Pataniscas Satânicas

Pataniscas Satânicas

quinta-feira, 19 de março de 2015

Destruir o Serviço Nacional de Saúde para Tótós

Imagine que é o governante corrupto de uma república das bananas à beira mar plantada.
Como governante corrupto, o seu objectivo não é governar, mas sim roubar para si e para os seus amigos. Isto é importante. Não se ponha com conversas ou pretensões de moralidade, se você foi para o governo foi com o único proposito de roubar a maior quantidade de dinheiro possível.

Um dos lugares onde pode roubar mais é no Serviço Nacional de Saúde, com o benefício adicional de ajudar os seus amigos e o bónus de fragilizar ainda mais a população.

Vou agora explicar-lhe como o pode fazer em 6 passos simples, e só precisa de uma crise económica global para culpar e para mascarar a sua estratégia.


Passo 1 - desestabilizar os cuidados de saúde primários

Os cuidados de saúde primários são a mais importante componente de um serviço nacional de saúde, portanto são claramente o nosso ponto de partida.

Cada vez que um médico de família se reformar, em vez de abrir uma vaga para o substituir, passe os seus doentes para os outros médicos, aumentando as suas listas de 1500 para 1900 doentes. Não só paga menos salários, como sobrecarrega os médicos que restam, e aumenta os doentes sem médico.
Pode ainda atribuir mais tarefas burocráticas (como atestados para cartas de condução) aos médicos de família, para reduzir ainda mais a sua capacidade de resposta.



Passo 2 - desestabilizar os cuidados de saúde secundários

Pensava que nos íamos ficar pelos primários? Não, vamos destruir tudo!

Já que os cuidados de saúde primários estão com resposta insuficiente, as pessoas vão começar a recorrer mais aos cuidados hospitalares, sobretudo às urgências.
Portanto vai tirar médicos das enfermarias e dos seus trabalhos especializados para tratar de problemas e urgências que podiam ser tratados nos centros de saúde. 
Isto aumenta os custos de saúde obviamente, mas isso é uma coisa boa, como veremos mais à frente.
Pode aproveitar e ainda reduzir as comparticipações dos tratamentos hospitalares e aumentar o custo de acesso às urgências.

Entretanto os idosos internados nas enfermarias morrem, o que não é mau porque assim há menos reformas para pagar. 



Passo 3 - fortalecer os cuidados de saúde privados

As pessoas queixam-se que os hospitais não funcionam bem, que os cuidados nas enfermarias são maus os tempos de espera nas urgências são demasiado grandes, o Serviço Nacional de Saúde tem fama de ser demasiado dispendioso. 

Tudo isto são problemas que você mesmo criou em primeiro lugar e que agora lhe permitem fazer várias coisas.

Como as pessoas estão insatisfeitas com os serviços de saúde públicos, vão recorrer às clínicas e hospitais privados (dos amigos).
Como há pessoas que não querem ou não podem ir ao privado, e o Serviço Nacional de Saúde é insuficiente e tem fama de ser dispendioso, pode fazer contratos (pagos com os impostos das pessoas) para as pessoas irem ter cuidados de saúde a hospitais privados (dos amigos).

Não interessa que estas estratégias sejam mais dispendiosas para o país a curto e longo prazo. Lembre-se, o seu objectivo é roubar, não é ser coerente. 



Passo 4 - enfraquecer a classe médica

Um problema com os médicos é que têm a mania que são alguma coisa de especial, que são importantes para as pessoas e que prestam um serviço essencial ao país.
Adicionalmente enquanto está dependente de um número limitado de médicos para prestar cuidados de saúde, tem pouca margem de manobra e tem de ceder com mais facilidade às exigências desses poucos médicos.
Estas coisas são problemáticas porque de vez em quando os médicos chateiam-se e fazem greves e isso é chato porque aparece nas notícias, e as pessoa zangam-se e você tem de roubar um bocadinho menos durante algum tempo. 
Portanto é importante enfraquecer a classe médica. 

Se tiver os media no seu bolso (e que raio de governante corrupto é você se não tiver?) pode tomar medidas que na prática têm pouco ou nenhum impacto, mas que quando aparecem nas notícias transmitem uma ideia errónea que as pessoas não têm a informação necessária para distinguir da realidade


"os médicos agora tem de trabalhar 40 horas por semana" quando na realidade a vasta maioria já o fazia, e o que as pessoas pensam é que os médicos não querem trabalhar.
"todas as ofertas aos médicos têm de ser declaradas nos impostos" quando na realidade de vez em quando recebiam uns ovos de um doente e umas canetas feias, e o que as pessoas pensam é que os médicos andavam todos a receber carros por debaixo da mesa.
"Os médicos recebem fortunas para trabalhar nas urgências" e às vezes nem sequer querem aceitar esse dinheiro, quando na realidade esse dinheiro está a ser pago às empresas privadas (dos amigos) que os contratam com a mesma remuneração de sempre.

Pode ainda incomodar os médicos e dificultar-lhes a vida implementando controlo biométrico de assiduidade (mesmo em Unidades de Saúde Familiar, que funcionam por objectivos e não à hora). Pode poupar dinheiro (que pode depois roubar) em programas informáticos que funcionam mal para lhes atrasar as consultas e fazê-los parecer incompetentes em frente aos doentes.
Até lhes pode começar a baixar os salários, com a desculpa de que estão a perder eficiência (quando na realidade essa eficiência é medida por fasquias que você mesmo impõe de maneira a serem impossíveis de atingir).



Tudo isto com o objectivo, naturalmente, de dificultar o trabalho dos médicos no SNS e para os obrigar a reformarem-se ou a mudarem-se para o privado (que, mais uma vez, de certeza que vai dar um cabeçalho espectacularmente enviesado "Médicos recusam trabalhar no SNS").

Outra coisa inteligente que pode fazer é transformar os médicos num recurso abundante e, portanto, sem poder reivindicativo. Como é que faz isto?

Aumentando o número de faculdades de medicina e não regulando de todo o número de vagas, de maneira a produzir mais recém-licenciados em medicina do que o que sabe fazer com eles.
Até pode, se quiser, e sempre sob a desculpa de que existe falta de médicos (problema que você mesmo criou), abrir faculdades de medicina privadas (dos amigos).
Desta maneira, daqui a uns 4-5 anos quando todos estes internos se especializarem, você mantém o número de vagas de trabalho reduzidas, e assim pode ter imensos médicos à procura de emprego. Nessa altura você pode começar impôr toda e qualquer restrição que queira, porque a procura é muita e a oferta pouca, e nessa situação o poder está do lado de quem oferece.



Passo 5 - Criar uma nova classe de médicos

Finalmente pode construir toda uma nova classe de médicos formatados e treinados para servirem os seus propósitos.
Dado que o seu objectivo é ter o menor número de médicos possíveis a fazer o maior número possível de consultas, precisa de médicos com uma enorme capacidade de fazer consultas e de trabalhar para os números. Não importam na realidade os cuidados preventivos, o planeamento familiar, a saúde materna, a saúde infantil, o seguimento de doenças crónicas. O que você quer é que as pessoas não fiquem em casa muito tempo constipados e que vão trabalhar o mais depressa possível.

Pode então alterar a formação dos médicos de família de maneira a pôr de lado um treino virado para a compreensão inteligente e cuidados de qualidade, focando ao invés disso o trabalho direccionado por números e de decoranço.

Desta maneira não só estimula ainda mais médicos a irem para o privado, como garante que os que ficam são os autómatos que precisa para verem doentes a metro.



Passo 6 - Colher os benefícios

Portanto o que é que conseguiu atingir com esta estratégia?

Desorganizou completamente a estrutura do Serviço Nacional de Saúde, reduzindo a capacidade de resposta tanto de hospitais como de centros de saúde, de maneira a que os centros de saúde se tornaram em repartições públicas e os hospitais estão focalizados no tratamento urgente de problemas pouco graves.
Isto faz com que as pessoas deixem de recorrer ao Serviço Nacional de Saúde e passem a recorrer aos hospitais privados dos seus amigos.
Conseguiu também cortar as comparticipações nas despesas de saúde dos doentes, ao mesmo tempo que direcciona os seus impostos para dar dinheiro aos hospitais privados dos seus amigos.
Por causa destes problemas todos e da desorganização completa da saúde, as pessoas têm de recorrer a seguros de saúde (das seguradoras dos amigos).
Conseguiu afastar os médicos dos empregos seguros do estado e direccionou-os para a precaridade do trabalho privado (dos amigos), e reduziu enormemente a influência que pudessem ter na população.
Até conseguiu dar faculdades de medicina privadas para os seus amigos.

As pessoas começam a morrer imenso, mas pode pôr a culpa no tempo.

A cereja em cima do bolo é que uma população com menos saúde, mais preocupada com as doenças dos filhos e dos idosos, não sai tanto à rua para se manifestar!



Portanto resta tanto dinheiro para si e para os seus amigos que pode agora viver o resto da sua vida a subsistir exclusivamente numa dieta de lagosta recheada de lagosta, cocaína e prostitutas.

Não perca ainda os nossos outros guias práticos:
"Destruir o Ensino em Portugal para Tótós"
"Destruir a Indústria Nacional e Mercado de Trabalho para Tótós"
"Vender o País à China e fugir para um Paraíso Fiscal para Tótós"


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quarta-feira, 4 de março de 2015

Skyrim - a Night to Remember

So let me talk about Skyrim.

I think there's really no doubt in anyone's mind that Skyrim is a very good game.
This is how i came to the same conclusion.



I've been playing Skyrim on and off for the past 2 years and the first two characters i did were very planned from the beginning. I first made a straight rogue, all sneakyness and stabby-happy-action, then i built a warmage, casting spells and brandishing a mace. Both times i was actively trying to achieve an ideal character, something i had thought out in my mind before starting, and i was strictly following the main quest, while doing all side-quests to maximize experience gain.

Then i had to study for exams and stopped playing anything at all for a while. I only just started playing again about a month ago.

This time around, i didn't plan on anything. I just started playing again mostly because i remembered it being fun.
I thought i'd play it just for the sheer enjoyment of it, not force myself into a type, just follow whatever quests seemed interesting. I excused myself from any self-imposed pressures or long-term objectives. Since this was supposed to be laid back, i decided to invest in crafting, because Minecraft taught me that gathering resources to make gear can be a satisfying endeavour.



So i played around, i reached Whiterun, i slogged through the initial grinding of alchemy, smithing and enchanting, and did fetch-quests. It's surprisingly fast to level up smithing if you invest a bit of time into i, so i got it to level 30 in no time, and started forging better equipment.

By now i had the whole alchemy-smithing-enchanting-selling cycle down, and i was even turning a profit. I bought the house.
When i killed my third dragon, i was cruising. Then i accidentally stumbled onto what must be one of the most fascinating quests i have ever seen. I'm sure there are others, and in other games that i haven't played, but this just blew my mind.

It's called "A Night to Remember"

As i walked into the Bannered Mare Inn to sleep and get my "Well rested" bonus before smithing, i saw a character leaning against the bar that i hadn't seen before. I decided to just talk to him.

He introduced himself as Sam Guevenne, and challenged me to a drinking contest. He promised a staff if i won. I thought this might be like one of those mini-quests where you brawl a random drunken patron for a quick 50 gold pieces. I thought i just had to win the drinking game or something, and i'd get a unique staff.



But after the third drink, the screen suddenly goes black, and suddenly i realize i'm in full blown quest mode.
Surprisingly, as i wake up, i find that i am in a completely different place.


Apparently i'm in the Temple of Dibella, and the priestess thereof informs me that i stumbled in drunk and ranting and thrashed the place in the night. This immediately feels different from other quests, and i'm left wondering how this is going to develop.
She forces me to clean up and even apologise (i've killed dragons for christ's sake), and then gives me a list of meaningless items to gather to repair the staff. It is a fucking fetch-quest after all.
She also tells me that i should visit a guy in Rorikstead.

Since Rorikstead is halfway though to Whiterun i stop by just to fulfill the next mission marker. I meet a guy named Ennis who tells me that i was so drunk last night that i stole his prized goat and sold it to a friggin' giant. I wasn't expecting this, since most other quests are usually full of importance and take themselves very seriously. This is getting funny, and for the first time i genuinely can't tell where this is going
The giant isn't far away, so i decide to fight a giant. It's surprisingly difficult, surprisingly.


So i get the goat, and the guy is happy, and the trope about drunk parties and goats persists, until he tells me that i should go meet Ysolda in Whiterun.

Whiterun is where i was going anyway, so there's never an option of not meeting Ysolda almost as i entered. She asks for the money i owe her from buying a ring. An engagement ring. Because apparently i got engaged. While i was drunk.
How long was i drunk?
This quest has gone full Hangover on me, and i didn't even see it happening. I thought this was a fetch-quest and turned out into the most engaging quest i'd found so far.

Ysolda tells me that my bride is waiting for me in Witchmist Grove, where i fell in love with her, or so the story went. And i also need to get her the ring back, or pay 2000 gold pieces.



So i go to Witchmist Grove just to see what's there. I find one of the strangest creatures in Skyrim, a Hagraven, a woods/swamp witch that has the mutated body of a crow. They're creepy as fuck, and i my sense of strangeness/bizarre about this quest keeps on growing. So i ask for the ring and she gets mad that i'm not actually marrying her so i kill her. I bring back the ring to Ysolda, who tells me that i was getting married in a place called Morvunskar.

Right now i don't need any other reason to go other than i want to know how much crazier this can get.
Morvunskar turns out to be an abandoned gloomy stronghold, creepy even for the general standard of strongholds in Skyrim, and i'm already anticipating more shenanigans. Turns out to be filled with deadly Ice Wizards!
Doesn't hurt that i've kept up with the smithing and enchanting all the while, so now i'm starting to get some good gear.


At the end of the Stronghold i find a godamn interdimensional portal! An actual, inter-dimensional portal, into a place called Misty Meadow. So i giddily jump into the rabbit hole and come out in an amalgam of every description ever of the Fae, from Neil Gaiman, Marion Zimmer Bradly to Patrick Rothfuss.



I find at the end of the path a table where a banquet is going on and Sam Guevenne is standing there. He has menacing glowing red eyes, so i sense some mischief is afoot!
Obviously he transforms into his true form, which just so happens to escalate quickly to a Daedric Prince.
It is the godamn manifestation of one of the Evil Gods of Skyrim. Sanguine, the Demon Prince of debauchery and drunken revelry.
He's been toying with me all along. This started as a godamn mini-game, and ended as a wonderfully played out trope of God Messes With Mortal Hero.
He congratulates me essentially because i got out and saw the world and just acted out on a whim.



The game is straightforwardly rewarding me for just going with the flow and enjoying the game. The very attitude that drove me to start this playthrough and character in the first place led me to finding a quest that rewards that same attitude: mindless enjoymend and doing a quest just because it was curious and intriguing.

So now he gives me something called the Sanguine Rose Staff, which is a unique item you can only aquire through this quest, and which summons bad-ass Daedra! Yes, this staff calls up demons to beat stuff up. This is almost game-breakingly ahead of anything i own!

The way this quest was designed, from beginning to end, playing narratively with well-established tropes, and even making fun of them, made me walk from one end of the map to the other, see some beautiful sights, and transmitted so much of the feel of the wonderment of exploration, and the sheer fun you can have with this game.
I ended up with definetly the most creative and fun to play character i have ever planned, and i didn't even plan on it!



Now i love this, now i want to play even more of this.
I find that this quest in just one in a series of fifteen (15!!!!) quests, that explore all of the Daedric Gods and all have equally unique rewards! I'm going to explore the world and backstory of this world as i do these quests.

That this would even be a thing in a game like this. That among all of the dreary, grinding of fetch-quests, kind of repetive side-quest, and neutral commonness of the main-quest, such a specific and curious and challenging concept of a quest could show up is very impressive to me and makes me respect the developers so much more.

I am going to drop every other quest and just do these through to the end!
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domingo, 1 de março de 2015

Reality is just Bad Writing - or the Troperization of Reality

Ouço-o todos os dias.

"Estou constipado porque apanhei frio"

Causalidade.

Não que a causalidade não exista! Obviamente que existe, e tanto quanto sabemos a lógica do universo baseia-se na causalidade. Não é isso disso exactamente que estou a falar.
Estou a falar da maneira como percepcionamos a causalidade.
Ou melhor, como somos, geralmente, incapazes de a percepcionar. 


As mudanças importantes que acontecem à nossa volta frequentemente devem-se a tantos factores a interagirem de maneiras inesperadas durante tanto tempo que se torna quase impossível de prever.
O clima, por exemplo. O clima depende da interacção de todas as moléculas de ar e de água que estão na atmosfera ao mesmo tempo. Ou conhecemos a posição inicial e comportamento de cada molécula individual na atmosfera, ou então qualquer previsão que queiramos fazer nunca será mais do que uma tentativa de adivinhar.
Teoria do Caos. Borboletas e Tufões explicados pela matemática.

Porque na realidade a matemática é a única coisa que descreve com exactidão a realidade.

O melhor que se conseguiu durante muito tempo foi "Trovoada - Deus está zangado".
Era o melhor modelo explicativo que existia, e se se permitir uma grande margem de erro, até havia de acertar metade das vezes.



Ou seja, há mais factores do que aqueles que conseguimos processar, então inventamos atalhos, explicações que funcionem mais ou menos. Precisamos de modelos que nos permitam dar sentido aos acontecimentos. Um dos nossos preferidos é a causalidade, mais especificamente a narrativa.

Usamos a narrativa para explicar as coisa que nos acontecem.
Contamos histórias acerca das coisas. De tudo.

"Estou constipado porque apanhei frio". Uma causa e um efeito. É uma pequenina narrativa. 

A consciência humana é particularmente propensa à narrativa. É um caso de galinha e ovo. 
Será que foi a consciência humana que originou a narrativa ou a narrativa que moldou a consciência?

Desde sempre que contámos histórias uns aos outros. Foi assim que começou a cultura humana, foi assim que começámos a existir enquanto seres humanos. Tribos sozinhas numa caverna, à noite, à volta de uma fogueira, a contar histórias uns aos outros. A caçada, a tempestade, o leão, o nascimento, a morte, o que haveria a seguir à morte, deuses, demónios, heróis, lutas épicas do bem contra o mal.





A tradição oral, a cultura passada de boca em boca durante dezenas de milhares de anos, até que alguém finalmente inventasse LETRAS, definiu tudo o que éramos enquanto humanos.

Esses mitos primordiais, que ajudaram a construir a nossa consciência, determinam o nosso futuro ainda hoje.

Construíram-se pirâmides porque pessoas suficientes acreditaram em Homens-Deuses com poderes sobrenaturais que quando morriam precisavam de veículos celestiais que os guiassem para uma afterlife mística e divina.

You know i'm gonna talk about pyramids, right?

As pirâmides são o testemunho do poder do mito e da narrativa. São a prova do quanto se pode construir atrás de sonhos e magia.

Havia civilizações inteiras cujos Deuses iam em batalhas épicas contra as forças personificadas da Entropia



Reconhecemos com facilidade que os gregos e os romanos estabeleceram os fundamentos do que é hoje a cultura e a civilização ocidental, desde a noção de governo até à matemática e a filosofia, mas depois rimo-nos dos Deuses engraçados deles.

Mas essas religiões ERAM realidade. A magia e os deuses eram verdadeiros. Tanto que eles passavam o tempo a construir-lhes templos! E a gastarem inquantificáveis recursos e tempo e energia a adorarem histórias e ideias e mitos. Era isso que movia a civilização. A sociedade funcionava à custa desses mitos.




Ou seja... a narrativa é uma coisa muito mais de fundamento e base a tudo o que nós somos do que habitualmente lhe damos crédito. As melhores coisas que já fizemos até hoje, com as quais mais nos impressionamos, foram à custa de narrativa.

As pirâmides, o coliseu, a Capela Sistina, o Requiem do Mozart, o Midsummer's Night Dream do Shakespeare, a maioria das coisas mais bonitas que temos são feitas à custa de, e com base em, narrativa.




Passamos muito tempo a matar-nos uns aos outros, mas quando finalmente deixamos de o fazer durante 5 minutos conseguimos fazer coisas como as 4 Estações do Vivaldi.




Ou seja...

Começámos por contar histórias acerca das estrelas à volta de fogueiras que nos permitiam fazer sentido dum mundo grande e confuso, que nos davam alguma segurança perante uma realidade assustadora e com incontáveis factores, e essa ferramenta carregou-nos até onde estamos hoje.


In case you were wondering, the underpoint of all this is that the Bogey-Man is fueled by narrative, and that narrative/myth is used effectively by the Bogey-Man to keep people controlled


E ainda hoje, pouco mais fazemos do que continuar a contar histórias que nos ajudam a fazer sentido de um mundo confuso e com incontáveis factores.

"Estou constipado porque apanhei frio."

Vemos a nossa própria vida de uma perpectiva narrativista. Conseguimos narrar a nossa vida! Há conflitos e obstáculos, climaxes, protagonistas, secundários, vilões! E somos sempre o underdog da nossa própria narrativa pessoal! Somos sempre aquele que sofreu as adversidades e superou os obstáculos, e imaginamo-nos a ter grandes sucessos e a encontrar o amor conta todas as expectativas!

Por isso é que toda a gente adora o underdog nos filmes.



Estas pequeninas ideias narrativas, estes tropes, que nos acompanham desde sempre, e que ajudaram a construir a estrutura da nossa consciência, continuam a ser a melhor e talvez única ferramenta para lidarmos com o dia a dia. 
É por isso, mais uma vez que somos obcecados com a narrativa. É por isso que a vasta maioria da nossa arte, desde os livros, à música, ao cinema, jogos de computador, bandas-desenhadas, toda ela está centrada na narrativa.

E esta narrativa pode ser desmontada nas suas unidades individuais, que são os tropes. Qualquer narrativa consegue ser descrita recorrendo a tropes. E os tropes presentes nas obras consideradas boas e com sucesso são surpreendentemente coerentes e estáveis entre si e ao longo dos milénios.

Ou seja...

A narrativa faz parte da estrutura da nossa consciência, e a narrativa pode ser descrita em tropes.
Os tropes são a unidade narrativa da consciência humana.



É por isso que quando nos confrontamos com uma realidade descrita por números e matemática ficamos tão desiludidos e sub-impressionados. Esses momentos que fogem à narrativa cuidada que tínhamos construído confrontam-nos com o quão pouco controlo temos sobre o que nos acontece, sobre o mundo à nossa volta. Deixam-nos sem saber como reagir porque não são narráveis, e a melhor ferramenta que temos para reagir às coisas é a narrativa.

"Estou constipado porque as condições atmosféricas geradas por 1.09 x 10^44 moléculas atmosféricas (por extenso, 1.09 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 moléculas) todas a interagirem umas com as outras determinaram que neste lugar onde estou agora a temperatura média baixasse e isso fez com que as pessoas se juntassem mais em espaços fechados o que facilitou a disseminação de um rinovírus"

That's just some bad writing man, no one wants to hear that story!


"Estou constipado porque ontem à noite fiquei na rua a conversar com uma rapariga"

There you go




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terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Gatos

Vou agora explicar porque é que gosto tanto de gatos.

Para isso vou começar por falar de cães.



De todas as coisas que os seres humanos inventaram, os cães são definitivamente uma das mais impressionantes. 

Há toda uma discussão mais ou menos razoável sobre organismos geneticamente modificados, que geralmente esquece o facto de que os humanos andam a modificar geneticamente organismos há milhares de anos.



Há cerca de trinta mil anos (30 000) anos os humanos roubaram as primeiras crias de lobos e criaram-nas no seio da tribo. Educaram-nas, ensinaram-nas e fizeram criações. Iam escolhendo que lobos iam procriar com quais, seleccionando as crias que eram mais dóceis, inteligentes e cooperantes.
Ou seja, foram domesticados. Pegámos neles e à custa de selecção artificial mudámos o padrão genético e fenotípico destes animais de maneira a que se adaptassem melhor às nossas necessidades.

Os cães foram provavelmente dos primeiros organismos geneticamente modificados. Muito antes das plantas, que só começámos a domesticar há cerca de dez mil anos (10 000).



As pessoas dizem que os cães são os melhores amigos dos homens, como se sequer pudesse haver uma alternativa. Nós fizemos com que os cães fossem os nossos melhores amigos. Domesticámo-los e fomo-los seleccionando ao longo dos milénios de maneira a que fossem mais semelhantes a nós.

É claro que quando fazemos testes à inteligência dos cães, eles são tão inteligentes. A única inteligência a sério que conhecemos é a nossa, e quando pegamos em ferramentas criadas para avaliar a inteligência humana e usamo-las para avaliar a inteligência animal, não devia ser nenhuma surpresa que os animais que nós manipulámos durante mais tempo tenham os melhores resultados.



Também existe a discussão típica sobre qual é que é mais inteligente, os cães ou os gatos.
A verdade é que é quase impossível avaliar a inteligência dos gatos, porque eles simplesmente não cooperam com os testes.
Ou seja, não é que os gatos sejam mais ou menos inteligentes, simplesmente têm um tipo de inteligência que nós não sabemos avaliar.

Mas temos a certeza que são inteligentes.
Os gatos têm um entendimento rudimentar do mecanismo de apontar (ou seja, quando apontamos para alguma coisa, eles olham para ver para o que é que estamos a apontar). Isto é um indicador provável da presença de teoria de mente, e consequentemente de consciência. Os chimpanzés têm mais dificuldade em compreender o apontar do que os gatos.



Porquê estas diferenças?

Basicamente porque os gatos só foram domesticados muito recentemente. Estima-se que a domesticação dos gatos tenha acontecido há cerca de sete mil e quinhentos anos (7 500), por contraste com os trinta mil anos dos cães (30 000).
Os gatos domésticos (Felis domesticus) são praticamente idênticos aos gatos selvagens (Felis silvestrus), enquanto que os cães são significativamente diferentes dos lobos.

Nenhum humano foi roubar crias do gato selvagem para criar. Os gatos não foram alvo de selecção artificial humana. Foram os próprios gatos selvagens que evoluíram para aproveitar a vantagem evolutiva de estarem próximo de comunidades humanas, provavelmente para se alimentarem dos ratos que comiam as reservas daquelas outras plantas que também domesticámos e cultivámos.



Os gatos domesticaram-se a si mesmos, porque isso lhes era vantajoso.
Ou seja, sofreram uma selecção natural, que lhes permitiu adaptarem-se melhor aos seres humanos, serem cada vez mais tolerados, e até apreciados pelos seres humanos, para poderem continuar a aproveitarem-se de nós.

É por isso que há pessoas que não gostam de gatos. Os gatos não evoluíram de maneira a reflectir as nossas emoções e a nossa inteligência, como os cães. Os gatos não foram seleccionados com base na sua empatia, mas sim na sua capacidade de serem espertos e aproveitarem-se de nós.

Os cães ficam genuinamente felizes por nos verem, porque nós garantimos através da selecção aritificial que fizémos que assim fosse.
Os gatos se são queridos e fofinhos isso não é mais do que camuflagem para nos enganar.
Evoluíram para aproveitar este nicho evolutivo que são os seres humanos. Aproveitaram-se deste recurso fácil, que somos nós. Quase como se fossem parasitas.

Hot damn, os egípcios adoravam gatos, you KNOW i'm gonna write about that!

Quando um cão brinca connosco, está genuinamente a brincar e a interagir. Quando um gato caça as nossas pernas e as nossas mãos, está literalmente a caçar-nos. Nós somos a presa dele.
Só que ele descobriu que matar-nos logo dava muito trabalho, então vai-se aproveitando durante anos a fio, até morrermos, altura em que nos come.

Ah, sim, porque aquelas histórias muito bonitas e sentimentais, que dão filmes lamechas, do cãozinho que gostava muito do dono e que quando o dono morre o cãozinho vai todos os dias esperar por ele à estação, não acontecem com os gatos.
Se o dono do gato morrer em casa e o gato ficar com fome, o gato vai comê-lo. E nem sequer perde muito tempo. Provavelmente nem o deixa arrefecer.



Portanto fico um bocado na dúvida sobre porque é que gosto tanto de gatos, agora que penso nisso.

Mas pronto, e porque este post já está vago o suficiente.

Acho fascinante partilhar a casa com o que é, essencialmente uma inteligência/proto-consciência alienígena à minha que evoluiu quase sem influência humana e com a qual consigo estabelecer algum tipo de comunicação.
Com cães sinto sempre que estão ali para me servir e para agradar.
Com o meu gato sinto que há uma relação de respeito mútuo, ou pelo menos respeito da minha parte e condescendência/desdém da parte dele...

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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Testículos

Podem não saber isto, ou nem sequer alguma vez terem pensado nisso, o que não seria de todo estranho dado que também não é algo em que eu quereria pensar.
Mas por vezes o meu dia de trabalho começa com a possibilidade de afagar os testículos de outro homem.

Não é que seja incrivelmente frequente, porque até nem é. Mas para mim já aconteceu vezes demais. Ou seja, mais do que uma.
Não gosto particularmente de tocar nos testículos de homens estranhos! Acho que é razoável.



Não tenho nada contra testículos, ou sequer contra tocar em testículos (aliás é uma coisa que recomendo), e nem sequer contra o gosto de tocar em testículos.
Sabe Deus que eu já andei a mexer nos meus! "Que é  isto? Isto é muito estranho! Mas é bom de uma maneira que não me parece certa. Olha olha! O escroto esta a mexer-se sozinho" com Deus ao meu lado, a ver (porque está em todo o lado).

Não, a mim o que me incomoda é ter de mexer nos tomates de estranhos. Logo pela manhã. Não sei se à tarde seria melhor, mas não consigo deixar de achar que de manhã é pior.


É embaraçoso para o doente, é chato para mim que tenho de ir buscar uma luva e andar a enfiar o dedo no escroto de outro homem.
Sabem como é o exame objectivo de uma hérnia inguinal, sabem? Não é agradável para ninguém envolvido!

Não é que me incomode de sobremaneira! Até já fiz coisas piores. Mas afagar os tomatinhos de um obeso logo a seguir ao pequeno almoço... eh pá...


Porque nem sequer é preciso a maioria das vezes! Nunca apanhei uma torção testicular aguda, nunca apanhei um tumor que ia destruir a vida do homem se eu não o diagnosticasse cedo.

Já meti o dedo no cu de muita gente, mas também já apanhei massas rectais suspeitas, hemorragias activas, próstatas pétreas, etc. Pude pensar: "Enfiar o meu dedo no cu de outra pessoa valeu a pena! Foi uma acção válida, com valor social e médico comprovado, e merecedora do meu tempo"



Nem sequer consigo ter o mesmo sentimento minimamente compensador em relação a mexer nos tomates de outro homem. A única coisa que me passa pela cabeça é "OH MEU DEUS PORQUE É QUE EU TENHO DE FAZER ISTO!?".

O que eu apanho quando faço palpações testiculares são homens de meia idade, geralmente bem aprumados, a quem disseram quando eram mais novos que era feio tocarem em si mesmos, e então quando chegam a uma idade em que já não têm sexo com a mulher que têm há vinte anos e começam a dedicar-se à nobre arte da masturbação é que notam "Olha! Há aqui para baixo coisas que eu nunca tinha reparado!"



E pensam em cancro. É claro que pensam em cancro! Porquê pensar em qualquer outra coisa quando se pode pensar em cancro? Porquê passar pelas preocupações de "estará inflamado?", "se calhar magoei sem dar por isso", "será uma infecção?", quando se pode perfeitamente atalhar directamente para "É cancro!"?
Ninguém vai ao médico com medo de ter uma gonorreia. Vão quando estão a urinar pus e sangue.
Mas vão ao médico com medo de cancro. Ninguém se imagina a ter gonorreia, apesar de ser mais prevalente que o cancro testicular.

Não, se vão ter uma doença, é cancro!



E é engraçado ver homens com medo de cancro! As mulheres com medo de cancro lidam com esse medo, pegam nele, assumem-no, expõem-no sem hesitação. Porque estão habituadas a ligar com emoções intensas. Porque têm um medo muito saudável e real do cancro! Cancro da mama, cancro do colo do útero! Sabem que estas coisas existem, que são frequentes e que merecem cautela e medo!

Mas os homens entram sem saber o que fazer ao seu medo "Eu, huh, pois... tenho aqui, quer dizer, sinto uma coisa... Acho que é uma emoção. E é forte. Acho que é medo. Não sei bem o que fazer com isto, mas lembrei-me que como você é médico talvez me possa ajudar com isto"

E lá tenho eu de empatizar com o homem, e reflectir as emoções dele para estabelecer uma ligação terapêutica, para lhe poder dizer de uma maneira que não o deixe mais desconfortável ou a sentir que eu não o levei a sério ou, pior ainda, que saia preocupado à mesma, que eles não só não tem nada como aquilo que ele sente é uma parte da anatomia normal deles na qual simplesmente nunca repararam.



Obviamente que ficam contentes por não terem cancro! Mas quando isso passa ficam ali com os tomates na mão a sentirem-ser embaraçados porque os vieram mostrar a um estranho!

E eu penso para mim mesmo "vá, são só uns testículos, é só anatomia, tens uma luva, sê profissional, aparenta estares aborrecido" mas a verdade é que nunca consigo estar indiferente.

E vou para casa a pensar nisso durante uns dias. E no fim penso se o doente também pensa em mim da mesma maneira...


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