Pataniscas Satânicas

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domingo, 7 de fevereiro de 2016

Hedy Lamarr, a cientista esquecida

Uma das actrizes mais famosas dos anos 40 é a razão pela qual podemos ver fotos de gatos no telemóvel? O papel das mulheres no cinema e na ciência? Estou a meter o pé numa discussão para a qual não estou equipado?

Vamos falar sobre isso!


Ok, ponham a mão no ar quem souber quem é a Hedy Lamarr!

Não estou à espera que sejam muitos.


Hedwig Eva Maria Kiesler nasceu em 1914 em Viena, e a sua beleza rapidamente fez com que fosse notada pelo produtor de cinema Max Reinhardt, que a levou para Berlim para onde iniciou a sua carreira como actriz.

Em 1933 entra no filme Ecstasy, que inclui uma controversa cena de sexo onde Hedwig Kiesler tem um orgasmo, e várias cenas de nudez.



O seu primeiro marido Fried Mandl era um homem ciumento e controlador, que era fortemente contra o facto de ela ter simulado uma cena de sexo em Ecstasy, e que mantinha Hedwig confinada à sua casa como uma prisioneira.

Hedwig foge para Paris em 1937 onde conhece Louis B. Mayer, da Metro-Goldwyn-Mayer.
Mayer sugere que Hedwig Kiesler mude o seu nome para Hedy Lamarr, e a sua carreira de actriz em Hollywood dispara.


Hedy Lamarr estreia-se em Hollywood com Algiers (1938), que foi um sucesso nacional. Hedy Lamarr viria a participar em mais 18 filmes entre 1940 e 1949, sendo invariavelmente escolhida para representar mulheres sedutoras de origens exóticas. Lamarr contracenou com os mais populares actores principais da época, tais como Clark Gable, Spencer Tracy, John Garfield e Robert Young.



Hedy Lamarr foi tão popular nesta altura, que os criadores de Batman, Bill Finger e Bob Kane, inspiraram-se na sua figura para criarem a personagem da Catwoman.


O seu maior sucesso terá sido em Samson and Delilah, uma mega produção de Cecil B. Demille, onde contracenou com Victor Mature, e que viria a ser o filme mais rentável de 1949.


E pronto, agora já sabem quem foi a Hedy Lamarr.


Ou sabem?

E se eu vos disser que durante a Segunda Guerra Mundial um dos principais problemas para os Aliados era a capacidade que os Alemães tinham de bloquear os sinais de rádio, disrompendo assim as comunicações dos Aliados.

E e eu vos disser que em 1942, Hedy Lamarr juntamente com George Antheil, um compositor avant-garde, patenteiam tecnologia de Espectro de Difusão em Frequência Variável, que permitia aos sinais de rádio dos Aliados resistirem às tentativas alemãs de disrupção.


A tecnologia de telecomunicações desenvolvida por Hedy Lamarr permitiria ainda que os torpedos rádio-guiados dos Aliados não sofressem interferências, e assim fossem capazes de acertar mais vezes nos seus alvos.

Apesar de a Marinha Americana não ter chegado a aplicar esta tecnologia aos seus torpedos, a tecnologia de Espectro de Difusão em Frequência Variável viria a ser a base para o Espalhamento Espectral, que hoje tem aplicações técnicas em GPS, Bluetooth, telemóveis, e redes de WiFi.





Portanto, se estão neste momento a ler isto num smartphone ou tablet (e as nossas estatísticas dizem-nos que cerca de 27% de vocês o fazem) o facto de poderem fazer isso deve-se a tecnologia desenhada e desenvolvida por Hedy Lamarr.


Hedy Lamarr foi uma mulher extremamente inteligente, cujas contribuições para a ciência foram quase inteiramente esquecidas e eclipsadas pela sua carreira de actriz.

É uma pena.
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quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Eleições nos EUA2016 - Bernie Sanders, The Longshot

Ok, então vamos actualizar os acontecimentos na novela que eu ando a acompanhar pelo Youtube, que se chama:

'Quem é que vai ser o próximo presidente americano?'



No post sobre porque é que estas eleições são importantes, tentei usar as consequências da presidência de George Bush, para justificar a importância das presidenciais americanas de 2016.

Se George Bush foi mau, preparem-se para Donald Trump.

Donald Trump (um independente que quer ser o candidato republicano) seria o mesmo que um George Bush viciado em insultos, cocaína e no próprio ego. Parece-me que é fácil apresenta-lo como um personagem chaotic evil. Ele tenta dizer que se acha um 'nice guy', mas quando diz coisas como estas:





Obama não foi um mau presidente, a impulsionar algumas políticas sociais, a abordar a política externa de outra maneira. E era bom que isso pelo menos se mantivesse assim.

Apesar de Donald Trump, há indicadores de que esta não é uma aspiração impossível. E pode mesmo acontecer o mesmo que em 2008 (com Barack Obama a roubar a nomeação à então candidata consensual do Partido Democrata - Hillary Clinton). Se Hillary Clinton perder a nomeação Democrata, e não for nomeada pelos Democratas para a presidência (ela é a favorita), a escolha só pode recair sobre um homem:

Bernie Sanders.

''Quem?''

Nunca ninguém ouviu falar do velhote afável e despenteado do Vermont.


Bernie Sanders tem uma vantagem significativa em New Hampshire, e esteve muito, muito, perto de ganhar o Iowa.

O empate foi tão grande que vários delegados tiveram que ser decididos através de moeda ao ar.

A sério. 6 delegados foram decididos através de moeda ao ar. Hillary ganhou os 6.

Ás vezes é preciso ter sorte...

Se Bernie Sanders for eleito, os americanos vão ter um Socialista na Casa Branca.
O que não tem precedentes nos EUA.

That is no small thing.

Bernie Sanders promete aumentar substancialmente o salário mínimo, passar legislação para regular e aumentar impostos sobre Wall Street, criar um ''Sistema Nacional de Saúde'' (single payer) americano, e quer tornar as universidades (públicas) gratuitas para todos os estudantes.


E talvez o mais importante: Sanders não aceitou donativos de grandes empresas ou bancos.
O dinheiro da campanha vem mais de 2 milhões de pequenos donativos.

Para alguém ser eleito nos EUA, é preciso dinheiro para a campanha eleitoral.
Aceitar donativos de grandes empresas/bancos, é quase obrigatório.

Em 2016, só há 2 candidatos que não aceitam dinheiro de grandes interesses instalados.

Bernie Sanders, e... Donald Trump. O primeiro porque não se quer comprometer, o segundo porque é bilionário.


Uma população que ainda está escaldada do crash de 2008, vai ter isso em consideração na altura de votar. Os bancos e Wall Street não gozam de boa reputação nos EUA neste momento.


Nesta narrativa, Bernie tenta apresentar-se como sendo lawful good
Durante um debate, num momento em que se escrutinava Hillary sobre o escândalo dos emails, Bernie teve esta erupção:


Ele está a tentar com que não se desvie a conversa para um escândalo profissional da sua principal adversária, uma situação que o iria beneficiar. E desata num rant sobre como oligarquia que controla o sistema político Americano esmagou a classe média, e que isso é que é importante, não um escândalo de tablóide.

Apesar de um apoio muito forte das camadas mais jovens, Bernie tem 3 obstáculos para ultrapassar, se quiser ser o candidato do partido democrático:

1 - Pouco apoio dos cidadão de meia idade e idosos (os chamados 'baby boomers').

2 - As minorias não estão com ele. Aparentemente, os hispânicos e os afro americanos estão renitentes em votar num velhote judeu branco, depois de terem eleito o primeiro presidente jovem negro e católico na história dos EUA.

3 - O argumento do voto útil. Usar as circunstâncias para justificar decisões que normalmente seriam fundadas em valores e políticas. Aqui o argumento é: ''É melhor votar na Hillary, porque um socialista em eleições gerais, perde certamente. E neste caso perde com Donald Trump...''

Este argumento ganhou tracção contra Bernie.


Mas no fim do dia, acho que o que vai decidir o futuro de Bernie é a percepção que a população tiver dele. Porque ser anti sistema, apela a muita gente, mas temos o sistema contra nós. Por definição.

1992 
Previsivelmente, como tantas vezes no passado, quem tenta lutar contra o sistema, é chamado de maluco e extremista. Aliás, neste caso, já está a acontecer, com muita gente a acusar Bernie de ser um comunista que quer matar os ricos e subsidiar a mediocridade. Tudo porque Sanders quer um sistema de saúde universal e educação pública gratuita, coisas que na Europa são perfeitamente aceites pela Social Democracia (apesar do corte ocasional...).


Mas depois vemos coisas como esta, que testemunham a likeability (mal traduzido, 'gostabilidade'), deste candidato.


Até há pouco tempo, ninguém admitia que ele tivesse qualquer hipótese, mas hoje há indícios de que Bernie Sanders pode vir a ser o próximo Barack Obama.

As sondagens dão uma vitória apertada a Hillary nas primárias,  mas em Novembro passado, uma simulação de eleições numa Universidade Americana (Western University), previu não só a nomeação pelo partido Democrata, mas a vitória de Bernie Sanders em eleições Nacionais Gerais.

Esta Universidade fez um estudo parecido há 8 anos, e previu a vitória de Barack Obama. Toda a gente se riu dos estudantes na altura... contra todas as expectativas, Obama ganhou as eleições.

No último debate democrata, Hillary começou a atacar Bernie Sanders. A atacá-lo de maneira injusta, o que se poderia virar contra ela. Ela sabia isso, mas arriscou na mesma.

Para já, não lhe podia ter corrido pior. Hillary acusou Bernie de falta de lealdade a Obama.

A reacção de Sanders, um olhar de lado em incredulidade, tornou-se viral nas redes sociais.


Outros factores que podem ser importantes. Há cada vez mais figuras públicas a apoiar Bernie.
Mark Rufallo, Will Ferrell, Danny DeVito, Sarah Silverman, Steve Wozniak.... entre muitos.

Dia 28 de Dezembro de 2015 o Samuel L Jackson dizia: ''Bernie can't win'' e apoiava Hillary.
Depois de ver a sua conta do Twitter explodir, dia 29 de Dezembro, já a conversa era outra.

As eleições Americanas de 2016 podem depender de factores que até a um passado recente não existiam, ou não estavam tão difundidos. Como as redes sociais. Isso pode fazer com que o resultado seja tão improvável como a maneira como o rapper Killer Mike decidiu apoiar Bernie Sanders.

Deixo-vos com o ad da campanha de Bernie Sanders que gostei mais:


Art Garfunkel - ''I like that Bernie is very upset by the gap between the rich and the poor. I think that is central. When Bernie says: ''Hillary gave a speech and got 275.000 dolares for that speach...''.
You've got to give a very good speech to earn that kind of money...  He's winking at: we know the power of whoever backed her. And that's how America works.

Until somebody says: ''Not with me.''

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Dito isto, é altura de acabar numa nota mais sóbria.
Bernie Sanders é um longshot. É pouco provável que ele seja eleito. O establishment tem maneiras de dar a volta a estas situações, quer seja por falta de cobertura noticiosa, ou através de ferramentas como os superdelegates, que apoiam Hillary.

Mas!... coisas estranhas acontecem, por vezes.

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terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Eleições nos EUA2106 - Donald Trump, o Vilão mal escrito

As parvoíces do Donald Trump? Que hipóteses têm o Trump de Vencer? Porque é que sequer isto está a acontecer?

Vamos falar sobre isso!


Há vários tipos de vilões, e várias maneiras de escrever um vilão.

Há muitos truques para o tornar interessante, como por exemplo torná-lo um reflexo do herói ou dar-lhe características com as quais nos possamos identificar.

No geral, é mais fácil estragar um vilão do que um herói.

Na maior parte das vezes a motivação "fazer o bem" é razoavelmente aceite como suficiente para levar o Herói a levantar-se da cama de manhã.

Por outro lado um vilão cuja única motivação é "fazer o mal" parece-nos aborrecido e uni-dimensional.

É o típico vilão de capa preta e chapéu preto que ata a donzela aos carris do comboio só porque isso é mau. Há motivos pelos quais este tipo de vilão é considerado antiquado e ultrapassado.


Portanto um vilão que seja exageradamente mau e pérfido, sem aparente motivo, e cujos exageros de maldade nos pareçam irrealistas, é um vilão pouco credível e por conseguinte pouco interessante.

O Donald Trump é um péssimo vilão.

Começa logo por se gabar de que é rico.

"I don’t need anybody’s money. I’m using my own money. I’m not using the lobbyists. I’m not using donors. I don’t care. I’m really rich." - Donald Trump


É misógino:

"All of the women on the apprentice flirted with me – consciously or unconsciously. That’s to be expected." - Donald Trump



É racista:

"Laziness is a trait in blacks" - Donald Trump

"Black guys counting my money! i hate it. The only kind of people i want counting my money are little short guys that wear yarmulkes every day." - Donald Trump

...anti-semitismo? A sério?

"According to bill o’reilly, 80% of all the shootings in new york city are blacks — if you add hispanics, that figure goes to 98%, 1% white." - Donald Trump

"When mexico sends its people, they’re not sending their best. They’re sending people that have lots of problems. they’re bringing drugs. they’re bringing crime. They’re rapists." - Donald Trump

"I will build a great wall — and nobody builds walls better than me, believe me —and i’ll build them very inexpensively. I will build a great, great wall on our southern border, and i will make mexico pay for that wall. mark my words." - Donald Trump


É contra a vacinação..


E aparentemente não percebe bem como funciona o aquecimento global

"It's freezing and snowing in New York - we need global warming" - Donald Trump


Ah, e também não gosta de muçulmanos, e quer um "total and complete shutdown of Muslims entering the United States”, sugerindo até que deviam ter “a special form of identification that noted their religion.


O homem chega ao ponto de gozar com os deficientes!


Não... definitivamente não. O Donald Trump não funciona como vilão.

É demasiado exagerado, é demasiado estúpido, as coisas que diz são demasiado maléficas para serem credíveis, e a maneira como as diz é ridícula e risível.

Simplesmente não convence como vilão.

Infelizmente, como candidato à presidência dos Estados Unidos da América é aparentemente muito convincente.


A popularidade de Donald Trump como candidato aumentou consistentemente durante toda a sua campanha, como agora está não só à frente da corrida, como leva um avanço de mais de 15 pontos percentuais à frente do segundo candidato mais popular!

Como eu costumo dizer, a realidade é só má escrita.



Uma teoria possível para explicar este fenómeno de popularidade é o facto de que Trump reúne em si mesmo vários dos aspectos que os actuais e anteriores candidatos têm usado para apelar à sua base eleitoral, mas sempre em separado.

A demonização dos imigrantes e das minorias religiosas, o ataque aos direitos das mulheres, e a negação da ciência foram sempre pontos de venda dos Republicanos a uma população razoavelmente inculta, mas nunca um candidato tinha tido a coragem de apelar a todos esses ao mesmo tempo por medo de ser demasiado politicamente incorrecto.

Donald Trump simplesmente não tem esse medo, e contra todas as expectativas isso parece estar a funcionar bem para ele.


A base eleitoral do partido republicano é composta maioritariamente por uma população branca, de classe média-baixa, colarinho azul, que olha com desconfiança para os políticos engravatados nas suas torres de marfim.

Trump, apesar de ser bilionário, apresenta-se claramente contra-estabelecimento, quase como um independente, algo que lhe vale várias críticas por parte dos outros candidatos republicanos.

Isto, por sua vez, só torna Trump ainda mais popular entre os eleitores.


Portanto, aquele que ao início parecia ser o candidato mais ridículo e com menos hipóteses de ganhar, transformou-se no candidato ainda mais ridículo e com mais hipóteses de ganhar.

Naturalmente que ainda muito pode mudar, mas só a possibilidade de termos o Donald Trump como candidato republicano é assustadora.

Não nos esqueçamos do que aconteceu da última vez que um idiota lá chegou.

Não percam os nossos próximos artigos sobre as presidenciais americanas!
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quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Pendurar o Abajur nos Tropos

O que são Tropes? Abusar do código da linguagem? Pendurar Abajurs? Mais uma desculpa para falar da Marvel?

Vamos falar sobre isso!



A semana passada falei de como a Marvel usava os seus Heróis para comentar acerca do seu próprio mundo, e falei de Lampshading, mas não expliquei exactamente o que era.

Para falar de Lampshading tenho primeiro de explicar o que são Tropes.

Contrariamente ao que possam ter lido, um Trope não é exactamente a unidade narrativa da consciência humana.

Isto abre-nos a porta para um buraco sem fundo na qual nos podíamos perder durante dias, mas vou tentar não fazer demasiadas tangentes e mesmo assim mostrar-vos quão funda é esta toca-do-coelho.


Portanto, para começar, e para verem quando eu digo que o buraco é fundo, temos de começar por perceber o que é a Linguagem!

Linguagem pode ser definida como um sistema formal de sinais, governados por regras gramaticais de combinação para comunicar significados.

Por outras palavras, quando surgem ideias neste aglomerado de neurónios que está preso dentro do meu crânio, é complicado fazer com que essas ideias surjam dentro do crânio de outra pessoa. 
Para isso precisamos de um código que traduza essas ideias de uma maneira que faça sentido, e depois usar esse código para atravessar o espaço entre dois crânios e transportar com ele uma ideia que se vá implantar no aglomerado de neurónios de outra pessoa, para que ela possa pensar o que eu estou a pensar.

Linguagem não é uma língua. Língua é só um código para a linguagem, como o português ou o código morse.
Linguagem é uma estrutura, a ferramenta que permite que os conceitos possam ser codificados e combinados de maneira a fazerem sentido, e a comunicarem significados ou ideias específicas.


A linguagem é uma excelente ferramenta para descrevermos o mundo à nossa volta.
Se eu quiser descrever um tomate digo que é "vermelho" dado que essa é a palavra que define a sua cor. Se eu quero transmitir que uma coisa tem a cor do tomate, uso a palavra "vermelho", porque é esse o seu significado. Não posso usar "verde" ou "telefone".

É Linguagem Literal, na qual cada palavra é usada exactamente de acordo com o seu significado e definição. "Vermelho" significa vermelho independentemente do contexto.


Mas nós somos Macacos Espertos, e quando temos ferramentas à mão vamos experimentar com elas e ver se as conseguimos descobrir-lhes outros usos.

Se eu disser "um nariz de tomate" não estou a dizer que o nariz é um fruto com uma rama verde. Estou a dizer que o nariz é vermelho, como a cor do tomate. No entanto não usei a palavra vermelho.
O significado foi transmitido apesar de usar palavras para um sentido que não o da sua definição estrita.

Nariz de Tomate Literal
É Linguagem Figurativa, na qual as palavras são usadas fora das suas definições próprias de maneira a atingir uma compreensão mais complicada ou um efeito aumentado. Na Linguagem Figurativa as palavras são apresentadas de forma a serem equacionadas, comparadas ou associadas a outras palavras ou significados normalmente não relacionados.

Linguagem Figurativa não é necessariamente verbal.
Qualquer código, mesmo de imagens, pode criar um conceito para lá do seu sentido literal.
Quando os Macacos Espertos descobrem que não precisam de estar presos ao sentido literal da linguagem, e que podem abusar das suas regras para construir ideias irreais mas igualmente (ou ainda mais) significativas, abrem-se as portas a todo um mundo de Arte.

Um Tropo define-se como o uso da Linguagem Figurativa com um fim artístico.

Ou seja, quando brincamos com as regras da linguagem para construir um significado não-literal, essa estrutura que usámos é um Tropo.

Melhor ainda, as figuras de estilo que aprendemos na escola são Tropos.

Uma Metáfora, por exemplo, é a caracterização de uma coisa por associação a outra coisa, com uma comparação implícita

"Amor é fogo que arde sem se ver" - Camões

Aqui o que interessa é a estrutura de que [coisa] = [coisa semelhante]. 

Não interessa realmente que [coisa] seja, desde que esta estrutura seja cumprida estaremos a usar o Tropo Metáfora.

Metáfora Visual
Ou por exemplo, Ironia define-se como dizer o oposto do que se pretende deixar entender.

A estrutura da Ironia é [coisa] = [oposto de coisa].

"Today was a very cold and bitter day, as cold and bitter as a cup of hot chocolate" - Lemony Snicket


Ou seja, Tropos são estas formas específicas de organizar ideias que criam uma expressão artística.

De acordo com Kenneth Burke, um dos mais importantes teóricos literários do século XX, a Metáfora, a Ironia, a Metonímia e a Sinédoque são os quatro Tropos Mestre.

Naturalmente que existem mais.

Todos os artifícios narrativos, como por exemplo os Flashbacks (Analepse) que são uma sequência narrativa cinematográfica ou literária relativa a uma acção ou facto passado em relação à narração, não deixam de ser apenas formas específicas de organizar ideias para criar uma expressão artística, e por isso são também Tropos.

Entendidos desta forma, os Tropos são muitos, mas mesmo muitos.



Os Tropos são tão variados como divertidos, incluindo (escolhidos aleatoriamente) o Caranguejo Inimigo Gigante, a Vigília Contínua, ou a Descompressão Explosiva.

Todos estes Tropos têm funções narrativas próprias e a maior parte deles são tão prevalentes e transversais a todas as obras, que quando se começarem a aperceber deles, não conseguem deixar de os ver em todo o lado.


Um dos meus Tropos preferidos é o Lampshading, ou Lampshade Hanging.

Imaginem que estão a escrever uma história, e na vossa história há um elemento que é particularmente exagerado, ridículo, forçado ou improvável mas que não podem excluir para que o enredo funcione.

O problema destes elementos exagerados ou improváveis é que fazem com que a audiência repare neles e pense que não fazem sentido. Isso é mau porque não só gera uma quebra da suspensão da descrença, e porque a audiência fica a pensar que você escreve mal.

Uma excelente solução para este problema é pôr as suas personagens a chamarem a atenção para o facto de que as coisas são improváveis ou exageradas, ou, dentro deste tipo de linguagem, a Pendurar um Abajur no problema (Hanging a Lampshade).


É um reconhecimento de que esse elemento é improvável e exagerado mesmo dentro do mundo ficcional no qual as personagens estão inseridas. 
Adicionalmente, fazer as personagens ecoarem o que a audiência está a pensar é uma excelente maneira de as tornar mais relacionáveis, e se for bem executado resulta numa boa piada.


Poderiam até pensar que este é um Tropo recente, para uma audiência mais calejada e que conhece os truques todos, mas não. O próprio Shakespeare já reconhecia a utilidade do Lampshading

Sir Toby Belch: Is it possible?
Fabian: If this were played upon a stage now, I could condemn it as an improbable fiction.
— Shakespeare, Twelfth Night, Act 3, Scene IV

Para terminar, deixo-vos agora com uma selecção dos meus Lampshadings preferidos do Universo Marvel!

O vilão Obadiah Stane faz lampshading de quão irrealista é o facto de que o Tony Stark tenha conseguido construir o Arc Reactor, uma tecnologia incrivelmente avançada, sem meios nenhuns

Para que o enredo funcione, o filme precisa que o Thor seja retirado de cena, e o vilão Loki engana-o com um mesmo truque de ilusão que já tinha usado no primeiro Thor, e depois faz lampshading de quão improvável seria que ele caísse na mesma armadilha duas vezes.



Guardians of the Galaxy (2014)
Grande parte do enredo anda à volta de tomar possessão de um objecto (a Orb), sem que este tenha qualquer outra função para além de fazer o enredo andar para a frente, o que faz dele um MacGuffin. O protagonista Peter Quill faz Lampshading deste facto, comparando a Orb a outros Macguffins famosos do cinema.

Peter: So this Orb has a real shiny blue suitcase/Ark of the Covenant/Maltese Falcon sort of vibe, what is it?


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