Pataniscas Satânicas

Pataniscas Satânicas

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

O que é a Consciência - Parte II

Bem vindos à parte II da nossa exploração pelos meandros crípticos da natureza da consciência humana!

Recomendo vivamente que leiam a parte I, onde tínhamos concordado numa definição de consciência que era o estado mental que permite não só percepcionar subjectivamente a informação que nos chega do exterior através dos sentidos, mas também percepcionar estados internos como emoções e ideias, e integrar toda essa informação numa experiência fluida de pensamento interior caracterizada por um sentimento de "eu" que permite interpretar, aprender e interagir com o mundo.

Também ficámos a perceber que a Consciência é composta por ferramentas cognitivas, que estas ferramentas cognitivas estão dispersas por várias zonas específicas do cérebro, e compreendemos de que maneira estas várias zonas comunicam entre si quando surge um estímulo.

O próximo problema que temos de resolver é como é que isso tudo se junta para que uma coisa se torne de facto consciente.

Outra maneira de fazer a pergunta é "que vantagem evolutiva é que a consciência traz, para sequer ter evoluído em primeiro lugar?"


Temos todos a noção clara de que os animais têm instintos. Comportamentos que não precisaram de ser aprendidos e que contribuem para a sobrevivência do animal, como os bisontes bébés que sabem andar 30 minutos depois de nascerem ou os bébés que sustêm a respiração debaixo de água e parecem saber nadar sem nunca serem ensinados.

Estes comportamentos inatos nascem de programas e valores codificados (provavelmente geneticamente) no Tronco Cerebral e no Sistema Límbico.
O Tronco Cerebral e o Sistema Límbico são duas partes muito primitivas do nosso cérebro, responsáveis pela nossa sobrevivência, e que controlam coisas muito básicas como o batimento cardíaco ou emoções primárias como a agressividade.

Por outro lado temos o sistema Córtico-Talâmico, que, como já vimos, é responsável por receber e interpretar todas as informações sensoriais que chegam do exterior. É também uma estrutura muito mais moderna evolutivamente falando.

Tronco Cerebral e Sistema Límbico
Portanto vamos voltar a pegar no exemplo da Pareidolia de que já falámos no artigo anterior.

Sabemos que o reconhecimento de caras é inato, porque um bébé com 1 mês já procura a cara da mãe.
Assumimos então que este programa de reconhecimento tem por base exemplos codificados geneticamente no seu Sistema Límbico/Tronco Cerebral, porque ainda não teve tempo de os aprender.

Quando o bébé olha em volta, essa informação sensorial é enviada ao complexo Córtico-Talâmico que interpreta a informação e correlaciona-a com os exemplos previamente codificados no Sistema Límbico-Tronco Cerebral. Se a informação nova que está a receber for suficientemente semelhante com o exemplo codificado, então fica positivamente assinalada como sendo uma cara.

Ou seja, o que está a ser percepcionado na realidade é comparado aos exemplos previamente codificados criando uma Memória Conceptual do que uma cara é.

As percepções imediatas do bébé, quando ele olha para o que está à sua volta, são então comparadas a esta Memória Conceptual previamente estabelecida. Isso permite ao bébé aperceber-se conscientemente das caras á sua volta nesse momento, e reagir a elas.

Por outras palavras, esta correlação instantânea entre a Memória Conceptual e as percepções contínuas leva a uma forma de "Presente Lembrado" ou uma Consciência Primária ou Sensorial.


É uma forma de Consciência simples, muito mais sensorial, mas finalmente uma consciência que começa a encaixar na nossa definição inicial.
Concentrem-se no ar que estão a respirar, na sensação da roupa no vosso corpo, cheirem algum odor no ar, olhem para um objecto e reparem na cor dele, lembrem-se da sensação de dor quando se picam. Estas são as coisas que se tornam reais na Consciência Primária.

O Sistema Tronco-Cerebral/Límbico toma conta do funcionamento essencial do corpo e da sua sobrevivência, enquanto que o Sistema Tálamo-Cortical recebe sinais de receptores sensoriais e envia sinais para os músculos voluntários, como os dos braços e pernas.
Estes dois sistemas desenvolveram-se em conjunto porque ao permitirem uma consciência primária, isso ajudava os organismos a planearem comportamento adaptativo num ambiente complexo e mutável, o que era uma enorme vantagem evolutiva.

Reagiam melhor a situações de perigo, tinham uma melhor avaliação dos riscos à sua volta, conseguiam decidir melhor em situações ambíguas, porque tinham ganho consciência deles.

Mas isso significa que essas sensações de alguma forma transformam-se de uma coisa neuro-química numa coisa... sensorial? Mental?


Uma coisa é toda a complexidade de reacções neuroquímicas que acontecem nos neurónios, quando informação viaja dos olhos para o córtex occipital. Isso é fácil de explicar recorrendo à neurobiologia.

O que é mais difícil é explicar porque é que essas reacções neuroquímicas, que acontecem quando olho para um morango, se traduzem em sensações subjectivas, como o vermelho.

Estas sensações subjectivas (chamadas Qualia) são o que definem a nossa experiência do mundo. O calor, uma textura, a cor vermelho, distintas umas das outras, com as suas características próprias.

O que acontece é que esses estímulos provenientes dos mecanismos neurobiológicos subjacentes (os neurónios, onde tudo isto está a acontecer) são examinados por aquele mecanismo de Presente Lembrado e entram na Consciência Primária. Quando a Consciência Primária começa a avaliá-los (e a torná-los conscientes) é obrigada a discriminá-los e distingui-los uns dos outros.
Esta riqueza sensorial em que vivemos é uma ilusão criada pela nossa consciência primária para conseguir discriminar os sinais exteriores de maneira útil.

Ou seja, os Qualia são na realidade outra ferramenta cognitiva (roda dentada) que ajuda a discriminar e a interpretar o mundo lá fora, quase da mesma maneira que o Programa de Reconhecimento de Caras nos ajuda a ver caras em torradas.

Portanto agora percebemos a ideia de que a consciência é composta por ferramentas cognitivas, estas estão localizadas em estruturas específicas do cérebro, percebemos como é que surge uma Consciência Primária a partir da interação do Tronco/Límbico-Tálamo/Cortical, e até percebemos que estas sensações subjectivas, como o calor ou o vermelho, que nos vêm de fora são ilusões cognitivas para discriminar sinais neuroquímicos.

Restam duas perguntas muito importantes: como é que estas rodas dentadas todas se unem para fazer isto que experienciamos todos os dias como consciência? e de onde vem esta noção de "EU"?
Estamos quase a chegar ao fim desta salganhada de meta-pensamento. Não pergam a terceira e última parte!






Não, a sério, já pensaram? Estão a pensar sobre pensar. É a vossa consciência a questionar-se como é que funciona.

É quase melhor do que a ideia de que quando pensamos no Universo isso é o Universo a pensar sobre si mesmo. Porque isso significa que a Consciência é o Universo e está a pensar sobre como funciona a Consciência que também é o Universo, o que significa que é o Universo sob a forma de Consciência a tentar compreender-se a si mesmo por intermédio de compreender a sua própria Consciência...

Trippy.
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terça-feira, 18 de agosto de 2015

Gravity - The Sequel

Eu gosto imenso do filme Gravity (2013), mas foram perdidas oportunidades douradas com o fim do filme.



O Gravity é um filme excelente. Não me vou alongar muito a explicar porquê, mas para além dos efeitos especiais excelentes e das óptimas interpretações, a narrativa está extremamente bem construída.

Já falei com pessoas que não gostaram do filme porque dizem que não se passa nada durante o filme. Isto é rigorosamente verdade, mas se não conseguem ver para além disso e perceber de que maneira o filme é excelente, então têm de começar a alargar o leque de coisas a que prestam atenção num filme, porque este filme merece ser apreciado.

A história começa com a Sandra Bullock no espaço, a reparar um satélite, quando os russos fazem explodir um dos seus próprios satélites e os destroços vão chocar contra a nave espacial da Sandra Bullock.
A partir desse momento todos os problemas que surgem são ramificações lógicas desse problema inicial, que a Sandra Bullock tem de ir resolvendo um atrás do outro para sobreviver.


A genialidade do filme está na maneira como a tensão é criada e mantida durante tanto tempo, em tantas cenas.

Uma armadilha que frequentemente ameaça este tipo de filmes é a tentação de criar demasiados problemas.
Alguns problemas são bons porque vão criando picos de tensão que depois podem ser resolvidos.
Demasiados problemas, uns atrás dos outros, podem tornar-se ridículos.

O exemplo disto que eu me lembro sempre é o Dancer in the Dark (2000).


Acontece tanta desgraça atrás de desgraça à Björk que para mim o filme acaba por se tornar ridículo.

(SPOILERS)

Trabalha numa fábrica, está a ficar cega, é despedida, acusada de estar a roubar, tiram-lhe o filho, descobre que o filho também vai ficar cego, ninguém a ajuda no tribunal, e no fim é enforcada.

A determinada altura já lhe aconteceu tanta coisa que só consigo começar a imaginar que lhe vão começar a cair bigornas na cabeça, porque tudo o resto que podia acontecer já aconteceu.

Para mim o Gravity anda por vezes perigosamente perto desta armadilha, sem nunca no entanto cair nela.

SPOILERS

Mesmo no fim, depois de ela ter conseguido passar por duas naves espaciais sempre com problemas, depois de conseguir entrar na atmosfera da terra, e se despenhar num lago, a sua cápsula afunda-se e ela começa a afogar-se porque o fato a puxa para baixo.
Depois vai a nadar à superfície e quase que começa a ficar presa nas cordas do pára-quedas.
Depois ainda tem de nadar até à margem antes de estar fora de perigo.



Foi nesta altura que eu comecei a imaginar que ia aparecer um crocodilo para a morder.
Isso felizmente não acontece, mas foi o que me fez pensar que se perdeu uma oportunidade fantástica.

Imaginem:

A Sandra Bullock está deitada na areia da praia, quando subitamente olha para cima e vê um Tiranossauro a aproximar-se dela.
E o filme acaba aí!

Isso seria tão ridículo como espectacular, e seria uma deixa fantástica para a sequela.

Sequela essa que eu imagino que seria assim.

A Sandra Bullock tem de sobreviver num mundo onde aparentemente há dinossauros de todas as espécies.
Inicialmente tem imensas dificuldades mas depois de se tornar feral, consegue começar a comunicar com dinossauros e torna-se amiga deles, descobrindo que são criaturas amigáveis e dóceis.



Depois a determinada altura aparecem soldados em veículos que lhe matam o tiranossauro preferido e raptam-na, levando-a para uma cidade ultra-futurista.

Lá a Sandra Bullock descobre que é prisioneira de um regime fascista Orwelliano, que lhe faz uma lavagem cerebral e treina-a para ser uma super-assassina.

Enviam-na para matar os líderes da resistência, mas é capturada. Prisioneira da resistência a Sandra Bullock apaixona-se pelo corajoso, porém distante, líder da resistência, e deixa de estar lavada cerebralmente, juntando-se alegremente à Resistência.



A Resistência organiza um ataque ao Regime Fascista, apenas para descobrir que todos os seus soldados são na realidade robots controlados por uma Inteligência Artificial maléfica.

Depois de usar dinossauros para lutar contra os robots e ganhar, a Sandra Bullock descobre que afinal tinha sido a Inteligência Artificial maléfica que tinha criado o portal interdimensional através do qual a Sandra Bullock caiu para vir parar a este mundo.

Depois de se despedir chorosamente do Líder da Resistência a Sandra Bullock atravessa o portal para regressar ao seu mundo.

Depois de uma sequência psicadélica de luzes a Sandra Bullock emerge no Oeste Americano, onde encontra o Marty McFly, com o Bill e o Ted no banco de trás.


Fim
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domingo, 16 de agosto de 2015

Músicas daqui para ali - dia 15

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Artwork by Bob - "Miss Snugglebites", claws on toilet paper


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Thor of the Rings

Os filmes do Thor são o Lord of the Rings in SPAAACE.

De entre os filmes Marvel, os filmes do Thor são geralmente reconhecidos como sendo dos mais fraquinhos, a par do único filme do Hulk.


Grande parte da culpa disto reside no herói titular, o Thor, que é bastante desinteressante no geral.
Até o Capitão América, que representa o escuteiro bem comportado, consegue ter mais profundidade do que o Thor, que por muito bad-ass que seja, tem uma personalidade quase inexistente e motivações extremamente superficiais e que raramente vão além de "MUST DO GOOD".


(eu queria falar do Loki como vilão e força motriz narrativa destes filmes, mas isso merece um posto inteiro só para isso)

No entanto, apesar de não serem os filmes com a narrativa mais complexa, os filmes do Thor, e sobretudo o segundo filme, o Thor: the Dark World (2013) (TDW) compensam isso sendo os mais complexos visualmente e aqueles com um worldbuilding mais notório.

O mundo do Thor é superficialmente inspirado na mitologia nórdica, mas para além de alguns comentários no sentido de a tecnologia ser tão avançada que parece magia, pouco mais é explicado explicitamente acerca do mundo.
O mundo e o ambiente são caracterizados através dos elementos visuais que surgem no ecran e que têm o objectivo de criar uma experiência e sensações específicas.

Especificamente, o mundo criado é um de fantasia misturado com elementos de ficção-científica espacial, resultando num filme que pode ser descrito como Elfos Alienígenas em naves futuristas a lutarem contra Vikings do Espaço em barcos voadores com lasers, e se isto não vos parece a coisa mais divertida de sempre então podem ir ver filmes do Truffaut.


Mais especificamente ainda, a maior parte dos elementos visuais são directamente inspirados pelo ambiente visual estabelecido anos antes pelos filmes do Lord Of The Rings (2001) (LOTR).

Passo a exemplificar:

Para começar ambos os filmes têm como problema central um objecto ultra poderoso que tem o potencial para destruir tudo.
No LOTR é o One Ring, no TDW é o Aether!

One Ring - LOTR
Aether - TDW

Os vilões do TDW são os Dark Elves, uma espécie de Dark Elves in SPAAACE, com máscarasolhos escuros (porque o escuro é mau).
Como Elfos que são, não podiam deixar de ter semelhanças significativas com os Elfos do LOTR.

Dark Elves - TDW
Elfos - LOTR

Os bons da fita parecem uma mistura de Anões Guerreiros Orgulhosos, com capacetes de cornos, machados e barbas e a beberem muito.
As suas armaduras são muito parecidas às dos bons da fita do LOTR.

Asgard - TDW

Gondor - LOTR
Rohan - LOTR

Tudo isto é bastante reminiscente da velha guerra entre Elfos e Anões, só que aqui os "elfos" usam armas espaciais de alta tecnologia (armas laser, granadas e naves espaciais) e os "anões" usam armas medievais mágicas (lanças, espadas, esquifes).

Tanto a cidade de Asgard e Minas Tirith são as capitais dos bons da fita e exemplos de Shining Cities.
Asgard - TDW
Minas Tirith - LOTR
Os vilões até têm ambos criaturas gigantes, muito perigosas e difíceis de matar, envoltas em chamas!

Kursed - TDW
Balrog - LOTR

Existem imensos exemplos ao longo do filme, que eu não vou listar porque senão isto nunca mais acabava (e já assim o artigo vai demasiado longo).

Vejam o Thor Dark World e de certeza que vão reparar em imensos pormenores.

Para mim o mais interessante é isto:

Como já disse antes, a Marvel está a transcender o género do filme de Super-Heróis e a transformá-lo numa categoria inteira.
Deixam de ser só filmes de Super-Heróis, passam a ser filmes de Super-Heróis de Acção (Avengers), Super-Heróis de Ficção Científica (Guardians of the Galaxy), Super-Heróis Noir (Daredevil), Super-Heróis Pulp (Agent Carter), etc.

Os filmes do Thor são filmes de Super-Heróis de Fantasia.

As minhas expectativas para o Thor: Ragnarok são muito grandes, e acho que o melhor que poderíamos esperar era que o filme fosse passado inteiramente em Asgard, sem nunca pôr os pés na Terra, para vermos ainda mais deste mundo fantástico!


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sábado, 15 de agosto de 2015

Músicas daqui para ali - dia 14

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sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Músicas daqui para ali - dia 13

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O que é a Consciência - Parte I

A consciência é uma coisa complicada.
Sigam-me numa viagem pela toca do coelho que é a consciência, com base nas teorias mais recentes que por aí andam!

Representação da consciência do séc. XVII

Primeiro temos de concordar numa definição da consciência, e isso por si só seria um artigo inteiro.

Como não queremos passar muito tempo com semântica, vamos só assumir que já imensa gente tentou, durante imenso tempo, definir o que era a consciência filosoficamente, espiritualmente, logicamente, etc.

Até houve uns parvos que tentaram equacionar a Consciência com a Alma.

Basicamente qualquer um de nós percebe intuitivamente o que é a consciência, mesmo que seja difícil defini-la. É pensar e sentir o que se passa dentro e fora de nós mesmos, é uma sensação de sermos nós mesmos, com memórias, emoções, ideias originais e iniciativa.

várias definições, mas para o que nos interessa vamos definir a Consciência Humana como o estado mental que permite não só percepcionar subjectivamente a informação que nos chega do exterior através dos sentidos, mas também percepcionar estados internos como emoções e ideias, e integrar toda essa informação numa experiência fluida de pensamento interior caracterizada por um sentimento de "eu" que permite interpretar, aprender e interagir com o mundo.

wtf?
Agora que estamos todos a falar mais ou menos da mesma coisa, queremos perceber O QUE É a consciência.

Porque do nosso ponto de vista, a consciência é literalmente TODA a experiência da realidade que temos.
Parece que estamos constantemente a ver um filme no qual os nossos olhos são a câmara e os nossos pensamentos estão sempre a analisar e a comentar o que se passa. Experienciamos a realidade num fluxo fluido e ininterrupto de sensações, emoções e pensamentos.

Habitualmente pensamos na consciência desta maneira, como se fosse uma jóia, homogénea, perfeita, indivisível, sem falhas. É assim que a sentimos, é normal que pensemos nela desta maneira.

inescrutável, indivisível

Mas e se em vez disso pensarmos na consciência como um conjunto de rodas dentadas todas a funcionarem ao mesmo tempo? Cada roda a rodar à sua maneira, a interagir com todas as outras ao mesmo tempo?

compreensível, divisível
No entanto não é assim que percepcionamos a consciência. Para nós a consciência é fluida, homogénea, não parece constituída por peças.

Vamos fazer uma experiência!

Olhem para a seguinte imagem e pensem no que é que vêem!

ali, mesmo no meio, um nariz, e uma boca por baixo!
Vêem o céu azul, vêem nuvens e, provavelmente vêem ali uma cara!

Obviamente que não há caras no céu, só nuvens e céu azul, nem as nuvens estão de propósito a fazer caras para nos enganar.

A este fenómeno de ver caras onde elas não estão, damos o nome de Pareidolia.

Se olharmos para qualquer padrão razoavelmente neutro durante tempo suficiente começamos a ver lá caras.
Olhamos para uma carpete e vemos caras, olhamos para um papel de parede e vemos caras, olhamos para uma torrada e vemos a cara do Jesus Cristo.

MILAGRE
Porque é que vemos caras em todo o lado?

Como animais sociais que somos, é uma enorme vantagem evolutiva identificar caras depressa e bem.
Por isso desenvolvemos uma ferramenta cognitiva específica cuja única coisa que faz é procurar coisas que se pareçam com caras em tudo o que estamos a ver.
Este programa de reconhecimento de caras está constantemente, e inconscientemente, a analisar tudo o que nos entra pelos olhos dentro à procura de padrões que se pareçam com uma cara. Quando encontra uma imagem que seja parecida o suficiente aos padrões pré-definidos, envia um alerta que diz "Encontrei uma cara!".

Parece que conseguimos identificar pelo menos uma roda dentada dentro da nossa cabeça.

Até conseguimos encontrar dentro do nosso cérebro onde é que esta roda dentada está!
Quando olhamos para caras, ou coisas que se parecem com caras, há um aumento de actividade numa zona específica do córtex chamada Área Facial Fusiforme.

Ressonância Magnética funcional de uma pessoa a olhar para caras
O que é que podemos concluir daqui?

Que temos ferramentas cognitivas que nos permitem interpretar e avaliar o mundo, que traduzem informação que se torna mais ou menos consciente, e que estão ligadas a áreas específicas do cérebro.

Isto em si mesmo não é nada de novo. Há décadas que conhecemos, por exemplo, a Área de Broca, uma zona no lobo frontal que parece ser responsável pela interpretação e produção de linguagem.
Pessoas que tiveram doenças que de alguma forma destroem a Área de Broca deixam de conseguir produzir linguagem compreensível, apesar de terem o uso completo das suas cordas vocais e conseguirem produzir todos os sons.

Também estamos fartos de saber que o controlo motor e a sensação cutânea estão perfeitamente mapeadas no córtex motor e sensorial, entre outras funções.

Áreas funcionais do cérebro (abram em grande)
Portanto partes da nossa consciência estão definitivamente presas a determinadas áreas do nosso cérebro.
Ainda não foi possível identificar todas estas ferramentas cognitivas, nem perceber onde é que elas se localizam no nosso cérebro, mas há informação suficiente para assumir que é assim que funciona.

Mas como é que essas áreas se relacionam de maneira a criar a consciência?

De acordo com a Teoria do Núcleo Dinâmico, tem tudo a ver com o sistema Córtico-Talâmico.

O Tálamo, uma estrutura específica dentro do nosso cérebro, é onde toas as informações sensoriais do exterior vão parar, e de onde os sinais voluntários são enviados para os músculos. Funciona como uma estação central de comboios, por onde todas as vias neuronais passam para serem redireccionadas para os seus destinos.

O Tálamo está especialmente ligado ao Córtex (a zona mais superficial do cérebro) por milhões de vias neuronais paralelas que levam informação para a frente e para trás (circuitos de re-entrada), entre o Córtex e o Tálamo, e entre várias áreas diferentes do Córtex.

Tálamo, no centro a verde, com conexões para o Córtex
Uma experiência muito engenhosa (de entre muitas, mas esta foi a única que eu consegui compreender) demonstrou que quando uma sensação ou pedaço de informação se torna consciente o Tálamo e várias zonas do Córtex activam-se todas simultâneamente.

Ou seja, e pegando no exemplo da Pareidolia, quando olhamos para um padrão aleatório e o nosso programazinho de reconhecimento de caras dá o alerta de que alguma coisa ali se parece com uma cara, essa informação sensorial vai para o Tálamo e é distribuída a todas as outras zonas do Córtex responsáveis por interpretar essa informação.
Nas palavras dos autores, o cérebro aparenta estar a recrutar várias zonas para "pensar" sobre o estímulo que lhe foi apresentado.

A experiência demonstra que o Tálamo e estas zonas do Córtex não só se activam todas ao mesmo tempo, como essas activações acontecem de maneira sincronizada nestas áreas do cérebro distantes entre si, num fenómeno chamado Ressonância Córtico-Talâmica Recorrente.

A consciência, ou pelo menos as suas partes constituintes, parece estar a acontecer especificamente em várias zonas do cérebro diferentes que se activam de maneira sincronizada.

Qualia, uma das dores de cabeça das neurociências

Portanto agora percebemos que a Consciência é composta por ferramentas cognitivas, que estas ferramentas cognitivas estão dispersas por várias zonas específicas do cérebro, e compreendemos de que maneira estas várias zonas comunicam entre si quando surge um estímulo.

Mas de que maneira é que uma coisa de facto se torna consciente?

Ou melhor como é que estímulos externos, como tocar numa coisa quente ou olhar para o céu, se transformam em sensações conscientes e subjectivas, como o calor ou o azul?

Nestas discussões, estas sensações subjectivas recebem o nome de "Qualia" e esta pergunta é habitualmente considerada o problema difícil da consciência.

Não percam a Parte II onde tento responder a esta e a outras perguntas sobre a consciência!
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quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Músicas daqui para ali - dia 12

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quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Músicas daqui para ali - dia 11

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terça-feira, 11 de agosto de 2015

Músicas daqui para ali - dia 10

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