Pataniscas Satânicas

Pataniscas Satânicas

domingo, 21 de junho de 2015

Tubos com Dentes

Começou tudo com as células obviamente.

E podia perfeitamente ter ficado por aí. Os procariotas são definitivamente bem sucedidos e servem mais do que adequadamente como amostra de vida.

Quando pensamos em vida extra-terrestre geralmente pensamos em homenzinhos verdes, mas na realidade encontrarmos alguma coisa semelhante a células já seria estrondoso.
As células são pouco mais do que robots proteicos com comportamentos que podem reduzir-se essencialmente em "digestão" e "divisão", e isso é mais do que suficiente, na vasta maioria dos casos.

Choanoflagelado - nós há 900 milhões de anos
Mas havia vantagens de sobrevivência nos grupos, e algumas células eucarióticas, chamadas choanoflagelados juntaram-se umas às outras para protecção e para partilharem recursos. Há várias teorias que explicam como isto terá acontecido.
Uma teoria é a de que depois de as células se dividirem, em vez de se separarem e irem cada uma à sua vida, continuaram juntas em aglomerados, em colónias. 


Ora, o problema de um aglomerado de células coloniais a crescerem em conjunto é que, quanto maior  forem mais difícil é para as células no centro terem acesso aos recursos à superfície. Uma colónia deste tipo de células tem dificuldade em crescer em tamanho, quanto mais fazer qualquer coisa com um aspecto mais interessante.

A melhor solução é em vez de crescer concentricamente, crescer com a forma de um tubo.


Esta solução permite que todas as células tenham acesso rápido à superfície e aos nutrientes, e tem a vantagem adicional de permitir que algumas células se diferenciem em funções específicas, como movimento, digestão ou reprodução.

A aplicação mais simples desta solução é a humilde esponja, cujos primeiros fósseis datam de há cerca de 710-635 milhões de anos


podia passar o resto do post só a pôr fotos de esponjas psicadélicas




E pronto. 
Temos o primeiro animal. 
Um tubo de células que come coisas.

E depois de termos esta ideia na cabeça é difícil voltar a olhar para qualquer animal e não o ver como simplesmente uma variação deste esquema básico.
É um modelo tão tão simples, que até a inovação de ter uma abertura em ambas as pontas do tubo, (essencialmente uma boca e um ânus) foi uma grande coisa!
Entra comida por uma ponta, saem fezes pela outra. O que acontece pelo meio do tubo é secundário.

É só juntar peças, como um lego evolutivo
Tudo o resto a partir daqui representa apenas acrescentos e adaptações deste modelo básico.

Há cerca de 542 milhões de anos ocorre a Explosão do Câmbrico, durante a qual este esquema básico de tubo que come coisas vai passar por quase todas as variações possíveis de formas e apêndices que o ajudem a comer e a reproduzir-se mais eficientemente (as mesmas regras das nossas primeiras células). Durante este período surgem a maioria dos principais Filos actualmente existentes, e algumas outras variações bizarras que nunca resultaram em nada.




Há cerca de 447-443 milhões de anos, acontece a Extinção do Ordoviciano-Siluriano, na qual por causa de actividade vulcânica ou raios cósmicos cerca de 60-70% das espécies se extinguiram, e só as formas mais eficientes é que sobreviveram. Nada como uma boa extinção massiva para acelerar a evolução, uma espécie de crivo geológico que só deixa passar as formas de vida mais adaptáveis.

A partir daqui vou atalhar um bocadinho até onde nos interessa chegar, porque senão nunca mais daqui saímos.

Evoluem os deuterostómios invertebrados, como as lesmas do mar, que são mesmo só tubos que comem coisas, e as estrelas do mar  que são tubos curtos com muitos braços à volta que comem coisas.


Evoluem os animais Cordados, que têm a particularidade de ter um cordão nervoso dorsal, e que eventualmente evoluem para os primeiros peixes e tubarões. Estes não são mais do que o desenho original do tubo, mas agora com dentes e barbatanas para se poder mover melhor no meio aquático onde evoluiu. São tubos com muitos dentes que nadam e comem coisas.
Os tubarões existem com a mesma forma que têm hoje desde há 420 milhões de anos. Os dinossauros só apareceram há 165 milhões de anos.



Os tubos nadadores eventualmente percebem que há mais comida para comer e espaço para se reproduzirem em terra, e então transformam as barbatanas em pernas, e sobem para a terra, onde podem passar a ser tubos com pernas que comem coisas.

E ficaram grandes, os tubos com dentes e pernas.



Um dos tubos com pernas que comem coisas com mais sucesso são, por exemplo, os crocodilos. Querem um exemplo melhor do que um tubo com pernas e dentes do que um crocodilo?
Os crocodilos foram contemporâneos de uma data de dinossauros, e continuam a existir hoje, relativamente inalterados morfologicamente.
A isso eu chamo um modelo de sucesso.




Os lagartões tubóides eventualmente também se extinguem porque levam com um calhau celestial na cabeça, e então os tubos podem usar uns truques que ainda não tinham experimentado até essa altura.
Uns arranjam penas, os outros arranjam pêlos.








Os tubos evoluem, mas continuam a ser tubos. Ganham olhos, unhas, dentes, pernas, asas, caudas, mãos, dedos, uma data de coisas diferentes, mas continuam sempre a ser só tubos.
Entra comida por um lado, fezes pelo outro, pelo meio acontecem outras coisas.

Nós, por exemplo, somos um tubo por onde entra comida por uma ponta, fezes pela outra, e pelo meio inventámos a matemática.

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segunda-feira, 15 de junho de 2015

Homofobia e o Papão

Cada vez que vejo que há pessoas genuinamente homofóbicas fico razoavelmente divertido.

É divertido de se testemunhar no mesmo sentido que era engraçado ver o racismo casual e semi-inocente da minha avó de 80 anos.
É um artefacto, um fóssil vivo de idades passadas. Já ninguém fala como a minha avó falava dos pretos
É chocante e antropologicamente fascinante ao mesmo tempo.



É isso que sinto em relação a pessoas homofóbicas. São estúpidas, e eu tenho sempre uma curiosidade mórbida em ver até onde chega a estupidez das pessoas.
Dou-lhes trela, não os critico. É uma homofobia quasi-inocente, com poucas consequências.
É como ver macacos a tirarem macacos do nariz.

Mas é fácil esquecer, ao olhar para os risíveis homofóbicos mongolóides, que o comportamento deles é motivado pelo Papão.
Porque o papão aparentemente não gosta que andem por aí tipos másculos a acariciarem-se mutuamente. É feio!

Costuma surgir a discussão (não faço sequer ideia como é que ainda há pessoas que sentem que esta é uma discussão que vale a pena ter) sobre se se nasce homossexual ou se a homossexualidade é uma escolha.



Porque era chato admitir que se pode nascer homossexual, porque nesse caso era o próprio Papão que estava a criar homossexuais, e o Papão nunca se pode contradizer.

Não, a homossexualidade, é uma escolha, balbuciam eles. Claramente aquele homem decidiu introduzir o seu pénis no esfíncter anal daquele outro homem. Foi uma escolha, uma decisão propositada e provavelmente premeditada.

As pessoas que têm dois dedos de testa replicam que não é sequer esse o cerne da discussão. Da mesma maneira que uma pessoa nasce a gostar da genitália do sexo oposto, há quem se interesse por genitália parecida à sua. É intrínseco e imutável.


Mas este argumento tem uma falha. Parte de uma suposição errada, que o deixa vácuo de sentido.
Este argumento assume que os homofóbicos são mais movidos pela estupidez do que pelo Papão.
Assume que os atrasados mentais não conseguiram perceber que os homossexuais já nascem daquela maneira e que por isso presumem que qualquer coisa em contrário só pode partir de uma escolha.

Não não. Os homofóbicos não têm problemas com que alguém nasça homossexual, isso é de somenos importância.

Mas que decidam agir de acordo com essa orientação sexual? Ah isso é que o Papão proibiu especificamente!


Os homofóbicos sabem que os homossexuais não podem simplesmente escolher ter interesses diferentes. Sabem-no perfeitamente. Mas também sabem que os homossexuais podem escolher fingir, e reprimir-se e abafar-se e não deixar transparecer que são quem são.

Qualquer comportamento é uma escolha.
Eu escolho levantar-me e ir trabalhar e ser simpático. É um comportamento que eu detesto, que remédio tenho eu senão comportar-me assim.

Os homofóbicos não se importam realmente que para os homossexuais seja doloroso reprimir-se. Ou se calhar até se importam.
Mas mais importante que isso é não desobedecer ao Papão!
Se é preciso sofrer para não desobedecer ao Papão, então que assim seja.

Os homofóbicos dirão aos homossexuais para se esconderem, mostram-lhes que independentemente do que sintam, não podem é demonstrar a sua homossexualidade, porque isso é mau.


E os homossexuais de facto decidem expressar-se naturalmente.
Decidem não se reprimir e escolhem ser quem são.

É uma escolha, e é essa escolha que irrita os homofóbicos.
Porque é uma escolha a favor do próprio e não do Papão.
Porque é uma escolha que vai directamente contra a vontade do Papão.

E isso é mau. É perigoso.

É por isso que os homofóbicos não são só estúpidos, também são más pessoas.
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quarta-feira, 10 de junho de 2015

Space Walk - Lemon Jelly


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terça-feira, 9 de junho de 2015

2001: A Space Odyssey

Já me perguntaram, mais do que uma vez, afinal porque é que o 2001 é tão bom.
Eu fico chocado todas as vezes.
Não é óbvio? Não é imediatamente aparente que é um dos melhores filmes alguma vez feitos?

Então se é tão óbvio porque é que tenho sempre dificuldade em explicar porquê?

Porque esqueço-me que de facto o 2001 é um filme extremamente invulgar. É normal ver o filme e achar que é uma seca confusa. Foi o que eu achei da primeira vez que o vi.
O filme foge à estrutura narrativa habitual e tem poucas das pistas e características que estamos habituados a prestar atenção para julgar um filme.

Portanto vou tentar explicar porque é que o filme é tão bom.


Primeiro é preciso perceber o que era a ficção científica nos anos '60, quando o filme estreou.

Na televisão passavam o Star Trek (1966), o Lost in Space (1965) e o Thunderbirds (1965).


Basicamente, ninguém levava a Ficção Científica a sério.

E de repente vem o Stanley Kubrick, que por essa altura já era um autor e realizador conceituado, que toda a gente acharia ser superior à parvoíce de alienígenas com testas de borracha que era a ficção científica.
E o Kubrick pega no género da ficção científica, por quem ninguém dava nada, e constrói nele uma das obras-primas do cinema, que ainda hoje temos dificuldade em alcançar.

Uma pedrada no charco é uma metáfora demasiado fraquinha para o que aquilo foi.
Foi mais do que uma bomba, foi um salto quântico para uma forma de arte mais elevada (esta pode bem ser a frase mais snob que eu já escrevi na minha vida).

O 2001 não foi só uma inovação, não foi um passo em frente ou sequer uma progressão lógica do que se fazia na altura.
O 2001 foi um atalho para o melhor que se conseguia fazer em ficção cientifica sem passar por todos os passos intermédios. Esses passos intermédios foram todos os filmes que entretanto tem vindo a ser feitos.

O filme não só era muito sofisticado para o seu tempo, continua a ser muito sofisticado para o NOSSO tempo.
O que por si só explica porque é que há dificuldade em entendê-lo.

Para começar há algo a ser dito acerca da história.



Contrariamente ao que se pensa habitualmente, o filme não é uma adaptação do livro 2001: a Space Odysssey.

Na realidade o Stanley Kubrick e o Arthur C. Clarke juntaram-se e colaboraram na escrita do livro e do filme um do outro ao mesmo tempo. Na realidade a história é escrita pelos dois em conjunto, e depois um deles pegou na história e transformou-a em livro e o outro pegou nela e transformou-a em filme.

A magnitude da narrativa e o tamanho das ideias envolvidas na história é espantosa. É uma história sobre o início da inteligência nos humanos, sobre exploração espacial, inteligências artificiais, sobre vida extra-terrestre inimaginavelmente avançada e viagens inter-dimensionais.

São ideias muito complexas, com imenso pano para mangas. Qualquer uma delas seria difícil de explorar de forma precisa e interessante. E no entanto a história consegue pegar em todas esta ideias e misturá-las e concretizá-las numa narrativa que nunca é forçada ou desconexa.

Se essa narrativa fosse explicada de forma mais clássica, à custa de exposição ou diálogos, seria uma salganhada de texto denso e verborreico.
Isso tornaria o filme extremamente cerebral, exigindo imensa atenção aos diálogos.



Em vez disso a história é contada de forma extremamente minimalista, com pouquíssima exposição. O conteúdo da narrativa é suportado pelas imagens.
Há poucos diálogos, os planos de câmara e os enquadramentos são mantidos durante imenso tempo, o ritmo do filme respira lentamente, sem pressa para avançar.
O 2001 é sobretudo um filme sensorial. Os longos planos e o ritmo lento existem para nos integrar naquele mundo, para nos hipnotizar e para sentirmos o filme.

A quase ausência de diálogos permite prestar atenção a outras coisas, e se conseguirmos deixar de intelectualizar o filme e simplesmente deixar-nos levar pelo tom e beleza do filme, conseguimos ter uma experiência emocional igualmente complexa.

E o Stanley Kubrick consegue isto com um filme de ficção Científica.

E que ficção científica!




Basta dizer que o 2001 continua a ser uma das representações mais fidedignas e cientificamente correctas de exploração e tecnologia espacial.
Tanto do ponto de vista prático (não haver som no espaço, a maneira como a ausência de gravidade funciona), como do ponto de vista de futurismo (ao prever que tipo de tecnologia seria necessária) o 2001 é irrepreensível. Aparece sistematicamente em primeiro lugar em listas de filmes cientificamente correctos, à frente de filmes mais modernos como o Gravity e o Interstellar.

Na maior parte das vezes os filmes escolhem favorecer a qualidade narrativa em detrimento da precisão científica, e na maior parte das vezes essa é a decisão mais correcta.


Mas estamos a falar do Stanley Kubrick.
E o Kubrick consegue pegar numa cena de 5 minutos com uma nave espacial a alunar muito lentamente, como na realidade aconteceria, e preenche a cena com música clássica, criando uma sequência quase onírica.
E consegue pegar numa nave espacial com um anel a rodar para simular gravidade e consegue usar esse espaço dificílimo para filmar e construir sequências surreais e atmosféricas.



Isto vai de encontro ao que eu estava a dizer anteriormente acerca do 2001 ser um filme sensorial e de emoções. O Kubrick conta uma história de astronautas atrás de alienígenas traídos por uma inteligência artificial através de uma narrativa fluida, cheia de sequências musicais, coloridas quase oníricas que fazem um excelente trabalho de transmitir uma sensação emocional.
À medida que a narrativa progride, a tensão dramática, o suspense e a ameaça são aumentadas por este ambiente surreal, quase psicadélico.


O facto de que de metade do filme para a frente só há duas personagens, o Dave e o H.A.L. também é significativo.
Dave, o astronauta humano com quem o espectador se identifica, vê-se sozinho contra o H.A.L., uma inteligência artificial homicida. O isolamento de Dave, que vê os seus companheiros a serem mortos um a um e a lutar sozinho contra forças ameaçadoramente frias, cria no espectador uma sensação de insegurança e desesperança que são ecoadas pelo silêncio e aparente calma com que o conflito se desenrola.



A viagem de Dave (e do espectador) passa não só por lutar contra H.A.L. mas também aventurar-se no absoluto desconhecido do monólito, e entrar numa experiência que é simultâneamente psicadélica e aterrorizante.
A famosa sequência de quase 10 minutos de cores e luzes é o culminar de toda a experiência onírica e psicadélica que é o filme. Não esquecer que o filme estreia no pico do movimento hippie, conhecido pela utilização de substâncias alteradoras da mente.


No fim, a experiência emocional e sensitiva de medo, ameaça, insegurança, beleza, maravilhamento e até terror, é aquela que habitualmente se atribui à exploração espacial e que a maioria dos filmes de ficção científica tenta transmitir aos seus espectadores.



O 2001: A Space Odyssey consegue criar nos seus espectadores a experiência de ficção científica quase perfeita recorrendo às melhores ferramentas possíveis para criar directamente essas emoções.
Essas ferramentas são sobretudo visuais, sensoriais, atmosféricas e de ritmo, coisas muito mais emocionais do que as habituais ferramentas de escrita, diálogo e exposição da maioria dos filmes de ficção científica, que acabam por ser muito mais cerebrais.

Dessa maneira o 2001, para além de contar uma história de ficção científica extremamente complexa e com ideias enormes, consegue fazê-lo de forma a enfatizar e intensificar a experiência emocional da mesma.

E é por isso que o 2001 é um dos melhores filmes de ficção científica.

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domingo, 31 de maio de 2015

42

Existe uma coisa a que se pode chamar Alma!

Sim, exactamente. Uma Alma! Tudo o que você é, a essência de si, o seu espírito, o seu EU incorpóreo.



Existe! Isto não está aberto ao debate. A Alma existe, só que ainda não tínhamos percebido bem o que era, mas esteve lá o tempo todo.

E a Alma é mais do que a nossa consciência. Abrange-a completamente, e é definida por ela, mas não é a nossa consciência.

Pense...

Não, a sério, só isso.
Estava a Pensar.
A pensar, a ter ideias, a criar noções e a juntá-las umas às outras de maneira a questionar o seu ambiente e a tomar consciência de si mesmo.
E estas noções, auto-referenciais e em última análise auto-conscientes, estão a acontecer dentro do seu cérebro. Não existe nenhum outro lugar onde possam acontecer. E estão a acontecer nos muito físicos e muito orgânicos neurónios.




Milhões sobre milhões de neurónio, células eucarióticas altamente especializadas que evoluíram para receber, modular e enviar sinais. Estes sinais por acaso são de uma natureza electro-química, baseados em moléculas complexas chamadas neurotransmissores, mas nada disso realmente importa. O que importa é que os neurónios são células que transmitem informação.

Informação!
Informação é a propagação de causa e efeito dentro de um sistema.
Se a velocidade da luz é constante e impossível de ultrapassar, então o efeito vai sempre suceder-se à causa. A causalidade é a razão essencial pela qual tudo faz sentido. Não é uma pedra a ser puxada pela gravidade, nem a gravidade em si mesma. A informação não é uma coisa física, é o facto de que a pedra estava em cima e depois veio para baixo. É a passagem de escuro para luz, de quente para frio, é mudança de acordo com causalidade.



E os organismos aprenderam a usar a informação para seu proveito! Era um nicho evolutivo e valeu a pena investir nele.
Seres vivos orgânicos, tais como células, ao invés de estarem meramente sujeitos ao seu ambiente, adaptaram-se de maneira a alterar os seus comportamentos de acordo com estímulos. Fugir de oxigénio tóxico ou mover-se em direcção à luz.
Estes organismos encontraram maneiras de usar a informação de forma a sobreviver mais eficientemente.


Mas precisavam de interruptores, portões lógicos que fossem capazes de se ligar ou desligar de acordo com informação. Interruptores orgânicos que processassem a informação de luz ou escuro de um lugar para o outro e efectuassem algum tipo de mudança.
Um bocadinho de informação, um bit de informação. Luz ou escuro, 0 ou 1.


Esse foi o antecessor do primeiro neurónio. Uma célula que conseguia mudar o seu estado de acordo com estímulos, e ao fazê-lo, induzir alterações noutras células. A transmissão de informação por meios biológicos.
A comunicação entre dois neurónios chama-se sinapse. De forma simplista podemos dizer que 1 sinapse = 1 bit de informação.

E não demorou muito até que a evolução percebesse que ter MAIS neurónios era MELHOR!
E em pouco tempo tínhamos milhões de neurónios, todos interconectados entre si, a receber a modular e a enviar informação. Constantemente, sobretudo o que se passava à sua volta.

E conseguiam processar mais de que um único bit de informação.
Estima-se que ocorram entre 100.000.000.000.000 (cem triliões) e 20.000.000.000.000.000 (vinte quadriliões) de sinapses por segundo de actividade do cérebro.
Eu diria que isso parece ser um processador poderoso o suficiente para sustentar pensamentos complexos e para permitir que ideias se tornassem auto-referenciais e atingir a consciência.



Portanto, para resumir, a nossa consciência, maravilhosamente, elegantemente, diabolicamente bela e complexa, ocorre num sistema auto-referencial de informação baseado em portões de lógica neuro-químicos.

E a informação pode ser escrita. Pode ser visualizada. Vejam:

1+1=2.

"1" em si mesmo é absolutamente abstracto.
Não é 1 (uma) maçã, não é 1 (uma) cadeira. É meramente 1.
A noção e ideia de uma unidade singular de alguma coisa. Qualquer coisa, não interessa.
Uma coisa qualquer coisa mais uma coisa qualquer qualquer coisa vai sempre duas coisas qualquer. Não precisamos de saber o que quer que seja acerca qualquer coisa para saber, com certeza absoluta, que um mais um vai ser sempre dois.

Alguma vez olharam para um programa de computador em linguagem de programação?


Não é mais do que ideias. Simples ordens lógicas que iniciam e terminam e modulam processos lógicos. Não interessa que estas ordens e processos estejam a ocorrer num computador; em teoria podia-se programar com um ábaco, com sinais de fumo, com qualquer coisa que pudesse codificar informação.

E se a nossa consciência é informação, que aspecto teria se de alguma forma escrevêssemos o seu código?
Que linguagem seria usada? Quão comprida seria? Seria surpreendentemente complexa? Ou surpreendentemente simples?

E poderia ser representada visualmente. Se conseguíssemos medir cada uma das sinapses do cérebro, em tempo real, e a maneira como se relacionam entre si para formar ideias, estaríamos efectivamente a mapear a consciência. Poderíamos ver, de facto olhar, para a sua consciência a acontecer em tempo real.
Essa representação abstracta, em tempo real, seria inimaginavelmente complexa, mas seria também a representação perfeita da sua consciência nesse momento, do que é e de tudo o que poderia ser.


Isso seria apenas uma maneira de representar uma coisa que já está constantemente a acontecer. Essa rede complexa e abstracta de informação que é o código e o programa da sua consciência.
Só que não a conseguimos ver pelo que ela é.
Olhar para neurónios a dispararem seria tão informativo quanto olhar para linhas de 0s e 1s para tentar perceber o que faz um programa de computador.
Esse mapa de informação seria apenas uma representação abstracta de impulsos neuro-químicos a correr de um lado para o outro dentro do seu crânio.
Mas não é menos real por causa disso. Tão real, que a única coisa de que cada um de nós pode ter realmente a certeza é de que existe! Que a nossa consciência está a funcionar.

O que quer que essa rede inter-relacionada informação seja, é a nossa alma. Tudo o que somos ou podemos vir a ser, todas as ideias que temos ou que podíamos ter, todas as ferramentas cognitivas subconscientes de que não nos apercebemos, incorpóreas e perfeitas.
Seria perecível, baseada em hardware feito de carbono, oxigénio, hidrogénio e nitrogénio. Nada de sobrenatural acerca dela, mas seria uma alma.



E o que são o Carbono, Oxigénio, Hidrogénio e Nitrogénio senão blocos de construção do universo?

Energia transformada em matéria, feita e refeita no coração da estrelas, regida por leis que governam o próprio tempo. Hidrogénio a transformar-se em Hélio, libertando energia no processo.

Mas o oxigénio é um elemento bastante complexo, o carbono também, e o sódio e o cálcio e o ferro, e todas as outras coisas de que somos feitos.
Estes não são fruto do Big Bang, ou sequer das primeiras estrelas. 
Não não, os átomos dentro dos nossos corpos começaram como hidrogénio que passou por três forjas nucleares, sendo cozido e moldado no carbono e cálcio que vemos hoje. Estrelas nasceram e morreram para darem à luz o nosso Sol, uma estrela de segunda geração, que pudesse libertar os elementos começos que nos permitem existir.



E tudo isto, todos estes passos inimaginavelmente complexos e longos tiveram de ocorrer, inevitavelmente ocorreram, para que existissem moléculas para compor o seu cérebro e a sua consciência. 

A sua consciência é feita de pó de estrelas mortas.
A sua consciência é feita dos blocos de construção do Universo, de acordo com leis Universais. 
A consciência é feita de Universo.
O Universo tornou-se, pelo menos parcialmente, auto-consciente. 

Em si.



Você! 
Você faz parte da consciência do Universo. Você é o Universo a pensar e a questionar-se acerca de si mesmo. Você faz parte parte da alma do universo. Porque a sua alma emergiu do universo.
Isto parece espiritual, mas não é.
Isto é ciência, isto é facto, não está aberto a discussão mais do que a gravidade está aberta a discussão ou até 1+1=2.

E você é uma alma entre 7 biliões de outras almas.
Que conheçamos.




A vida parece ser uma consequência inescapável e mecanística do nosso universo. Da maneira que as leis da física funcionam, nunca poderia NÃO haver vida no nosso universo. E isso é o mesmo que dizer que a existência da nossa consciência era igualmente inevitável, e que é de facto um fenómeno de ocorrência natural do Universo.

Os mares têm ondas, os desertos têm dunas. É o que acontece se pusermos muitas pequenas moléculas redondas a interagir umas com as outras.
O Universo tem Almas. É tão inevitável quanto previsível.

E isto faz  da Alma nem mais nem menos preciosa que qualquer outro fenómeno no ùniverso. A nossa vida biológica e consciência têm o mesmo valor que pedras, gás, asteróides, estrelas, buracos negros, atómos de hidrogénio aleatórios a flutuar no espaço intergaláctico.

Somos só um fenómeno do nosso universo.

Somos a Alma do Universo.



...

E as pessoas preocupam-se em usar meias de cores iguais.


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domingo, 10 de maio de 2015

O Segredo

Ontem tive uma experiência que mudou a minha vida.
Slowly but surely, todos os dias mudam a nossa vida. Mudam tanto que um dia somos enterrados no solo, no jardim das tabuletas. Mas antes que isso aconteça, quero falar sobre uma epifania que eu tive, em que me apercebi, por acaso, de um dos segredos mais bem guardados da humanidade.

E não é como se fosse uma coisa desconhecida, é praticamente do senso comum, mas baseia-se em ferramentas fundamentais da nossa mente, que usamos diariamente, mas que não damos atenção suficiente. Quando vos contar o segredo, vão perceber que sempre o souberam. Mas há uma diferença entre ler um livro que está guardado na nossa biblioteca, e termos sublinhado o mais importante do texto, sabendo as nossas passagens preferidas de memória. O uso que lhe podemos dar, o impacto na nossa vida!

Mais do que isso, este é um segredo milenar, que pode bem ter sido parte essencial da base da construção da civilização humana como a conhecemos hoje. Acredito que o primeiro macaco que começou a usar deste segredo, começou uma reacção em cadeia que pode ter gerado impulsos humanos tão primordiais como o altruísmo e o egoísmo, conceitos tão negativos como a xenofobia e o racismo, coisas como o sentido de humor, e ajudou mesmo a moldar as artes do espectáculo moderno. Mas as implicações reais são inimagináveis.

O segredo é que se quiseres muito uma coisa ela vem ter contigo.


44 linguas, 21 milhões de cópias, 300 milhões em vendas (só do livro)

E agora dizer a quem não percebeu o segredo, que explicar-lho não ajudaria nada.
(ler o livro também não)
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quarta-feira, 6 de maio de 2015

Such is life

No recreio és um pesadelo
Atiras areia, puxas-lhe o cabelo
Mas os anos derretem o gelo
E atrás do bloco, à conversa
Um beijo de língua perversa,
O frio aperta na manhã submersa


Sentes calor nas entranhas,
Sorris lágrimas estranhas,
Chegas à terra prometida,
Não precisas de nada na vida.


Mas as toneladas dos anos
Mesmo sem guerras nem intrigas
Só o atrito entre seres humanos,
E as vossas discussões antigas.


Ela perde-se num labirinto
Onde tu só vês uma ruela
Sentido único de fogo extinto
E enquanto a cumplicidade gela
O copo meio vazio dela,
É o teu meio cheio de absinto.


Arranha-te as entranhas,
Arranca-te lágrimas estranhas,
Sentes a garganta ferida,
Enquanto ela sai da tua vida.
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sábado, 2 de maio de 2015

Bolas

Imaginem um berlinde.


Um berlinde, daqueles com que se brincava em criança.
Eu lembro-me de brincar com berlindes. Eu tinha um berlinde preferido.


Ok, agora imaginem um berlinde de um centímetro.
Uma pequena esfera de vidro de 1cm de diâmetro.


Agora imaginem a Terra.
O planeta em que todos nós vivemos. Ah, sim, porque, caso isso vos tivesse momentâneamente escapado da mente, estamos todos a flutuar no espaço.

A Terra é muito grande. Mesmo mesmo muito grande. Tem 12.735m de diâmetro

A Terra é 100.000.000 (10^8, cem milhões) vezes maior que um berlinde.


Agora imaginem uma bola de bilhar. É bastante redondinha. Uma esfera quase perfeita.
A Associação Mundial de Bilhar afirma que uma bola de bilhar tem 5,715cm de diâmetro com uma tolerância de +/-0,0127cm.



Se a Terra (com um diâmetro médio de 12.735km) fosse do tamanho de uma bola de bilhar, e tivesse a mesma proporção de tolerância para o seu tamanho, isso permitir-lhe-ia picos (montanhas) ou buracos (fossas) com cerca de 27km de tamanho.

Dado que o Monte Everest mede 8,840km acima do nível do mar e a Fossa das Marianas mede 10,994km abaixo do nível do mar, então a Terra está bem dentro dos limites de tolerância e é uma esfera mais perfeita que uma bola de bilhar.

É assim tão grande que a terra é.

Voltem a pensar num berlinde. 1cm



Agora pensem numa bactéria. Um procariota.






Os procariotas do tipo Staphylococcus têm um tamanho médio de 1 micrómetro ou seja, 0,0001cm, um milésimo de um milímetro.

É a mesma proporção que um berlinde ao lado de, por exemplo, uma antena de radio-observatório de 10m de diâmetro.


Vamos saltar um bocado.

Imaginem um átomo.


Uma coisa tão pequena, que, apesar de sabermos que existe, temos dificuldade em representá-la sem ser por matemática.
Não é sequer de perto a coisa mais pequena que conseguimos imaginar, mas para os nossos propósitos vai funcionar.

Um átomo tem de diâmetro. Um Angstrom. 0,00000001 centímetros.


Um átomo é 100.000.000 (108, cem milhões) vezes mais pequeno que um berlinde.

A Terra é 100.000.000 (108, cem milhões) vezes maior que um berlinde.


Ou seja, em termos de proporções de tamanho, um berlinde está exactamente a meio caminho entre um átomo e a Terra.



O Sistema Solar é grande.


Muito grande.

A Terra, tínhamos visto, tinha 12,735km (quase treze quilómetros)
O Sistema Solar tem quase 7.500.000.000 km (sete mil e quinhentos milhões de quilómetros) de diâmetro.

Um berlinde está para a terra mais ou menos como a Terra está para o Sistema Solar.


Galáxias...


Um ano-luz é a distância que a luz (300.000Km/s) viaja durante um ano.
A luz do Sol demora 8 minutos-luz a chegar à terra.

Um ano-luz tem cerca de 9.460.528.400.000Km (9,46x1012 quilómetros).

A Via Láctea, a nossa galáxia tem 100.000 (cem mil) anos-luz de diâmetro.

O Universo Observável corresponde a uma esfera com 93 biliões de anos luz.







Por extenso, 93.000.000.000 anos luz.

E eu tenho de ir trabalhar na segunda-feira.
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