Pataniscas Satânicas

Pataniscas Satânicas

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Conduzir o seu Corpo, e Brownies!

Quanto controlo é que tem de facto sobre o seu corpo? O que raio é que faz o Cerebelo, e porque é que é bom condutor? E será que os brownies se safam no fim?

Vamos falar sobre isso.



Passamos a maior parte da nossa vida a controlar o nosso corpo voluntariamente, portanto é perdoável esquecermo-nos quantas estão realmente fora do nosso controlo.

O Sistema Nervoso Autónomo é uma divisão do Sistema Nervoso Periférico que controla a maior parte dos orgãos de forma insconsciente. Regula coisas como a digestão, dilatação pupilar, urinação e a excitação sexual.
Dentro do cérebro temos o Hipotálamo que controla a respiração, o ritmo cardíaco, actividade vasomotora e várias acções reflexas como o tossir, espirrar, engolir e vomitar.

Mas isso são tudo coisas com as quais não temos habitualmente de nos preocupar, que vão acontecendo sozinhas sem lhes prestarmos atenção.

Imaginem se o vosso coração dependesse de controlo voluntário para bater, e quando se distraíssem com outra coisa o coração parasse. Era chato.

De igual forma, apesar de conseguirem controlar a respiração voluntariamente, durante a maior parte do dia não estão conscientemente a gerir a respiração.
Excepto agora que vos fiz pensar no assunto.
Agora estão a respirar em manual, em vez de automático.

É chato, eu sei, mas já passa quando se distraírem disso.


Mas e coisas voluntárias como os movimentos? Quando mexemos os braços e as pernas?
Essas, certamente, estão inteiramente sob o nosso controlo voluntário!

Ou estão?

Faça uma experiência.

Procure um objecto à sua volta. Pegue nele.

Fácil, certo?

Só teve de identificar o objecto, esticar o braço, e pegar nele com a mão. Simples.

Repare que durante esse processo, não teve de estar preocupado em levantar o ombro de maneira a elevar o braço, ou estender o cotovelo de forma coordenada de maneira a esticar o antebraço, nem sequer teve de estar preocupado em abrir cada um dos dedos individualmente, e muito menos teve de se preocupar com a possibilidade de a mão ir numa direcção diferente do objecto.

Todos esses micro-cálculos e pequenos ajustes de postura, distância, velocidade, vector de movimento, relação espacial de objectos são calculados automaticamente pelo seu Cerebelo, uma estrutura no cérebro dedicada sobretudo ao movimento voluntário.

Cerebelo a vermelho
Portanto quando você quer pegar em alguma coisa, seu Córtex Préfrontal envia essa informação para o Cerebelo que por sua vez se encarrega de criar um plano complexo de contrações musculares perfeitamente sincronizadas e económicas que permitam realizar esse movimento da maneira mais simples e eficiente possível, e depois envia-o aos músculos para o porem em prática.

Ou seja, uma grande parte dos nossos movimentos voluntários não é de facto consciente, estando relegada para mecanismos inconscientes e automáticos que tratam dos detalhes chatos do movimento, para que possamos perder tempo a pensar noutras coisas.

Ou seja, à semelhança da respiração e do batimento cardíaco, os nossos movimentos acontecem em modo automático

É uma chatice muito grande quando o Cerebelo começa a não funcionar bem, porque o Córtex Préfrontal é péssimo a conduzir em modo manual.

Quando há lesões no cerebelo é normal surgirem problemas no controlo motor do corpo.

Pode haver diminuição do tónus muscular (hipotonia), alteração da articulação das palavras (disartria), dificuldade a determinar distâncias ou amplitude dos movimentos (dismetria), incapacidade de fazer movimentos rápidos e precisos (disdiacocinésia).

Acontece o tremor de intenção, ou seja movimentos involuntários dos membros nas acções voluntárias, causadas por contracções desorganizadas de grupos musculares opostos.

A manifestação mais óbvia do descontrolo de movimento muscular é alteração que surge na marcha, porque nessa situação os músculos estão a ser conduzidos pelo Córtex Préfrontal em modo manual, e o Córtex Préfrontal conduz muito mal.

Marcha Atáxica, típica das lesões do Cerebelo
Mas há condutores piores, especialmente aqueles que nem sequer é suposto saberem conduzir.

Imaginem que estam a pôr um tabuleiro de brownies dentro do fogão, distraídos a pensar como os brownies vão ser fantásticos. A vossa mão toca nas superfícies quentes do fogão e puxam a mão à bruta o que faz com que o tabuleiro de brownies caia ao chão e ficam a dizer mal da vida porque se queimaram e porque ficaram sem brownies.

O que é que aconteceu?

Queimarmo-nos não é bom. Destrói células. Mata um bocadinho do nosso corpo. Isso Não é Bom™.

Por isso é que quando nos queimamos no fogão puxamos a mão à bruta. É um mecanismo reflexo do nosso corpo para nos proteger dos danos aos tecidos da nossa mão.

O estímulo nocivo é sentido pelos nociceptores da pele da mão, essa informação é transmitida através dos neurónios sensoriais à espinal medula, que interpreta o estímulo nocivo, e envia para os músculos do braço a instrução para se contraírem o mais depressa possível para puxar a mão.


A informação viaja pelos neurónios a cerca de 100 metros/segundo e todo o processo demora menos de 0,5 segundos.

Reparem que o estímulo nem chega a passar pelo cérebro ou pelo Cerebelo. Não há tempo para isso.
A mão está a ser queimada e tem de ser protegida o mais depressa possível, não há milisegundos a perder.

A espinal medula a única coisa que faz é enviar ao braço uma ordem vaga e desorganizada de contracção muscular para afastar a mão da fonte do dano o mais depressa possível.
Por isso é que deixamos cair ao chão o tabuleiro dos brownies. A espinal medula não é conhecida por ser muito boa a produzir movimentos elegantes e precisos.

Isso é o Cerebelo, como já vimos, mas o Cerebelo está demasiado longe para que lhe seja pedida a sua opinião. É mais importante proteger a mão depressa, do que garantir que o movimento é coordenado.

Mais interessante do que isto, é que todo este processo acontece sem que seja necessário que o estímulo da dor passe pelo cérebro.
Ou seja, a percepção consciente da dor não é necessária para reagirmos a ela.

A única coisa que isto nos diz é que a dor é um fenómeno muito complexo, mas isso fica para outro artigo qualquer.

Entretanto, não se esqueçam de respirar!

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domingo, 3 de janeiro de 2016

Arrefecimento Global e Baratas Gigantes

Florestas intermináveis no planeta Terra? Alterações climáticas opostas ao aquecimento global? Insectos gigantescos?

Vamos falar sobre isso.


Também já falámos sobre como esse carbono depois volta para a atmosfera (fomos nós que o pusemos lá).

Em 2011 minámos 7659 milhões de toneladas de carvão, e emitimos 14416 milhões de toneladas de dióxido de carbono para a atmosfera. Estima-se que até 2017 poderemos queimar mais 1,2 biliões de toneladas de carvão.

De onde é que vem este carvão todo?

Mina de Carvão de North Antellope, a maior do mundo
Vem do Período Carbonífero, que ocorreu há 360 a 300 milhões de anos atrás.

Para terem noção de há quanto tempo atrás isto foi, corresponde a um período no qual o mega-continente Pangaea ainda nem se tinha formado.

O continente Gondwana ainda estava para se chocar contra o continente Laurussia, gerando a Orogenia Varisca o evento geológico que criou montanhas em Portugal, Espanha, o Maciço do Reno, os Alpes, os Apalaches na América, as montanhas dos Urais e dos Pamirs na Ásia.

Demorariam ainda quase 200 milhões de anos até que se formassem continentes minimamente reconhecíveis.


Cadeias montanhosas originadas pelo choque dos super-continentes Gondwana e Laurussia
Aconteceram duas coisas.

A primeira foi que no início do Período Carbonífero o nível dos oceanos diminuiu, criando extensíssimas zonas pantanosas extremamente férteis, que levaram ao crescimento desenfreado de vida vegetal.

A segunda foi que pela primeira vez essas plantas evoluíram o polímero orgânico Lignina e o isolante natural Suberina. Por outras palavras as plantas evoluíram a capacidade de gerar madeira.
Neste período, os fungos e bactérias saprófitas, responsáveis por decomporem a matéria orgânica não tinham ainda evoluído as enzimas que seriam capazes de digerir a Lignina e a Suberina.

Isto fez com que as árvores mortas se acumulassem tempo suficiente para fossilizarem.


Imaginem.

Árvores, árvores e árvores, em florestas infindáveis, a cobrirem continentes inteiros. 
O planeta inteiro coberto por vegetação e florestas tropicais, quentes e húmidas.

Árvores a crescerem e a morrerem, e mais árvores a crescerem por cima dessas, e outras ainda por cima dessas.

Durante não um, não, dois, mas sessenta milhões de anos.

60 milhões de anos durante os quais as árvores do planeta capturaram dióxido de carbono atmosférico e enterraram-no na terra sob a forma de carvão.
De tal maneira que o dióxido de carbono atmosférico diminuiu de 1500 partes por milhão (ppm) no início do Período Carbonífero para cerca de 350 ppm no fim do Período.

Proporcionalmente a esta redução de dióxido de carbono, a temperatura global diminuiu de 20ºC para aproximadamente 10ºC.

Outra coisa que as árvores fazem bem, para além de sugarem todo o dióxido de carbono atmosférico, é expelir oxigénio.

Durante o Período Carbonífero a concentração atmosférica de oxigénio era de 35%, por oposição aos 21% que temos hoje.

Isto tem uma consequência engraçada, que é permitir que os animais da altura crescessem muito.

Dinossauros? Não, nem pensar!
Ainda demoraria mais de 50 milhões de anos até surgirem os primeiros dinossauros.

Por esta altura o que dominavam eram os anfíbios. Os animais com escamas que viriam a dar origem aos dinossauros ainda eram relativas novidades.

Nos pântanos intermináveis, repletos de plantas e árvores, dominava o Eryops. um anfíbio de 2-3 metros de comprimento, que era o predador de topo da altura, ocupando um nicho ecológico que hoje pertence aos crocodilos.



Mas os anfíbios cresceram até esse tamanho simplesmente porque não haviam outros predadores. Actualmente existe a Salamandra Gigante Chinesa, que atinge facilmente os 180cm de comprimento, e que não deve ter um aspecto muito diferente do que teria o Eryops.


O que era invulgar naquela altura eram os insectos.

Acontece que os insectos não respiram da mesma maneira que os outros animais.

Enquanto que os outros animais têm pulmões para onde o ar entra e o oxigénio se difunde para o sangue, que depois é transportado pelo sistema vascular para oxigenar os tecidos, os insectos não têm pulmões.
Em vez disso têm buracos espalhados ao longo do corpo por onde o ar entra, e o oxigénio difunde-se directamente para os tecidos,



Claro que neste sistema que depende da difusão directa do oxigénio do ar para as células, as células que estejam mais longe do ar recebem menos oxigénio.
Isso significa que não podem haver células muito longe dos buracos por onde entra o ar, o que implica que a maior parte dos insectos seja pequenino.
Há um limite de tamanho fisiológico determinado pela concentração mínima de oxigénio de que as células necessitam para viver, que os insectos não conseguem ultrapassar.

Mas o que é que acontece quando a concentração do oxigénio na atmosfera aumenta para 35%?


Esse limite de tamanho aumenta.

Muito.

Existiam libelinhas gigantes como a Meganeura, com uma envergadura de asas de 75cm, mais ou menos do tamanho de uma gaivota.



E que tal o escorpião gigante Pulmonoscorpius, que chegava a ter 70cm de comprimento, e que se acredita que poderá ter caçado anfíbios.



Ou, e esta é a preferida das multidões, a Arthropleura, um artrópode milípede que cehgava a atingir 2,3 metros de comprimento!



 Portanto sim...

Há cerca de 300 milhões de anos, a Terra estava coberta de pântanos e florestas tropicais gigantes, que se estendiam por continentes, onde viviam salamandras e insectos gigantes.

Durante milhões de anos foi isso a vida na Terra. Vagamente reconhecível, mas com exageros quase alienígenas ao que hoje conhecemos.


Toda essas árvores incontáveis morreram, e acumularam-se durante esses milhões de anos, e nós hoje passamos o tempo a desenterrá-las e a queimá-las.


Leiam mais acerca de aquecimento global e evidências do passado do planeta aqui:
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sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

1º Post do Ano

Bem vindos a 2016!

Vamos falar de 2015.
2015 foi um excelente ano para as Pataniscas Satânicas.

Em Julho estávamos nós de férias no Faial, íamos a descer a Canada da Conceição, quando nos lembrámos que podíamos criar a página de Facebook do Pataniscas.

Antes sequer de chegarmos à Igreja da Conceição já tínhamos planos para os próximos 5 anos de Pataniscas, e menos de 5 horas depois (com tempo para ir dar um mergulho à Praia de Porto Pim) já tínhamos criado a página do Facebook e estávamos a escrever textos para as semanas seguintes.

Os nossos planos iam desde a venda de merchandising até à criação de um canal de Youtube e publicar um livro com textos das Pataniscas Satânicas.

Como é óbvio não fizémos nenhuma dessas coisas, mas por outro lado também não nos fartámos passadas duas semanas, e desde essa altura temos conseguido manter um ritmo de 3 textos por semana quase sem falhas até agora.

Entretanto conseguimos fazer colaborações artísticas, nomeadamente com as artistas Exo Inch e Cosmic Lentilia, no seu projecto Daqui para Ali, e com a artista Tangerine, com a sua rúbrica quasi-semanal Tunes With Tangerine.

Colaborámos também com o pessoal do Contra os Canhões Power Up Power Up e com o pessoal do Cubo Geek, que por mais do que uma vez nos convidaram para participar em actividades deles.

Pelo meio atingimos 271 artigos publicados e mais de 50 000 visualizações.

Estamos contentes!

Agora, para o ano 2016 planeamos, entre outras coisas, escrever sobre:

- Baratas Gigantes
- Consciências Artificiais
- Consciências Animais
- As parvoíces do Veganismo
- A Invasão dos Robots
- A Natureza da Realidade
- O Donald Trump
- Alforrecas!

Continuem a ler-nos, continuem a comentar as nossas parvoíces, e talvez consigamos chegar ao tal Livro!

Feliz Ano Novo!
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terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Melhores de 2015 - Artigos do Ricardo

O que é que eu escrevi que vale a pena relembrar no fim do ano? Pouca coisa...
Vamos lá espremer isto bem!

Escrevi várias Coisas sobre Astronomia. Mas mais concretamente, sobre temas astronómicos abstractos que incluem montes de matemática. Como ninguém gosta de matemática, escolhi ignorar isso tudo e descrever a minha percepção das conclusões a que a astronomia moderna chegou. Não confiem muito nisto. Basta saber que é baseado em vídeos do youtube e artigos da wikipédia!

Fiz isso nos posts sobre a singularidade dos buracos negros e no post sobre o Big Bang, mas também foram incluídas discussões sobre objectos celestes como as estrelas mais próximas de nós, que deram o nome ao padrinho do Harry Potter, e das jóias astronómicas que são as Nebulosas Planetárias.


Como não podia deixar de ser, escrevi Coisas sobre Medicina, apesar de ser um tema que tento evitar, porque astronomia dá para usar imagens mais bonitas! Aqui está uma história parva que inventei (que inventei... certo...), e uns parágrafos de bílis a propósito do saudoso ex ministro da saúde. Terminei o ano com uma coisa sobre estigma nas doenças mentais.


Também gosto de escrever coisas aleatórias que me passam pela cabeça. Dizem-me que fica bem chamar a isso ''Escrita Criativa'', porque 'coisas aleatórias que me passam pela cabeça', não tem o mesmo impacto...
São os textos que não dá para perceber o tema logo ao princípio, e é preciso ler mais para entender que raio é que eu estou práli a inventar. Quais é que gostei mais? Bem, temos um que tenta humanizar uma personagem de um jogo de video daqueles de tiros (first person shooters), e um sobre um velhote que está lentamente a ensandecer enquanto chateia a mulher.


Depois acho que tenho que dividir os posts sobre Coisas da Actualidade a sério, como o post do famoso 'Grexit' ou dos Casamentos Homossexuais, e os que foram pura parvoíce, como o da silly season diagonal, ou ou o dos Vieses eleitorais - a quente, depois das polémicas legislativas de 2015.


Finalmente, temos as ''Coisas em que eu me armo em Engraçadinho'', que podem não ter piada nenhuma, mas que me dão gozo escrever! Dentro do humor observacional, escrevi um texto sobre temas tão ecléticos como ''Tatuagens e Gonorreia existencial'', e fiz um video do youtube, onde tento aglutinar ''Ginásios e a linha de Sintra''.

Temas soltos que acho que tenham valido a pena?

Manhãs ascetas e noite de prazer - Um texto em que defendo que não somos bem escravos dos nossos neurotransmissores, tanto como somos os nossos os nossos neurotransmissores. A metafísica da dialética e tal... Isto além das virtudes de deitar cedo e cedo erguer!!!

A ciência do toque da morte - Onde se discute a ciência do ''five point heart exploding technique'', aperfeiçoado pela Uma Thurman no Kill Bill.


Cat Tax - um texto e um gato!!!


FELIZ 2016!

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domingo, 27 de dezembro de 2015

Melhores de 2015 - Artigos do Gui

Estamos quase no fim do ano, e vocês sabem o que é que isso significa! Listas de melhores do ano!

Toda a gente gosta de listas, e são tão fáceis de escrever que até parece batota! Portanto acompanhem-me numa digressão onanística pelas melhores coisas que eu escrevi este ano!


Bolas, Tubos e Memes
Se lêem este blog com alguma frequência, já repararam de certeza que eu gosto imenso de explorar ideias e conceitos em várias escalas. Diverte-me muito pegar num conceito e ver de que maneira ele existe ou se manifesta desde o muito pequenino ao muito grande.

Faço isso muito literalmente com o Bolas, no qual pego num berlinde como referência para ir saltando entre átomos, bactérias, planetas e galáxias e mostrando realmente quão pequeninos ou grandes eles são.

No Tubos, faço mais ou menos a mesma coisa, só que em vez de berlindes e galáxias são tubos e animais.
Mesmo quando fazia a investigação para este artigo, fiquei fascinado com a forma como, desde o seu início mais primordial há 710 milhões de anos, com a humilde esponja, a estrutura morfológica básica dos animais não se modificou assim tanto como poderíamos pensar.

Faço a mesma coisa, de pegar num conceito em várias escalas, com o meu texto sobre Memes. Só que nesse o que faço é mostrar como qualquer sistema de informação, sejam genes, programas de computador, ou até a linguagem humana, é susceptível de ser infectado por pequenos pedaços de código auto-replicante.
Achei particularmente fascinante a ideia de que os memes, que eu pensava que eram só modas na internet, podem ter manifestações muito maiores, como as histerias de massas do séc XVI, ou até como doenças somáticas, observáveis.


Coisas Médicas e de Consultas
Por mais que me esforce, não consigo evitar que o trabalho acabe por se infiltrar nas coisas que escrevo. Para além disso há toda uma multidão de médicos que se queixam das mesmas coisas que eu, e são um excelente público para aumentar as views do blog, portanto também há isso.

Com o Destruir do Serviço Nacional de Saúde Para Tótós, explico em 6 passos simples como desmantelar a saúde em Portugal e vendê-la às empresas dos amigos.
Este exercício em cinismo e sarcasmo foi seguido em pouco tempo pelo Porque é que os Profissionais de Saúde devem usar os telemóveis pessoais no local de trabalho, escrito numa tarde em que estava particularmente irritado por já não poder ligar à Dona Clotilde para saber como estavam as suas cruzes.

No artigo Ontem fiz uma Consulta, vêem uma coisa que é rara: eu a ser honesto.
Este artigo que descreve uma consulta real que dei um dia, foi escrito de uma assentada só, sem revisões ou muitas edições, e que mexeu comigo de uma forma que não me deixou a sentir-me bem.


A Realidade Está Mal Escrita
Eu sou viciado em narrativas, e no Reality is Just Bad Writing, passo um grande bocado a explicar de que forma a narrativa é ainda mais importante do que possamos pensar..
Passando por religiões e mitos, descrições matemáticas do caos e do clima, a Capela Sistina, e heróis de banda-desenhada, mostro de que maneira a narrativa foi instrumental não só em estruturar a nossa consciência, mas foi também a base de grande parte da nossa civilização.


Assassinos de Massas e Aquecimento de Estufa
Gosto particularmente do Gengis Khan e os Amigos da Natureza, porque não só mistura várias das minhas coisas preferidas (extinções de massa, os mongóis, e teoria de aquecimento global), mas porque introduzo esta ideia bizarra de que uma só pessoa, o Gengis Khan, possa ter tido um impacto POSITIVO no ambiente e na redução do aquecimento global.
Também me deu a oportunidade de meter a cara do Gengis Khan no corpo do Capitão Planeta.


A Existência da Alma
No artigo intitulado simplesmente "42" começo por fazer uma afirmação audaz que é a de que temos uma alma.
Depois ando a deambular por conceitos como informação, neurónios, consciência, e átomos para chegar a uma das ideias mais poderosas de sempre, que é a de que somos o Universo a experienciar-se a si mesmo.
Este é um dos artigos de que mais me orgulho, um dos que me saiu com mais facilidade (foi escrito de uma só vez, de seguida, quase sem edição), e um dos que me deu mais gozo a escrever.
O título "42" é uma referência à resposta ao sentido da vida, do universo e de tudo o resto, de Douglas Adams.


Sobre Heróis e Vilões
Adoro o que a Marvel está a fazer com o seu Universo Cinematográfico, e adoro análises narrativas, portanto estes artigos eram inevitáveis.
Apesar de ter escrito várias coisas sobre os filmes e os heróis da Marvel ao longo dos tempos, acho que estes são os dois melhores artigos sobre o assunto que já escrevi até agora.
Com A Construção de um Herói e A Construção de um Vilão, analiso de que forma a Marvel desenvolve duas personagens desde o seu início razoavelmente neutro até dois extremos diametralmente opostos (o Herói e o Vilão) de uma forma orgânica e quase despercebida por detrás de toda a acção e explosões.


Porque é que há uma crise? Por causa do Papão!
No início deste ano comecei a ouvir os podcasts Hardcore History do Dan Carlin, e estes artigos foram inspirados em coisas que eu aprendi lá.
Quando comecei a escrever sobre como a crise sócio económica actual podia ser explicada recorrendo a ideologias históricas e a tropes, pensava que isso podia ser feito num único artigo.
Obviamente que o texto foi crescendo e crescendo e eu vi-me obrigado a dividi-lo em dois, e depois em três partes.
No fim, o Papão vem do Norte Parte I, Parte II e Parte III resulta numa explicação histórica, narrativa, divertida e sobretudo simplista dos problemas económicos que definem o nosso presente.


As Aventuras Malucas de Rasputin
Também inspirados nos podcasts do Hardcore History, especificamente a série Blueprint for Armageddon sobre a Primeira Guerra Mundial, são estes artigos sobre o Rasputin.
No meio de toda a riqueza de informação e conhecimento sobre a Grande Guerra, o Dan Carlin fala um bocadinho sobre a influência do Rasputin na monarquia russa. , e conjectura sobre várias teorias que explicam porque é que ele ganhou a influência que ganhou.
Quando comecei a pesquisar mais acerca de Rasputin, e porque é que ele teria ganho tanta influência com os Tzares, passei umas boas 3 semanas obcecado com o assunto, e daí saíram O Monge Louco Parte I e O Monge Louco Parte II.


Tudo o que somos
Por falar em obsessões e em perder-me a pesquisar em tocas de coelho, houve aqueles dois MESES em que eu só conseguia ler e pensar sobre a Consciência Humana.
Eu originalmente ia escrever sobre Inteligência Artificial, mas quando comecei a pesquisar acerca do assunto, comecei a perceber que para compreender e explicar a Inteligência Artificial tinha primeiro de compreender a Inteligência Humana. Depois percebi que o interesse da questão não era realmente a Inteligência (que é só uma ferramenta), mas sim a Consciência ela própria.
Acho que nunca li tanto sobre um assunto, nem investiguei tantas fontes diferentes, durante tanto tempo. Mas o resultado final, O que é a Consciência Parte I, Parte II e Parte III, são provavelmente das melhores e mais complexas coisas que eu já escrevi em termos de exploração de conceitos científicos



Espero que tenham gostado de ler estes artigos tanto quanto eu me diverti a escrevê-los, porque podem ter a certeza que não o faço por mais motivo nenhum.

Feliz Natal!

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sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Io, Saturnalia!

O burburinho de pessoas bem-dispostas.



O grande templo de Saturno está cheio de cidadãos até às portas. As colunas do templo estão decoradas com ramos verdejantes e símbolos dourados do Sol Invictus.

Ao centro, um sacerdote de Saturno sacrifica o grande touro em honra do Deus da Agricultura e da Abundância. As pessoas que apinham o templo parecem não conseguir conter o riso perante a visão da careca do sacerdote, com apenas alguns cabelos desgrenhados.
O próprio sacerdote não se parece importar. A cor das suas bochecas e o facto de já se ter enganado três vezes nos rituais indicam que terá começado as celebrações mais cedo do que toda a gente.


Aléria sai do templo no fim do ritual sagrado.
Agradece a Saturno a sua boa fortuna de ter sido trazida para a grande cidade romana, e não enviada para os campos, onde seria sujeita ao trabalho árduo da agricultura.

Por todo o lado, nas ruas da cidade, grupos de homens e, surpreendentemente, mulheres, passeiam de barraca em barraca, bebendo vinho quente, rindo de forma livre e gritando "Io Saturnalia!" uns aos outros.
Até as suas togas brancas e austeras foram substituídas pelos synthesis, roupas garridamente coloridas, guardadas para épocas de celebração.



Aléria passa em frente ao Senado, de onde ouve vozes masculinas a cantarem desafinadamente em coro. O cheiro de vários javalis assados atravessa as portas, e por esta altura os Senadores já estarão no seu quinto ou sexto brinde ao Deus Saturno, cuja estátua certamente está sentada entre eles.

"Io Saturnalia!" grita um grupo de nobres romanos ao passarem por Aléria.

Aléria tem um breve momento de pânico, e só consegue responder "Io Saturnalia" já depois dos nobres terem passado.
Não está habituada a que os nobres reparem nela, sendo uma escrava.
Mas hoje, nesta noite do ano, Aléria tem direito a usar o pilleus, o chapéu cónico usado pelos cidadãos livres.
Todos as pessoas usam o pilleus, e Aléria sente um entusiasmo quase assustador por poder andar na rua como uma mulher livre, indistinguível de qualquer outro cidadão.



Todo o dia foi um de festa. As escolas fecharam, os tribunais não trabalharam. Por uma vez não foi declarada guerra a ninguém. Aléria pensa, não pela primeira vez, que os romanos são excelentes a construir banhos públicos e aquedutos e estradas, mas não conseguem passar mais do que 10 minutos sem declararem guerra a alguém.

Aléria aproxima-se da casa do seu Mestre. A árvore no pátio interior está decorada com fitas púrpura, e um sol dourado está pendurado no topo. As crianças rodeiam a árvore, excitadas, à procura de moedas penduradas nos ramos.

Os outros escravos já estão sentados à grande mesa, lado a lado com a família do mestre. Aquila, a esposa do Mestre, serve a comida alegremente a todos, membros da família e escravos de igual forma.
O grande salão está iluminado por centenas de velas, criando um ambiente etéreo. Coroas de folhas verdes estão penduradas sobre todas as janelas e portas. O riso das crianças mistura-se com as gargalhadas fartas dos adultos, aquecidas pelo vinho.


Aléria come um pouco do porco assado, frutos secos e queijos. No fim da refeição deleita-se com biscoitos de especiarias, e repara no seu Mestre embrulhado num casaco de peles, sentado sozinho a uma mesa, a observar a sua família com um sorriso.

"Ah, Aléria..." diz o homem idoso e rotundo, com o nariz vermelho e um cálice de vinho na mão "Não te juntas a mim?" convida ele, apontando para os dados em cima da mesa.

Aléria aproxima-se da sua mesa, e senta-se ao seu lado, como igual.

"Na minha juventude livrei-me de muitos turnos de guarda durante a noite, jogando aos dados com os meus camaradas no exército" diz ele, rolando os dados sobre a mesa, e bebendo mais um gole de vinho.

"Sim, Mestre Ignatius" responde Aléria, com os olhos baixos.

"Qual 'mestre'? Não hoje, Aléria, hoje sou só Ignatius!" ri ele "Não queremos ofender os deuses, pois não? Vá, rapariga, relaxa!"

"Sim... Ignatius" diz Aléria hesitando.

"Vá, vá, faz a vontade a um velho, e joga comigo, heheh"


As crianças, cada vez mais excitadas, começam a trocar prendas entre si. Até os adultos, nobres e escravos, trocam pequenas estatuetas de barro, pentes, chapéus, perfumes, cachimbos entre si.

"Aléria, não andaste a praticar às escondidas, pois não?" pergunta Ignatius maliciosamente.

"Sorte de principiante, suponho" responde ela, com um sorriso furtivo.

"Aposto que sim, hehe" Ignatius vasculha no seu grande casaco de peles "Aléria, isto é para ti" entregando-lhe uma pequena caixa de madeira esculpida, com um fecho em bronze "Para guardares os teus ganhos aos dados".

"Mestre Ignatius, não tinha de -" começa Aléria.

"Se insistes em me chamares Mestre hoje, então tenho de insistir em que aceites a minha prenda sem queixumes! É uma ordem"

"Bem... também tenho aqui uma coisa para si..."

"Oh?"

Aléria tira de dentro das suas vestes um pequeno objecto, que lhe entrega às escondidas.

Ignatius pega no pequeno objecto e examina-o. Trata-se de um pequeno pénis erecto, forjado em latão.



"Aléria!?"

"Para lhe dar sorte!" responde Aléria com um sorriso, e olha na direcção de Aquila.

Ignatius segue o seu olhar, vê Aquila à distância, a tentar acalmar as crianças. Aquila repara nele, e sorri-lhe também à distância.
Ignatius parece não saber se há-de parecer chocado, ou embaraçado.

"Io Saturnalia, Aléria!"

"Io Saturnalia, Ignatius."
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