When the zombie apocalypse starts, go to the graveyard to play the best game of whack-a-mole ever!
sábado, 17 de outubro de 2015
quinta-feira, 15 de outubro de 2015
Vírus Gigantes Congelados!
Estaremos a desafiar as leis da natureza com o nosso crescimento desgovernado, e a chamar sobre nós um apocalipse de vírus gigantes?
Provavelmente não, mas esta é uma frase dramática o suficiente para servir de cabeçalho a mais um post sobre vírus e bactérias.
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| Pandoravirus |
Portanto, já expliquei o que são vírus, certo?
São pequeninos pedaços de código genético, que codifica apenas alguns genes, que contêm pouco mais do que as instruções para "faz mais cópias de mim".
Dado que não codificam mais nada, nem metabolismo energético, ou respostas a estímulos, nem sequer se considera que estejam bem vivos.
E são pequeninos.
Muito pequeninos.
Tão pequeninos que não podem ser vistos num microscópio normal, só conseguem ser observados num microscópio electrónico.
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| Vírus de Hepatite B |
Pensem um vírus da Hepatite B.
Os vírus da Hepatite B têm 3200 pares de bases e codificam 4 genes (sim, só 4 genes), enquanto que uma bactéria Escherichia coli tem 4 639 221 pares de bases e 4000 genes.
Um vírus da Hepatite B têm em média 40 nanómetros de diâmetro. 40x10^-9 metros.
Um vírus da Hepatite B têm em média 40 nanómetros de diâmetro. 40x10^-9 metros.
Ou seja 40 bilionésimos de metro.
Uma bola de ping-pong tem 4 cm de diâmetro. (Sim! Eu fui buscar um artigo científico para referenciar o tamanho de uma bola de ping-pong!)
Um Vírus da Hepatite B está para uma bola de Ping-Pong como uma bola de Ping Pong está para a Escócia.
Pronto, agora que já estabelecemos quão pequenino é um vírus.
Lá para cima, para o Norte, no topo do planeta, há lugares onde está tanto frio durante o ano topo, que o solo está permanentemente congelado.
Chama-se a isso o Permafrost.
Como é natural, as coisas que ficam congeladas neste tipo de solo, tendem a ficar lá durante muito tempo.
Volta e meia desenterram Mamutes de 40 000 anos estupendamente bem conservados, e recentemente encontraram o corpo de uma mulher com 2500 anos, tão bem conservado que as suas tatuagens estavam perfeitamente visíveis.
Uma das coisas mais interessantes que eles encontraram no gelo recentemente foi isto:
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| Escócia: cerca de 400 km de norte a sul |
Lá para cima, para o Norte, no topo do planeta, há lugares onde está tanto frio durante o ano topo, que o solo está permanentemente congelado.
Chama-se a isso o Permafrost.
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| Permafrost siberiano |
Volta e meia desenterram Mamutes de 40 000 anos estupendamente bem conservados, e recentemente encontraram o corpo de uma mulher com 2500 anos, tão bem conservado que as suas tatuagens estavam perfeitamente visíveis.
Uma das coisas mais interessantes que eles encontraram no gelo recentemente foi isto:
Que coisa é esta? Com cerca de 1200 nanómetros, ou 1,2 microns de tamanho?
Com este tamanho seria razoável pensar numa bactéria. Mas estariam errados.
É um vírus.
Um vírus gigante.
Encontraram vírus gigantes congelados no Permafrost Siberiano.
Quero voltar a chamar a atenção para o tamanho deste monstro, dizendo que é maior do que as bactérias S. aureus e tem cerca de metade do tamanho de uma bactéria E. coli.
Na realidade estes vírus gigantes já são conhecidos há cerca de 2003 anos, quando o Mimivírus foi identificado, e desde então já foram idenficadas pelo menos mais 7 espécies diferentes.
O maior de todos, o Pithovirus sibericum, pode chegar a ter 1,5 microns de tamanho.
Lembram-se lá em cima quando comparámos um vírus da Hepatite B a uma bola de ping-pong?
Se um vírus da Hepatite B fosse do tamanho de uma bola de ping-pong, um Pithovirus sibericum seria do tamanho de uma televisão de 60 polegadas.
Não, a sério, estes vírus são grandes o suficiente para serem vistos em microscópios ópticos!
Estes vírus não são só gigantes em tamanho, são também gigantes em código genético.
Lembram-se quando eu disse que o vírus da Hepatite B 3 200 pares de bases? O Pandoravirus pode chegar a ter 2 500 000 pares de bases!
Estes vírus desafiam as classificações para a vida como a conhecíamos até agora, até porque as proteínas que os seus genes codificam são mais semelhantes das células eucarióticas (nós) do que das procarióticas (bactérias) e provavelmente representam um ramo primitivo na evolução da vida que nunca vingou.
O mais impressionante disto tudo é que quando eles pegaram nestes vírus gigantes, presos no permafrost siberiano há 30 000 anos, e os descongelaram, eles VOLTARAM À VIDA!
Claro que dizer que voltaram à vida é um bocado de abuso, porque como nos fartamos de dizer, os vírus não estão bem vivos para começar.
É mais o equivalente de pegar numa máquina de lavar enterrada no chão gelado há trinta mil anos, ligá-la à corrente e descobrir que ainda funciona.
Não deixa de ser impressionante.
Felizmente estes vírus não são infecciosos para os seres humanos, e contentam-se em infectar amebas.
Mas à medida que a indústria petrolífera siberiana continua a expandir-se, e o aquecimento global continua a fazer aumentar as temperaturas no mundo todo, o Permafrost começa a derreter.
Encontrámos duas espécies de vírus gigantes com genes bizarros congelados no gelo, capazes de recuperar a sua infectividade.
Duas.
Quantas mais continuam enterradas no gelo?
E será que quando descongelarem não nos vão querer comer?
Com este tamanho seria razoável pensar numa bactéria. Mas estariam errados.
É um vírus.
Um vírus gigante.
Encontraram vírus gigantes congelados no Permafrost Siberiano.
Quero voltar a chamar a atenção para o tamanho deste monstro, dizendo que é maior do que as bactérias S. aureus e tem cerca de metade do tamanho de uma bactéria E. coli.
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| Staphylococcus aureus |
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| Escherichia coli |
O maior de todos, o Pithovirus sibericum, pode chegar a ter 1,5 microns de tamanho.
Lembram-se lá em cima quando comparámos um vírus da Hepatite B a uma bola de ping-pong?
Se um vírus da Hepatite B fosse do tamanho de uma bola de ping-pong, um Pithovirus sibericum seria do tamanho de uma televisão de 60 polegadas.
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| Do tamanho de uma televisão de 60 polegadas, ou de uma senhora asiática |
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| Mimivirus ao lado de uma bactéria de Ricketsia conorii |
Estes vírus não são só gigantes em tamanho, são também gigantes em código genético.
Lembram-se quando eu disse que o vírus da Hepatite B 3 200 pares de bases? O Pandoravirus pode chegar a ter 2 500 000 pares de bases!
Estes vírus desafiam as classificações para a vida como a conhecíamos até agora, até porque as proteínas que os seus genes codificam são mais semelhantes das células eucarióticas (nós) do que das procarióticas (bactérias) e provavelmente representam um ramo primitivo na evolução da vida que nunca vingou.
O mais impressionante disto tudo é que quando eles pegaram nestes vírus gigantes, presos no permafrost siberiano há 30 000 anos, e os descongelaram, eles VOLTARAM À VIDA!
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| Molivirus sibericum |
É mais o equivalente de pegar numa máquina de lavar enterrada no chão gelado há trinta mil anos, ligá-la à corrente e descobrir que ainda funciona.
Não deixa de ser impressionante.
Felizmente estes vírus não são infecciosos para os seres humanos, e contentam-se em infectar amebas.
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| Indústria petrolífera na Sibéria |
Encontrámos duas espécies de vírus gigantes com genes bizarros congelados no gelo, capazes de recuperar a sua infectividade.
Duas.
Quantas mais continuam enterradas no gelo?
E será que quando descongelarem não nos vão querer comer?
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sábado, 10 de outubro de 2015
quinta-feira, 8 de outubro de 2015
Manhãs Ascetas e Noites de Prazer
Gosto de manhã. Não gosto de sair da cama, mas depois de sair já não voltava atrás.
Gosto de andar pela rua enquanto está, como o meu avô dizia, ''fresco''.
Lembro-me de há poucos anos, gostar da noite. A noite era expectativa de um ambiente diferente, novo, eventualmente pessoas novas. Coisas novas.
Há menos coisas novas pelo ''fresco'' da manhã. Há mais calma. Expectativa também, e planificação. ''Tenho que me ir deitar, tenho muitas coisas para fazer amanhã.'' Temos que acordar cedo porque há coisas importantes e oficiais que acontecem de manhã.
Talvez seja que é por isso que os adolescentes gostam da noite. A noite tem maior expectativa de entretenimento, mais potencial para novidade, é mais excitante.
Uma faixa etária jovem o suficiente para não ter responsabilidades de adultos, como trabalhar, mas que já têm acesso à maior parte dos prazeres e divertimentos.
Não parece estranho que essa faixa etária prefira a noite, e a molécula do prazer, a dopamina.
A noite é da dopamina.
O cortisol é a molécula que nos prepara para um dia em cheio! (Juntamente com os corn flakes). Ajuda o corpo a aumentar o açúcar no sangue, diminui a excreção de sódio, aumenta a tensão arterial. Mas também trabalha com a epinefrina para ajudar a criar memórias de curto prazo.
Pensem nos vossos pais a defenderem o trabalho árduo e a debitar aforismos, como ''deitar cedo e cedo erguer''.
Pensem em ir trabalhar de manhã cedo.... No valor da perseverança e dedicação, dos impulsos refreados, do planeamento e do ''subir a pulso''.
As variações do cortisol encaixam no que é a narrativa moral dos valores ascetas, a valorização profissional, o ''trabalho, trabalho''. O contexto de julgamento moral que nos arranca da cama de manhã. Ou pensavam que era o despertador?
Pensem no governo e na troika a julgar-nos moralmente a tirar-nos férias e feriados. A baixar-nos o salário. Querem o nosso cortisol no máximo, a trabalhar, a pagar impostos, para depois o governo ter dinheiro para fazer o serviço da dívida. Porque, segundo a narrativa da direita, andámos muitos anos a libertar dopamina em regabofe, e agora está na altura de fazer ''sacrifícios''.
A verdade não é dual, é holística. Não temos pessoas exclusivamente trabalhadoras ou preguiçosas. A realidade é mais complexa do que os nossos estereótipos e preconceitos, e toda a gente tem dopamina e cortisol no cérebro. E suspeito que, se queremos aproveitar os nossos picos produtivos de cortisol, é essencial conseguir libertar dopamina no trabalho e ter expectativa de libertação de dopamina, pelo lazer.
Acho que se queremos produzir mais é melhor sabermos divertir-nos mais!
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Gosto de andar pela rua enquanto está, como o meu avô dizia, ''fresco''.
Lembro-me de há poucos anos, gostar da noite. A noite era expectativa de um ambiente diferente, novo, eventualmente pessoas novas. Coisas novas.
Há menos coisas novas pelo ''fresco'' da manhã. Há mais calma. Expectativa também, e planificação. ''Tenho que me ir deitar, tenho muitas coisas para fazer amanhã.'' Temos que acordar cedo porque há coisas importantes e oficiais que acontecem de manhã.
Talvez seja que é por isso que os adolescentes gostam da noite. A noite tem maior expectativa de entretenimento, mais potencial para novidade, é mais excitante.
Uma faixa etária jovem o suficiente para não ter responsabilidades de adultos, como trabalhar, mas que já têm acesso à maior parte dos prazeres e divertimentos.
Não parece estranho que essa faixa etária prefira a noite, e a molécula do prazer, a dopamina.
A noite é da dopamina.
Alguns receptores de dopamina estão muito ligados ao mecanismo do comportamento motivado pela recompensa. Outros geram um efeito pró-social e melhoram o humor. Muitas substâncias aditivas (drogas) fazem efeito por aumento da actividade dopaminérgica neuronal. Outras alteram-no.
Por exemplo, há pessoas com potencial dopaminérgico para responder de maneira diferente ao álcool. Isso pode fazer com que seja mais provável que se tornem alcoólicos. (resumo do artigo em Português)
A vida de alguém pode ser completamente diferente, porque o seu cérebro responde de maneira azarada ao álcool...
E ainda hoje o alcoolismo é visto como uma falha moral, que pode dever-se a uma personalidade predisposta, com uma resposta dopaminérgica diferente ao álcool. Azar.
Vocês já viram a dopamina a funcionar... está em cada conversa pontuada por gargalhadas gerais, em cada grito de excitação que se ouve perto de locais de entretenimento nocturno. Está em cada grupo da amigos a cantar no restaurante, depois de alguns copos.
A falta dela está em cada manhã que acordamos surpreendidos connosco próprios, pelos comportamentos que tivemos na noite anterior. Mais uma dor de cabeça jeitosa e aversão a sons estridentes.
À noite tentamos gerar dopamina, gerar recompensa, prazer. A dopamina guia o comportamento exploratório em ambientes novos. A dopamina orienta o ''novelty seeking behaviour'', e está também ligada ao humor, e a falta dela está ligada a depressão.
Acho isto interessante, porque sublinha a importância de aprendermos a divertir-nos. É importante sabermos do que gostamos, do que nos dá prazer. É importante aprendermos a relacionar-nos com a libertação de dopamina no nosso cérebro. Porque a vida não é só trabalho, e o trabalho é melhor desempenhado por pessoas equilibradas. Que descansam, e se divertem.
Para fundamentar isto, fui à procura de algum alguma coisa que ligue a produtividade ao descanso, e demorei 60 segundos a encontrar. Aparentemente a produtividade sobe depois das férias.
Olha um estudo científico a relacionar o descanso com maior capacidade de concentração.
Olha uma empresa que deixou cada empregado tirar as férias que bem entendesse, e teve um aumento enorme de produtividade.
Olha um artigo de uma revista económica a dizer a mesma coisa.
This stuff is everywhere...
Sei que o assunto está longe de ser resolvido, que os artigos são americanos, que a nossa realidade pode ser diferente.
Mas acho que vale a pena perguntar se faz sentido colocar a população a tirar menos férias, com maus contratos, baixos salários e corte efectivo de dias feriados, se for verdade que isso baixa a produtividade...
Por exemplo, os alemães e os franceses trabalham bem menos que nós. Toda a gente diz que isso acontece porque eles são mais produtivos.
E se não for só a maior produtividade a permitir trabalhar menos?
Será que a maior produtividade Alemã e Francesa tem alguma coisa a ver com eles trabalharem menos horas do que nós? Será que isso é parte da resposta? Será que têm mais motivação para serem mais produtivos?
Porque é que fazemos as coisas que fazemos? Porque é que estamos motivados ou não?
Se vieram aqui directamente do facebook, então sabem o que são imagens motivacionais.
A dopamina não está só ligada ao prazer. Está também ligada à motivação. Fundamentalmente, nós fazemos o que quer que seja, pela expectativa que temos de eventual libertação de dopamina no nosso cérebro. Se o nosso trabalho libertar muita dopamina no nosso cérebro, tanto melhor. Se não for esse o caso, talvez a expectativa de vir para casa ver imagens motivacionais no facebook, seja um motor para nos fazer desempenhar as nossas tarefas laborais de maneira mais eficaz e produtiva.
Mas para isso temos que ter tempo. Tempo de lazer, que nos permita libertar dopamina.
Falta uma peça neste puzzle. Este é o mecanismo que justifica os modernos salários dependentes de objectivos. Se trabalharmos muito e bem, então ganhamos mais dinheiro. Atingimos os nossos objectivos e somos recompensados financeiramente. Pela empresa, chefe, o que seja.
Mas para que é que serve o dinheiro extra? Para pagar contas, comprar coisas, e atingir objectivos materiais. Submeto-vos, o dinheiro serve para obter ferramentas (materiais ou não) que permitam ao nosso cérebro libertar dopamina. De onde é que pensam que vem a sensação agradável de velocidade que um carro novo provoca? Ou o sentimento de conseguirmos manter e ajudar a nossa família a manter-se e desenvolver-se?
Mas não existe nenhuma noite, sem uma manhã seguinte...
A manhã poderá estar mais relacionada com o cortisol, que tem um efeito menos claro sobre o humor, mas que pode também estar relacionado com reforçar comportamentos dirigidos a um objectivo.
Por exemplo, há pessoas com potencial dopaminérgico para responder de maneira diferente ao álcool. Isso pode fazer com que seja mais provável que se tornem alcoólicos. (resumo do artigo em Português)
A vida de alguém pode ser completamente diferente, porque o seu cérebro responde de maneira azarada ao álcool...
E ainda hoje o alcoolismo é visto como uma falha moral, que pode dever-se a uma personalidade predisposta, com uma resposta dopaminérgica diferente ao álcool. Azar.
Estas pessoas não estão a tomar o pequeno almoço...
Vocês já viram a dopamina a funcionar... está em cada conversa pontuada por gargalhadas gerais, em cada grito de excitação que se ouve perto de locais de entretenimento nocturno. Está em cada grupo da amigos a cantar no restaurante, depois de alguns copos.
A falta dela está em cada manhã que acordamos surpreendidos connosco próprios, pelos comportamentos que tivemos na noite anterior. Mais uma dor de cabeça jeitosa e aversão a sons estridentes.
À noite tentamos gerar dopamina, gerar recompensa, prazer. A dopamina guia o comportamento exploratório em ambientes novos. A dopamina orienta o ''novelty seeking behaviour'', e está também ligada ao humor, e a falta dela está ligada a depressão.
Acho isto interessante, porque sublinha a importância de aprendermos a divertir-nos. É importante sabermos do que gostamos, do que nos dá prazer. É importante aprendermos a relacionar-nos com a libertação de dopamina no nosso cérebro. Porque a vida não é só trabalho, e o trabalho é melhor desempenhado por pessoas equilibradas. Que descansam, e se divertem.
Para fundamentar isto, fui à procura de algum alguma coisa que ligue a produtividade ao descanso, e demorei 60 segundos a encontrar. Aparentemente a produtividade sobe depois das férias.
Olha um estudo científico a relacionar o descanso com maior capacidade de concentração.
Olha uma empresa que deixou cada empregado tirar as férias que bem entendesse, e teve um aumento enorme de produtividade.
Olha um artigo de uma revista económica a dizer a mesma coisa.
This stuff is everywhere...
Sei que o assunto está longe de ser resolvido, que os artigos são americanos, que a nossa realidade pode ser diferente.
Mas acho que vale a pena perguntar se faz sentido colocar a população a tirar menos férias, com maus contratos, baixos salários e corte efectivo de dias feriados, se for verdade que isso baixa a produtividade...
Por exemplo, os alemães e os franceses trabalham bem menos que nós. Toda a gente diz que isso acontece porque eles são mais produtivos.
E se não for só a maior produtividade a permitir trabalhar menos?
Será que a maior produtividade Alemã e Francesa tem alguma coisa a ver com eles trabalharem menos horas do que nós? Será que isso é parte da resposta? Será que têm mais motivação para serem mais produtivos?
Porque é que fazemos as coisas que fazemos? Porque é que estamos motivados ou não?
Se vieram aqui directamente do facebook, então sabem o que são imagens motivacionais.
A dopamina não está só ligada ao prazer. Está também ligada à motivação. Fundamentalmente, nós fazemos o que quer que seja, pela expectativa que temos de eventual libertação de dopamina no nosso cérebro. Se o nosso trabalho libertar muita dopamina no nosso cérebro, tanto melhor. Se não for esse o caso, talvez a expectativa de vir para casa ver imagens motivacionais no facebook, seja um motor para nos fazer desempenhar as nossas tarefas laborais de maneira mais eficaz e produtiva.
Mas para isso temos que ter tempo. Tempo de lazer, que nos permita libertar dopamina.
Falta uma peça neste puzzle. Este é o mecanismo que justifica os modernos salários dependentes de objectivos. Se trabalharmos muito e bem, então ganhamos mais dinheiro. Atingimos os nossos objectivos e somos recompensados financeiramente. Pela empresa, chefe, o que seja.
Mas para que é que serve o dinheiro extra? Para pagar contas, comprar coisas, e atingir objectivos materiais. Submeto-vos, o dinheiro serve para obter ferramentas (materiais ou não) que permitam ao nosso cérebro libertar dopamina. De onde é que pensam que vem a sensação agradável de velocidade que um carro novo provoca? Ou o sentimento de conseguirmos manter e ajudar a nossa família a manter-se e desenvolver-se?
Mas não existe nenhuma noite, sem uma manhã seguinte...
A manhã poderá estar mais relacionada com o cortisol, que tem um efeito menos claro sobre o humor, mas que pode também estar relacionado com reforçar comportamentos dirigidos a um objectivo.
O cortisol é a molécula que nos prepara para um dia em cheio! (Juntamente com os corn flakes). Ajuda o corpo a aumentar o açúcar no sangue, diminui a excreção de sódio, aumenta a tensão arterial. Mas também trabalha com a epinefrina para ajudar a criar memórias de curto prazo.
Pensem nos vossos pais a defenderem o trabalho árduo e a debitar aforismos, como ''deitar cedo e cedo erguer''.
Pensem em ir trabalhar de manhã cedo.... No valor da perseverança e dedicação, dos impulsos refreados, do planeamento e do ''subir a pulso''.
As variações do cortisol encaixam no que é a narrativa moral dos valores ascetas, a valorização profissional, o ''trabalho, trabalho''. O contexto de julgamento moral que nos arranca da cama de manhã. Ou pensavam que era o despertador?
Pensem no governo e na troika a julgar-nos moralmente a tirar-nos férias e feriados. A baixar-nos o salário. Querem o nosso cortisol no máximo, a trabalhar, a pagar impostos, para depois o governo ter dinheiro para fazer o serviço da dívida. Porque, segundo a narrativa da direita, andámos muitos anos a libertar dopamina em regabofe, e agora está na altura de fazer ''sacrifícios''.
A verdade não é dual, é holística. Não temos pessoas exclusivamente trabalhadoras ou preguiçosas. A realidade é mais complexa do que os nossos estereótipos e preconceitos, e toda a gente tem dopamina e cortisol no cérebro. E suspeito que, se queremos aproveitar os nossos picos produtivos de cortisol, é essencial conseguir libertar dopamina no trabalho e ter expectativa de libertação de dopamina, pelo lazer.
Acho que se queremos produzir mais é melhor sabermos divertir-nos mais!
Como perguntar a alguém sobre a sua urina
Comunicar com os doentes é notoriamente difícil.
É difícil porque basicamente eu e os doentes falamos línguas diferentes. O doente sabe o que sente subjectivamente, e interpreta o que sente a partir do seu próprio ponto de vista com base na sua própria narrativa fluida, misturando sensações com emoções.
Eu falo em medicalês, que é uma linguagem exageradamente precisa, com cinco nomes diferentes para caracterizar cada sintoma, distinções precisas entre sinais e sintomas, com necessidade de provar ou negar pormenores que parecem irrelevantes, tudo numa linha de tempo muito exacta.
É difícil...
Desta vez consegui uma coisa rara, que foi uma conversa que tive com um amigo meu através de chat, e na qual, sem qualquer tipo de planeamento, este tipo de dificuldades se demonstraram de forma muito clara.
Só para terem um bocadinho de contexto, ele estava com queixas urinárias. Uma das coisas importantes a perceber nas infecções urinárias nos homens é a dificuldade de começar a urinar, que pode estar relacionado com patologia da próstata.
Se a próstata estiver aumentada de tamanho, como numa prostatite, bloqueia a uretra, e isso é sentido como dificuldade em começar a urinar porque é preciso primeiro vencer a pressão que a próstata aumentada provoca.
Ele é um tipo muito inteligente, de engenharia informática, que em qualquer outra situação consegue sempre explicar-se de forma extremamente clara.
Eu estava a perguntar-lhe acerca de uma data de sintomas, entre eles a dificuldade em iniciar a micção.
Eu: Tens dificuldade em começar a urinar?
Ele: Desde que comecei a usar o medicamento (Flavoxato, um medicamento para aliviar sintomas urinários) tenho alguma dificuldade.
Eu: E antes do medicamento?
Ele: Antes do medicamento não sentia tanto assim.
Eu: Isso quer dizer que sentias?
Ele: Não era significativo o suficiente para notar diferença.
Eu: Mas sentias ou não?
Ele: Era capaz de sentir alguma diferença mas não era uma dificuldade notória. Agora é notório. Tenho de contrair os abdominais.
Ele: Sim, simplesmente viria ao momento que viesse.
Eu: Pronto.
Ele: Demora um bocado mais mas nada de significativo
Eu: Demorava um bocado mais do que o normal?
Ele: Sim, os tais 0,5 segundos se tanto.
Eu: Mas isso não é o normal?
Ele: Normal seria 1 segundo. Como eu disse, a diferença não era significativa.
Eu: Mas havia uma diferença em relação ao normal ou não?
Ele: Havia diferença de tempo, mas não tinha de me contrair para urinar. A diferença de tempo era mínima, mas existia.
Eu: Então não era igual ao normal?
Ele: É igual ao normal mas demorava um bocado mais a sair.
Eu: Então era igual ou não?
Ele: Aaaaaaaah! Meu, eu sei o que tás a fazer, por isso vou-te responder à informática:
Read More »
É difícil porque basicamente eu e os doentes falamos línguas diferentes. O doente sabe o que sente subjectivamente, e interpreta o que sente a partir do seu próprio ponto de vista com base na sua própria narrativa fluida, misturando sensações com emoções.
Eu falo em medicalês, que é uma linguagem exageradamente precisa, com cinco nomes diferentes para caracterizar cada sintoma, distinções precisas entre sinais e sintomas, com necessidade de provar ou negar pormenores que parecem irrelevantes, tudo numa linha de tempo muito exacta.
É difícil...
Desta vez consegui uma coisa rara, que foi uma conversa que tive com um amigo meu através de chat, e na qual, sem qualquer tipo de planeamento, este tipo de dificuldades se demonstraram de forma muito clara.
Só para terem um bocadinho de contexto, ele estava com queixas urinárias. Uma das coisas importantes a perceber nas infecções urinárias nos homens é a dificuldade de começar a urinar, que pode estar relacionado com patologia da próstata.
Se a próstata estiver aumentada de tamanho, como numa prostatite, bloqueia a uretra, e isso é sentido como dificuldade em começar a urinar porque é preciso primeiro vencer a pressão que a próstata aumentada provoca.
Ele é um tipo muito inteligente, de engenharia informática, que em qualquer outra situação consegue sempre explicar-se de forma extremamente clara.
Eu estava a perguntar-lhe acerca de uma data de sintomas, entre eles a dificuldade em iniciar a micção.
Eu: Tens dificuldade em começar a urinar?
Ele: Desde que comecei a usar o medicamento (Flavoxato, um medicamento para aliviar sintomas urinários) tenho alguma dificuldade.
Eu: E antes do medicamento?
Ele: Antes do medicamento não sentia tanto assim.
Eu: Isso quer dizer que sentias?
Ele: Não era significativo o suficiente para notar diferença.
Eu: Mas sentias ou não?
Ele: Era capaz de sentir alguma diferença mas não era uma dificuldade notória. Agora é notório. Tenho de contrair os abdominais.
Eu: Sentias mas não notavas? Não percebo.
Ele: Ok, quando vais urinar, começas imediatamente a urinar? Eu não. Demoro um bocado a começar, 1 segundo se tanto. Antes da medicação seria 1,5 segundos; não notava nada que me impedia e que necessitasse de contrair o que fosse.
Eu: Portanto, antes da medicação, o iniciar da micção era igual ao que sempre era?
Eu: Portanto, antes da medicação, o iniciar da micção era igual ao que sempre era?
Ele: Sim, simplesmente viria ao momento que viesse.
Eu: Pronto.
Ele: Demora um bocado mais mas nada de significativo
Eu: Demorava um bocado mais do que o normal?
Ele: Sim, os tais 0,5 segundos se tanto.
Eu: Mas isso não é o normal?
Ele: Normal seria 1 segundo. Como eu disse, a diferença não era significativa.
Eu: Mas havia uma diferença em relação ao normal ou não?
Ele: Havia diferença de tempo, mas não tinha de me contrair para urinar. A diferença de tempo era mínima, mas existia.
Eu: Então não era igual ao normal?
Ele: É igual ao normal mas demorava um bocado mais a sair.
Eu: Então era igual ou não?
Ele: Aaaaaaaah! Meu, eu sei o que tás a fazer, por isso vou-te responder à informática:
normal: standby de 1 segundo -> piss
com sintomas, sem medicação: standby de 1,5-2 segundos -> piss
com sinstomas, com medicação: standby de whatever -> contrair para mijar -> piss
Eu: Pronto! Então quando eu te perguntei se antes da medicação, se o iniciar da micção era igual ao normal, a resposta seria não. Correcto?
Ele: Exacto!
Eu: Pronto! Chiça que isto foi difícil!
com sintomas, sem medicação: standby de 1,5-2 segundos -> piss
com sinstomas, com medicação: standby de whatever -> contrair para mijar -> piss
Eu: Pronto! Então quando eu te perguntei se antes da medicação, se o iniciar da micção era igual ao normal, a resposta seria não. Correcto?
Ele: Exacto!
Eu: Pronto! Chiça que isto foi difícil!
Ainda neste momento, ao reler a conversa, tenho dificuldade em perceber porque é que foi tão difícil.
Na minha cabeça eu estava a perguntar uma coisa extremamente simples, uma pergunta de sim ou não.
Ele estava a tentar ajudar-me, a dar-me pormenores que me clarificassem o diálogo, mas na minha cabeça esses pormenores só tornavam a coisa mais ambígua ainda.
Eu não consegui fazê-lo perceber que só queria uma resposta de sim ou não.
Não estou a dizer que ele se expressou mal, não estou a dizer que eu fui picuinhas com as perguntas, estou a dizer que este tipo de comunicação é muito difícil de fazer bem.
Agora imaginem tentar arrancar informação medicamente relevante a uma velhinha de 78 anos, meio surda e a caminhar para a demência.
Deviam definitivamente pagar-me mais.
Ps: sim, sim, tenho o consentimento informado dele para postar esta conversa online!
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Gui
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terça-feira, 6 de outubro de 2015
Iron Man, ou a construção de um Vilão
Há poucas coisas melhores do que um herói que se transforma num vilão
Vamos falar sobre isso.
Toda a gente adora o Underdog. Como não?
Identificamo-nos com ele, revemo-nos na sua luta e inevitavelmente torcemos por ele.
É fácil gostarmos do Herói. É para isso que ele lá está.
Um herói bem escrito pode tornar-se uma personagem verdadeiramente cativante e inspiradora, com fãs!
Mas um vilão? Um vilão serve essencialmente como antagonista do herói. Está lá muitas vezes só para motivar o conflito da história e para criar complicações ao percurso do herói.
Para isso, um vilão pode bem não ser mais do que um vilão da semana. Útil mas esquecível.
Mas quando um vilão é bem escrito, pode tornar-se ainda mais interessante e cativante do que um herói.
Eu gosto de vilões, e a Marvel tem alguns excelentes vilões.
Dois dos meus preferidos são o Wilson Fisk, que é um vilão do tipo The Chessmaster, e o Loki, que é um vilão do tipo Manipulative Bastard.
Mas o meu tipo preferido de vilão tem de ser o Fallen Hero. Sobretudo quando conhecemos a personagem enquanto ainda era um herói.
Depois de tanto investimento emocional no herói, depois de nos identificarmos com o herói, poucas coisas são mais emocionalmente intensas e cativantes do que ver esse herói transformar-se lentamente num vilão.
Poucas personagens são tão trágicas e fascinantes quanto o Darth Vader, antigo Jedi virado para o Lado Negro da Força, o Two-Face, antigo promotor público Harvey Dent, ou até Lúcifer, ex-arcanjo divino.
E é isso que a Marvel está a fazer com o Iron Man!
Estão, lentamente, a transformá-lo num vilão!
Não nos esqueçamos que para se tornar um vilão, Tony Stark tem primeiro que se transformar num herói.
No primeiro filme a personagem do Tony Stark é mostrada como uma criança crescida, arrogante, fanfarrona, petulante e orgulhosa.
É um vendedor de armas, um comerciante de morte! Um bilionário à custa de guerras e conflitos e morte.
Num acaso fatídico, o Tony Stark acaba por ser atacado e capturado por terroristas armados com as suas próprias armas, e um estilhaço de uma bomba produzida pela sua própria companhia aloja-se demasiado próximo do seu coração.
Para se salvar, Tony Stark usa o seu impressionante intelecto para inventar uma nova forma de energia numa caverna terrorista no meio do deserto, a partir de partes das suas próprias bombas.
Essa fonte de energia é poderosa o suficiente não só para alimentar um iman que impede que os estilhaços se afundem no seu coração, matando-o, mas também para fornecer energia a uma armadura robótica muito poderosa.
Ele depois usa essa armadura para lutar contra os terroristas e salvar-se.
Portanto, o Tony Stark é quase morto pelas armas que cria e isso motiva-o a proteger-se. Para isso transforma as suas próprias armas numa armadura que o salva.
Claro que depois ele sente-se compelido a usar a armadura para resolver problemas no mundo, o exército apercebe-se dele, o Big Bad constrói uma armadura para si, mas o Tony Stark consegue derrotá-lo.
É nesse processo de assumir responsabilidade pelo seu poder, que a personagem do Tony Stark aceita, nada relutantemente, o papel de Herói.
No segundo filme, O Tony Stark parece estar na maior, gabando-se de ter "privatizado a paz mundial", e aproveitando tudo o que a armadura lhe traz de bom.
Mas na realidade a armadura, aquilo que ele criou a partir de ferramentas de destruição para lhe salvar a vida, está lentamente e literalmente a envenená-lo. É uma metáfora mais ou menos subtil para "o poder corrompe".
O Tony Stark transforma-se do espertalhão adorável para o fanfarrão detestável, e é ele que, pela sua própria arrogância e vaidade, causa todos os problemas.
Passa o tempo a humilhar o Justin Hammer que é o comerciante de armas mais inepto do mundo até sentir que tem de superar o Tony Stark, e é a gabarolice e auto-exposição do Tony Stark que no fim levam o Ivan Vanko a construir chicotes-laser e a tentar matar uma data de gente.
Ou seja, aquilo que o Tony Stark inicialmente criou com o intuito de proteger-se a si mesmo e aos outros está a matá-lo aos poucos e a corrompê-lo.
No fim, para se curar, tem de recorrer à figura do seu pai morto, que representava tudo o que ele detestava acerca do comércio de armas em primeiro lugar.
No The Avengers, num dos diálogos mais significativos do filme, o Tony Stark está a conversar com o Bruce Banner (que também tem dificuldade em lidar com a sua natureza dualística), e diz o seguinte:
O Tony Stark está a falar do pedaço de estilhaço, mas bem que podia estar a falar da dificuldade que tem em lidar com o poder destrutivo da arma que construiu, que ameaça constantemente penetrar o seu coração e corrompê-lo
Ele diz que a fonte de energia que construiu impede o estilhaço de o matar, e que ambos fazem parte dele. Um está a tentar matá-lo, o outro salva-lhe a vida, e ele criou ambos, e tem de manter controlo para não ser corrompido.
No fim do filme, o Tony Stark pega numa bomba nuclear e transporta-a através de um Buraco de Minhoca de onde estão a sair alienígenas. Tanto quanto ele sabe pode morrer, pode não voltar, mas mesmo assim decide que o sacrifício vale a pena para proteger os outros.
Portanto o Tony Stark, percebendo a influência negativa da armadura, sobretudo porque ameaça as pessoas de quem ele gosta, tenta libertar-se da sua influência, e aparentemente consegue.
No Age of Ultron o Tony Stark é enfeitiçado e vê uma visão do futuro na qual os seus amigos e companheiros estão mortos, e acusam-no de não os ter salvo.
Um robot baseado na personalidade do Capitão América não teria esta compulsão homicida. O que é o facto de o Ultron ter essa compulsão homicida diz acerca do Tony Stark?
Portanto temos um herói cujo poder está progressivamente a corromper as suas boas intenções e cujas acções são cada vez mais destrutivas. Em vez de criticar as suas acções, exulta-as e defende-as.
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Vamos falar sobre isso.
Toda a gente adora o Underdog. Como não?
Identificamo-nos com ele, revemo-nos na sua luta e inevitavelmente torcemos por ele.
É fácil gostarmos do Herói. É para isso que ele lá está.
Um herói bem escrito pode tornar-se uma personagem verdadeiramente cativante e inspiradora, com fãs!
Mas um vilão? Um vilão serve essencialmente como antagonista do herói. Está lá muitas vezes só para motivar o conflito da história e para criar complicações ao percurso do herói.
Para isso, um vilão pode bem não ser mais do que um vilão da semana. Útil mas esquecível.
Mas quando um vilão é bem escrito, pode tornar-se ainda mais interessante e cativante do que um herói.
Eu gosto de vilões, e a Marvel tem alguns excelentes vilões.
Dois dos meus preferidos são o Wilson Fisk, que é um vilão do tipo The Chessmaster, e o Loki, que é um vilão do tipo Manipulative Bastard.
Mas o meu tipo preferido de vilão tem de ser o Fallen Hero. Sobretudo quando conhecemos a personagem enquanto ainda era um herói.
Depois de tanto investimento emocional no herói, depois de nos identificarmos com o herói, poucas coisas são mais emocionalmente intensas e cativantes do que ver esse herói transformar-se lentamente num vilão.
Poucas personagens são tão trágicas e fascinantes quanto o Darth Vader, antigo Jedi virado para o Lado Negro da Força, o Two-Face, antigo promotor público Harvey Dent, ou até Lúcifer, ex-arcanjo divino.
E é isso que a Marvel está a fazer com o Iron Man!
Estão, lentamente, a transformá-lo num vilão!
Não nos esqueçamos que para se tornar um vilão, Tony Stark tem primeiro que se transformar num herói.
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| Iron Man (2008) |
É um vendedor de armas, um comerciante de morte! Um bilionário à custa de guerras e conflitos e morte.
Num acaso fatídico, o Tony Stark acaba por ser atacado e capturado por terroristas armados com as suas próprias armas, e um estilhaço de uma bomba produzida pela sua própria companhia aloja-se demasiado próximo do seu coração.
Para se salvar, Tony Stark usa o seu impressionante intelecto para inventar uma nova forma de energia numa caverna terrorista no meio do deserto, a partir de partes das suas próprias bombas.
Essa fonte de energia é poderosa o suficiente não só para alimentar um iman que impede que os estilhaços se afundem no seu coração, matando-o, mas também para fornecer energia a uma armadura robótica muito poderosa.
Ele depois usa essa armadura para lutar contra os terroristas e salvar-se.
Portanto, o Tony Stark é quase morto pelas armas que cria e isso motiva-o a proteger-se. Para isso transforma as suas próprias armas numa armadura que o salva.
Claro que depois ele sente-se compelido a usar a armadura para resolver problemas no mundo, o exército apercebe-se dele, o Big Bad constrói uma armadura para si, mas o Tony Stark consegue derrotá-lo.
É nesse processo de assumir responsabilidade pelo seu poder, que a personagem do Tony Stark aceita, nada relutantemente, o papel de Herói.
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| Iron Man 2 (2010) |
Mas na realidade a armadura, aquilo que ele criou a partir de ferramentas de destruição para lhe salvar a vida, está lentamente e literalmente a envenená-lo. É uma metáfora mais ou menos subtil para "o poder corrompe".
O Tony Stark transforma-se do espertalhão adorável para o fanfarrão detestável, e é ele que, pela sua própria arrogância e vaidade, causa todos os problemas.
Passa o tempo a humilhar o Justin Hammer que é o comerciante de armas mais inepto do mundo até sentir que tem de superar o Tony Stark, e é a gabarolice e auto-exposição do Tony Stark que no fim levam o Ivan Vanko a construir chicotes-laser e a tentar matar uma data de gente.
Ou seja, aquilo que o Tony Stark inicialmente criou com o intuito de proteger-se a si mesmo e aos outros está a matá-lo aos poucos e a corrompê-lo.
No fim, para se curar, tem de recorrer à figura do seu pai morto, que representava tudo o que ele detestava acerca do comércio de armas em primeiro lugar.
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| The Avengers (2012) |
Tony Stark: You know, I've got a cluster of shrapnel, trying every second to crawl its way into my heart.
[Stark points at the mini-arc reactor in his chest]
Tony Stark: This stops it. This little circle of light. It's part of me now, not just armor. It's a... terrible privilege.
Bruce Banner: But you can control it.
Tony Stark: Because I learned how.
O Tony Stark está a falar do pedaço de estilhaço, mas bem que podia estar a falar da dificuldade que tem em lidar com o poder destrutivo da arma que construiu, que ameaça constantemente penetrar o seu coração e corrompê-lo
Ele diz que a fonte de energia que construiu impede o estilhaço de o matar, e que ambos fazem parte dele. Um está a tentar matá-lo, o outro salva-lhe a vida, e ele criou ambos, e tem de manter controlo para não ser corrompido.
No fim do filme, o Tony Stark pega numa bomba nuclear e transporta-a através de um Buraco de Minhoca de onde estão a sair alienígenas. Tanto quanto ele sabe pode morrer, pode não voltar, mas mesmo assim decide que o sacrifício vale a pena para proteger os outros.
Este encontro imediato com a sua própria mortalidade, cortesia das habilidades que a armadura lhe confere, deixa Tony Stark mais uma vez inseguro e incerto.
Durante o terceiro filme vemos que o controlo de que Tony se gabava está a enfraquecer. Vemo-lo com ansiedade e ataques de pânico. Há até um momento no qual a armadura o ataca e à Pepper Potts durante o sono, por causa dos pesadelos que o Tony está a ter.
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| Iron Man 3 (2013) |
Mais uma vez é o próprio Tony Stark a motivar os ataques do vilão, que desta vez não o afectam só a ele mas também as pessoas que lhe são queridas, e que ele não consegue proteger apesar da armadura.
A separação entre o Tony Stark e o Iron Man é acentuada neste filme. É mostrado lado a lado com a armadura, a arrastá-lá como um fardo literal e figurativo, e, no fim, a desenvencilhar-se sozinho sem ela.
No fim do filme o Tony Stark percebe que as armaduras começam a ser uma ameaça às pessoas de quem gosta, e destrói a maior parte delas.
Decide também remover o pedaço de estilhaço no coração que ameaçava matá-lo, como se de um exorcismo se tratasse.
Portanto o Tony Stark, percebendo a influência negativa da armadura, sobretudo porque ameaça as pessoas de quem ele gosta, tenta libertar-se da sua influência, e aparentemente consegue.
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| Avengers: Age of Ultron (2015) |
Para Tony isto é traumático e um momento transformador.
Uma das suas principais motivações foi sempre a sua protecção e das pessoas de quem gosta, e esta visão vai motivá-lo a recorrer de novo às armas e armadura para resolver o problema, apesar de saber da sua influência nefasta.
Tony assume esta decisão ao agarrar triunfantemente no Ceptro de Loki, que depois se descobre conter uma Infinity Gem. Em todos os filmes, até agora, os detentores das Infinity Gems são invariavelmente os vilões (Loki, Malekith e Ronan).
O que vemos a seguir é, mais uma vez, o Tony Stark com a melhor das intenções a recorrer ao poder corrupto das armas/armadura para proteger toda a gente.
"I see a suit of armour around the world" diz ele.
O que ele inventa é um Homem de Ferro literal, sob a forma do Ultron, uma super-inteligência artificial modelada a partir da sua própria personalidade, com o objectivo de manter a paz global e proteger o planeta.
O Ultron torna-se quase imediatamente homicida, e o seu primeiro acto é matar o Jarvis. O seu segundo e último acto é tentar matar os Avengers e toda a humanidade.
Um robot baseado na personalidade do Capitão América não teria esta compulsão homicida. O que é o facto de o Ultron ter essa compulsão homicida diz acerca do Tony Stark?
Pour esta altura, no entanto, o Tony Stark já não tem crítica acerca das suas acções, nem nunca admite que ter criado o Ultron tenha sido um erro.
"We're the mad scientists! We're monters! We gotta own it!"
Portanto temos um herói cujo poder está progressivamente a corromper as suas boas intenções e cujas acções são cada vez mais destrutivas. Em vez de criticar as suas acções, exulta-as e defende-as.
O que será que o Tony Stark vai fazer a seguir, com as melhores intenções?
Claro que a personagem do Tony Stark não é ainda um vilão, e é improvável que se venha a tornar um Big Bad de capa preta, a cofiar o bigode e atar donzelas a carris de comboio.
Mas provavelmente vai ser um antagonista importante com características de vilão. O mais certo é que no fim do Infinity Wars o Tony Stark vá morrer ao sacrificar-se pelos seus amigos, redimindo-se da sua vilanice e completando o círculo da sua narrativa.
Para mim o mais fascinante é mesmo o facto de que a construção desta personagem já dura há 5 filmes e provavelmente vai continuar até ao fim da Fase 3. Não é de todo comum vermos tanto investimento cinematográfico no crescimento e desenvolvimento de uma única personagem.
Publicada por
Gui
às
19:00:00
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