nem o deixa arrefecer.



Portanto fico um bocado na dúvida sobre porque é que gosto tanto de gatos, agora que penso nisso.

Mas pronto, e porque este post já está vago o suficiente.

Acho fascinante partilhar a casa com o que é, essencialmente uma inteligência/proto-consciência alienígena à minha que evoluiu quase sem influência humana e com a qual consigo estabelecer algum tipo de comunicação.
Com cães sinto sempre que estão ali para me servir e para agradar.
Com o meu gato sinto que há uma relação de respeito mútuo, ou pelo menos respeito da minha parte e condescendência/desdém da parte dele...

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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Testículos

Podem não saber isto, ou nem sequer alguma vez terem pensado nisso, o que não seria de todo estranho dado que também não é algo em que eu quereria pensar.
Mas por vezes o meu dia de trabalho começa com a possibilidade de afagar os testículos de outro homem.

Não é que seja incrivelmente frequente, porque até nem é. Mas para mim já aconteceu vezes demais. Ou seja, mais do que uma.
Não gosto particularmente de tocar nos testículos de homens estranhos! Acho que é razoável.



Não tenho nada contra testículos, ou sequer contra tocar em testículos (aliás é uma coisa que recomendo), e nem sequer contra o gosto de tocar em testículos.
Sabe Deus que eu já andei a mexer nos meus! "Que é  isto? Isto é muito estranho! Mas é bom de uma maneira que não me parece certa. Olha olha! O escroto esta a mexer-se sozinho" com Deus ao meu lado, a ver (porque está em todo o lado).

Não, a mim o que me incomoda é ter de mexer nos tomates de estranhos. Logo pela manhã. Não sei se à tarde seria melhor, mas não consigo deixar de achar que de manhã é pior.


É embaraçoso para o doente, é chato para mim que tenho de ir buscar uma luva e andar a enfiar o dedo no escroto de outro homem.
Sabem como é o exame objectivo de uma hérnia inguinal, sabem? Não é agradável para ninguém envolvido!

Não é que me incomode de sobremaneira! Até já fiz coisas piores. Mas afagar os tomatinhos de um obeso logo a seguir ao pequeno almoço... eh pá...


Porque nem sequer é preciso a maioria das vezes! Nunca apanhei uma torção testicular aguda, nunca apanhei um tumor que ia destruir a vida do homem se eu não o diagnosticasse cedo.

Já meti o dedo no cu de muita gente, mas também já apanhei massas rectais suspeitas, hemorragias activas, próstatas pétreas, etc. Pude pensar: "Enfiar o meu dedo no cu de outra pessoa valeu a pena! Foi uma acção válida, com valor social e médico comprovado, e merecedora do meu tempo"



Nem sequer consigo ter o mesmo sentimento minimamente compensador em relação a mexer nos tomates de outro homem. A única coisa que me passa pela cabeça é "OH MEU DEUS PORQUE É QUE EU TENHO DE FAZER ISTO!?".

O que eu apanho quando faço palpações testiculares são homens de meia idade, geralmente bem aprumados, a quem disseram quando eram mais novos que era feio tocarem em si mesmos, e então quando chegam a uma idade em que já não têm sexo com a mulher que têm há vinte anos e começam a dedicar-se à nobre arte da masturbação é que notam "Olha! Há aqui para baixo coisas que eu nunca tinha reparado!"



E pensam em cancro. É claro que pensam em cancro! Porquê pensar em qualquer outra coisa quando se pode pensar em cancro? Porquê passar pelas preocupações de "estará inflamado?", "se calhar magoei sem dar por isso", "será uma infecção?", quando se pode perfeitamente atalhar directamente para "É cancro!"?
Ninguém vai ao médico com medo de ter uma gonorreia. Vão quando estão a urinar pus e sangue.
Mas vão ao médico com medo de cancro. Ninguém se imagina a ter gonorreia, apesar de ser mais prevalente que o cancro testicular.

Não, se vão ter uma doença, é cancro!



E é engraçado ver homens com medo de cancro! As mulheres com medo de cancro lidam com esse medo, pegam nele, assumem-no, expõem-no sem hesitação. Porque estão habituadas a ligar com emoções intensas. Porque têm um medo muito saudável e real do cancro! Cancro da mama, cancro do colo do útero! Sabem que estas coisas existem, que são frequentes e que merecem cautela e medo!

Mas os homens entram sem saber o que fazer ao seu medo "Eu, huh, pois... tenho aqui, quer dizer, sinto uma coisa... Acho que é uma emoção. E é forte. Acho que é medo. Não sei bem o que fazer com isto, mas lembrei-me que como você é médico talvez me possa ajudar com isto"

E lá tenho eu de empatizar com o homem, e reflectir as emoções dele para estabelecer uma ligação terapêutica, para lhe poder dizer de uma maneira que não o deixe mais desconfortável ou a sentir que eu não o levei a sério ou, pior ainda, que saia preocupado à mesma, que eles não só não tem nada como aquilo que ele sente é uma parte da anatomia normal deles na qual simplesmente nunca repararam.



Obviamente que ficam contentes por não terem cancro! Mas quando isso passa ficam ali com os tomates na mão a sentirem-ser embaraçados porque os vieram mostrar a um estranho!

E eu penso para mim mesmo "vá, são só uns testículos, é só anatomia, tens uma luva, sê profissional, aparenta estares aborrecido" mas a verdade é que nunca consigo estar indiferente.

E vou para casa a pensar nisso durante uns dias. E no fim penso se o doente também pensa em mim da mesma maneira...


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quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

O Macaco gosta de Açúcar (banana)

Os macacos sabem fazer açúcar bom.
Foi uma das coisas que aprendemos a fazer bem, foi o açúcar. Fazemos açúcar com mestria e requinte. Poucas coisas na nossa sociedade evoluíram tanto como a comida.



Quando éramos todos macacos nas árvores, os macacos que comiam alimentos com mais calorias, conseguiam ter mais energia para procriar mais. Ou seja, a procura de alimentos com muitas calorias era uma vantagem evolutiva.



E como é que se escolhe, de entre todos os frutos da floresta, quais são os mais calóricos? Geralmente são aqueles que têm mais glucose e ácidos gordos, porque essas moléculas são as que produzem mais calorias quando digeridas.
Mas agora qual é uma boa maneira de escolher quais é que têm mais açúcar? Olha, vamos transformar as células especializadas da língua para detectarem moléculas de açúcar e gordura nos alimentos, e dizer ao cérebro "ISTO É BOM! COME MAIS!!!"

As nossas papilas gustativas são sensores de densidade calórica. Quando há muitas calorias acendem-se alarmes químicos que nos dizem para comer mais daquilo.

Portanto é normal que gostemos tanto de açúcar.


Na savana africana não se vivia lá muito bem. Havia pouca comida, pouca água e poucos lugares para uma pessoa se esconder dos tigres dentes de sabre. Os primeiros humanídeos passaram um mau bocado nessa altura.
Isolados da floresta tropical tiveram de reaprender a sobreviver na savana. Não haviam ramos ou árvores, então tiveram de aprender a andar e a correr com a cabeça por cima das ervas para ver predadores.
Na savana as frutas e bagas são raras e espinhosas, as ervas altas e fibrosas dominam planícies como ervas daninhas que só os grandes ruminantes conseguem digerir.
Havia menos calorias disponíveis.



Então os humanídeos, nada se não adaptáveis, viraram-se para a única outra coisa que podem comer: carne. A carne é rica em proteínas e gorduras, tem muitas calorias.
O problema é que a carne por aqueles lados tem dentes, e cornos e corre muito depressa.
Mais vale deixar outros apanhá-la primeiro. Então os humanideos tornaram-se necrófagos. A comer os restos dos animais que os predadores já não queriam.

Mas estavam no fundo da cadeia alimentar. Comiam o que os leões tinha deixado, depois das hienas lá têm ido e dos abutres terem ido bicar os restos. Já não restava muito. Cadáveres com uma semana. 
O que restava era o que os outros animais não tinham conseguido tirar. Aquilo que estava preso dentro dos ossos que eles não conseguiam partir. A medula óssea. 
Altamente calórica, extremamente nutritiva, cheia de gordura e vitaminas. Um tesouro fechado dentro dos ossos. 



Os humanídeos, que aproveitaram o facto de já saberem andar sobre duas pernas para usar as mãos, começaram a usar ferramentas para partir os ossos. Começaram a evoluir para aprender a usar e criar ferramentas. 
Ora isto necessita de um cérebro maior que necessita de mais energia. Que por sorte já lá estava na medula muito calórica que eles estavam a comer! 

Estes proto-seres-humanos tiveram sucesso evolutivo devido a uma relação benéfica entre usar ferramentas para obter uma fonte de calorias que permite mais cérebro para aprender a melhor essas ferramentas. 

A comida levou à tecnologia que influenciou a biologia a favorecer a tecnologia.

Atalhando, a determinada altura decidimos que não queremos andar sempre a depender de fontes de comida inconstantes e começamos a plantar coisas. Ficamos no mesmo lugar, deixamos de ser nómadas, plantamos coisas e começamos a empilhar calhaus.




O problema das plantinhas, sobretudo aquelas que plantávamos, era que tinham pouca densidade calórica.
Comíamos nabos. Provavelmente os nabos até teriam sido considerados uma iguaria, mas neste momento é o pior que consigo imaginar. Isso ou inhames.




Gerações e gerações de civilizações agrícolas cuja principal fonte nutritiva eram os nabos e as couves. 

Aquela gente devia ter uns trânsitos intestinais épicos! Fibra todos os dias! Haviam poias tão majestosas que ainda hoje as guardamos em museus, como testamento à força de vontade humana! 




Mas da mesma forma como nas savanas africanas a fome impeliu humanídeos a usarem as mãos para criar ferramentas para melhorar a qualidade das calorias que ingeríamos, também nas sociedades agrícolas a tecnologia foi parcialmente motivada pela comida. 

Começámos a concentrar essas calorias. A refinar os hidratos de carbono e as gorduras que comíamos. Pão, cerveja, queijo. Maneiras de transformar os recursos alimentares brutos em formas mais transportáveis e sobretudo saborosas! Porque gostamos de açúcar! Porque é bom porque tem muitas calorias que dão uma vantagem evolutiva! 



10 milhões de anos de evolução impelem-nos a fazer comida o mais calórica possível, e essa comida é um reflexo da nossa evolução mental e tecnológica.

Por isso é que temos açúcar tão exageradamente épico!


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terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

One more day

One more day, one more, in the midst of a linear ocean that leads to uncharted shores.
Life has a way of looking the way motivational posters tend to present it. It has a way of changing drastically what you thought you would be.

And that is good. You wouldn't want the 18 year old you, defining the way you live when you are forty. And that is why I don't envy people who make ''ten year life plans''. Idiots.

The monkeys do the trial-and-error-thing. And they do it again. And again. They teach the trial-and-error-thing to their offspring, until they die.
Ten year life plans are illusions of control. Some monkeys believe they can define their course through the shitstorm of chaos which is life. Maybe they can. I certainly can't.

But i guess i'm ok with that.

More importantly, today was a good day. And i haven't had many of those lately.

So raise your glass with me.

Ao Carlos!
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segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Ginásios e a linha de Sintra


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terça-feira, 27 de janeiro de 2015

AVCêses

Ontem uma senhora respeitável veio dizer-me que tinha tido um AVC.
Eu perguntei em que hospital esteve internada.

''Não fui ao Hospital''

Eu pensei: ''Ah, um AVC desses...''. e disse '' isso é muito grave, dona clotilde, conte mais...''

''Venho cá hoje porque tenho estado muito sonolenta. No outro dia acordei durante a noite, com umas vontades, de maneira que fui a casa de banho evacuar. Mas como tenho andado sonolenta, adormeci sentada na sanita.''

Eu disse: ''Ah pois, isso é chato.'' e pensei: ''eu é que devia pagar para assistir a isto...''

''De maneiras que, quando acordei, não sentia a perna esquerda, e fiquei muito assustada. Mas não sentia mesmo, dava beliscões fortes na perna e nada! De modo que percebi logo que tinha tido um AVC! E chamei chamei os bombeiros. Só que durante a chamada voltei a sentir a perna, e disse que afinal eles não precisavam de vir.''

Eu disse: ''Ah, se calhar não teve nenhum AVC, dona clotilde...''

'' Não tive? Então o que foi? O que é que aconteceu?''

Eu disse: ''Ahh.... pois.... teve uma.... estava sentada na sanita e....não vê que o seu peso é um pouco..... hum.... Pois, olhe você teve um princípio de um AVC!''

E assim nasceu o termo.
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quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Charlie - One last word

Ainda sobre a notícia do momento, e correndo o risco de requentar o assunto, nestes tempos de consumo de eventos recentes à velocidade de spots publicitários, tive um diálogo interessante com um amigo meu.

The argument goes, que o Charlie Hebdo era extremamente provocador, e de alguma maneira, sem merecer, arriscava-se a que lhe acontecesse o que aconteceu. O exemplo usado foi o de ir ter com um grupo de ciganos e insultá-los gratuitamente. E esperar não ser agredido ou esfaqueado.

Não é razoável.

Fiquei a pensar nisto, e fui ver alguns dos cartoons que o Charlie publicou antes do tiroteio. Não gostei nada do que vi, e tive que concordar com o meu amigo. Eram extremamente agressivos, ofensivos, gratuitos. Fiquei a pensar se de facto era preciso aquilo tudo, representações de sodomização de figuras que outros consideram sagradas. Para quê?

Alguma coisa continuou a chatear-me. Tenho-me como um gajo sem pruridos nem susceptibilidades. E gosto muito de humor arriscado.... Porque é que o Charlie me chateava?
Demorei um bocado a  perceber, mas no momento em que entendi, soube que o meu problema era o problema de muita gente.

Não é que os cartoons me ofendessem...  O problema é que não achei pingo de graça aquilo. Não me ri. Talvez um esgar de indiferença. Mais nada. Para mim, o Charlie Hebdo não tem piada nenhuma. Zero.

Mas qual é o conceito de humor? O que é uma piada? A resposta curta é, tudo. A piada não é o que é dito. A piada é o que é rido. Não interessa o que foi que fez os macacos rirem-se. Se os macacos se estão a rir, foi uma piada. Se não, não interessa a intenção, o timing, o delivery, o set up, a punchline. Foi tudo inútil.

Por isso não percebo as pessoas que dizem que ''pode-se gozar com tudo, depende da maneira como é feito''. Não, não depende. Depende se outro alguém lhe acha graça. Mais nada.

''Mas qual é a piada? Que porcaria, mete nojo! Que repugnante, dá-me náuseas... Quem é que acha graça a uma coisa destas?''

Se algum ser humano olha para o Maomé a levar nas nalgas e se escangalha a rir, é uma piada. É impossível alguém a quem falta o ar de tanto rir, pôr-se com falsos moralismos. E quem não gosta, não compra. Muda de canal. Muda o posto do rádio. Vai para outro site. Vai à merda.

Se há um macaco a rir-se, não lhe estraguem a tarde a tentar fazê-lo sentir-se mal, porque se está a sentir bem. Já tivemos o suficiente disso, durante os tempos em que a igreja mandava no estado.

Talvez por isso, não me surpreendeu a reacção do Papa, que disse que dava um murro a quem lhe insultasse a mãe. No dia em que alguém se dirigir ao supremo pontífice, para lhe chamar puta à mãe, já que ele está numa de afiambrar, porque é que não reza ao menino Jesus para fulminar com um raio o transgressor?

Não me interessa se é gratuito, ofensivo, racista. Eu mijei-me a rir com isto. Por isso é uma piada.



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quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

A ópera dos macacos



7 biliões de pares de olhos continuam a ver a realidade de maneira tão diferente e tão igual. Diferente o suficiente para darem uns tiros uns aos outros de quando em vez, e igual o suficiente para que seja quase impossível encontrar uma ideia verdadeiramente original. Os macacos vêem os dias passar enquanto cavam buracos em piloto automático. Esperam pelos dias historicamente mágicos para cometerem os seus excessos pequeninos, comem que nem animais, fazem noitadas, apanham bebedeiras, dormem até às duas da tarde. É nesses dias que o drama da vida dos macacos acontece verdadeiramente. Intoxicados por pathos e dopamina, saudamos a sexta feira com a sede de quem atravessou o deserto.

É nesses dias que há ópera na vida dos macacos.

É a melhor parte da nossa vida, e o que nos motiva o atravessar o dia de trabalho.
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sábado, 10 de janeiro de 2015

Relatividade geral

A massa de uma galáxia distorce tanto o tecido do espaço à sua volta, que a galáxia azul precisamente atrás dela torna-se visível como um anel.

A gravidade curvou o espaço de tal maneira que a luz que vem da galáxia azul é deformada como por uma lente. A luz viaja sempre numa linha recta. Não é a luz que se curva, é o espaço por onde ela viaja que se deforma.


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quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Je Suis Charlie


Porque lutamos contra o Papão.

Porque nos rimos do Papão.

Porque noutras circunstâncias podíamos ser nós.




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sábado, 3 de janeiro de 2015

Cigarette Duet


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segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Top 5 de filmes de 2014

5 - Noah - finalmente um filme de fantasia baseado na mitologia cristã. Um excelente filme de fantasia, com óptimas interpretações, uma estética muito característica e uma história muito muito forte.


4 - Guardians of the Galaxy - definitivamente um dos melhores filmes da Marvel até agora, e o meu filme preferido do ano. É extremamente divertido, com personagens invulgares, um ritmo perfeito, diálogos muito engraçados e algum do melhor CGI que tenho visto ultimamente.



3 - Grand Budapest Hotel - o filme mais Wes Anderson que o Wes Anderson já fez. Absolutamente único na sua estética altamente específica e formalizada, com um cast perfeito e interpretações spot-on, numa história bizarra, convoluta e com pormenores hilariantes.


2 - Gone Girl - um dos filmes mais aterradores e bem construídos que já vi. A construção do suspense e do terror opressivo neste filme é genial. As interpretações são quase perfeitas, e a manipulação que o filme consegue das emoções do espectador é assombrosa.



1 - Interstellar - uma obra prima de Christopher Nolan. A mestria do realizador é inegável, num filme que pega no que de melhor há no 2001: A Space Odyssey e no Tree of Life, e cria uma viagem onírica e poderosa sobre ciência, amor e humanidade.




Menções especiais

How to Train Your Dragon 2 - Discutivelmente um dos melhores filmes de animação moderna já feitos. Uma história verdadeiramente épica, uma banda sonora fantástica, personagens gostáveis e verdadeiramente relacionáveis, e excelente animação.



The Lego Movie - Um dos filmes mais originais, peculiares e refrescantes deste ano. Uma história simultâneamente excêntrica e profunda, com um humor espirituoso, 10 piadas por minuto, e a animação mais colorida que eu já vi.


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quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

God Rest Ye Merry, Gentlemen

Na realidade a expressão original era "God Rest Ye Merry" no sentido de "Que Deus vos Deixe Felizes", e na canção o sentimento é desejado aos Gentlemen.
Não são os Gentlemen que são Merry.


Um dia destes tenho de fazer um post sobre os Jethro Tull. Ou dois. Ou Cinco.
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domingo, 21 de dezembro de 2014

Solstício de Inverno

É inverno.

Os dias são frios, escuros.
Há menos renas, há menos mamutes, há menos bagas.

A tribo esconde-se na caverna, à volta da fogueira. As noites são longas e ameaçadoras. O uivo de predadores ouve-se à distância.

As estrelas, impossivelmente brilhantes, inatingivelmente misteriosas, induzem espanto e medo que nunca se reduziria realmente.

Mas as noites ficam mais longas. Cada vez mais longas. Primeiro imperceptivelmente, depois obviamente.
O velho sábio mede as estrelas, mede o sol. Não há dúvida. O sol está cada vez menos tempo no céu. Está cada vez mais frio.



E se não voltar? E se os dias continuarem a ficar cada vez mais curtos e frios, até não haver nada a não ser escuridão e frio e morte?
É altura de matar os animais, para que os grãos e bagas sirvam para alimentar a tribo durante o frio e a escuridão. Eram os meses da fome, da doença e da morte.

Mas e se o Sol nunca mais voltar?

É preciso fazer alguma coisa, antes que seja tarde de mais. É preciso fazer alguma coisa para o mundo não acabar e não morrermos todos! É preciso fazer o sol voltar!

Acendem-se fogueiras. Sacrifica-se um animal. Sacrifica-se um de nós.
É preciso fazer qualquer coisa.


Mas funcionou. Passados alguns meses o Sol voltou, as neves regressam para de onde vieram e a relva começa a crescer. As renas e os mamutes voltam.

Para o ano é preciso voltar a acender as fogueiras. Não podemos deixar que o Sol desapareça.


É um dos mitos que temos, actualmente. Que as festividades de inverno, que o acender das fogueiras, os rituais eram isso. Festividades.

Não eram.

Não eram uma festa, não era porque era bonito ou engraçado. Nem sequer era porque fazia parte dos costumes ou rituais.

Era magia. E era magia porque se essa Magia não acontecesse, o mundo parava.

Os povos e culturas do paleolítico, neolítico, e até muito muito tarde, acreditavam num mundo que precisava de Magia para continuar a funcionar. Acreditavam que as suas magias e rituais e sacrifícios e fogueiras eram necessários para que o Sol continuasse a circular no céu, e para que depois do inverno viesse a primavera.

O mundo precisava da ajuda da magia para continuar a rodar.

Superstição, crença, magia, rituais, religião...

Feliz Solstício de Inverno


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sábado, 20 de dezembro de 2014

Faz bem

Eu: o que é que estás a comer?
Mãe: Canela!
Eu: porque é que estarias a comer canela?
Mãe: porque faz bem à Diabetes!
Eu: Não faz na-... pera, estás a comer canela misturada com quê?
Mãe: Com mel e sumo de limão.
Eu: Ah, ISSO é que faz bem à Diabetes


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quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

O início dos Calhaus

Eu vejo-vos a falarem da produtividade. E a criticarem esta geração de preguiçosos. Ah, as virtudes do trabalho árduo para aqui, o valor do esforço e da perseverança contra as frustrações profissionais. Enaltecem os jovens empreendedores.
Porque é bom para a sociedade, porque temos todos de contribuir.
Pois...

Houve um dia, há muitos anos (há cerca de 5 mil anos, mais ou menos) um Rei no meio do deserto que disse assim "Olha, a partir de hoje é que é a contar!" e foi assim o início da civilização.
"A partir de agora os calhaus começam a contar".



E porque os calhaus passaram a contar, ele decretou que se iam empilhar uma data deles. Montes de calhaus, uns em cima dos outros! Calhaus enormes e muito pesados. Uma Pirâmide! Sim, é isso que lhe vou chamar, parece-me um bom nome. Uma Pirâmide para mim, porque eu mereço!


Mas para isso ia precisar de imensa gente para trabalhar. Montes de gente para arrastar aqueles calhaus todos.
Há imensa gente que se espanta e demonstra sempre imensa incredulidade acerca de como os Egípcios construíram as pirâmides. Insistem que usaram magia, ou foram ajudados por alienígenas, ou qualquer coisa dessas.

Não.

Querem saber como é que os Egípcios construíram as pirâmides?
Com muita dificuldade.

Não houve truques nenhuns. Foi muito acartar calhau monte acima, a partir costas. Parece que isso desilude as pessoas. Era mais interessante se fosse magia.

E também costumam pensar que estas pessoas todas eram escravos. Não eram. Na realidade eram trabalhadores pagos. Tinham salário, e férias pagas, e podiam pedir baixa por doença.
Eram empregados. Especialistas de relocalização de calhaus. Altamente treinados.


E todos estes trabalhadores precisavam de comida, de uma indústria agrícola que os sustentasse, e de quem partisse as pedras, e as transportasse rio acima, quem construísse as ferramentas. E todos estes negócios podiam ser alvo de impostos, que iam para o Império, que os usava para pagar aos trabalhadores.
Que estavam a construir uma pirâmide.

Um monte enorme de calhaus apontados para o céu.

A pirâmide estava no centro desta espiral de dinheiro e capital. Todo o fluxo económico do império confluía na pirâmide. A cada pedra da pirâmide poderia ser atribuído um valor monetário cumulativo de todo dinheiro e horas de trabalho que tinham acontecido desde o primeiro gajo a partir a pedra, ao último tipo a pô-la em cima das outras.

É toda a economia de um império centrada, suportada e justificada pela construção de uma pirâmide.
O Faraó, que estava sentado em cima da pirâmide, era imensamente poderoso. Àquele nível o conceito de dinheiro nem fazia sentido. Faraó quer, Faraó tem. A distância que o separava dos trabalhadores, as ordens de grandeza de riqueza que o separavam dos cidadãos normais era tão grande tão grande, que mais valia ele ser Deus.



Não é por acaso que era de facto um Deus na terra. O Faraó era um Rei-Deus. Distante, inatingível, perfeito, cujas vontades eram éditos divinos.
Era assim tão longe que ele estava das pessoas normais.

Mas o Faraó chega ao fim da sua vida, quase a morrer, e reparava que a Pirâmide ainda nem sequer ia a meio.
Então olha, tem de ser o meu filho a continuar isto.
E assim se formavam dinastias. Gerações atrás de gerações de Faraós que iam construindo templos e pirâmides, umas atrás das outras, cada vez maiores e com mais calhaus.

E os egípcios iam atrás. Que escolha poderiam ter? Eram Deuses que lhes mandavam construir as Pirâmides, que lhes pagavam e sustentavam. E eram Deuses e Pirâmides que já lá estavam antes de eles nascerem, e que, obviamente, iam continuar lá. Era assim que o mundo funcionava.


E esta ideia de civilização é tão poderosa, tão eficiente, que é a que se mantém até hoje. Por alguma razão ainda hoje falamos dos Egípcios. As pirâmides ainda lá estão, e só foram sendo substituídas por outras.
Ou seja: o egípcio médio não tinha significativamente mais controlo ou compreensão sobre a sua posição na sociedade do que nós temos actualmente.


Quem de nós realmente percebe o que é que se passa com a economia? Sabemos papaguear algumas palavras, apontar algumas das pessoas que tomam decisões.
Mas uma compreensão completa e precisa da situação é rara.
Eu não a tenho. Se vocês a têm, bom para vocês, mas estatisticamente é provável que estejam enganados.

E também temos pouco ou nenhum controlo sobre o que se passa connosco.

Ou seja: estamos nós, também, todos os dias, a arrastar calhaus monte a cima, a levantar-nos cedo, a preencher papéis, a atender telefones, a resolver problemas, a ser produtivos, para pôr pedras umas em cima das outras.


Para ajudar a construir este grande monolito que é a sociedade. A pirâmide só se tornou um pouco mais abstracta, mais invisível, mas continua lá.



Sabem como é que eu sei?

Porque continuo a ver os Reis-Deuses lá sentados em cima. A tomarem decisões, a mandarem bocas sobre a produtividade e sobre a virtude do trabalho. Numa pirâmide de administratividade corporativista e capitalista (whew!, try saying that three-times fast! My my! Don't we use fancy words!! We must know a lot about this, if we use such big fancy words!)



A produtividade e o trabalho árduo são coisas boas, sem dúvida que são. Mas para quem?

Lá porque nos fizeram acreditar nestas coisas, quem nos disse que éramos NÓS que íamos beneficiar disso?



Estas ideias e crenças não surgiram de forma benévola. Não se implantaram para o nosso bem.
Fizeram-nos acreditar nisto porque rapidamente se aperceberam que cansa arrastar calhaus, e que se houver outros papalvos que os arrastem, melhor.

Portanto vá, larguem a internet e vão trabalhar. É importante.
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