Pataniscas Satânicas

Pataniscas Satânicas

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Queremos todos pertencer à tribo

O biólogo social Desmond Morris escreveu em 1981 'a tribo do futebol', a propósito da ritualização do jogo chamado 'desporto rei', que dominava o panorama do desporto mundial. O livro centra-se em muitos aspectos que não mudaram muito e continuam actuais.


But we have come a long way since then... 

O futebol serve de veículo para a nossa agressividade, permite-nos expressar rivalidades, modernamente ganha à religião em adeptos e movimenta milhares de milhões. Como o EuroMilhões. E como o EuroMilhões e a religião, o futebol captura os nossos sonhos, manipula as nossas emoções, galvaniza cidades e regiões, eleva homens a heróis nacionais, projecta marcas em mercados internacionais.

A informação cabe no formato 'softnews', 3 jornais diários exclusivamente dedicados ao futebol, nada têm de isento, a tribo está sempre sedenta do continuar da narrativa. A narrativa do futebol, como todas as religiões, trata de uma história do bem contra o mal, moralidade preto e branco.  Os bons somos nós, e todos os adeptos da nossa equipa. Os maus são todos os outros. 


As discussões sobre futebol dividem-se entre discussões técnico tácticas, que interessam a quase ninguém, e a análise de jogos e da narrativa por protagonistas afectos aos vários clubes. Isso é que nos interessa. Queremos torcer pelo comentador do nosso clube, queremos que chame à atenção as injustiças que o nosso clube têm sofrido, e a maneira desavergonhada como os outros clubes têm sido beneficiados. Tal como queremos torcer pelo nosso clube. Queremos ficar com a impressão subjectiva que o nosso comentador deu 'uma abada' aos outros.


O que é divertido. O futebol faz parte dos temas transversais dos quais é sempre apropriado falar com qualquer pessoa, é um desbloqueador de conversa inultrapassável. Porque é que isto acontece? Acho que tem a ver com a narrativa do futebol. As vitórias da tribo estão cheias de orgulho e alegria, as derrotas cheias de pathos e drama humano. Os jogadores são os guerreiros da tribo em quem depositamos as nossas esperanças. E é literalmente assim que são vistos hoje.


Mas é um jogo em que, como na guerra, a vitória depende muito de expedientes, de manhas às vezes pouco legítimas que mudam a história do jogo. E é muito por isso que gosto do jogo. É um jogo de macacos espertalhões a tentar enganar outros macacos espertalhões.
Mergulhadores em terra firme...


Lesões incómodas que gastam tempo útil de jogo (quando estamos a ganhar...)


Queimar tempo quando estamos a ganhar, não tem só o valor de nos aproximar da vitória diminuindo os lances de perigo que a equipa adversária pode aproveitar... Também enerva o adversário!


Avançados que falham carreiras impressionantes no basketball (o que não invalida que sejam lendas no futebol)...


Jogadores que precisam de... vou dizer ''apoio extra''...


'Técnicas' para desconcentrar o adversário...


A emoção que vem da injustiça por vezes transborda em comportamentos violentos (muitas vezes depois de provocações repetidas com o objectivo implícito de desencadear violência)...


Tudo isto são coisas que não acontecem no xadrez, por exemplo. Pelo menos com a mesma frequência. E não são de todo a base do jogo, não me interpretem mal.... Não acontecem assim tantas vezes. Mas por algum motivo ficam na nossa memória. Lembramos-nos das vezes que fomos prejudicados, e somos lembrados pelos adeptos de outros clubes das vezes que fomos beneficiados.

Existe um 'desporto' nos EUA que captura a imaginação e as paixões do público (e das crianças) da mesma maneira, se bem que com nenhuma competição real, neste caso. Mas os expedientes pouco legítimos, a teatralidade está lá... O público fica com a mesma sensação de injustiça se o guerreiro perde a batalha com recurso do adversário a deslealdade.


É contrastante o facto de pensarmos o futebol através de moralidade preto e branco, com a quantidade de expedientes, de manhas a que o jogo se presta. É óbvio e gritante que a nossa equipa não é pior nem melhor do que as outras, mas nós acreditamos que é diferente na mesma. SABEMOS que vamos ganhar. Quando não ganhamos, de alguma maneira os nossos jogadores estão mal intencionados, não se esforçaram o suficiente, não têm ''amor à camisola'', não ''dignificaram o clube'' magoaram-nos. Assim, magoamos-los de volta.



Insultar os jogadores da nossa equipa. Isso é que levanta o moral. But we can't help it.... we are hardwired like that...

O conceito do ''amor à camisola'' é um anacronismo interessante. Se eu trabalhar para o MEO, e a ZON me propuser um contrato de trabalho mais vantajoso, até me chamam estúpido se eu não aceitar. Mas o mesmo pode não ser válido para quem quer mudar de tribo. Porquê?
O que é uma SAD, senão uma empresa? Interessante verificar que as comichões com esta questão só aparecem com transferências para outros clubes portugueses. O mesmo não acontece com os jogadores/treinadores que vão para o estrangeiro.

As figuras mais frequentemente alvo de descontentamento são os feiticeiros da tribo. Quasi Profetas, os treinadores são a quem se dirigem as perguntas difíceis sobre o futuro. Eles têm um conhecimento especial e mais ou menos profundo sobre futebol. Mas valorizamos mais os que são bafejados pela sorte, ou os que têm cronicamente azar aos nossos olhos, e usamos mais isso para definir os nossos eleitos, do que propriamente um conjunto de competências que mal sabemos definir.

Queremos ter, como eles dizem a 'estrelinha da sorte' para ganhar. E se acreditamos que se alguém sabe o futuro, é super competente, joga mind games com a mente do adversário, esse alguém pode ter sido 'escolhido'. Podemos dizer que é especial.
Almost like a... Special One. Alguém que aponta o caminho investido dessa mística consegue mover montanhas, acreditamos. E acreditar é metade do caminho. A motivação faz-se de profecias auto concretizadas. Assim como a vitória.


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quarta-feira, 8 de julho de 2015

of Anti-Vaxxers and Pine Cones

Há por aí uns estúpidos que andam a tentar fazer a humanidade voltar para a idade média.

Há alguns anos, e não eram assim muitos, morriam milhões e milhões de pessoas todos os anos por causa de epidemias de doenças.
Milhões delas.
Porque começámos a viver em cidades, muitos de nós a vivermos uns em cima dos outros, e as bactérias e os vírus fizeram um dia de festa!



Subitamente doenças que de outra forma estariam razoavelmente isoladas, apesar de serem mortíferas, viram-se com comida às toneladas toda a conviver junta.
E as bactérias e os vírus multiplicaram-se abundantemente.

Os vírus e as bactérias são coisas engraçadas. São pouco mais do que robots construídos com maquinaria molecular proteica.
Têm capacidades e programas de acção muito simples.
As regras pelas quais operam são pouco mais complicadas do que "Consumir açúcar" e "Divisão Celular". Não fazem mais nada.

Nem chegam a ser animais a sério. São as unidades básicas de funcionamento dos animais, antes de aprenderem a organizar-se e a fazer coisas mais complicadas.



E no entanto conseguem matar-nos aos milhares de milhões, como aliás já falei anteriormente.
As bactérias e vírus foram os primeiros seres vivos deste planeta, e a única coisa que fazem é comer e reproduzir-se.
E comer-nos a nós, infectando-nos.

E volto a frisar, fazem um excelente trabalho!

Podemos falar da Peste Negra.
Porquê ir à procura de exemplos curiosos e pequeninos e caricatos quando podemos ir directamente para a maior delas todas?



Yersinia pestis, trazida pelos mongóis e pela Rota da Seda para uma Europa com cidades sobrelotadas, em 1346, e que matou, estima-se, entre 75 e 200 milhões de pessoas, ou cerca de 25% da população europeia.

A Peste Negra não era agradável.
Dou-me à liberdade de traduzir uma descrição colorida:

"A peste negra vinha em três formas: bubónica, pneumónica e septicémica.

A primeira, a peste bubónica, era a mais comum: pessoas com esta doença tinham bubões, ou glândulas linfáticas aumentadas, que se tornavam negros (por causa do apodrecimento da pele enquanto a pessoa ainda estava viva). Sem tratamento a peste bubónica mata cerca de metade das pessoas infectadas em 3 a 7 dias.


Na peste pneumónica, gotículas de Y. pestis aerossolizada são transmitidas de humano para humano através da tosse. Se não for tratada com antibióticos (que na altura não existiam) nas primeiras 24 horas, quase 100% das pessoas infectadas morrem em 2 a 4 dias.


A peste septicémica acontece quando as bactérias entram no sangue através do sistema linfático ou respiratório. Doentes com peste septicémia desenvolvem gangrena nos dedos das mãos e pés, que tornam a pele preta. Apesar de rara, esta forma da doença é quase sempre fatal, frequentemente matando as vítimas no próprio dia em que aparecem os sintomas"



Portanto imaginem uma população medieval, que quase de um dia para o outro começa a ver a morte a espalhar-se pelas pessoas sob a forma de uma doença incompreensível, imparável e extremamente chocante. Pessoas que começavam com bolas negras no pescoço, ou com os dedos a caírem, a morrerem pelas aldeias e pelas cidades aos milhões.
Imaginem o pânico.
Imaginem o cheiro.

Mais recentemente temos a Varíola, que é um dos vírus mais bem adaptados aos Humanos, com mais ferramentas para fugir ao sistema imunitário, e que também não é nada simpática.


Tem uma mortalidade de 20-60%, sendo que nas crianças é de 80%, e estima-se que só no século XX tenha morto entre 300 a 500 milhões de pessoas.

A Varíola tem uma particularidade. Foi a primeira doença que conseguimos, efectivamente, erradicar.
Erradicámos a varíola.
Deixou de existir.
Conseguimos, efectivamente, ganhar uma guerra contra um inimígo invisível, mortífero, que nos andava a matar desde há dez mil anos antes de cristo.
Ganhámos uma guerra contra um vírus.



Conseguimos compreender o suficiente a etiopatogenia do vírus, encontrar um método para impedir a sua propagação e contágio, aplicámos essa solução a TODA A GENTE NO MUNDO AO MESMO TEMPO e numa geração eliminámos uma doença.

Actualmente existem vacinas para mais de 14 doenças, e a Organização Mundial de Saúde estima que evitem entre 2 a 3 milhões de mortes todos os anos, sobretudo em crianças.


O problema é que as pessoas deixaram de ter medo das doenças infecciosas.
Deixaram de ter medo das Pestes.
Esqueceram-se que o primeiro cavaleiro do apocalipse, o Cavalo Branco, era a Pestilência.



E por causa disso há pessoas que acham que as vacinas são uma coisa má.
E pronto, as pessoas têm direito a serem estúpidas. As pessoas que acham que as vacinas são uma coisa má têm direito a serem estúpidas. Quem sou eu para negar a estupidez de uma pessoa.

O problema é que a estupidez delas mata crianças.
As pessoas que não vacinam os filhos deviam ser acusadas judicialmente de negligência infantil e do homicídio involuntário de toda e qualquer criança que morresse por doenças que poderiam ter sido evitadas pela vacinação.

É absolutamente ridículo que no séc. XXI tenhamos de voltar a fazer campanhas para convencer as pessoas de que as vacinas são uma boa ideia!

Esperar-se-ia que depois de vermos crianças em pulmões de ferro porque ficaram com os músculos respiratórios paralisados porque um vírus lhes destruiu as vias neurológicas motoras, teríamos aprendido que as vacinas são uma boa ideia.




Mas não.
Esses estúpidos da anti-vacinação, que mereciam ser obrigados a engolir uma pinha (esterilizada, para não apanharem doenças infecciosas), acham-se superiores. Acham que é mais "natural" não vacinar, e acham que as vacinas são uma conspiração para provocar autismo às crianças.

Se fosse só uma ignorância honesta, eu era capaz de aceitar. Se fosse só um equívoco motivado pela vontade de fazer o melhor pelos filhos, eu era capaz de aceitar.
Mas estes estúpidos, mesmo quando confrontados com provas científicas, continuam a rejeitar as vacinas.

[Inserir aqui chorrilho longo de insultos e palavrões, o mais ofensivo e agressivo que consigam imaginar, dirigidos a pessoas que não vacinam os seus filhos]
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Trendy trends that are trending like a MoFo!

Yo, bitches and thugs, here's your favourite pimp going beast mode for your exclusive convenience!

Get here all your know-how on the trendy trends that are trending like a MoFo!

You know what I talk about! You know what I means! What u want? Cute cats?


Nude celebrities?
We have them all!!!

Be it clickbait, call it ambush marketing, this blog is going all up in your face, spitting flavor left and right, we will Buzzfeed your tastebuds like indian curry lava!

Pataniscas will drone your brain with so much hot trending info-juice, you will think Princess Charlotte is a third rate slovenian celebrity, 'cause your brain doing laps around the mental house!

We will steroid inject your mind with so many meme variations, so much culture trivia, you will start shitting Trival Pursuit Boardgames! Full Millenium Edition, hard cardboard boxes!

Today we are gonna talk about 5 superfoods that will grant you immortality within a week, after describing 10 ways to lose weight while injecting pure hog fat into your bloodstream!
You can also use these 3 dumb tricks that will turn you into the HulK, gym owners do not want you to know! And while the real soccer star Hulk has shot a ball into orbit.... OF JUPITER, watch a seven year old child wrestle a 30 foot Great White Shark!!

Afterwards, we will show you everything that is blowing up insanely, in world news: GERMANY IS INVANDING GREECE! (with rating agencies downgrades), and vampire fish are falling from he sky!!!

As it turns out chocolate cures cancer in haste, while eating vegetables gives you fulminant ass cancer instantly!!!

Also, a tiny cute hamster rode on a cat's back to the county fair.

Click here for more!!!!!!!!! MOREEEEE!!!!!!!!!!

#Grexitnownownow
#Jorgejesusdancacomasestrelas
#MariabarrosoAttentionwhoring
#moremoremore
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#hashtaghashtaghashtag
#helpbloggersoncocaine
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segunda-feira, 6 de julho de 2015

Black and White through Orange Goggles

No outro dia levantei os olhos do computador (gasp!) e voltei a olhar para dois posteres que tenho presos na minha parede.

A cultura tende a desenvolver-se das coisas mais simples para as mais complexas. Vemos uma sofisticação nas ferramentas narrativas ao longo do tempo.
Com o cinema isso é razoavelmente fácil de detectar, sobretudo no início da história do cinema quando essas ferramentas eram detectáveis de forma distinta em cada filme novo que aparecia.

Como por exemplo com o The Great Train Robbery (1903), que é um dos primeiros filmes a usar a técnica do cross-cutting, usada para mostrar acção que ocorre simultâneamente mas em locais diferentes.



As histórias mais antigas tendem a usar uma moralidade preto-e-branca, mais simples, do bem contra o mal, com personagens razoavelmente unidimensionais, sem grandes ambiguidades morais.
São histórias nas quais é muito fácil perceber quem são os bons e quem são os maus.
Não estou a dizer de todo que este tipo de moralidade leva a más narrativas. Nem pensar nisso. Mas são narrativas que, do ponto de vista moral, são bastante simplistas.



É a luta clássica do bem contra o mal.

Temos o Darth Vader, a personificação do mal, vestido de negro, gigantescto a ameaçar dominar todo o espaço do poster e quase a absorver por completo o protagonista em primeiro plano.
O protagonista, o Luke Skywalker, em primeiro plano, vestido de branco imaculado, jovem e bem intencionado, uma figura quase messiânica, com uma espada em forma de cruz, desafia contra todas as probabilidades a ameaça do mal.

É o Herói Protagonista clássico, limpinho e incensurável.
Um poster que tenho preso na minha parede
Não há muito que enganar.

Existem outros tipos de moralidades que representam todas as possíveis variações possíveis dentro do espectro do branco-e-preto e que são adequadamente chamadas de moralidade cinza-e-cinzento, moralidade preto-e-cinzenta, e moralidade branco-e-cinzenta.

Depois, numa tentativa de demonstrar modelos morais completamente diferentes, alienígenas, quase irreconhecíveis, estabeleceu-se a ideia da moralidade azul-e-laranja.


Este tipo de moralidade tem por objectivo deixar o espectador inseguro, sem saber por onde se orientar, com a sensação de que nada faz sentido.

Como melhor exemplo disto temos o filme Blade Runner (1982).

 

No Blade Runner há humanos frios e assassinos em oposição a réplicas emocionais. Acabamos por nos identificar e torcer pelo vilão, e o herói no fim da história já fez várias coisas que o levam definitivamente para longe do caminho do bem.
Não há heróis ou vilões, todas as personagens são anti-heróis moralmente ambíguos, e não há um compasso moral que nos facilite a vida ou nos facilite a compreensão da história.

Sobretudo as personagens dos replicants, na sua busca por crescimento emocional num mundo que os escraviza e brutaliza, desenvolvem guias morais que parecem alienígenas e tem reacções emocionais bizarras.

Não por acaso a personagem do Rick Deckard está iluminada tanto por azul e por laranja, sendo que é o anti-herói, muito mais desapaixonado do que os Replicants, a cometer actos de violência difíceis de defender. Não é uma personagem com a qual nos identifiquemos com facilidade, é moralmente questionável.



Eu sempre quis ser o Luke Skywalker, ser um herói, lutar por uma causa.
À medida que cresço vejo-me a tomar decisões questionáveis, já não consigo, honestamente, ver-me como um herói.
Começo a compreender o Deckard, a identificar-me com os seus conflitos morais.


Não por acaso, o Star Wars teve o sucesso que teve em parte porque nos apresenta uma narrativa clássica, uma moralidade fácil de interpretar, heróis por quem é fácil torcer e vilões facilmente identificáveis.
O Blade Runner, com a sua narrativa complicada, moralidade ambígua, personagens difíceis de caracterizar, foi inicialmente um flop comercial.

So it goes.
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Oxi


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quarta-feira, 1 de julho de 2015

Grexit - Everybody loves the underdog

Nas palavras do sábio capitão Haddock a caminho da lua: ''dizem que o álcool é um veneno que mata lentamente, o que é bom, porque não tenho muita pressa''.

Crescer é aprender do que gostamos, alguém me disse. Eu gosto de economia e política. Portanto aguentem-se.

A Grécia permanece à beira do precipício, enquanto os bancos estão fechados, a economia continua em recessão profunda, apesar do surplus primário de 1,5 biliões de euros de janeiro-maio do ano de 2015, cortesia das mais profundas medidas de austeridade que o mundo ocidental já colocou em prática.

No entanto, apesar do país estar à beira do primeiro orçamento equilibrado em décadas, à custa do nível de vida da população, não há acordo à vista com as entidades a quem deve dinheiro. A questão é que a dívida do país é de cerca de 300 biliões de euros, o que ainda são uns trocos.

Esta dívida foi alimentada por generosos empréstimos. With some strings attached....



O facto é que ''while money talks, and bullshit walks'', recentemente, população votou num governo que aparentemente não está muito ligado a interesses instalados, e quer genuinamente melhorar a situação a longo prazo para a população como um todo. Líricos de esquerda. Querem começar a pagar uma dívida impagável, pelo que pedem uma borla temporária. Reestruturação. Haircut. O que seja.

Economicamente, faz sentido, mas o problema é a política. Se a Alemanha começar a dar borlas aos líricos de esquerda da Grécia, e as coisas lá começarem a melhorar, que raio de mensagem é que isso manda a portugal, irlanda, espanha, itália?

''Vocês, carneiros, foram enrabados sem vaselina, porque tinha que ser, mas os gregos votaram em malta teimosa, por isso vamos perdoar-lhes uma parte do que devem (outra vez), para ver se ainda vemos algum?''

Não pode ser. Preferimos ver mais umas dezenas de milhar de gregos a afogarem-se no mediterrâneo, do que correr o risco de ver milhões de portugueses, irlandeses, italianos e espanhóis começarem a ganir sob a forma de votos de protesto em partidos que queiram melhores condições de vida para as populações que representam.

É uma questão de contenção. De gestão de danos. Políticos. Por isso é que as propostas da Europa e do FMI não fazem qualquer sentido prático.


Pelo que me é dado a entender (percebo pouco destas coisas), o governo grego tem gerido a sua derrota inevitável com mestria de chefe de estado veterano. Atrasar as negociações. Exigir melhores condições. Empatar. Ceder. Ceder outra vez. Obrigar os credores a desmascarem as suas verdadeiras intenções.

Deram a entender desespero, e quando a Europa sentiu fraqueza, enviou um ultimato. Confrontados com um armistício de propostas inaceitáveis e humilhantes, convocaram um referendo. Genial. Na prática, disseram: ''Isso é inaceitável, se querem que o governo da Grécia ponha essas medidas em prática, tem que ser com autorização da população''. Colocaram a sra Merkel em contacto directo com a população grega! De certeza que eles têm razões para a adorar de várias maneiras diferentes

E agora temos que aturar idiotas a dizerem que a pergunta do referendo é confusa. jesus....

Toda a gente já percebeu que o que interessa é o significado emocional narrativo do referendo para cada grego. Emocional. Nada mais que isso. Para a Europa (Alemanha), o referendo tem uma narrativa parecida com isto:



Para o governo grego, o referendo parece-se mais com isto:



Não sei o que vai acontecer. Mas o medo tem maneiras de suplantar todas as emoções humanas, que não sejam a fome, pelo que o meu dinheiro está numa derrota do governo grego, e numa vitória do sim a mais austeridade.

Mas congratulo-os pela luta que deram. Vão perder, mas jogaram com tomates, e quem quer que venha a seguir ganha com isso. Ganha uma melhor posição negocial. Além de que fica demonstrado que a Europa se está cagando para a democracia, para as populações e para as suas escolhas de governo.

Isso tende a chatear as pessoas, e a mudar as expectativas.
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sábado, 27 de junho de 2015

Agents of S.H.I.E.L.D. - sobre a interconectividade da Marvel

Finalmente vou cumprir uma promessa que fiz há quase um ano, e vou falar sobre a série Agents of S.H.I.E.L.D. (AoS)
Este post contém SPOILERS, mas todos os que sejam referentes a coisas que tenham acontecido este ano, nomeadamente a segunda metade da segunda temporada de AoS e do Age of Ultron, vão estar devidamente identificados.


Em primeiro lugar há algo a ser dito acerca do amor dos fâs pelas suas personagens preferidas.

Contrariamente ao que se possa pensar, uma das personagens centrais da série, e provavelmente a mais reconhecível, o Phil Coulson, não surge em nenhuma banda-desenhada, sendo uma criação exclusivamente dos filmes.


À semelhança Harley Quinn, que entretanto se tornou uma das personagens mais populares do universo DC depois de ter criada para a da série animada e que à custa da devoção e interesse dos fâs, foi adoptada como personagem oficial das bandas desenhadas, também a personagem do Phil Coulson aparece pela primeira vez no Iron Man (2008) tendo sido criado apenas para fazer uma piada acerca do nome demasiado comprido da S.H.I.E.L.D.


No entanto, a personagem tornou-se tão popular entre os fâs, que voltou a merecer pequenas aparições nos filmes subsequentes da MCU, depois em algumas curtas-metragens, até que tem o seu principal papel no grande ecrân no filme Avengers (2012).
A personagem dá a volta completa quando aparece como personagem oficial nas bandas desenhadas.


Eu podia escrever um artigo inteiro sobre a personagem do Phil Coulson, mas vou limitar-me a explicar que a personagem é adorável porque consegue transmitir verdadeiramente a ideia de um super-agente-espião de uma organização ultra-secreta que começou a sua carreira com um trabalho de secretária a arquivar papéis. 
O Phil Coulson é a personagem normal num mundo de super-heróis, e a perspectiva dele é um reflexo à nossa, fazendo dele um substituto da audência. Também de forma semelhante à sua audiência, o Phil Coulson é um geek e admira os super-heróis, coleccionando cromos vintage do Capitão América.
Dito isso é particularmente interessante notar que, de acordo com o estilo habitual do Joss Whedon, esta personagem querida e adorada dos fâs, e substituto deles, morre tragicamente durante o Avengers (2012), sendo que é a sua morte que cataliza os heróis a lutarem contra todas as probabilidades.


Ele fica melhor, no entanto, e mesmo a tempo de ser uma das personagens centrais na série spin-off do MCU Agents of S.H.I.E.L.D., escrita pelo Joss Whedon, Jeb Whedon (o seu irmão, e quem depois fica a escrever a série a tempo inteiro) e por Maurissa Tancharoen e produzida pela Marvel Televison, em 2013.


A série segue as aventuras de um grupo de AoS que iniciam uma missão ainda mais secreta de identificar e conter indivíduos ou artefactos com super-poderes que vão surgindo.
A história evolui inicialmente com um vilão diferente a cada episódio que tem de ser identificado e por vezes recrutado pela equipa.
A equipa é composta por vários elementos com características de personalidade vincadas e com funções diferentes e bem definidas (o líder, o soldado, os cientistas, o hacker), que passam o seu tempo numa nave a interagirem enquanto resolvem um problema diferente todas as semanas.
Se parece familiar, é porque o Joss Whedon gosta de pegar nas ferramentas que funcionam e dar-lhes uso.



Esta estrutura narrativa inicial de Firefly misturado com Missão Impossível misturado com X-Files é engraçada, e é divertido vermos como todas estas personagens interagem entre si, habitualmente em diálogos tipicamente Whedonescos. Resulta como uma série de aventuras de ficção-científica.
A estética e o tom estão muito bem conseguidos, e transmitem muito bem a sensação de estarmos a ver os bastidores do trabalho de campo de uma agência de espiões que tem de lidar diariamente com os problemas de um mundo no qual Super-Heróis se tornaram a norma.
Há imensos gadgets e brinquedos científicos e é satisfatório vê-los a serem usados por pessoas normais para derrotar super-vilões.

Mas para ser perfeitamente honesto não há nada de realmente novo ou excitante acerca dos primeiros episódios. São algo monótonos e os estereótipos das personagens já muito batidos e eu quase que desisti da série nos primeiros 5 episódios.

A história progride mostrando o crescimento das personagens, bem como a sua tentativa de descobrir como é que o Phil Coulson regressou dos mortos, e o mistério à volta de outra personagem central, a hacker rebelde Skye, adensa-se. Mais uma vez, engraçado mas nada que nos choque.

Mas depois aconteceu uma coisa inesperada.


Estreia o Thor the Dark World (2013), que se passa parcialmente na Terra, e na semana a seguir à estreia a equipa do AoS está lá a limpar a porcaria que foi deixada para trás.
Ou seja, os eventos de um filme do Universo Marvel influenciaram a continuidade narrativa da série que ocorre dentro do Universo Marvel.

Dito desta maneira pode não parecer nada de especial, mas a verdade é que teria sido muito mais simples deixar a narrativa do AoS prosseguir linearmente sem alterações, ignorando os eventos do Dark World.
Mas ao invés disso esses eventos do filme não só têm repercussões no mundo das personagens da série, como as personagens falam directamente deles e lidam com as consequências deles.

Isto eleva a série acima da sua premissa inicial, criando agora um precedente que deixa o espectador curioso por saber de que outras formas a história da série vai ser alterada pelos eventos do filme.
Mais do que isto, permite que a série funcione como uma transição natural entre os filmes, faznedo a ponte narrativa entre os eventos de todos.
As dificuldades lógicas de escrita inerentes a este processo, de manter vários filmes e séries (porque entretanto o Daredevil e a Agent Carter também já têm as suas próprias relações e conecções com os filmes) coerentes entre si, são imensas.
O facto de que até agora não hajam incongruências ou contradições notáveis, é impressionante.
O facto de que estão a planear mais séries e muitos mais filmes, todos com este mesmo nível de interconectividade, desafia a compreensão, e é absolutamente inédito na história do cinema.


O que isto permite, e a série AoS foi pioneira neste aspecto, é dar vida ao universo construído pelos filmes marvel. Não são só histórias ou aventuras soltas, não são sequer histórias numa narrativa linear. São várias narrativas autónomas que se vão influenciando mutuamente de uma forma orgânica.
A narrativa nunca está parada, as consequências ramificam-se sempre e vão acabar em lugares inesperados.
Isto faz com que haja sempre alguma coisa nova para ver no Universo Marvel, com que haja sempre alguma coisa com que ficar entusiasmado, e torna toda a experiência de seguir estes filmes e estas séries exponencialmente mais divertida.


Este fenómeno torna-se extremamente óbvio com os eventos que ocorrem no filme Captain America: The Winter Soldier.
Neste filme descobrimos que a Hydra estava a infiltrar a SHIELD desde o início, e tenta destruir o mundo mais uma vez. O Captain America, com a ajuda do Nick Fury, desmantelam a SHIELD para destruir a Hydra.

A série AoS durante esta fase deixa para trás a sua estrutura episódica de vilão da semana e muda de tom, transformando-se numa verdadeira série de espionagem cuja narrativa tem continuidade directa de episódio para episódio.
Durante imenso tempo, vários episódios antes, já andávamos a ver indícios de que a Hydra estava a infiltrar a SHIELD, e subitamente, quando isso é revelado no filme, todas as personagens que antes andavam a comportar-se de maneira estranha são revelados como agentes infiltrados da Hydra, e tudo passa subitamente a fazer sentido.
Portanto a série AoS não só lida com as consequências de eventos que acontecem nos filmes, mas também tem capacidade para os indiciar, aludir e introduzir antes do filme estrear.

Ao passo que a primeira metade da primeira temporada de AoS é monótona e esquecível, a segunda metade é extremamente entusiasmente e cheia de suspense. É impressionante a rapidez e fluidez com que a história se adapta aos eventos do filme, integrando-os sem dificuldade na sua própria narrativa.


A segunda temporada é ainda melhor que a primeira.

Se durante a primeira temporada tivemos o estabelecimento das personagens, apenas para as vermos crescer e serem alteradas pela descoberta de que a Hydra estava a infiltrar a SHIELD, a segunda temporada mostra essas mesmas personagens a tentarem lidar com o desmoronar da SHIELD e a tentarem adaptar-se a uma nova organização e novas funções.
As várias traições e reajustamentos relacionais entre as personagens são muito bem explorados, e temos sempre a sensação de que estas personagens não param de crescer.
Isto é particularmente notório na dupla Fitz e Simmons, que é cómica na mesma medida que se torna trágica.

A segunda temporada volta a focar-se mais no aspecto de identificação de super-vilões e das influências alienígenas que estarão envolvidas na ressurreição do Phil Coulson e da Skye.
No fim da primeira metade da Segunda Temporada temos contacto pela primeira vez com os Terrigen Crystals, artefactos alienígenas Kree capazes de induzir mutações e conferir super-poderes aos que estejam predispostos a isso.
Os que não estão predispostos a isso, a vida corre-lhes menos bem.


É com a introdução destes cristais que o AoS volta a trocar as voltas aos espectadores. Não há nada nos filmes até esse momento que tenha alguma vez falado de Terrigen Crystals, à excepção da menção dos Krees no Guardians of the Galaxy.
O AoS neste momento introduz elementos completamente novos, e deixa de ser apenas um mero spin-off no qual vemos consequências dos filmes para ser assumidamente uma série que avança activamente a narrativa de todo o Universo Marvel.


---------- CAUTION: HERE BE SPOILERS -----------


A segunda metade da segunda temporada foi, até agora, a minha preferida, e, a meu ver, a mais bem escrita.

Temos tudo o que poderíamos querer nesta temporada: mais traições e espionagens, pessoas com super-poderes estranhos, super-vilões muito carismáticos, mais super-poderes, mais tie-ins com os filmes. É fantástico!

Descobrimos que afinal existem restos da SHIELD que ficaram activos, e que não gostam particularmente da nova direcção em que o Phil Coulson está a levar a SHIELD dele.
Até os próprios agentes do Phil Coulson acham que ele está estranho e mais secretivo do que o habitual (o que é dizer muito para o director da maior agência de espionagem do mundo), sobretudo desde que ele está particularlmente interessado na implementação do Theta Protocol.

Durante imensos episódios vêmo-lo a dirigir recursos para o Theta Protocol, e há várias sugestões de que o Phil Coulson possa ser um traidor.

No entanto descobrimos que na realidade a SHIELD do Phil Coulson estava na realidade a tentar localizar a Staff do Loki e os restos da Hydra que continuam a fazer investigação científica, nomeadamente num par de gémeos com poderes.

O Theta Protocol é na realidade o Helicarrier que surge como um Deus Ex-Machina no fim do Avengers: Age of Ultron, e que o Phil Coulson andava a preparar em segredo.


Isto vem cimentar ainda mais a série AoS como um fio condutor da narrativa entre os filmes, servindo por vezes de prequela televisiva.

A série volta a recuperar um pouco do seu interesse do Vilão da Semana com a exploração de uma personagem que continuava um pouco envolvida em mistério: Calvin Zabo, aka Mr Hyde.
Calvin Zabo é o pai da Skye, e é um cientista que tentou refazer uma espécie de super-soldier serum que lhe dá força e durabilidade sobre-humanas com o efeito secundário de o deixar um pouco doido.
Apesar disso a motivação da personagem nunca deixa de ser o amor pela sua filha e o desejo de a proteger, o que torna a personagem bastante trágica.
É interpretado de forma brilhante pelo veterano Kyle MacLachlan, que o consegue tornar um dos vilões mais interessantes do Universo Marvel, ficando só atrás do Kingpin.


Calvin Zabo na sua busca por vingança e incansável tentativa de se reunir à sua filha, acaba por reunir outros vilões com super-poderes que têm de ser também derrotados um por um.
Isto volta a puxar a série firmemente para o universo de banda-desenhada, saindo um pouco do estilo higiénico da ficção científica e de espionagem, e isso traz imensa cor e divertimento à série


Finelmante, temos toda o plot envolvendo a Skye, a sua mãe e os Terrigen Crystals.
Percebemos rapidamente que a Sky ganhou super-poderes à custa da sua exposição aos cristais, e é contactada por outros indivíduos com super-poderes que a querem recrutar para a sua causa.

Explicam-lhe que os Terrigen Crystals são um catalisador para o potencial genético escondido dentro de alguns seres humanos, criado pelos Kree quando estavam a tentar gerar super-soldados para as suas guerras espaciais.
A mãe da Skye é a lider deste grupo que se intitulam os Inhumans.

Qualquer pessoa que ande a prestar aos filmes da Phase III, repara rapidamente que lá para 2018 há um filme chamado Inhumans.


Muito certamente esse filme vai conseguir escapar-se a toda necessidade de estabelecer as origens das personagens porque, como já perceberam, a origem das personagens vai ser explicada durante a série AoS.

No fim da segunda temporada do AoS a Skye desliga-se do grupo violento em que estava inserida, consegue derrotá-lo com a ajuda dos outros agentes da SHIELD e, com a ajuda do Phil Coulson, prepara-se para iniciar a busca e recrutamento de outros Inhumans que andem espalhados pelo mundo.

Portanto a série que começou com o recrutamento da hacker Skye para a equipa dos AoS com o intuito de identificar pessoas com super-poderes, agora acaba com o recrutamento da Inhuman Sky com o intuito de identificar e recrutar outros Inhumans.
Essencialmente vamos ter uma equipa de super-heróis como o Avengers, mas direccionados a black-ops e espionagem.
Isso faz-me feliz.

Portanto, concluindo e resumindo, a série AoS não é a melhor coisa de sempre, tem falhas, tem os seus pontos fracos, mas as sua personagens são muito interessantes e crescem imenso durante a série, as aventuras são divertidas e tem o interesse acrescido de ir fazendo a ponte narrativa entre todos estes filmes.

Ah, e a cena final do monolito.

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terça-feira, 23 de junho de 2015

Ontem fiz uma consulta

Ontem fiz uma consulta.

Estava a fazer a intersubstituição da tarde. Já tinha tido saúdes infantis durante a manhã toda, durante a primeira metade da tarde vi diabéticos de uma médica que está a faltar.
Por volta das 17:00 comecei a intersubstituição. Nada de especial, as coisas do costume, febres, dores de garganta, diarreia.

Olho para a sala de espera, e o próximo doente é um homem de 37 anos.
Acho isto estranho. Habitualmente os homens de entre os 30 e os 40 anos são saudáveis, não vêm à consulta. Fui ver e de facto este homem não vinha ao médico já há uns 2 anos.
Começo a pensar o que é que ele poderá ter, e não me vem nada imediatamente à cabeça.

Crianças com menos de 10 anos sei que provavelmente vêm com febre, ou dores de garganta ou diarreia; mulheres com mais de 45 vêm por dores nas costas ou nos joelhos e crises de tensão alta.
Agora, homens com 37 anos? Não me vem nada à cabeça imediatamente.

Chamo-o e ele entra pelo gabinete com uma criança de 3 anos ao colo. Fico subitamente confuso. Será que vi mal e era uma criança que estava marcada? Será que confundi 37 com 3? Não seria a primeira vez.
Mas não, ele desculpa-se dizendo que não tinha onde deixar o filho e por isso teve de o trazer.

Sentam-se os dois nas cadeiras em frente à minha secretária, e eu pergunto-lhe o que é que o trouxe hoje à consulta.
Os olhos dele enchem-se subitamente de lágrimas, leva a mão à cara para conter o choro, e consegue espremer por entre dentes "Dr, estou cheio de ansiedade".

Eu olho para ele, olho para a criança. O miúdo está assustado. Por algum motivo quando ele entrou eu tive a impressão que era o miúdo estava doente.

"Vamos pôr o seu filho a brincar lá fora com as enfermeiras para conversarmos mais à vontade" digo-lhe eu, e ele parece acalmar ligeiramnte. 

No entanto, afinal, não encontrei enfermeiras, e então vou roubar uns brinquedos ao gabinete de outra médica, e o miúdo fica distraído a brincar num canto do meu gabinete.

"Explique-me lá o que é que se está a passar" pergunto eu.

Ele volta a encher -se de lágrimas, hesita uns momentos, e deita cá para fora, num único fôlego, sem pontuação
"Estou com imensa pressão no trabalho ando cansadíssimo não tenho um fim de semana há dois meses só ontem é que consegui descansar os meus pais foram operados tenho imensa ansiedade a minha mulher está a ficar chateada comigo sinto que estou a falhar com o meu filho"

Continua a chorar para as mãos, consegue engolir as emoções, e parece que volta atrás, como se se sentisse embaraçado por ter dito em voz alta o que sentia, como se quisesse que o problema fosse outro e acrescenta "também ando a sentir umas dores nas costas, no corpo..."

"Dores em picadas?"

"Não, parecem os músculos contraídos. Doem-me quando estou deitado na cama"

"Você não anda a dormir nada pois não?"

Ele abana a cabeça, concordando.

"Passa a noite toda a rebolar, não é?"

Ele volta a concordar.

"Anda a sentir-se triste? Com acessos de choro?"

Ele concorda

"Já falou disto com a sua mulher?"

Ele diz que não, explica que ela está fora do país durante uns dias, ele está sozinho a tomar conta do filho porque os pais idosos foram operados e não o podem ajudar.

"Anda com falta de ar, com o coração a bater muito?"

Ele olha para mim, com lágrimas nos olhos, assustadissimo, perdido, a conter o pânico.

A primeira coisa que lhe digo é
"Você não está doente, não há nada de errado com o seu corpo. Você não está deprimido, não tem nenhuma patologia"
"Você está a trabalhar demais. Ouça, qualquer pessoa que passe um mês sem fins de semana começa a passar-se um bocadinho. Qualquer pessoa na sua situação ia sentir o mesmo"
"Em segundo lugar, você não está a falhar. Você está a fazer os possíveis e os impossíveis para que tudo corra bem, para cuidar da sua família, e ao que parece está a conseguir. Falhar seria não vir aqui pedir-me ajuda"

À medida que lhe explico estas coisas, a cara dele abre-se em espanto, como se nunca lhe tivesse passado pela cabeça que estas ideias pudessem sequer existir. Ele estava há tanto tempo sob ansiedade e tensão, há tanto tempo a sentir culpa, que tinha perdido completamente a perspectiva da sua situação.

"Agora, a primeira coisa que vai acontecer, é que eu vou dar-lhe baixa. Baixa de 12 dias, que é o máximo que eu lhe posso dar inicialmente, senão até lhe dava mais. Vai para casa descansar.
"Sabe aqueles planos que você andava a adiar para quando tivesse tempo? Aquele restaurante aonde queria ir quando tivesse tempo? É agora. Agora você vai fazer essas coisas, vai ao restaurante, vai divertir-se.
"Vai pegar na mulher e no filho e vão fazer um fim de semana prolongado a algum sítio, para se distraírem.

"Depois, vou-lhe dar aqui um Diazepam 5mg. Dá sono e é relaxante muscular, vai tomá-lo à noite antes de ir dormir durante uma semana. Vai tomando durante o dia, em SOS, quando começar a sentir o coração a bater mais depressa"

"Finalmente, quero que faça exercício todos os dias. Agora está bom tempo, todas as manhãs vai dar uma corrida, enquanto ainda está fresquinho, vai ver que o resto do dia lhe corre logo bem"

Enquanto eu explicava estas coisas a cara dele foi-se abrindo num sorriso, em alívio. Eu vi sair-lhe o peso desesperante dos ombros em câmara lenta.
Parecia que eu lhe tinha salvo a vida, que lhe tinha dado o Santo Graal.

Ele levantou-se, apertou-me a mão, deu a mão ao filho e foi-se embora a brincar com ele.


Eu fiquei exausto. Sem fôlego.
Poucas outras consultas na minha curta carreira tinham sido tão emocionalmente desgastantes como esta.
O que pode parecer estranho, porque nem era uma situação medicamente complicada, ou um diagnóstico difícil, e, contrariamente ao que acontece habitualmente, eu até consegui ajudar o homem.

E no entanto no fim desta consulta senti-me como se tivesse feito 50 flexões.
Estava exausto emocionalmente.

Porque empatizei com ele. 
Porque se não tivesse empatia com este homem, se calhar tinha-o medicado só com uma coisa para dormir ou tinha-o mandado fazer exames ao coração ou às costas.
Porque tenho de empatizar com os doentes, porque é a forma mais eficaz de os fazer sentirem-se melhor. 
De os curar.

Fiquei a sentir-me cansado e fragilizado durante o resto das outras 6 consultas que ainda fiz nesse dia. Acabei a consulta às 19:50, consegui apanhar um comboio para casa às 20:24, cheguei a casa um pouco antes das 21:00.


Todos os dias sinto que precisava que alguém me desse baixa. 
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domingo, 21 de junho de 2015

I am a Thoughtful Guy




Finalmente aconteceu.
Encontrei um vídeo na internet que me retrata perfeitamente.
Isto sou eu!

Dos brilhantes Rhett & Link.
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