Pataniscas Satânicas

Pataniscas Satânicas

terça-feira, 1 de março de 2016

A Morte de um Meme

Ali!

Sentiram?

Quase não se notou.

Morreu um meme


Já falei várias vezes sobre o que são memes e sobre como se propagam e modificam na história.

Basicamente memes são ideias. Pequenas ideias mais ou menos individualizáveis que se propagam entre as pessoas e evoluem ao longo do tempo, nascendo, modificando-se ou desaparecendo. 

Toda a gente gosta de gatos. Toda a gente gosta de ver fotos e imagens e vídeos de gatos. Os gatos são um dos memes mais bem sucedidos que há (juntamente com a religião).


Um meme particularmente persistente durante os últimos anos, cujo primeiro registo é de 2011, é o meme de o Leonardo DiCaprio não ganhar Óscares.

Realmente, tendo sido nomeado para Óscar de Melhor Actor Secundário em 1993, e para Melhor Actor em 2005, 2007 e 2014, começava a chamar a atenção o facto de ele nunca ter ganho nenhum Óscar.

A internet fez disso uma coisa.




É importante relembrar que estas imagens são só a representação mais óbvia e facilmente identificável de um Meme. O meme aqui é a ideia de que o Leonardo Dicaprio não ganha Óscares, e não é preciso conhecer o sequer ver estas imagens na internet para que esse Meme esteja na nossa cabeça.




Mas estas imagens são perfeitas para medirmos a evolução do meme à medida que vai passando de cabeça em cabeça. Podemos ver como se modifica e como se altera com o tempo, como se adapta aos novos filmes que saem. É uma forma de arqueologia, como se estivéssemos a rebuscar por entre os restos culturais de uma sociedade que desconhecemos para perceber em que é que pensavam colectivamente (gatos e pornografia, maioritariamente).





Até foi feito um jogo de computador, no qual encarnamos o Leonardo DiCaprio e temos de correr pela passadeira vermelha a apanhar Óscares dos outros actores!





Tudo isso mudou passado domingo, quando o Leonardo DiCaprio finalmente ganhou um Óscar de melhor actor.

Se ficaram contentes pelo facto de o Leonardo Dicaprio ter ganho um Óscar, se viram noticias ou imagens a acerca disso no Facebook, então fizeram parte de um fenómeno cultural que foi partilhado por milhões de pessoas ao mesmo tempo.

Foi como se a internet e o mundo finalmente tivessem soltado um suspiro de alívio colectivo que estava em suspenso desde 1993.


Não é comum termos um arco narrativo tão claro e definido para um meme. Habitualmente a evolução dos memes ocorre de forma quase imperceptível, com pequenas alterações ao longo do tempo, até desaparecer completamente ou transmutar-se para algo irreconhecível.

Mas neste caso do Leonardo DiCaprio, o meme teve uma conclusão perfeitamente clara. Um princípio um meio e um fim.

Houve um pequeno salto nas placas tectónicas da cultura. Um ajuste às novas condições.

Não é tão frequente quanto isso conseguirmos ver a olho nu, com registos claros da sua evolução a história natural de um meme.
Naturalmente que o meme do Leonardo DiCaprio e os seus Óscares não vai desaparecer completamente, mas é muito provável que agora sim, caia na obscuridão.


E pronto, era só isto.

Próxima quinta feira regressamos com a nossa programação agendada, com a Parte III de O que é a Consciência Animal!
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domingo, 28 de fevereiro de 2016

Jogos de Vídeo e Nostalgia

Lembro-me do primeiro jogo de computador que joguei.

A Atari 2600 foi lançada em 1977, e portanto não faço ideia de que maneira é que parecia a coisa mais moderna de sempre quando o meu tio mais novo trouxe uma para casa dos meus pais numa tarde em 1990. Mas se calhar é porque estava numa ilha no meio do atlântico.

Eu tinha uns 5-6 anos, e já compreendia o suficiente acerca da televisão para perceber que isto era uma coisa diferente. Era diferente, era novo, e tinha botões que faziam com que as coisas no ecran nudassem e fizessem barulhos.

Eu fiquei curioso


Tinha um cartucho com dezenas de jogos, que se escolhiam de uma lista.


Lembro-me de jogar o Outlaw.
Eram dois cowboys um de cada lado, com um obstáculo pelo meio, e disparavam um para o outro.
E eu controlava o cowboy.


E nunca nada voltaria a ser tão divertido como jogos de computador.

Depois o meu primo arranjou um computador.

Nem me quero arriscar a tentar adivinhar que tipo de computador seria, e se bem me lembro corria o Windows 3.2 (provavelmente), e tinha um único jogo.

A Roda da Sorte.


Isto foi particularmente importante porque o meu pai ADOROU este jogo.

O meu pai sempre gostou de resolver puzzles. Tinha sido em tempos professor de matemática e resolvia sempre as palavras cruzadas dos jornais.

E agora estava ali à frente dele um brinquedo que aparentemente gerava um número quase infinito de puzzles linguísticos para ele resolver.

Chegávamos a casa da minha tia, que ficava a conversar com a minha mãe, e lá íamos eu e o meu pai para o armário das vassouras onde o meu primo tinha a parafernália informática dele. O meu pai expulsava o meu primo com aquela bonomia de "agora os adultos vão-se divertir com os teus brinquedos" e passava horas a jogar à roda da sorte.

Foi à custa disto que eu aprendi que a letra "E" é a letra mais frequente na língua inglesa, e que os jogos de computador eram uma opção de entretenimento validada pelos adultos.

Claro que passado pouco tempo o meu pai comprou um computador.


Um dos primeiros que joguei foi o Prince of Persia, mas havia outros.

Lembro-me do Gobliins, que era um jogo de puzzles point-and-click com dois goblins feitos de pixel-sprites. O jogo tinha uns puzzles muito parvos, que se resolviam à custa de tentativa e erro.


Havia também o Heart of China, que era um point-and-click de mistério, no qual éramos um aviador no mar da china a tentar salvar uma rapariga. Foi dos primeiros jogos onde me lembro de ter um menu onde tinha de combinar items e escolher as opções de diálogo.

Lembro-me que nunca descobrimos como gravar o jogo, portanto todas as vezes tínhamos de começar do início.


Mas o que ficou para sempre gravado na minha memória foi o Lemmings.

Tantas, tantas noites que eu fiquei acordado com o meu pai a tentarmos resolver puzzles diabolicamente complicados de bonequinhos de corpo azul e cabelo verde que andavam inevitavelmente para a sua morte.


O jogo ia passando por cenários cada vez mais bizarros e difíceis de resolver, mas o meu pai tinha uma paciência infinita para o jogo. Ele costumava desligar o som do computador e punha a banda-sonora do Twin Peaks a tocar por trás.

Nunca mais consegui pensar no Lemmings sem me lembrar do Twin Peaks.



O primeiro jogo que eu me lembro propriamente de jogar foi o Commander Keen.

Era um jogo de plataformas acerca de um miúdo de oito anos que construía uma nave espacial com o motor do corta-relva e outras velharias que estavam no jardim, e ia para um planeta alienígena.

Os controlos eram péssimos, os saltos eram dificílimos, mas era a melhor coisa de sempre.



Também por esta altura joguei o Wolfenstein 3D, que era uma espécie de clone do Doom, mas com um bocadinho (?) mais de história, que basicamente era matar o Hitler.
O jogo era difícil (eu também não sabia gravar portanto começava sempre do início) e era surpreendentemente violento. Não sei como é que me deixaram jogar tanto.


Mas entretanto o meu primo constinuava a arranjar novos jogos. Ele tinha sempre as movidades, que nunca funcionavam no meu computador eternamente obsoleto.

A determinada altura arranjou o Warcraft II.

Tanto, tanto cigarro em segunda mão eu fumei durante as horas intermináveis que passei com o meu primo no armário das vassouras, iluminados apenas pela luz azulada do CRT que nos magoava os olhos, com o cheiro de peças eléctricas e plásticos sobre-aquecidos, misturado com o som do tabaco, enquanto ele arranjava exércitos de cavaleiros e paladinos para irem lutar contra orcos e goblins.



Olhando para estes screencaps hoje não fico espantado porque é que o jogo me capturou tanto a imaginação.
Cada unidade tem tanto pormenor, tanta personalidade. Cada edifício tem imensos pormenorzinhos curiosos. As vozes das unidades eram incrivelmente divertidas, porque iam sempre dizendo coisas diferentes quantas mais vezes carregássemos nelas.

Claro que EU só joguei este jogo muito mais tarde, porque quem jogava era o meu primo. Mas eu não me importava, queria era ver o jogo, e fazia uma fita quando a minha mãe dizia que era hora de irmos para casa.



O último grande jogo da minha infância, e o que marcou a definitiva entrada para a adolescência foi o Half-Life.

O Half-Life mudou tudo. Tinha um mundo imersivo com excelente som e iluminação, sem cut-scenes, com monstros que se comportavam de maneiras muito diferentes, uma narrativa verdadeiramente interessante que punha o protagonista numa luta entre uma força de invasão alienígena e forças militares com segundas intenções.




O Half-Life conseguia mudar de tom de um survival-horror para jogo de acção para jogo de puzzles com uma facilidade tremenda, e a ser (e continua a ser) o padrão pelo qual eu julgo qualquer jogo que me apareça.

Agora dizem-me que vem aí um jogo com 18 quintiliões de planetas, proceduralmente gerados, para explorar e eu sinto-me como se tivesse 8 anos outra vez.

Weeeeee!

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quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Princípios para aturar debates políticos

Os debates fazem sono às pessoas, e isso afasta muita gente da intervenção política. As pessoas dizem genericamente que ''os políticos são todos uns aldrabões'', e intuitivamente acreditamos com facilidade nisso, mas concretamente, são aldrabões porquê?

Não sabemos bem, porque estivemos a dormir nas aulas de filosofia.

O problema, é que eles raramente são descarados. É muito mais frequente vários graus de dissimulação, misturada com populismo. E argumentos falaciosos. Os debates estão pejados deles. É um crime contra a democracia que desmontar falácias lógicas não faça parte da cultura geral de toda a gente.


Vamos então discutir algumas...


Slippery slope - falácia da bola de neve. O argumento baseia-se na noção de que, se for feita uma cedência num determinado tema, isso levará a outras cedências de muito maior magnitude. Normalmente não há uma causa ou explicação para a razão pelo qual isto acontece...


Realmente, porque não? Claramente, se os homossexuais podem casar, isso implica necessariamente que podemos casar com objectos inanimados.

(por mim podes casar com uma torradeira...)

Bem... com frequência está falácia apela ao ridículo ou ao chocante. Normalmente cede a argumentos com a mesma estrutura, e igualmente ridículos.


O Espantalho (strawman). Não é mais do que distorcer o pensamento da pessoa a atacar, e depois dizer porque é que esse mesmo pensamento não faz sentido, ou é idiota. É um espectáculo para fazer parecer que os nossos adversários são idiotas.


Argumentum ad metum (Fearmongering )- Meter medo às pessoas com uma ideia vaga e mal definida ou um acontecimento horrível que o futuro vai trazer, se não se concordar com o autor do argumento. Muitas vezes cria-se um 'espantalho' das ideias do adversário, e usa-se como base para tentar gerar medo.
Se alguém começar a tentar assustar-vos sem provas durante um debate, é pouco provável que essa pessoa esteja a 'ganhar' a discussão.

Quando o governo de Passos Coelho estava em vias de ser derrubado, estas notícias eram frequentes:
- 'PPP promete lutar contra política de ruína para o país'


Argumentum ad hominem - o sempre famoso: ''isso que você diz está muito bem, mas está totalmente errado porque a sua mãe é uma vaca gorda e feia, que come esterco.''
Temos uma figura da actualidade que é excelente nestas coisas dos ataques pessoais.



Outra coisa que este argumento ignora conscientemente, é que qualquer palhaço pode dizer coisas muito acertadas. Um argumento deve ser avaliado pelos seus méritos, não pela credibilidade de quem o profere. Não vale a pena dizer isto:


Admitamos que a lição de moral vem de um bêbado. Será que é menos verdadeira do que se for o Papa a dar a lição de moral? Dizer que quem critica não tem 'moral', não é uma resposta à crítica. É uma crítica em si.


Queria mencionar uma excelente variação dos ataques ad hominem: O reductio ad hitlerum. Basicamente, ''você está errado, porque a sua opinião faz-me lembrar o partido nazi.''

Um favorito nas discussões de internet, foi objecto de estudo, do qual surgiu uma lei: A lei de godwin.

(Estás a beber água? Sabes quem é que também bebia água? O HITLER!!!)


Um corolário desta lei é que, quem trouxer os nazis à baila, perde automaticamente a discussão.

Só mais uma: A falácia do jogador. Mais uma maneira de nos enganarmos a nós próprios (passe o pleonasmo), do que enganarmos os outros. É basicamente acreditar que eventos passados aumentam ou diminuem as probabilidades de eventos futuros. Se eu vi sair preto na roleta 5 vezes seguidas, qual é a probabilidade de sair vermelho na próxima jogada? É exactamente a mesma do que sair preto. Mas o jogador acredita que o vermelho ou o preto, serão mais prováveis, porque ''está quase a virar'', ou porque o ''preto está a sair em série''.


O próximo debate que virem, vejam lá se não identificam algumas destas parvoíces a saírem da boca dos nosso líderes.
Ou da nossa. Eu sei que já me apanhei a cometer mais do que uma destas falácias.

Cat tax!

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