Pataniscas Satânicas

Pataniscas Satânicas

domingo, 20 de setembro de 2015

Star Lord, ou a Construção de um Herói

Sim, sim, sim. Eu sei! Estou sempre a escrever sobre o Guardians of the Galaxy! Habituem-se!

- btw, este post contém SPOILERS -

Vi o filme pela sétima vez recentemente e pela primeira vez notei num pormenor que já me andava a arranhar o subconsciente há algum tempo:

O Peter Quill não aceita a mão da mãe em despedida antes de ela morrer.

Por pormenor que fosse, foi ao seguir esse fio narrativo que fez com que eu me apercebesse conscientemente de toda a construção de personagem do Peter Quill no filme.

Sim, eu às vezes sou lento a reparar neste tipo de coisas, mas com toda a música dos anos '80 e efeitos especiais fabulosos, é perdoável não reparar no percurso que faz a personagem principal.


Lembram-se logo na sequência inicial, que eu já desmontei ao pormenor, a interacção que o jovem Peter Quill tem com a mãe?

Temos uma criança que é apresentada como sendo altruísta, corajosa e heróica, lutando contra uma data de miúdos porque estavam a maltratar um animal indefeso.
A criança recebe um último presente da mãe que está a morrer e de seguida não consegue aceitar a sua mão em despedida, não conseguindo lidar com essas emoções.


O acto de rejeitar a mão da mãe atira esta personagem num percurso completamente diferente do que o que o esperava. Para começar é raptado por alienígenas!

Confrontar-se com a morte da mãe, rejeitar as emoções associadas, e ser violentamente removido do seu mundo, tudo num espaço de 10 minutos é uma experiência compreensívelmente traumática e é razoável assumir que seja o tipo de coisa que deixa marcas na personalidade de uma pessoa.

Mais importante do que isso, é o tipo de coisa que faz com que o percurso de vida desta criança seja radicalmente alterado, deixando-a perdida.

O desenvolvimento conturbado dessa criança e adolescente é aludido de forma cómica na maneira como é capturado pelo Corpsman Dey, dos Nova Corps (uma espécie de força policial).


Corpsman Dey: I picked this guy up a while back for petty theft. He’s got a code name.
Peter Quill: Come on, man. It’s a…it’s an outlaw name.
Corpsman Dey: Just relax, pal. It’s cool to have a code name. It’s not that weird.

O Corpsman Dey trata o Star lord como se ele fosse um adolescente delinquente que está sempre a ser preso por vandalismo e pequenos furtos, porque é isso que ele provavelmente foi durante imenso tempo. Um adolescente desenquadrado e perdido que recorreu às mentiras e ao crime para sobreviver.

Claramente o facto de ter sido criado sem pais, no seio de piratas do espaço que o queriam comer, tornou-o num adulto egoísta e em quem não se pode confiar.

Não é um herói!
Muito menos é o herói que o jovem Peter Quill mostrava o potencial de vir a ser.

O Star Lord que nos é apresentado, é um bandido! É um ladrão, mentiroso, arrogante! É um "honourless thief", um "A-Hole".



O Star Lord mantém essa atitude de mentiroso, arrogante e egoísta durante a maior parte do filme.

O único momento em que vemos emoções genuínas é quando lhe é confiscado o Walkman.
Nesse momento, perante a perspectiva de perder a música que era a única coisa que lhe restava da sua casa e da sua mãe, Star Lord fica enraivecido. É dos poucos momentos do filme em que o vemos verdadeiramente transtornado.


Outro momento importante, quando o Rocket diz que vai guardar uma bomba numa caixa, é quando percebemos que o Peter Quill ainda guarda o presente que a sua mãe lhe deu ao início do filme.

É notório que o presente é importante para Peter, que não está simplesmente esquecido. Mais importante que isso é o facto de o presente nunca ter sido aberto.
Será que Peter Quill continua a sentir culpa por não ter aceite a mão da mãe? Será que sente que não merece o último presente da sua mãe porque se desviou do heroísmo e altruísmo que ficaram para trás no planeta Terra?



Claro que pelo meio há um MacGuffin que ele rouba, o Big Bad é apresentado, ele tenta vender o MacGuffin e as outras personagens tentam roubá-lo, são todos presos, fim do primeiro acto, fogem, tentam vender o MacGuffin outra vez, descobrem que o MacGuffin é ultra-poderoso, chega o Big Bad que bate em toda a gente e leva o MacGuffin consigo, fim do segundo acto.

Imediatamente antes do fim do segundo acto, o Peter Quill tem um dos seus primeiros actos altruístas do filme com a Action Girl Gamora, por quem aparentemente começa a nutrir sentimentos genuínos.
Star Lord dá-lhe o seu capacete para salvar a Gamora do vácuo do espaço.
Apesar de tudo é um acto calculado porque ele sabe que os Piratas o vão salvar muito rapidamente.


Por todos estes problemas e complicações, a perspectiva do Peter Quill muda, e ao passo que antes só se importava consigo mesmo e com o quanto podia ganhar ao vender o MacGuffin, agora já quer salvar a Galáxia, e até convence os outros a ajudarem-no.


Claro que depois há mais lutas de naves espaciais, explosões, confrontam o Big Bad, despenham a nave espacial gigante e voltam a confrontar o Big Bad.

No momento final, no derradeiro confronto entre Star Lord e o Big Bad, o Star Lord decide agarrar o MacGuffin, sabendo que isso o vai destruir.


É o derradeiro acto altruísta, o auto-sacrifício para proteger todos os outros.
Este é o acto da criança que levava porrada dos outros meninos porque queria proteger um sapinho que não tinha feito mal a ninguém.


Por estar à beira da morte, ou pelos poderes mágicos do MacGuffin, Star Lord volta a ter uma visão da sua mãe com a mão estendida. Na realidade a mão que Star Lord está a ver é a de Gamora, que também se sacrifica para o ajudar.

Desta vez, em mais um momento de vida e morte, Peter Quill consegue aceitar a mão que lhe é oferecida, fechando assim o arco que tinha sido aberto no início do filme.



Juntamente com Gamora, também Drax e Rocket se juntam e, com o Poder da Amizade, conseguem controlar o MacGuffin e derrotar o Big Bad.


É neste momento que o Star Lord se transforma no Herói que sempre deveria ter sido.
O Peter Quill encontra-se de novo, a criança que estava perdida volta a encontrar o seu rumo.

No fim do seu desenvolvimento, após ter aceite a morte da mãe e de se ter transformado no herói que sempre deveria ter sido, Peter Quill consegue sentir que merece o presente que a mãe lhe tinha oferecido ao início do filme, e finalmente abre-o.



Habitualmente os filmes focam-se mais no enredo ou nas personagens. Filmes cheios de acção e efeitos especiais tendem a focar-se mais no enredo (porque é à custa dele que as coisas explodem) e filme mais lentos, mais introspectivos, tendem a focar-se mais no desenvolvimento das suas personagens (porque é à custa das emoções e dos pensamentos que isso acontece).

Para mim foi surpreendente que num filme que tem em primeiro plano um excelente enredo, e excelente acção com efeitos especiais, houvesse toda uma narrativa visual de desenvolvimento de personagem a acontecer em segundo plano, de forma quase despercebida.

Cada vez mais encontro motivos para gostar deste filme.


Eu gostava muito de dizer que isto é tudo da minha cabeça, mas foi parcialmente inspirado por esta thread no reddit, onde há gente a discutir e a analisar estas coisas até ao fim dos tempos.
Read More »

sábado, 19 de setembro de 2015

Tunes with Tangerine - Runaway, Aurora


Runaway, Aurora

Chosen by Tangerine.

Read More »

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Corpos de Lewy

Abro os olhos, fecho os olhos.

Gosto de estar de olhos fechados. Eles chateiam-me menos.

Houve um tempo em que pensei que fechar os olhos ia ser a única maneira de distinguir o que era real do que eram fantasmas. Demorei pouco a perceber que a realidade perdeu substância suficiente para desistir de confiar nos meus sentidos. Demorei menos a perceber que não interessa. Para todos os propósitos práticos, a minha opinião sobre o que é real interessa muito pouco.

Também não é como se andasse a guiar autocarros. A realidade não precisa de substância quando é vista da altura conferida por uma cadeira de rodas.

Há um fantasma de bata branca a debitar as perguntas enfastiadas do costume:

''Em que ano estamos, sr António?'' ... ''Sabe quem é esta senhora?'' ...

''Ele hoje não lhe apetece dizer nada... ''

Diz a vaca que empurra a cadeira de rodas, a fingir que está preocupada. Sempre preocupada com as aparências. Vaca. Se eu me conseguisse mexer...

''Em que ano estamos, sr António?''

Será que este gajo se enxerga? Aqui a perguntar o ano em que estamos, com um calendário enorme em cima da mesa. E eu é que estou maluco.... se este otário quer fingir que é útil, pode esvaziar-me a algália, que o mijo está a entornar-se nas calças.

''Dona Júlia, acha que consegue trazer o seu marido à urgência na sexta feira?''

A única coisa que me faz parar de tremer a esta hora da manhã são dois dedos de bagaço. Está na segunda gaveta, lembro-me agora... Onde... ? Onde é que está a chave?

''Ele está a delirar outra vez...''

A vaca começou a chorar lágrimas de crocodilo... Um animal exótico, sem dúvida. Quando me deixei de conseguir mexer, a vaca demorou 5 minutos a enfiar-me numa cama automática, enquanto ela se enfiava na cama do vizinho da frente.... Deve ser para ganhar energia para empurrar o mono durante o dia.

As noites são piores. Às duas da manhã, ela liga a telefonia para não me deixar dormir.

''...Angola é nossa, é dos portugueses!''

Ela sabe que cada noite que não durmo, enlouqueço mais um bocado. Ao princípio irritava-me, mas agora canto e dou gargalhadas para espantar a bicharada. Para a vaca saber que vai ter que me envenenar, e quando o fizer, a vizinhança toda vai saber! Que se danem as aparências.

Não é como se ela não tentasse. Da última vez que recusei os comprimidos, a sopa sabia a veneno. Em menos de nada acordei no meio da selva, cheio de lama, com uma G3 na mão. Ao meu lado estava o soldado Joaquim e o Alferes Costa. Como é que eles estavam vivos não faço ideia. Não lhes perguntei porque tínhamos que continuar a disparar. Ao princípio mijei-me todo, mas depois fiquei feliz. Porra, conseguia mexer-me! Consigo mexer-me ao fim de não sei quanto tempo, e tudo o que posso fazer é matar pretos.
A vida é estranha...

''...Não quero meter o meu marido num lar. Ele cuidou de mim toda a vida...''

''Dona Júlia, você é que sabe da sua vida. Mas veja lá se não precisa de ajuda.''

''O que me custa é quando ele começa a gritar à frente de outras pessoas...''

''Voltou a acusá-la à em público?''

''....''

''Isso é a doença a falar. A demência faz com que os medos dele se tornem realidade.''

'' Eu sei. Mas não sei se aguento outra dessas... O que é que eu posso fazer...?''

''De-lhe mais um destes. E se ele estiver agitado, dissolva-lhe umas gotas destas na sopa.''


Read More »

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Baader-Meinhoff, ou I'm So Meta Even This Acronym

Já vos aconteceu aprenderem um facto curioso aparentemente aleatório, ou lerem uma coisa que vos chama a atenção, e durante os dias ou semanas depois parece que esse facto aparece por todo o lado?

Por exemplo um dia lêem que um comboio de mercadorias tem em média 1500 a 2000 metros de comprimento (90 a 120 carruagens). Quando se está a mover a 85km/h pode precisar de mais de 1,5km para parar depois de os travões de emergência serem activados.

Depois no dia a seguir, sem sequer estarem à procura, voltam a encontrar outra menção a carruagens de mercadorias. E na semana a seguir aparece uma notícia sobre carruagens de mercadorias que demoram muito tempo a parar.
Depois na televisão há um documentário sobre comboios no Oeste Americano.

Acontece tanto que notam que está a acontecer!
É frequente o suficiente para chamar à atenção, fazer-vos parar e pensar "Que estranho! Ainda no outro dia vi outra notícia sobre comboios! Este é o quarto... quinto facto relativo a comboios que eu vejo só neste mês! Parece que os comboios me perseguem".


Se reconhecem isto de que eu estou a falar, e sentem que já o sentiram, então, caros leitores, o que sentiram foi o Fenómeno de Baader-Meinhoff!

O Fenómeno de Baader-Meinhoff define-se como a sensação subjectiva de que uma palavra, um nome, ou outra coisa que nos chamou a atenção recentemente, subitamente parece começar a surgir com uma frequência improvável.

A maioria das pessoas já o sentiu.

Na realidade esse dado específico, seja o comprimento médio de comboios de mercadorias, que a primeira câmara digital surgiu em 1975 ou que o nome Lego vem da frase em dinamarquês "leg godt" que significa "brinca bem", não estão de facto a aparecer com mais frequência.


Na realidade essa sensação é criada por um viés cognitivo. Um artefacto da nossa consciência. Uma inevitabilidade decorrente da maneira como a nossa consciência está organizada.
É uma Ilusão de Frequência.

Mas parece tão real! Não parece nada uma ilusão!

Isso é porque é um viés da nossa cognição. Não temos nenhuma maneira de entender o mundo a não ser através das ferramentas cognitivas que temos.
Se essas ferramentas tiverem pequenas distorções, toda a nossa consciência vai ter o reflexo dessas distorções. Não as vamos ver porque já fazem parte da maneira como a consciênca está construída.

Por isso o Fenómeno de Baader-Meinhof parece tão real.

Curiosamente o nome Baader-Meinhoff não tem nada a ver originalmente com vieses cognitivos.

O nome refere-se ao Grupo Baader-Meinhoff, um grupo terrorista de extrema-esquerda na Alemanha Ocidental nos anos '70, fundado por Andreas Baader e Ulrike Meinhoff, que viria a chamar-se Fracção do Exército Vermelho (Rote Armee Fraktion).



Portanto o nome provavelmente veio de alguém que aprendeu acerca do Grupo Baader-Meinhoff e depois durante as semanas seguintes só via referências ao Grupo por todo o lado.

Portanto o nome do fenómeno é em si mesmo um exemplo do próprio fenómeno.

Podem fazer o seguinte exercício:

Vão ao Google, e escrevam lá "I'm feeling curious".
Eu espero.


Já está? Que facto é que vos apareceu?

Agora lembrem-se desse facto, e durante as próximas semanas reparem se não vêm referências a esse facto a aparecer por todo o lado.

À medida que aparecem, podem ir tomando nota deles e depois verem o que é que os une a todos. De que maneira é que conseguem juntar todos numa única linha de raciocínio mais ou menos coerente.
Que ideia é que existe subjacente a todos esses exemplos que vos apareceram?

Dessa maneira conseguem unir os Jetsons, o 2001, o Fallout e o Blade Runner.

Ou pedras, pirâmides, agricultura, arranha-céus e a crise económica.

Ou ainda macacos, pizzas, nabos, ferramentas, agricultura e desenvolvimento tecnológico.

Ou quem sabe teoria do caos, clima, pirâmides, religião, arquitectura, filmes e o woody allen.

Ou, até, almas, neurónios, átomos, estrelas e o universo.


E é assim que se escreve um artigo das Pataniscas Satânicas!


Read More »

domingo, 13 de setembro de 2015

Glowy Red Eye

Desde sempre nos fascinámos com a ideia de de simulacros de nós mesmos.
A ideia de construir vida artificial.

São fascinantes porque são reflexos de nós mesmos. São a melhor versão de nós mesmos que conseguimos criar.Provavelmente por causa disso são tão frequentemente defeituosos e com instintos assassinos

Isto evoluiu dos homúnculos e dos golems para os andróides e para as inteligências artificiais.


Estes últimos são particularmente interessantes porque já representam uma compreensão melhor do fenómeno. Já fazem uma distinção entre o corpo mecânico e a mente electrónica que lá está dentro.

Como damos imensa importância à expressividade dos olhos, naturalmente acabámos por representar essas consciências artificiais através dos olhos.

Porque temos este medo de ser suplantados pelas nossas criações, porque sabemos que elas carregam os nossos defeitos e falhas, temos sempre medo que se virem conta nós 

Por causa disso e porque a AI é sempre imprevisível acabámos quase sempre por dar olhos vermelhos aos robots maléficos da nossa ficção. 


O primeiro e melhor exemplo disto é o H.A.L. do 2001.
No filme 2001: A Space Odyssey (1968), o H.A.L. é uma inteligência artificial que se torna homicida, e é representada por um olho desincorporado do mais profundo vermelho, inexpressivo e absolutamente ameaçador.


Blade Runner (1982) representa o extremo oposto do espectro. No Blade Runner todos os replicants (seres humanos artificiais) têm um brilho vermelho muito ténue nos olhos. É subtil mas é a marca inconfundível de um simulacro humano.


O Terminator (1984) é talvez a representação mais popular e reconhecível do trope. O olho vermelho exuda maldade e ameaça e todo o seu potencial dramático é explorado na totalidade.


Durante os anos 90 há uma desconstrução do trope. Até agora tivemos robots ou AIs que são simulacros de humanos, agora temos um humano que se parece com um robot.
Concordantemente, no Robocop (1987) ,o olho que vemos por baixo do metal não só é humano, como é azul. 
É uma imagem diametralmente oposta à do Terminator.


Na televisão tivemos os Cylons do Battlestar Galactica (2004-2009). Robots assassinos e implacáveis, soldados de uma espécie alienígena determinada a destruir a humanidade. 


Os robots do I, Robot (2004) quando se tornam maus ficam com uma luz vermelha no peito, no coração. É possível interpretar isto como sendo as emoções que estão corrompidas e não a consciência. 


No Wall-E (2008) temos o AUTO, a inteligência artificial da nave espacial Axiom, extremamente reminiscente do H.A.L.




Finalmente, e como expoente máximo deste trope, há o Ultron, do Avengers: Age of Ultron (2015).
O Ultron é a história do Pygmalion, do My Fair Lady, dentro do MCU.
O Tony Stark cria o Ultron para proteger o mundo, mas o Ultron vem com todos os defeitos e limitações morais do Tony Stark, e rapidamente decide destruir a humanidade.

É claro que tem os olhos vermelhos

Read More »

sábado, 12 de setembro de 2015

Peidos Históricos

Já falei do poder da narrativa e dos tropes, esses memes/ferramentas de escrita que perpassam tudo o que tenha uma estrutura narrativa.

Andamos a contar histórias uns aos outros desde que sabemos falar mal.

Apesar de ser impossível saber ao certo sobre o que eram essas histórias primordiais, não devemos andar muito longe da verdade se pensarmos que eram sobre coisas que importavam aos nossos antepassados caçadores -recolectores: quem é que tinha caçado o maior bisonte, os encontros imediatos com tigres dente de sabre, os conflitos com outras tribos, histórias sobre as estrelas, sobre os deuses, etc.

Basta olhar para as pinturas que fazíamos nas paredes das cavernas, antes de sequer aprendermos a escrever.




Há até teorias recentes de acordo com as quais aquilo que parecem ser pernas a mais em alguns desenhos eram na realidade postas lá propositadamente para que, com a luz incerta da fogueira, dessem a impressão de movimento



A certeza que podemos ter acerca do facto de que as nossas histórias primordiais provavelmente eram desta natureza é que quando aprendemos a escrever e começamos a escrever essas mesmas histórias, estas já eram narrativas extremamente complexas.

Uma das obras literárias mais antigas é o poema o Épico de Gilgamesh.

O Épico de Gilgamesh foi escrito na Mesopotâmia, a região entre o Tigre e o Eufrates, correspondendo vagamente ao Iraque, Síria e Kuwait, incluindo regiões ao longo da Turquia e Irão.
Foi o berço da civilização, tendo incluído os impérios da Suméria, Acádia, Babilónia e Assíria, e foi conquistada por Alexandre o Grande em 332 antes de Cristo.

O Épico de Gilgamesh, escrito em 2100 antes de Cristo, é a história de um Rei, cheia de sexo, violência, roubo, desafio, angústia e retribuição divina. É o primeiro filme de amigalhaços, a primeira representação literária de um submundo, e o precursor à história da Arca de Noé.



Portanto quando há 4100 anos se escreviam coisas destas, já quase tão complexas como o melhor que se faz actualmente, não tinham sido inventadas há pouco tempo. Este tipo de narrativas já andavam a crescer e a evoluir desde há centenas de anos.

Existem tropes que são mais velhos do que cuspir na sopa, mais velhos do que a própria escrita, como evidenciado pelo facto de que quando se começa a escrever, eles já aparecem perfeitamente desenvolvidos.

Outra coisa que também já fazemos há muito tempo é contar piadas.

E poderiam pensar que, à semelhança do texto literário mais antigo do mundo, cheio de aventura épica, a primeira piada do mundo fosse igualmente elevada.

Não.

Escrita Suméria
A piada mais antiga do mundo, escrita pelos Sumérios (os tipos que inventaram a escrita) há 3900 anos, foi a seguinte:

"Coisa que nunca aconteceu desde tempos imemoriais: uma jovem mulher não se peidou no colo do seu marido"

Ou seja, é uma piada sobre o facto de as mulheres se peidarem quando estão no colo do marido.

Ou seja, a piada mais antiga do mundo é uma piada de peidos.


Há qualquer coisa de reconfortante no facto de as pessoas há tanto tanto tempo rirem-se basicamente das mesmas coisas de que nos rimos hoje.

Pessoas que, para a maioria dos outros aspectos práticos e culturais, estão tão longe de nós que mais valia serem alienígenas, apesar de tudo ainda eram dolorosamente semelhantes a nós.

Diz-nos o quanto não mudámos durante este tempo todo.

Deixo-vos com uma lista de piadas sobre peidos.
Read More »

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Gengis Khan e os Amigos da Natureza!

Falei no outro dia sobre árvores e sobre como estávamos a causar a sexta extinção massiva.
Por curioso que possa parecer, nem a causar Extinções em Massa somos originais.

Há 540 milhões de anos existiam os seres vivos multi-celulares mais antigos do planeta, os Ediacaria.


A Terra estava coberta por jardins intermináveis e pacíficos destes seres vivos que não se percebe bem se eram animais, plantas ou o quê?

Até que de repente, não se sabe bem porquê, há uma explosão de variedade de seres vivos completamente diferentes do que havia antes. A Explosão do Câmbrico é quando surgem a maior parte das famílias de animais modernos que existem hoje.

Foram os animais do Câmbrico os responsáveis pela extinção massiva dos animais Ediacarianos.


Gosto da ideia de organismos que sejam "engenheiros ecológicos", capazes de alterar de forma significativa o meio ambiente no qual existem.

É isso que nós somos.

E já o somos há muito tempo, que o diga o Mamute.

Quero falar-vos de um dos principais engenheiros ecológicos humanos.
Devem haver poucas pessoas que, individualmente, tenham tido tanto impacto no ambiente.

O Gengis Khan.


Para os distraídos, o Gengis Khan foi a pessoa que conseguiu criar o maior império de territórios contíguos do mundo.

Recorrendo a um misto de superioridade tecnológica (arcos recurvados), mestria do combate a cavalo, enorme mobilidade, uma disciplina férrea, e, sobretudo, estratégias impiedosas e sem-misericórdia, o Império Mongol no seu pico era de 33 milhões de quilómetros quadrados.
Ia desde a Croácia a Oeste até ao Vietnam a Leste.

Imaginem um tsunami de morte e destruição imparável, e têm uma noção razoável de o que eram os Mongóis.


Uma das estratégias que os Mongóis usavam e que os tornavam tão eficazes era o hábito que tinham de oferecer às cidades que iam conquistar a possibilidade de se renderem sem luta. Se o fizessem, tudo bem, eram só escravizados.
Se recusassem essa oferta inicial de se renderem pacificamente, os Mongóis depois matavam TODA a gente na cidade.
Durante o saque à cidade de Urgench, em 1221, terão sido mortas 1.2 milhões de pessoas.



Podia passar aqui umas boas horas a contar as desgraças que o Gengis Khan e a sua Horda Mongol trouxeram ao mundo, mas dou-vos dois exemplos que para mim são significativos.

No fim do Séc. 12 o mundo Islâmico estava no seu auge. Tinham uma sofisticada cultura literária e artística, e estavam na dianteira do avanço científico do mundo, com importantes avanços na matemática e na astronomia.
Num momento da história em que a Europa e o mundo Ocidental só por essa altura estavam a recuperar da queda do Império Romano, a cultura islâmica estava no seu auge, e era uma séria candidata a dominar a história humana a partir daí.

Depois aconteceram-lhes os Mongóis.

Em 1258 invadem Bagdad e destroem indiscriminadamente hospitais, templos, bibliotecas, palácios, supostamente atiram livros suficientes ao Eufrates para que este corra preto por causa da tinta. Pelo caminho matam pelo menos 200.000 pessoas.

Não contentes com isso, destroem os sistemas de irrigação do Irão e do Iraque, destruindo a indústria agrícola que sustentava a região, e causou uma fome que terá morto muito mais pessoas do que a própria batalha.
A região só recuperaria verdadeiramente já quase no Séc. 20.


Outro exemplo:

Sabem como os Russos são duros de roer? Se calhar até já ouviram que o termo "General Inverno", pela dureza do inverno russo e o seu papel a repelir invasões.

Em 1812 Napoleão leva o seu "Grande Armée" de 610.000 homens, e tenta invadir a Rússia.
Os russos em vez de atacarem o exército Francês simplesmente batem em retirada e queimam as colheitas e as aldeias, impedindo assim que os franceses as utilizassem, deixando-os expostos ao frio do Inverno.
Napoleão é derrotado, e regressa com apenas 20.000 soldados.


Em 1941, os Nazis, com a sua Operação Barbarossa, tentam invadir a Rússia.
Estavam à espera de uma invasão relâmpago e nem estavam a contar com ter de combater durante o Inverno. Não tinham equipamento que os protegesse do frio.
Devido a atrasos nos movimentos das tropas, o Inverno chega, e os Nazis perdem 800.000 soldados, não conseguem invadir a Rússia e isso acaba por lhes custar a Segunda Guerra Mundial.


Os Mongóis ESPERAM pelo Inverno para invadirem a rússia.
Os rios gelados serviram-lhes de auto-estradas para entrarem mais depressa no país.

É assim tão bad-ass que os Mongóis eram.


No fim, Gengis Khan e os seus Mongóis terão morto 40 Milhões de pessoas!
10% da população do mundo na altura.

Curiosamente, esta diminuição brutal de população, e o atraso civilizacional que implicou, fez com que as florestas tivessem tempo de crescer, e ao fazê-lo capturar carbono da atmosfera, o que por sua vez levou a um arrefecimento global.

Nós só agora nos estamos verdadeiramente a consciencializar do nosso poder como Engenheiros Ecológicos, e a ideia de impacto humano no ambiente é uma noção verdadeiramente moderna na nossa cultura.

Mas aqui temos um homem que no Séc. 13 estava a causar tanta destruição ao ponto de ter um impacto no clima mensurável com escalas do Séc. 21.

E que esse impacto tenha sido positivo? Reduzindo o CO2 atmosférico? Priceless!!!

Portanto proponho que a partir de agora passemos a ensinar o Gengis Khan às crianças como um herói da protecção ambiental!


Captain Gengis Planet!!!


Read More »