Pataniscas Satânicas

Pataniscas Satânicas

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Testículos

Podem não saber isto, ou nem sequer alguma vez terem pensado nisso, o que não seria de todo estranho dado que também não é algo em que eu quereria pensar.
Mas por vezes o meu dia de trabalho começa com a possibilidade de afagar os testículos de outro homem.

Não é que seja incrivelmente frequente, porque até nem é. Mas para mim já aconteceu vezes demais. Ou seja, mais do que uma.
Não gosto particularmente de tocar nos testículos de homens estranhos! Acho que é razoável.



Não tenho nada contra testículos, ou sequer contra tocar em testículos (aliás é uma coisa que recomendo), e nem sequer contra o gosto de tocar em testículos.
Sabe Deus que eu já andei a mexer nos meus! "Que é  isto? Isto é muito estranho! Mas é bom de uma maneira que não me parece certa. Olha olha! O escroto esta a mexer-se sozinho" com Deus ao meu lado, a ver (porque está em todo o lado).

Não, a mim o que me incomoda é ter de mexer nos tomates de estranhos. Logo pela manhã. Não sei se à tarde seria melhor, mas não consigo deixar de achar que de manhã é pior.


É embaraçoso para o doente, é chato para mim que tenho de ir buscar uma luva e andar a enfiar o dedo no escroto de outro homem.
Sabem como é o exame objectivo de uma hérnia inguinal, sabem? Não é agradável para ninguém envolvido!

Não é que me incomode de sobremaneira! Até já fiz coisas piores. Mas afagar os tomatinhos de um obeso logo a seguir ao pequeno almoço... eh pá...


Porque nem sequer é preciso a maioria das vezes! Nunca apanhei uma torção testicular aguda, nunca apanhei um tumor que ia destruir a vida do homem se eu não o diagnosticasse cedo.

Já meti o dedo no cu de muita gente, mas também já apanhei massas rectais suspeitas, hemorragias activas, próstatas pétreas, etc. Pude pensar: "Enfiar o meu dedo no cu de outra pessoa valeu a pena! Foi uma acção válida, com valor social e médico comprovado, e merecedora do meu tempo"



Nem sequer consigo ter o mesmo sentimento minimamente compensador em relação a mexer nos tomates de outro homem. A única coisa que me passa pela cabeça é "OH MEU DEUS PORQUE É QUE EU TENHO DE FAZER ISTO!?".

O que eu apanho quando faço palpações testiculares são homens de meia idade, geralmente bem aprumados, a quem disseram quando eram mais novos que era feio tocarem em si mesmos, e então quando chegam a uma idade em que já não têm sexo com a mulher que têm há vinte anos e começam a dedicar-se à nobre arte da masturbação é que notam "Olha! Há aqui para baixo coisas que eu nunca tinha reparado!"



E pensam em cancro. É claro que pensam em cancro! Porquê pensar em qualquer outra coisa quando se pode pensar em cancro? Porquê passar pelas preocupações de "estará inflamado?", "se calhar magoei sem dar por isso", "será uma infecção?", quando se pode perfeitamente atalhar directamente para "É cancro!"?
Ninguém vai ao médico com medo de ter uma gonorreia. Vão quando estão a urinar pus e sangue.
Mas vão ao médico com medo de cancro. Ninguém se imagina a ter gonorreia, apesar de ser mais prevalente que o cancro testicular.

Não, se vão ter uma doença, é cancro!



E é engraçado ver homens com medo de cancro! As mulheres com medo de cancro lidam com esse medo, pegam nele, assumem-no, expõem-no sem hesitação. Porque estão habituadas a ligar com emoções intensas. Porque têm um medo muito saudável e real do cancro! Cancro da mama, cancro do colo do útero! Sabem que estas coisas existem, que são frequentes e que merecem cautela e medo!

Mas os homens entram sem saber o que fazer ao seu medo "Eu, huh, pois... tenho aqui, quer dizer, sinto uma coisa... Acho que é uma emoção. E é forte. Acho que é medo. Não sei bem o que fazer com isto, mas lembrei-me que como você é médico talvez me possa ajudar com isto"

E lá tenho eu de empatizar com o homem, e reflectir as emoções dele para estabelecer uma ligação terapêutica, para lhe poder dizer de uma maneira que não o deixe mais desconfortável ou a sentir que eu não o levei a sério ou, pior ainda, que saia preocupado à mesma, que eles não só não tem nada como aquilo que ele sente é uma parte da anatomia normal deles na qual simplesmente nunca repararam.



Obviamente que ficam contentes por não terem cancro! Mas quando isso passa ficam ali com os tomates na mão a sentirem-ser embaraçados porque os vieram mostrar a um estranho!

E eu penso para mim mesmo "vá, são só uns testículos, é só anatomia, tens uma luva, sê profissional, aparenta estares aborrecido" mas a verdade é que nunca consigo estar indiferente.

E vou para casa a pensar nisso durante uns dias. E no fim penso se o doente também pensa em mim da mesma maneira...


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quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

O Macaco gosta de Açúcar (banana)

Os macacos sabem fazer açúcar bom.
Foi uma das coisas que aprendemos a fazer bem, foi o açúcar. Fazemos açúcar com mestria e requinte. Poucas coisas na nossa sociedade evoluíram tanto como a comida.



Quando éramos todos macacos nas árvores, os macacos que comiam alimentos com mais calorias, conseguiam ter mais energia para procriar mais. Ou seja, a procura de alimentos com muitas calorias era uma vantagem evolutiva.



E como é que se escolhe, de entre todos os frutos da floresta, quais são os mais calóricos? Geralmente são aqueles que têm mais glucose e ácidos gordos, porque essas moléculas são as que produzem mais calorias quando digeridas.
Mas agora qual é uma boa maneira de escolher quais é que têm mais açúcar? Olha, vamos transformar as células especializadas da língua para detectarem moléculas de açúcar e gordura nos alimentos, e dizer ao cérebro "ISTO É BOM! COME MAIS!!!"

As nossas papilas gustativas são sensores de densidade calórica. Quando há muitas calorias acendem-se alarmes químicos que nos dizem para comer mais daquilo.

Portanto é normal que gostemos tanto de açúcar.


Na savana africana não se vivia lá muito bem. Havia pouca comida, pouca água e poucos lugares para uma pessoa se esconder dos tigres dentes de sabre. Os primeiros humanídeos passaram um mau bocado nessa altura.
Isolados da floresta tropical tiveram de reaprender a sobreviver na savana. Não haviam ramos ou árvores, então tiveram de aprender a andar e a correr com a cabeça por cima das ervas para ver predadores.
Na savana as frutas e bagas são raras e espinhosas, as ervas altas e fibrosas dominam planícies como ervas daninhas que só os grandes ruminantes conseguem digerir.
Havia menos calorias disponíveis.



Então os humanídeos, nada se não adaptáveis, viraram-se para a única outra coisa que podem comer: carne. A carne é rica em proteínas e gorduras, tem muitas calorias.
O problema é que a carne por aqueles lados tem dentes, e cornos e corre muito depressa.
Mais vale deixar outros apanhá-la primeiro. Então os humanideos tornaram-se necrófagos. A comer os restos dos animais que os predadores já não queriam.

Mas estavam no fundo da cadeia alimentar. Comiam o que os leões tinha deixado, depois das hienas lá têm ido e dos abutres terem ido bicar os restos. Já não restava muito. Cadáveres com uma semana. 
O que restava era o que os outros animais não tinham conseguido tirar. Aquilo que estava preso dentro dos ossos que eles não conseguiam partir. A medula óssea. 
Altamente calórica, extremamente nutritiva, cheia de gordura e vitaminas. Um tesouro fechado dentro dos ossos. 



Os humanídeos, que aproveitaram o facto de já saberem andar sobre duas pernas para usar as mãos, começaram a usar ferramentas para partir os ossos. Começaram a evoluir para aprender a usar e criar ferramentas. 
Ora isto necessita de um cérebro maior que necessita de mais energia. Que por sorte já lá estava na medula muito calórica que eles estavam a comer! 

Estes proto-seres-humanos tiveram sucesso evolutivo devido a uma relação benéfica entre usar ferramentas para obter uma fonte de calorias que permite mais cérebro para aprender a melhor essas ferramentas. 

A comida levou à tecnologia que influenciou a biologia a favorecer a tecnologia.

Atalhando, a determinada altura decidimos que não queremos andar sempre a depender de fontes de comida inconstantes e começamos a plantar coisas. Ficamos no mesmo lugar, deixamos de ser nómadas, plantamos coisas e começamos a empilhar calhaus.




O problema das plantinhas, sobretudo aquelas que plantávamos, era que tinham pouca densidade calórica.
Comíamos nabos. Provavelmente os nabos até teriam sido considerados uma iguaria, mas neste momento é o pior que consigo imaginar. Isso ou inhames.




Gerações e gerações de civilizações agrícolas cuja principal fonte nutritiva eram os nabos e as couves. 

Aquela gente devia ter uns trânsitos intestinais épicos! Fibra todos os dias! Haviam poias tão majestosas que ainda hoje as guardamos em museus, como testamento à força de vontade humana! 




Mas da mesma forma como nas savanas africanas a fome impeliu humanídeos a usarem as mãos para criar ferramentas para melhorar a qualidade das calorias que ingeríamos, também nas sociedades agrícolas a tecnologia foi parcialmente motivada pela comida. 

Começámos a concentrar essas calorias. A refinar os hidratos de carbono e as gorduras que comíamos. Pão, cerveja, queijo. Maneiras de transformar os recursos alimentares brutos em formas mais transportáveis e sobretudo saborosas! Porque gostamos de açúcar! Porque é bom porque tem muitas calorias que dão uma vantagem evolutiva! 



10 milhões de anos de evolução impelem-nos a fazer comida o mais calórica possível, e essa comida é um reflexo da nossa evolução mental e tecnológica.

Por isso é que temos açúcar tão exageradamente épico!


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terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

One more day

One more day, one more, in the midst of a linear ocean that leads to uncharted shores.
Life has a way of looking the way motivational posters tend to present it. It has a way of changing drastically what you thought you would be.

And that is good. You wouldn't want the 18 year old you, defining the way you live when you are forty. And that is why I don't envy people who make ''ten year life plans''. Idiots.

The monkeys do the trial-and-error-thing. And they do it again. And again. They teach the trial-and-error-thing to their offspring, until they die.
Ten year life plans are illusions of control. Some monkeys believe they can define their course through the shitstorm of chaos which is life. Maybe they can. I certainly can't.

But i guess i'm ok with that.

More importantly, today was a good day. And i haven't had many of those lately.

So raise your glass with me.

Ao Carlos!
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segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Ginásios e a linha de Sintra


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terça-feira, 27 de janeiro de 2015

AVCêses

Ontem uma senhora respeitável veio dizer-me que tinha tido um AVC.
Eu perguntei em que hospital esteve internada.

''Não fui ao Hospital''

Eu pensei: ''Ah, um AVC desses...''. e disse '' isso é muito grave, dona clotilde, conte mais...''

''Venho cá hoje porque tenho estado muito sonolenta. No outro dia acordei durante a noite, com umas vontades, de maneira que fui a casa de banho evacuar. Mas como tenho andado sonolenta, adormeci sentada na sanita.''

Eu disse: ''Ah pois, isso é chato.'' e pensei: ''eu é que devia pagar para assistir a isto...''

''De maneiras que, quando acordei, não sentia a perna esquerda, e fiquei muito assustada. Mas não sentia mesmo, dava beliscões fortes na perna e nada! De modo que percebi logo que tinha tido um AVC! E chamei chamei os bombeiros. Só que durante a chamada voltei a sentir a perna, e disse que afinal eles não precisavam de vir.''

Eu disse: ''Ah, se calhar não teve nenhum AVC, dona clotilde...''

'' Não tive? Então o que foi? O que é que aconteceu?''

Eu disse: ''Ahh.... pois.... teve uma.... estava sentada na sanita e....não vê que o seu peso é um pouco..... hum.... Pois, olhe você teve um princípio de um AVC!''

E assim nasceu o termo.
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quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Charlie - One last word

Ainda sobre a notícia do momento, e correndo o risco de requentar o assunto, nestes tempos de consumo de eventos recentes à velocidade de spots publicitários, tive um diálogo interessante com um amigo meu.

The argument goes, que o Charlie Hebdo era extremamente provocador, e de alguma maneira, sem merecer, arriscava-se a que lhe acontecesse o que aconteceu. O exemplo usado foi o de ir ter com um grupo de ciganos e insultá-los gratuitamente. E esperar não ser agredido ou esfaqueado.

Não é razoável.

Fiquei a pensar nisto, e fui ver alguns dos cartoons que o Charlie publicou antes do tiroteio. Não gostei nada do que vi, e tive que concordar com o meu amigo. Eram extremamente agressivos, ofensivos, gratuitos. Fiquei a pensar se de facto era preciso aquilo tudo, representações de sodomização de figuras que outros consideram sagradas. Para quê?

Alguma coisa continuou a chatear-me. Tenho-me como um gajo sem pruridos nem susceptibilidades. E gosto muito de humor arriscado.... Porque é que o Charlie me chateava?
Demorei um bocado a  perceber, mas no momento em que entendi, soube que o meu problema era o problema de muita gente.

Não é que os cartoons me ofendessem...  O problema é que não achei pingo de graça aquilo. Não me ri. Talvez um esgar de indiferença. Mais nada. Para mim, o Charlie Hebdo não tem piada nenhuma. Zero.

Mas qual é o conceito de humor? O que é uma piada? A resposta curta é, tudo. A piada não é o que é dito. A piada é o que é rido. Não interessa o que foi que fez os macacos rirem-se. Se os macacos se estão a rir, foi uma piada. Se não, não interessa a intenção, o timing, o delivery, o set up, a punchline. Foi tudo inútil.

Por isso não percebo as pessoas que dizem que ''pode-se gozar com tudo, depende da maneira como é feito''. Não, não depende. Depende se outro alguém lhe acha graça. Mais nada.

''Mas qual é a piada? Que porcaria, mete nojo! Que repugnante, dá-me náuseas... Quem é que acha graça a uma coisa destas?''

Se algum ser humano olha para o Maomé a levar nas nalgas e se escangalha a rir, é uma piada. É impossível alguém a quem falta o ar de tanto rir, pôr-se com falsos moralismos. E quem não gosta, não compra. Muda de canal. Muda o posto do rádio. Vai para outro site. Vai à merda.

Se há um macaco a rir-se, não lhe estraguem a tarde a tentar fazê-lo sentir-se mal, porque se está a sentir bem. Já tivemos o suficiente disso, durante os tempos em que a igreja mandava no estado.

Talvez por isso, não me surpreendeu a reacção do Papa, que disse que dava um murro a quem lhe insultasse a mãe. No dia em que alguém se dirigir ao supremo pontífice, para lhe chamar puta à mãe, já que ele está numa de afiambrar, porque é que não reza ao menino Jesus para fulminar com um raio o transgressor?

Não me interessa se é gratuito, ofensivo, racista. Eu mijei-me a rir com isto. Por isso é uma piada.



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quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

A ópera dos macacos



7 biliões de pares de olhos continuam a ver a realidade de maneira tão diferente e tão igual. Diferente o suficiente para darem uns tiros uns aos outros de quando em vez, e igual o suficiente para que seja quase impossível encontrar uma ideia verdadeiramente original. Os macacos vêem os dias passar enquanto cavam buracos em piloto automático. Esperam pelos dias historicamente mágicos para cometerem os seus excessos pequeninos, comem que nem animais, fazem noitadas, apanham bebedeiras, dormem até às duas da tarde. É nesses dias que o drama da vida dos macacos acontece verdadeiramente. Intoxicados por pathos e dopamina, saudamos a sexta feira com a sede de quem atravessou o deserto.

É nesses dias que há ópera na vida dos macacos.

É a melhor parte da nossa vida, e o que nos motiva o atravessar o dia de trabalho.
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sábado, 10 de janeiro de 2015

Relatividade geral

A massa de uma galáxia distorce tanto o tecido do espaço à sua volta, que a galáxia azul precisamente atrás dela torna-se visível como um anel.

A gravidade curvou o espaço de tal maneira que a luz que vem da galáxia azul é deformada como por uma lente. A luz viaja sempre numa linha recta. Não é a luz que se curva, é o espaço por onde ela viaja que se deforma.


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quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Je Suis Charlie


Porque lutamos contra o Papão.

Porque nos rimos do Papão.

Porque noutras circunstâncias podíamos ser nós.




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sábado, 3 de janeiro de 2015

Cigarette Duet


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segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Top 5 de filmes de 2014

5 - Noah - finalmente um filme de fantasia baseado na mitologia cristã. Um excelente filme de fantasia, com óptimas interpretações, uma estética muito característica e uma história muito muito forte.


4 - Guardians of the Galaxy - definitivamente um dos melhores filmes da Marvel até agora, e o meu filme preferido do ano. É extremamente divertido, com personagens invulgares, um ritmo perfeito, diálogos muito engraçados e algum do melhor CGI que tenho visto ultimamente.



3 - Grand Budapest Hotel - o filme mais Wes Anderson que o Wes Anderson já fez. Absolutamente único na sua estética altamente específica e formalizada, com um cast perfeito e interpretações spot-on, numa história bizarra, convoluta e com pormenores hilariantes.


2 - Gone Girl - um dos filmes mais aterradores e bem construídos que já vi. A construção do suspense e do terror opressivo neste filme é genial. As interpretações são quase perfeitas, e a manipulação que o filme consegue das emoções do espectador é assombrosa.



1 - Interstellar - uma obra prima de Christopher Nolan. A mestria do realizador é inegável, num filme que pega no que de melhor há no 2001: A Space Odyssey e no Tree of Life, e cria uma viagem onírica e poderosa sobre ciência, amor e humanidade.




Menções especiais

How to Train Your Dragon 2 - Discutivelmente um dos melhores filmes de animação moderna já feitos. Uma história verdadeiramente épica, uma banda sonora fantástica, personagens gostáveis e verdadeiramente relacionáveis, e excelente animação.



The Lego Movie - Um dos filmes mais originais, peculiares e refrescantes deste ano. Uma história simultâneamente excêntrica e profunda, com um humor espirituoso, 10 piadas por minuto, e a animação mais colorida que eu já vi.


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quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

God Rest Ye Merry, Gentlemen

Na realidade a expressão original era "God Rest Ye Merry" no sentido de "Que Deus vos Deixe Felizes", e na canção o sentimento é desejado aos Gentlemen.
Não são os Gentlemen que são Merry.


Um dia destes tenho de fazer um post sobre os Jethro Tull. Ou dois. Ou Cinco.
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domingo, 21 de dezembro de 2014

Solstício de Inverno

É inverno.

Os dias são frios, escuros.
Há menos renas, há menos mamutes, há menos bagas.

A tribo esconde-se na caverna, à volta da fogueira. As noites são longas e ameaçadoras. O uivo de predadores ouve-se à distância.

As estrelas, impossivelmente brilhantes, inatingivelmente misteriosas, induzem espanto e medo que nunca se reduziria realmente.

Mas as noites ficam mais longas. Cada vez mais longas. Primeiro imperceptivelmente, depois obviamente.
O velho sábio mede as estrelas, mede o sol. Não há dúvida. O sol está cada vez menos tempo no céu. Está cada vez mais frio.



E se não voltar? E se os dias continuarem a ficar cada vez mais curtos e frios, até não haver nada a não ser escuridão e frio e morte?
É altura de matar os animais, para que os grãos e bagas sirvam para alimentar a tribo durante o frio e a escuridão. Eram os meses da fome, da doença e da morte.

Mas e se o Sol nunca mais voltar?

É preciso fazer alguma coisa, antes que seja tarde de mais. É preciso fazer alguma coisa para o mundo não acabar e não morrermos todos! É preciso fazer o sol voltar!

Acendem-se fogueiras. Sacrifica-se um animal. Sacrifica-se um de nós.
É preciso fazer qualquer coisa.


Mas funcionou. Passados alguns meses o Sol voltou, as neves regressam para de onde vieram e a relva começa a crescer. As renas e os mamutes voltam.

Para o ano é preciso voltar a acender as fogueiras. Não podemos deixar que o Sol desapareça.


É um dos mitos que temos, actualmente. Que as festividades de inverno, que o acender das fogueiras, os rituais eram isso. Festividades.

Não eram.

Não eram uma festa, não era porque era bonito ou engraçado. Nem sequer era porque fazia parte dos costumes ou rituais.

Era magia. E era magia porque se essa Magia não acontecesse, o mundo parava.

Os povos e culturas do paleolítico, neolítico, e até muito muito tarde, acreditavam num mundo que precisava de Magia para continuar a funcionar. Acreditavam que as suas magias e rituais e sacrifícios e fogueiras eram necessários para que o Sol continuasse a circular no céu, e para que depois do inverno viesse a primavera.

O mundo precisava da ajuda da magia para continuar a rodar.

Superstição, crença, magia, rituais, religião...

Feliz Solstício de Inverno


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sábado, 20 de dezembro de 2014

Faz bem

Eu: o que é que estás a comer?
Mãe: Canela!
Eu: porque é que estarias a comer canela?
Mãe: porque faz bem à Diabetes!
Eu: Não faz na-... pera, estás a comer canela misturada com quê?
Mãe: Com mel e sumo de limão.
Eu: Ah, ISSO é que faz bem à Diabetes


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quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

O início dos Calhaus

Eu vejo-vos a falarem da produtividade. E a criticarem esta geração de preguiçosos. Ah, as virtudes do trabalho árduo para aqui, o valor do esforço e da perseverança contra as frustrações profissionais. Enaltecem os jovens empreendedores.
Porque é bom para a sociedade, porque temos todos de contribuir.
Pois...

Houve um dia, há muitos anos (há cerca de 5 mil anos, mais ou menos) um Rei no meio do deserto que disse assim "Olha, a partir de hoje é que é a contar!" e foi assim o início da civilização.
"A partir de agora os calhaus começam a contar".



E porque os calhaus passaram a contar, ele decretou que se iam empilhar uma data deles. Montes de calhaus, uns em cima dos outros! Calhaus enormes e muito pesados. Uma Pirâmide! Sim, é isso que lhe vou chamar, parece-me um bom nome. Uma Pirâmide para mim, porque eu mereço!


Mas para isso ia precisar de imensa gente para trabalhar. Montes de gente para arrastar aqueles calhaus todos.
Há imensa gente que se espanta e demonstra sempre imensa incredulidade acerca de como os Egípcios construíram as pirâmides. Insistem que usaram magia, ou foram ajudados por alienígenas, ou qualquer coisa dessas.

Não.

Querem saber como é que os Egípcios construíram as pirâmides?
Com muita dificuldade.

Não houve truques nenhuns. Foi muito acartar calhau monte acima, a partir costas. Parece que isso desilude as pessoas. Era mais interessante se fosse magia.

E também costumam pensar que estas pessoas todas eram escravos. Não eram. Na realidade eram trabalhadores pagos. Tinham salário, e férias pagas, e podiam pedir baixa por doença.
Eram empregados. Especialistas de relocalização de calhaus. Altamente treinados.


E todos estes trabalhadores precisavam de comida, de uma indústria agrícola que os sustentasse, e de quem partisse as pedras, e as transportasse rio acima, quem construísse as ferramentas. E todos estes negócios podiam ser alvo de impostos, que iam para o Império, que os usava para pagar aos trabalhadores.
Que estavam a construir uma pirâmide.

Um monte enorme de calhaus apontados para o céu.

A pirâmide estava no centro desta espiral de dinheiro e capital. Todo o fluxo económico do império confluía na pirâmide. A cada pedra da pirâmide poderia ser atribuído um valor monetário cumulativo de todo dinheiro e horas de trabalho que tinham acontecido desde o primeiro gajo a partir a pedra, ao último tipo a pô-la em cima das outras.

É toda a economia de um império centrada, suportada e justificada pela construção de uma pirâmide.
O Faraó, que estava sentado em cima da pirâmide, era imensamente poderoso. Àquele nível o conceito de dinheiro nem fazia sentido. Faraó quer, Faraó tem. A distância que o separava dos trabalhadores, as ordens de grandeza de riqueza que o separavam dos cidadãos normais era tão grande tão grande, que mais valia ele ser Deus.



Não é por acaso que era de facto um Deus na terra. O Faraó era um Rei-Deus. Distante, inatingível, perfeito, cujas vontades eram éditos divinos.
Era assim tão longe que ele estava das pessoas normais.

Mas o Faraó chega ao fim da sua vida, quase a morrer, e reparava que a Pirâmide ainda nem sequer ia a meio.
Então olha, tem de ser o meu filho a continuar isto.
E assim se formavam dinastias. Gerações atrás de gerações de Faraós que iam construindo templos e pirâmides, umas atrás das outras, cada vez maiores e com mais calhaus.

E os egípcios iam atrás. Que escolha poderiam ter? Eram Deuses que lhes mandavam construir as Pirâmides, que lhes pagavam e sustentavam. E eram Deuses e Pirâmides que já lá estavam antes de eles nascerem, e que, obviamente, iam continuar lá. Era assim que o mundo funcionava.


E esta ideia de civilização é tão poderosa, tão eficiente, que é a que se mantém até hoje. Por alguma razão ainda hoje falamos dos Egípcios. As pirâmides ainda lá estão, e só foram sendo substituídas por outras.
Ou seja: o egípcio médio não tinha significativamente mais controlo ou compreensão sobre a sua posição na sociedade do que nós temos actualmente.


Quem de nós realmente percebe o que é que se passa com a economia? Sabemos papaguear algumas palavras, apontar algumas das pessoas que tomam decisões.
Mas uma compreensão completa e precisa da situação é rara.
Eu não a tenho. Se vocês a têm, bom para vocês, mas estatisticamente é provável que estejam enganados.

E também temos pouco ou nenhum controlo sobre o que se passa connosco.

Ou seja: estamos nós, também, todos os dias, a arrastar calhaus monte a cima, a levantar-nos cedo, a preencher papéis, a atender telefones, a resolver problemas, a ser produtivos, para pôr pedras umas em cima das outras.


Para ajudar a construir este grande monolito que é a sociedade. A pirâmide só se tornou um pouco mais abstracta, mais invisível, mas continua lá.



Sabem como é que eu sei?

Porque continuo a ver os Reis-Deuses lá sentados em cima. A tomarem decisões, a mandarem bocas sobre a produtividade e sobre a virtude do trabalho. Numa pirâmide de administratividade corporativista e capitalista (whew!, try saying that three-times fast! My my! Don't we use fancy words!! We must know a lot about this, if we use such big fancy words!)



A produtividade e o trabalho árduo são coisas boas, sem dúvida que são. Mas para quem?

Lá porque nos fizeram acreditar nestas coisas, quem nos disse que éramos NÓS que íamos beneficiar disso?



Estas ideias e crenças não surgiram de forma benévola. Não se implantaram para o nosso bem.
Fizeram-nos acreditar nisto porque rapidamente se aperceberam que cansa arrastar calhaus, e que se houver outros papalvos que os arrastem, melhor.

Portanto vá, larguem a internet e vão trabalhar. É importante.
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segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Pão

Vocês vêem-nos por aí.

São os filhos da revolução de '74, que nasceram no pós-ditadura, de pais que passaram dificuldades e trabalharam imenso e tiveram fome e sofreram a repressão.
Crianças que cresceram com a afluência de uma economia revitalizada, com o influxo dos subsídios da europa nos anos '80.
São aqueles que nos anos '90 no fim da adolescência, viriam a ser apelidados de Geração Rasca, simplesmente porque não tiveram de ultrapassar as mesmas dificuldades que a geração anterior teve de viver. Preguiçosos simplesmente porque a geração anterior não reconhecia os seus objectivos como válidos.

Cresceram bem, o retrato de uma classe média que estava bem na vida. Quase invariavelmente vestiram trajes pretos na faculdade, embebedaram-se muito, tocaram nas tunas, demoraram mais do que deviam a terminar o curso e ainda mais a arranjarem emprego. Mas no fim dos anos '90 e início de '00 ainda era relativamente fácil arranjar emprego. Posições administrativas, vendedores, paper-pushers. Mas com ilusões de grandeza e influência e eloquência.
São estes que vocês mais vêem a mandar bitaites sobre as políticas de direita e o socialismo e como isto é tudo uma vergonha.

Barrigas de cerveja e comezainas a ver futebol, de que sabem muito. Gordos.
Daqueles gordos que não tinham corpo para serem gordos, que parecem que engordaram demasiado depressa e ficaram tufados, sem pescoço.
Nunca foram ao médico. A obsessão com a saúde e o natural e o detox ainda não era como é hoje.
Mas a família chateia-os, as mulheres insistem, e agora que começam a chegar aos 40 e a sentir-se cansados quando sobem um lanço de escadas, decidem ir ao médico.

"Pois é Dr. não percebo como é que estou assim. Eu até tenho cuidado com o que como"

"Ah, sim, estou a perceber"

"Não como muitos fritos, corto sempre as gorduras da entremeada. Como peixe..."

"Peixe?"

"Sim, como muito bacalhau. Não percebo mesmo, não consigo perder peso"

"Pois, eu percebo que isto é uma coisa que o preocupa. E compreendo que sente dificuldade em perder peso"

"É isso mesmo Dr, você parece que lê a minha mente!"

"Deixe-me perguntar-lhe uma coisa... Você come pão à refeição?"

"Sim, um pãozinho"

"Um?"

"Bem, um ou dois"

"A todas as refeições?"

"Não, em todas não..."

"Você come muito pão?"

"Sim, eu como muito pão"

"Hmmmm... curioso! E será que há alguma relação entre esta coisa que você come imenso, todos os dias, durante os últimos 20 anos, e o facto de não conseguir perder peso?"

"Mas eu não como gorduras! Ponho pouca manteiga no pão!"

"Estranho como isso não parece ter funcionado sistematicamente durante estes anos todos..."

"Mas eu até faço exercício"

"Que exercício é que faz?"

"Quer dizer, eu mexo-me muito"

"Ah?"

"Sim, no trabalho... estou sempre a mexer-me de um lado para o outro"

"Estou positivamente boquiaberto de espanto e surpresa em como isso não tenha sido suficiente!"

"Pois, eu também não percebo"

"Vou sugerir-lhe uma coisa... Vai parar de comer pão, parar de beber coca-cola-"

"Como é que você sabe que eu bebo coca-col-"

"Xiu. E não é só coca-cola, é também os outros sumos todos"

"Mas o sumo de laranja é natural! Então o que é que bebo?"

"Água"

"..."

"E vai passar a fazer exercício. Qualquer coisa. Não importa o quê. Tem é de se mexer"

"E vou cortar nas gorduras!"

" >suspiro< Sim, está bem, pode ser..."


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quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

O Papão

Somos crianças, estamos  geneticamente programados para acreditarmos nos nossos pais. Para lhes obedecermos. Faz sentido. Todas as crianças que não acreditaram à primeira que não deviam comer as bagas vermelhas ou fazer festas ao tigre dentes-de-sabre não viveram para passar os seus genes de descrença à geração seguinte. Estamos geneticamente programados para acreditar numa autoridade superior. E porque quando desobedecemos, levamos porrada. Há isso.

Mas um dia crescemos e percebemos que os pais são humanos e falíveis. E deixamos de acreditar. Pomos em causa. O medo diminui. A autoridade dilui-se.

Então surge o Papão ele próprio, a coca, o Homem do Saco. Qualquer figura com a qual se mete medo às crianças para que estas se portem bem. A criança provavelmente nem sabia que essa figura existia até ao momento em que os pais, em tons sussurrados, apelam a uma entidade externa ameaçadora que lhes fará mal de forma indefinida, se elas não se portarem bem e obedecerem.
Eventualmente deixamos de acreditar também nesses.

O Papão precisa de evoluir, de crescer. Então cresce. O Papão passa a ser uma figura cósmica, por definição para além da compreensão humana. Uma entidade mal-definida, muito poderosa, razoavelmente omnisciente, ameaçadora, vingativa, punitiva e eternamente reprovadora.
Sabe o que se passa dentro dos pensamentos privados de cada um. Não há lugares seguros. O Papão internaliza-se. Há pessoas que não sabem viver sem o Papão a dizer-lhes o que é que não podem fazer.

Mas há pessoas que se conseguem libertar. Ou em quem o Papão não pegou. Mas o Papão perdura.

Perdura porque que queiramos quer não crescemos rodeados do Papão. O Papão integra a nossa cultura e a das pessoas à nossa volta. Respiramos e comemos o Papão a vida toda. Mesmo que não se acredite, a essência do Papão persiste. É a crença no valor do trabalho árduo e na privação do prazer,  na necessidade de ajudar sempre os outros em detrimento do próprio. O valor de aguentar o sofrimento e de se ser estóico frente às adversidades.
Quando nos sentimos culpados porque passamos o fim de semana sem fazer nada, sem nenhuma produtividade. Quando sentimos vergonha por admitir que não fizemos aquele esforço extra no trabalho. 

Isso é o Papão implantado na nossa mente, a sussurrar que temos de trabalhar mais, descansar menos.
Mas mesmo assim há pessoas que se libertam do Papão. Que conseguem ver as mentiras e manipulações do Papão e aproveitar o fim de semana. 

Mas ainda assim o Papão perdura.

Perdura em todas as outrad pessoas que acreditam no Papão. Mesmo que não saibam que acreditam. Não podemos rir muito alto, não fica bem criticar as pessoas, não devemos gozar com coisas sérias, há palavras que é feio dizer em público. É a convenção social, é o politicamente correcto, são as boas maneiras, são as regras arbitrárias. E neste Papão não é preciso acreditar, basta que todos os outros acreditem. 

E pode parecer que o podemos ignorar, pode parecer que podemos quebrar estas convenções, mas a longo prazo as consequências acumulam-se e tornam-se notórias. O sarcasmo é criticado, não é produtivo, as eminências devem ser respeitadas, por ridículas ou incoerentes que sejam.
Todos os chefes estão bem barbeados e têm crocodilos na camisa. Todas as chefes de serviço acreditam na virtude do trabalho árduo e no valor do sacrifício pessoal.

O Papão persiste nas estruturas de poder e autoridade. Onde mais poderia estar?
A vida não corre bem a quem desafia o Papão. Até podemos gozar com ele, chamar a atenção à sua existência, mas desafiá-lo é arriscado. 

Não há muito tempo o Papão queimava na fogueira quem discordava dele, ou arrancava as unhas a quem dizia coisas  desagradáveis.

É saudável ter medo do Papão.
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domingo, 30 de novembro de 2014

Cyberpunk

Cyberpunk is all about the notion of a worn future, that is so antithetical to the notion of hygiene and futurism of 2001 and the Jetsons.


Let's be clear on this: the Jetsons are laughable. No doubt about it. But they are also endearing. You can't help but like them and what they represent which is a highly idealized form of perfect American Dream.

Even 2001 represents a departure from the Jetsons in that it presents you with a much colder and uncaring future and technology. The robotic housemaid in the Jetsons suddenly becomes a menacing deep red dot on a wall that speaks in a monotone.



The Jetsons represent all of our best hopes for the future, they are how we wish things would happen.
And that is why we are drawn to stuff like Cyberpunk or post-apocalyptia.
Because we see in them the leavings of this idyllic future. They are the cold hard mirrors of our hopes and dreams.

And we can't help but laugh and be cynical about the Jetsons, because we've all grown up and became just a bit more disillusioned. Enough to know that the Jetsons will never happen.
But whenever we see the old Coca-Cola ads in giant blimps in Bladerunner or the Nuka-Cola ads in billboards on destroyed highways in Fallout 3, we can't help but feel just a bit heartwarmed. Because those are the reminders of what could have been.




Things wouldn't feel quite as desolate or hopeless or bleak if the cozy outdated songs of the twenties weren't playing over the nuclear wasteland or the urban sprawl.
They are an essential part of it. Meaning that the Jetsons, and everything about the idea of them, need to have been a possibility that never happened, so that Cyberpunk and post-apocalyptia can work fully.
If you try to build Cyberpunk or post-apocalyptia without these elements of a could-have-been future that somehow became corrupted, you're not doing it right.

And in the end, Cyberpunk and post-apocalyptia come from, and represent, our fears about the future. They are, in fact, our way of dealing with these fears and face them. To make them manageable.
They are also a way to remind those in charge, and ourselves, that things can go sour very quickly.


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quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Sobre o contínuo

Um dia escuro, numa sala iluminada de luzes amareladas, ouvi um Professor falar sobre merda.
Merda com sangue.

Fiz o meu caminho por entre as ondas de multidão à saída no metro, e forcei a porta de vidro automática, depois de perceber que o cartão magnético tinha escolhido o dia para embirrar comigo. ''Porque é que estou sempre atrasado para tudo?''
Estava a chover o pior tipo de chuva miudinha. Aquele que molha parvos e espertos.
Acelerei o passo, por entre a multidão de Sete Rios, até dobrar a esquina. Continuei aos ziguezagues, abrigado de varanda em varanda. Os guarda chuvas não foram feitos para mim. Perdi dezenas, até perceber isso.

Finalmente vejo a fachada do Instituto Português de Oncologia! Cheguei, e o meu cérebro decide finalmente que desculpa balbuciar, na improbabilidade de alguém questionar porque é que passam 20 minutos depois do início da aula, e eu só cheguei agora. Depois da segunda aula, é difícil convencer alguém de que andamos perdidos à procura da sala, mas a minha imaginação tem limites às 8 e meia da manhã.

Chego ao piso da Cirurgia. Vou à secretária, e pergunto se sabe onde está o Dr. Ela aponta-me uma sala à esquerda, e finalmente chega o momento. Atravesso a porta a calcular o sítio onde me vou sentar entre os colegas, enquanto finjo que o facto do Dr. ter parado de falar, não tem nada a ver comigo. Sento-me, amorfo, com olhos de carneiro mal morto, para afastar as atenções dos olhares reprovadores. Passado tempo suficiente, ele continua a falar, e eu ouço atenta e interessadamente. Onde está a folha de ponto? Porra, onde está a folha de ponto? Os meus colegas não me retribuem os olhares, e perco-me entre expressões amorfas, de carneiros mal mortos.

''... e é por isso que hematoquézias não quer dizer nada. É um termo inespecífico. Podem ser fezes com coágulos, ou fezes em cor de tijolo... E por causa de variações na velocidade do trânsito, de dificuldade na estimativa do volume, é difícil dizer a origem, ou a causa da hemorragia.''

Eu lembrava-me disto. Medicamente falando, o aspecto das fezes de alguém com suspeita de hemorragia gastrointestinal, permite ter uma ideia da localização da hemorragia. A regra em que os livros de semiologia concordavam, é que sangramento do doudeno para cima, fazia um desgraçado defecar alcatrão, e abaixo disso, uma paleta de misturas e combinações da sangue com merda, até a hemorragia ter localização no recto, e aí o desgraçado defecava o que os médicos chamam, de maneira tranquilizadora, ''sangue vivo''.

''...e é por isso, que hematoquézias não servem para nada. Os doentes fazem colonoscopias que frequentemente estão normais. E existem causas de hemorragia acima do ângulo de treitz, que podem manifestar-se por hematoquézias, se a motilidade intestinal estiver particularmente acelerada. O que os livros dizem, na prática, pode ser muito diferente. A realidade das coisas não cabe em caixas de diagnósticos. A realidade é fluída e contínua. E é assim que devem ver os doentes com hematoquézias. Podem estar a sangrar de qualquer lado, em vários metros de intestino.''

Holds true. Os psiquiatras perceberam isto há mais tempo. Muitos medicamentos, desenvolvidos originalmente para uma doença mental/neurológica, mostraram-se muito úteis em várias outras doenças mentais. Os antipsicóticos podem ajudar nas depressões profundas. Alguns anticonvulsivantes são excelentes estabilizadores do humor, ao passo que outros controlam a dor neuropática. As benzodiazepinas foram feitas para dormir e acalmar, e algumas são excelentes relaxantes musculares. Os antidepressivos podem ser usados para tratar a ansiedade, a anorexia nervosa, e mesmo a ejaculação precoce.

Muitos sintomas são contínuos que podem aparecer com intensidades variáveis em doenças diferentes. As doenças são caixas onde nem toda a gente cabe. As equações de sintomas que estão na tampa de cada caixa, não são suficientes para traduzir todas as realidades que podem decorrer de estar doente. Prova disso é existirem diagnósticos-saco, onde se arruma o que não cabe em mais lado nenhum... fadiga crónica, fibromialgia, cistite intersticial, cólon irritável, síndrome da boca queimada, manifestações somatoformes, ou o curioso conceito: ''sintomas não explicáveis medicamente''. Não sabemos o que é... mas sabemos o que não é... arranjámos uns rótulos para a nossa ignorância, e repetimos placidamente: ''é dos nervos, vizinha, é dos nervos...''

Muitas vezes não é bem claro onde uma classificação acaba e a outra começa.  2+2 são 4... mas só quase sempre... Uma epigastralgia com 2 vómitos e febre é uma gastroenterite, até ser uma pneumonia.  E a incerteza existe sempre... pode ser tolerável para alguns, mas certamente não para toda a gente.
Tudo o que podemos fazer é pensar, fundamentar as nossas escolhas, e agir de boa fé. Sabendo que podemos estar errados, e que estarmos errados, não decorre necessariamente de termos agido mal.
E saber que o papão não existe, e que a homeopatia é uma fraude.
Mas não digam estes dois últimos em voz alta.
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sábado, 15 de novembro de 2014



I'm feeling rough, I'm feeling raw, I'm in the prime of my life.
Let's make some music, make some money, find some models for wives.
I'll move to Paris, shoot some heroin, and fuck with the stars.
You man the island and the cocaine and the elegant cars.

This is our decision, to live fast and die young.
We've got the vision, now let's have some fun.
Yeah, it's overwhelming, but what else can we do.
Get jobs in offices, and wake up for the morning commute
.

Forget about our mothers and our friends
We're fated to pretend
To pretend
We're fated to pretend
To pretend

I'll miss the playgrounds and the animals and digging up worms
I'll miss the comfort of my mother and the weight of the world
I'll miss my sister, miss my father, miss my dog and my home
Yeah, I'll miss the boredom and the freedom and the time spent alone.

There's really nothing, nothing we can do
Love must be forgotten, life can always start up anew.
The models will have children, we'll get a divorce
We'll find some more models, everything must run it's course.

We'll choke on our vomit and that will be the end
We were fated to pretend
To pretend
We're fated to pretend
To pretend

Yeah, yeah, yeah
Yeah, yeah, yeah
Yeah, yeah, yeah
Yeah, yeah, yeah
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