Pataniscas Satânicas

Pataniscas Satânicas

quinta-feira, 24 de março de 2016

Terrorismo e gatos

Hoje queria ter escrito sobre o fenómeno do terrorismo num mundo globalizado.
Por causa da Bélgica.

Mas a verdade é que estou cansado dessa conversa.
Porque é sempre a mesma coisa. Eles fazem rebentar umas bombas e matam inocentes, nós ficamos com medo e desejo de vingança, e os nossos exércitos vão lá às cidades deles despejar umas toneladas de explosivos e matam inocentes.

Ficamos mais descansados durante uns meses, e depois o ciclo recomeça.

Para ser franco, o que me aborreceu foi o vídeo do próximo presidente Americano a dizer claramente que temos que matar as famílias dos terroristas. Portanto, as mulheres e os filhos deles. Talvez ele não acredite nas parvoíces que diz. Mas sabe que é o que as pessoas querem ouvir.

Talvez isso seja mais assustador.

Acho que foi muito bom alguém lembrar esta ideia de matar mulheres e crianças. Provavelmente este génio vai resolver o problema do terrorismo e trazer estabilidade ao Médio Oriente.


O facto é que a vida continua, e a história dá ideia de ser cíclica.


Portanto, dado que já conhecemos esta narrativa, vou escrever sobre coisas mais importantes.

O meu gato chama-se Coiote, e gosta de caixas de cartão. Gosta de se meter dentro delas e de as morder e arrancar bocados. As primeiras vezes que isso aconteceu, eu disse-lhe para parar. Depois desisti, porque me sentia estúpido a mandar um gato fazer o que quer que seja, e porque ele parecia tão feliz a arrancar bocados de cartão à dentada.


O meu gato gosta de ficar à janela. Põe-se em pé (maisoumenos) em cima da casa de banho dele, e fica debruçado a ver os outros gatos a passar no beco atrás da minha casa. Fica a olhar para eles durante muito tempo, a fingir que não está a ver os pombos ao canto do beco. Ele tem um plano para apanhar os pombos todos.


Outra coisa que ele quer perceber é o que acontece dentro da máquina de ferro com a janela redonda que faz barulhos. Ao princípio ele tinha medo da máquina de ferro, mas lentamente foi-se habituando. No outro dia apanhei-o a dormir lá dentro. Um dia ainda o apanho a usar o aspirador.


Houve um dia em que o Coiote começou a miar alto na cozinha e eu fui ver o que se passava. Um gato amarelo tinha subido para cima da árvore atrás da minha casa, e o Coiote estava a miar-lhe por algum motivo. Acho que o estava a incentivar. Depois disso começou a tentar subir às árvores. ´
Acho que o herói dele é o gato amarelo, e quer ser como ele quando for grande.



O Coiote gosta de passear na rua de trela. Quando sai tenta sempre cheirar todos os pneus de todos os carros, e tenta arranhar os cães todos que vê. Ele não gosta de cães nem de autocarros. Na realidade, os autocarros não passam de cães grandes que fazem barulhos grossos e bufam dos tubos de escape.


Outra coisa que ele ainda não percebeu bem é porque é que os humanos têm bacias grandes de porcelana com uma alturinha de água no fundo, onde se sentam todas as manhãs. Mas não é por falta de investigar...


Outra coisa que ele gosta é de bater grandes sornas no sofá. Às vezes, enquanto dorme, começa a miar com os bigodes a tremer, e outras começa a lamber-se todo. Deve estar a sonhar com atum, que é o que ele aceita como suborno para tudo. Acho que ele deixava tudo, e fugia de casa para perseguir uma lata de atum bom petisco.


De resto, gosta de aparecer em fotos.

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terça-feira, 22 de março de 2016

Batman v Superman: o Detective Morcego contra o Super-Alienígena

Quem são os avôs do Batman? O que é que o Superman tem a ver com o Tintin? Mais um artigo para nos aproveitarmos da proximidade de blockbusters?

Vamos falar sobre isso.


Portanto não tarda nada o Batman e o Superman vão estar aí à porrada um contra o outro, e estamos todos muito entusiasmados com isso e vamos ver o filme e vamos escrever sobre o filme, provavelmente para dizer que o Civil War é melhor, e o Batman v Superman: Dawn of Justice é realizado pelo Zack Snyder e tem o Ben Affleck e o Henry Cavill e o Jeremy Irons e o Jesse Eisenberg a fazer de Lex Luthor que é provavelmente o que me entusiasma mais acerca do filme, e acho que já tenho as keywords todas de que o motor de busca do Google precisa para ir buscar este post quando as pessoas procurarem por coisas relacionadas com isto.

Mas eu sempre achei muito interessantes estes dois heróis da DC, que são os seus dois heróis mais reconhecíveis.

Já falámos antes da diferença essencial entre os heróis da Marvel e da DC, mas nunca explorámos realmente quem são o Batman e o Superman.

Claro que por esta altura já toda a gente sabe que o Batman é o Bruce Wayne e que o Superman é o Clark Kent. Não é disso que estamos a falar.

Tentem afastar-se do que sabem destes heróis e olhem para eles como se fosse a primeira vez.


Se pensarem bem no assunto, o Batman é um orfão milionário que se veste de morcego à noite para combater o crime e resolver crimes, recorrendo a equipamento científico avançado.
O Superman é um alienígena que vem do planeta Krypton e que na terra tem poderes sobre-humanos e um sentido de moralidade inatacável.

A nossa primeira pista para entender isto está na origem destes heróis.

O Superman e o Batman surgem pela primeira vez em 1938 e '39, respectivamente. São ambos heróis pré-Segunda Guerra Mundial, ao passo que o Captain America (1941) e o Iron Man (1962) são os dois heróis do pós-guerra (o Iron Man é um herói que nasce do clima da guerra fria).

Isto significa que o Superman e o Batman vão representar uma cultura americana ainda relativamente inocente e jovem, dos anos '30 e para quem os heróis ainda não estavam relacionados com a guerra.

Quem são esses heróis?


Em 1905 estreia a peça de teatro das aventuras do Scarlet Pimpernel, que para as gerações mais recentes é quase inteiramente desconhecido, mas que ainda foi uma referência cultural relevante para o meu pai nascido em 1948.

O Scarlet Pimpernel era um aristocrata inglês durante a revolução francesa que salvava outros ingleses do violento governo revolucionário francês. O Scarlet Pimpernel escondia a sua identidade, marcando os seus feitos apenas com uma flor vermelha, e resgatava os outros ingleses recorrendo a secretismo e disfarces!

É familiar?


Em 1919 é publicada a primeira aventura de Zorro.

Diego de la Vega é um nobre espanhol-californiano durante a época do governo Mexicano em Los Angeles durante 1821 e 1846. Diego veste-se de negro, usa uma máscara para esconder a sua identidade e usa a sua agilidade e esperteza para proteger as pessoas comuns e os indígenas do tirânico governo espanhol.

Já começa a ser reconhecível?

Douglas Fairbanks em "The Mask of Zorro" de 1925
No seguimento de detectives extremamente inteligentes capazes de desvendar crimes só com o poder da sua inteligência, como Sherlock Holmes (1887), em 1931 surge pela primeira vez a personagem de Dick Tracy, um detective policial duro e inteligente e já com uma distintiva queixada quadrada.

Dick Tracy também não tem super-poderes, mas em vez disso usa a sua inteligência, dispositivos electrónicos avançados e ciência forense para resolver os crimes.



Também em 1931 surge a personagem do The Shadow, que originalmente era apenas a personagem que apresentava um programa de radio de mistérios criminosos com o mesmo nome.
A personagem rapidamente ganhou popularidade e mereceu uma banda-desenhada só para si, e eventualmente alguns filmes.

O The Shadow é uma personagem misteriosa, que se vestia de negro, tinha uma máscara, uma identidade secreta, e durante a noite ia combater o crime em nome da justiça, intimidava os criminosos à submissão e era conhecido pelos seus poderes de dissimulação.

"The Shadow" - acho que já perceberam onde é que eu estou a chegar com isto
O Batman é uma amálgama de todos estes heróis das revistas pulp, misturando os tropes dos aristocratas aborrecidos, detectives inteligentes e justiceiros nocturnos.

Então e o Superman?


As origens do Superman não são menos curiosas e surpreendentes.

Edgar Rice Burroughs escreve em 1912 o primeiro romance de Tarzan, que viria a ser adaptado para banda desenhada em 1929 por Hal Foster.

Tarzan é um humano que cresceu fora da corrupção da sociedade, com morais puros e uma coragem inabalável que entram em conflito com as pressões de uma sociedade à qual ele não esta habituado. Não atrapalha nada o facto de ele ser o epítomo da condição física perfeita.

Tarzan, ilustrado por Hal Foster, 1929
Tarzan, Ilustrado por Burne Hogarth, 1938


 Edgar Rice Burroughs cria também em 1912 a personagem de John Carter.

John Carter era um homem da Virginia, antes da Guerra Civil Americana e que detinha os valores do Sul-pré-guerra da honra e da Cortesia.
John Carter acaba por se encontrar deslocado no planeta marte, onde descobre que por causa da gravidade, a sua força e agilidade físicas são agora sobre-humanas, possui uma espécie de imortalidade, o que lhe permite salvar os marcianos nativos.


Esta busca das origens do Superman não estaria completa sem falarmos de Buck Rogers (1929) e Flash Gordon (1934), ambos exploradores espaciais, ambos com capacidades sobre-humanas, e que dão relevo às fontes de ficção científica do Superman.


Finalmente, uma última nota em relação ao Superman, tem a ver com o facto de que o alter-ego dele ser um repórter. O Clark Kent é um repórter para o jornal Daily Bugle em Metrópolis (cujo nome é directamente inspirado do filme de ficção científica de Fritz Lang de 1927 com o mesmo nome).

Mas porquê um repórter?

Porque nessa altura ser um repórter era uma coisa entusiasmante e excitante para os jovens, como evidenciado pela popularidade do Tintin (1929), outro repórter/jornalista que anda pelo mundo em aventuras.


Portanto, temos o Batman que é descendente directo de aristocratas vigilantes misteriosos que resolvem crimes recorrendo à sua inteligência e dispositivos científicos, funcionando como neto do Zorro e do Sherlock Holmes, e filho do The Shadow e do Dick Tracy.:
E temos o Superman que é o ideal da forma física e dos morais inatacáveis vindos de uma origem alienígena à sociedade normal, com habilidades sobre-humanas que também têm surgem da sua origem extra-terrena. É neto do Tarzan e filho do Joh  Carter, primo do Tintin e passou muito tempo co o Flash Gordon e o Buck Rogers.

Portanto, quando forem ver o Batman v Superman, e acharem bizarra a história do Detective Morcego que luta contra o Super-Alienígena, e se vos der a impressão que isso mais parece uma historieta dos anos '30, então é porque é mesmo.


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quinta-feira, 17 de março de 2016

Introdução à desigualdade

Existe uma organização respeitada que monitoriza o estado da distribuição da riqueza no mundo chamada Oxfam (Oxford Committee for Famine Relief). Esta organização desenvolve esforços para estudar o progresso da distribuição da riqueza no mundo, assim como analisar métodos para mitigar algumas situações.


Esta organização divulgou um estudo em Janeiro de 2016, que chegou a algumas conclusões interessantes. (um resumo pode ser consultado aqui)

Sei que a maior parte das pessoas pára de ler notícias/blogs/qq coisa, ao fim de 3-4 parágrafos, por isso não vos vou aborrecer com análises nem política (isso fica para outro dia), hoje quero ser o mais objectivo possível. As causas e as soluções não interessam para já, nem a posição relativa do nosso país (não é boa), em relação a várias situações descritas.

Como devem saber, os ricos estão a ficar mais ricos, e os pobres estão a ficar mais pobres.
Mas talvez não tenham noção da magnitude actual da situação, que é o que vou tentar ilustrar.

Só quero mesmo que se lembrem de três coisas depois de lerem isto, três factos objectivos e indiscutíveis em relação à distribuição da riqueza mundial.


Facto nº 1 - Mundialmente, as 62 pessoas mais ricas, têm mais riqueza acumulada que a metade mais pobre da população. Que corresponde a cerca de 3.6 Biliões de pessoas.

Não me refiro a 62 mil ou milhões. São 62 seres humanos (!) que possuem mais riqueza que os 3.600.000.000 seres humanos mais pobres. Vou escrever outra vez, porque me custa a acreditar.
62 têm mais do que 3.6 biliões.

E essa é uma tendência que se tem vindo a agravar.



Mas talvez estejam a pensar que estes 62 são mesmo ricos, mas o resto até está bem distribuído.


Facto nº 2 - ''The 1%''. Em termos proporcionais, os cidadãos que constituem o 1% mais rico da população mundial, têm mais riqueza acumulada do que os outros 99%.

Um tendência que não parece que se vá inverter brevemente.



Facto nº 3 - Calcula-se que existam dispersos pelo mundo, cerca de 7,6 triliões de dólares escondidos em paraísos fiscais.

7.6 triliões de dólares é isto:

7.600.000.000.000 $

Corresponde a mais do que o produto interno bruto da Alemanha e Inglaterra. Combinados.
Todos os Ingleses e Alemães a trabalhar durante um ano teriam dificuldade em produzir essa riqueza.

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Para ser justo, a pobreza extrema tem vindo a diminuir. Não é isso que está em causa.

O que está em causa é que 62 pessoas não são mais produtivas que 3.600.000.000.

O que está em causa é que o mundo nunca esteve tão desigual desde o tempo dos faraós no Antigo Egipto. Os faraós diziam aos súbditos que mereciam os níveis obscenos de riqueza que tinham, porque conseguiam falar com o Sol.

Qual é a nossa desculpa?

O que está em causa, é que esta é uma tendência que tem vindo e vai continuar a agravar-se.

Até quando?

Dog tax.
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terça-feira, 15 de março de 2016

O Papão vive dentro da sua cabeça

O que é que se passa dentro da sua cabeça? Técnicas de manipulação social? Outra vez o Papão?

Vamos falar sobre isso!



Alguma vez pararam e ouviram o que se passa dentro da vossa cabeça?

Aquelas ideias e pensamentos aleatórios e semi-inconscientes que andam constantemente por aqui a saltar dentro. 

Há coisas muito estranhas a passarem-se dentro da sua cabeça, e você sabe que sim. 

Eu sei que sim porque isso também se passa dentro da minha cabeça.

E não estou a falar daquelas ideias idiotas e semi-aleatórias que temos todos, que representam o barulho de fundo das roldanas da nossa consciência.


Estou a falar daquelas ideias desagradáveis que lhe surgem na cabeça.

Você sabe quais são. 

São aquelas ideias que você nunca conta nas histórias que começam por "No outro dia pensei numa coisa mesmo estranha".

Estou a falar daquelas ideias mesquinhas e más. Daquilo que gostávamos de dizer às pessoas de quem não gostamos, aquilo que gostávamos de fazer às pessoas que nos fizeram mal, ou que estão à nossa frente na fila do supermercado.

Aquelas ideias que nos fazem pensar "o que RAIO é que me está a passar pela cabeça?" e se isso significa que há alguma coisa de errado connosco.

Há algumas coisas bem horrorosas a passarem-se na sua cabeça. 

Eu sei.



Eu sei, porque isso também me acontece.

E se me acontece a mim acontece-lhe a si também, porque nem eu nem você somos especiais, e porque é razoável assumir que partilhamos a mesma experiência humana.

As nossas consciências funcionam todas da mesma maneira, é natural que tenham todas os mesmos defeitos. 

Sabendo isso, a atitude mais razoável é pensar que se toda a gente tem estas experiências e estas ideias horríveis na cabeça, então isso provavelmente não é assim nada especial, e mais vale não lhes dar demasiada importância.



Mas agora imagine que dizemos a uma criança, ainda numa idade em que tudo o que é dito pelos adultos é uma verdade inabalável, que essas ideias más eram postas na sua cabeça pelo Diabo.

A violação! Convencer uma criança de que há ideias dentro da sua mente que são lá colocadas por uma entidade externa, contra a vontade dela, e sem que ela possa fazer o que quer que seja para se defender, que está completamente à mercê dessa invasão.

Dizer a uma criança que ela não pode estar segura dentro da sua própria mente.

E esses pensamentos intrusivos, essas ideias mesquinhas que às vezes nos passam pela cabeça, que são normais e inevitáveis, subitamente transformam-se em ideias que foram lá colocadas maliciosamente.

Isso é uma das características da esquizofrenia. Os esquizofrénicos frequentemente acreditam que as suas ideias podem ser roubadas por outros, que conseguem pôr ideias nas cabeças dos outros, o que os outros lhes podem pôr ideias na sua própria cabeça.

Ha! Those wacky christians!


Não, melhor ainda!

Imagine que dizíamos à criança que Deus era capaz de ler os seus pensamentos! Que Deus estava sempre a observar e a ver e a ouvir TUDO, que sabe TUDO.


Lá se vai qualquer possível noção de privacidade. Não há nenhum espaço seguro. Nenhum lugar onde se possa pensar em segurança, nem sequer dentro da nossa cabeça.

Com todas as restrições que aqueles tipos punham no pensamento, até poderíamos pensar que não queriam que as pessoas o fizessem?

Sim? Talvez?


Mas podemos fazer ainda melhor!

Dizemos à criança que ideias e impulsos geneticamente programados, martelados no comportamento por centenas de milhões de anos de evolução, completamente inevitáveis, também são pecado!


Até lhe podemos dizer que ela consegue suprimir esses impulsos se se esforçar o suficiente. Se for boa pessoa vai conseguir não ter ideias más. Que ela é tanto melhor pessoa quanto mais eficaz for a impedir os pensamentos perigosos.

Mas que se não conseguir a culpa é dela. Se falhar isso foi um pecado, porque não se esforçou o suficiente.

Que até pode não dizer a ninguém, mas Deus sabe.


E não faz bem à cabeça de uma pessoa. Passar a vida toda, desde a mais pequena infância, a pensar "não posso, não posso, não posso, não posso, não posso".

Porque qualquer governo ou ditador de meia tigela pode encher as pessoas de propaganda, e ter polícias secretas, ou leis para impor bons costumes, e censura e tortura e isso tudo.

Mas quando começamos a falar de mudar as ideias dentro da cabeça das pessoas, de convencer as pessoas a auto-censurarem os próprios pensamentos, aí estamos claramente no jogo das religiões.

Esse é um jogo que o Papão sabe trabalhar bem.


Porque não é preciso ser-se um crente da religião.

Basta crescer numa cultura moldada e estabelecida em séculos de tradição cristã.
Vão ser esses os valores que as pessoas partilham, quer vão rezar aos domingos ou não. Essas ideias e conceitos vão ser transversais a toda a população, vão compôr o fundo memético de todas as conversas e interacções.

Nunca fui religioso na minha vida, e no entanto, em alguns aspectos muito importantes, não sou menos cristão do que alguns desses comedores de hóstias.

É assim tão eficiente que o Papão é.


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quinta-feira, 10 de março de 2016

Money, dear boy...

''The master's tools will never dismantle the master's house''
- Andre Lorde

''Real change does not happen from the top down. It happens from the bottom up.''
- Bernie Sanders

O que é que fez o Steve Buscemi participar no blockbuster ''Armagedom''? Porque é que o Raul Julia foi Mr Bison no filme ''Street Fighter''? Como é que o Jeremy Irons foi parar ao ''Eragon''?

Bem...


O argumento é que o dinheiro tem capacidade de motivar pessoas extremamente talentosas para fazerem coisas de qualidade duvidosa. Ou pelo menos que não se coadunam com o que se poderia chamar 'integridade artística'.
Não quero com isto dizer que não adorei o 'Street Fighter' quando tinha 12 anos. E também não acho que venha mal nenhum ao mundo se alguém desenvolver um projecto artístico porque quer ganhar dinheiro.

O assunto fica mais problemático quando substituímos arte por política, e vez de integridade artística falamos de integridade política.


A verdade é que eu não queria... mas vou ter que começar por escrever sobre Donald Trump. A personagem mais discutida na minha novela preferida, que está dispersa pelo youtube:

''Quem é que vai ser o próximo presidente dos EUA?''

Eu sei... se as parvoíces que Trump faz para chamar à atenção fossem ignoradas, o fenómeno Trump desaparecia em 15 dias. O que significa que o bilionário de cabelo laranja voltaria à sua rotina habitual.


Eu sei que estão a pensar sobre mim: ''é por idiotas como tu não se calarem com frivolidades, que este lixo noticioso feito de parvoíces chocantes não desaparece.''

Fundamentalmente têm razão... mas tentem perceber: é que as parvoíces chocantes chamam à atenção... e quando um macaco está a olhar atentamente para qualquer coisa, o macaco do lado fica curioso, e começa também a olhar na mesma direcção. Mais de 99% dos nossos genes são iguais aos do chimpanzé, portanto, nós somos essencialmente macacos curiosos.


Portanto, não me julguem demasiado por estar a olhar para o mesmo sítio que os outros macacos estão a olhar.

Neste caso, os outros macacos estão a olhar para um pacóvio gorducho de capachinho pintado da cor do crepúsculo, que aparece na televisão a reclamar com qualquer coisa, ou a insultar alguém.


Trump quer ser visto como herói americano... ou no mínimo, protagonista. Quer que estejam a falar sobre ele. E, tal como na sala de aula o garoto que faz as palhaçadas é o que dá nas vistas, Trump sabe que se estiverem a falar sobre ele, as coisas estão a correr bem. Mesmo se estiverem a demolir-lhe a imagem. Mesmo se estiverem a assassinar-lhe o carácter.


É que ele é rico... E o dinheiro muda muita coisa....


Durante a campanha eleitoral, recusou-se a participar num debate em protesto pela escolha de uma moderadora do debate - Megyn Kelly. O facto é que Trump recusar-se a participar no debate gerou mais cobertura noticiosa do que o debate em si. E isso é curioso, e diz muito sobre o triângulo entre o público, os media, e o poder económico.

Este vídeo do youtuber 'nerwriter' está muito bem construído.

Depois de Trump anunciar a candidatura, a CNN produziu 2159 reportagens sobre a campanha dele. Só nos 3 meses que se seguiram! E de resto... há uma forte correlação entre a cobertura noticiosa da campanha de Trump, e os números dele nas sondagens.


Mais interessante é verificar, também há uma forte correlação entre a cobertura noticiosa de todos os candidatos republicanos, e a sua posição nas sondagens...


Basicamente, quanto mais um candidato é divulgado pelos meios de comunicação, melhor está colocado nas sondagens. O que é interessante, porque a capacidade de gastar mais dinheiro na campanha normalmente define, em certa medida, o volume de cobertura noticiosa.

Mas não só... Há outras coisas que confundem a questão. O mesmo dinheiro não compra a mesma cobertura noticiosa para toda a gente... As relações privilegiadas com a imprensa ajudam muito... e, no caso de Trump, o sensacionalismo.

Dois exemplos que acho que são paradigmáticos:

1

Vejam este link. Aqui Trump faz ameaças de morte a alguns jornalistas que estavam a cobrir um dos seus comícios. Além disso, diz que os odeia, e que eles são mentirosos nojentos.

Ficaram chocados? 'Land of the free, home of the brave...'... Berço da liberdade de expressão... É por estas coisas que comparam a ascensão de Trump, à ascensão de Adolf Hitler.

A ajudar a isto, a maior parte da população desconfia dos jornalistas, que ataquem trump ferozmente, o que só atraí mais atençao a Trump, e facilita que seja percepcionado como vítima. Isto facilita a narrativa de que ele está a lutar contra qualquer coisa, que tem uma cruzada moral. Quando na verdade... nem por isso...
Ele é um bilionário a falar sobre ele próprio... a fazer comentários xenófobos, e a insultar toda a gente no sistema. Nenhum jornalista gosta dele, mas nenhum jornalista gosta de vender menos jornais. E Trump vende jornais. Muito.

2

O outro exemplo vem da campanha de Bernie Sanders.

Sanders é um velhote socialista confesso, com 74 anos, a concorrer contra um ícone planetário - Hillary Clinton. Hillary tem o apoio de todo o sistema. Bernie financia a campanha através de pequenos contributos feitos por cidadão comuns. Quer acabar com a corrupção na política, e separar o sector comercial do sector financeiro, nos bancos americanos. (reimplementar a lei glass-steagall). Pois, e subir os impostos à bolsa em Wall Street...


Como seria de esperar, Bernie tem pouquíssimo apoio na comunicação social. Os jornalistas escolhem ignorá-lo. Quem lhes paga o salário, não está interessado em pagar mais impostos...

Portanto, quando há poucos dias surgiram notícias anti-Bernie em catadupa, alguma coisa estranha devia estar a passar-se. Além de muitos, muitos outros, a campanha dele registou 16 (!) artigos anti Bernie, do jornal Washington Post. Os artigos (que foram todos publicados em 16 horas) criticavam-lhe de maneira violenta, variadíssimas posições políticas, e saíram pouco antes de uma eleição muito importante no Michigan.


Surpreendentemente (ou não), o resultado das eleições no Michigan...


Sanders ganhou. As sondagens davam-lhe uma hipótese de vencer inferior a 1%, com mais de 20% de desvantagem para Hillary Clinton.

Agora que estabelecemos que Sanders não goza de apoio dos media, sabemos que o seu sucesso depende da sua campanha. E o que diz a campanha dele?


A campanha dele consegue relacionar perfeitamente o dinheiro investido em cada estado, e os resultados nas eleições. Quando mais dinheiro, melhores resultados.

O candidato mais 'trustworthy', com a mensagem mais populista, só consegue ganhar peso político, consoante a sua capacidade de se financiar.

Estão a ver o problema?


Em Portugal, a cobertura noticiosa e a proximidade com os meios de comunicação social, não tem nada a ver com os resultados de sondagens, e mesmo de eleições.


O Presidente Marcelo tem razão em estar na dúvida em relação a esta última frase...

Em Portugal temos coberturas noticiosas em campanhas políticas completamente justas, e aparentemente, leis excelentes...

''Candidatos preferidos das televisões''

''Candidatos queixam-se à Provedoria por tratamento diferenciado''

''Henrique Neto dia que não aceita 'apartheid noticioso''
''Cavaco sem medo, considera lei das campanhas ''anacrónica''
''Directores de informação querem mudar lei da cobertura eleitoral''
''Há muita ''tensão e confusão'' sobre a lei da cobertura eleitoral''
No entanto, não há promiscuidade entre o poder político e o poder económico na Europa e em Portugal também não, graças a Deus. 

Isso é coisa dos Americanos...
Dinheiro e política não se misturam por cá!...


Shiu.... que é que estão para aí a pensar?





Ainda há gente com lata suficiente para dizer que o governo PSD/CDS não criou empregos...
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