Pataniscas Satânicas

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terça-feira, 22 de setembro de 2015

O Monge Louco - Parte I

Vindo das geladas estepes Siberianas, chegou o Monge Louco.


Grigori Rasputin era um strannik, um viajante religioso, analfabeto, que deambulava de vila em vila a pregar num dialecto siberiano quase incompreensível.
Era membro dos Khlysts, um secto obscuro da Igreja Ortodoxa Russa, que acreditava que para se obter o total perdão divino era preciso primeiro pecar totalmente.

O seu olhar era intenso, a sua voz inesquecível, e a sua perspicácia psicológica e interpretações da bíblia deslumbravam e cativavam os que o ouviam.


Nos primeiros anos do Séc. 20, San Petersburg era uma cidade convulsionada por faltas de energia, greves nacionais de transportes, revoluções, massacres, e guerras.

O Tsar Nicholas II, Imperador Russo, é obrigado a ceder parte do seu poder à Duma Imperial, uma espécie de Assembleia Legislativa.
Ao mesmo tempo a Classe Aristocrata estava a desligar-se da Igreja Ortodoxa e a procurar outras formas de espiritualidade e fé, incluindo o misticismo e o ocultismo.

Rasputin chega à cidade em 1903 e rapidamente se torna popular nos círculos aristocráticos. Era inicialmente encarado como uma curiosidade, com o seu sotaque cerrado e falta de maneiras polidas, mas começa a ganhar seguidores religiosos e apoiantes cada vez mais poderosos.


A sua presença em San Petersburg é convulsiva. Rasputin era conhecido por estar constantemente bêbedo, bebendo 12 garrafas de vinho antes do almoço.
Os jornais frequentemente tinham notícias sobre o escândalo mais recente causado por Rasputin.
É famoso o incidente no qual, bêbedo num restaurante, terá baixado as calças e abanado o pénis contra as outras pessoas do restaurante.

Pénis esse que era tão grande que está guardado num museu. (tem a CERTEZA que quer carregar nesse link?)

Corriam rumores que, de acordo com as suas crenças religiosas baseadas na necessidade de pecar para depois obter o perdão, Rasputin organizava frequentemente orgias com as mulheres da nobreza que pertenciam ao seu culto.


Rasputin torna-se tão popular, ascende tanto na hierarquia social russa, que em 1 de Novembro de 1905 é apresentado ao Tsar Nicholas II, Imperador e Autocrata de Todas as Rússias, e à sua esposa, a Tsaritsa Alexandra Feodorovna, nascida na Alemanha.


É preciso fazer notar que, contrariamente à ideia que se tem dos casamentos reais, e das famílias reais da altura, Nicholas e Alexandra estavam verdadeiramente apaixonados um pelo outro, como o demonstram as centenas de cartas que trocaram entre si, e eram verdadeiramente devotos aos seus filhos, investindo pessoalmente na sua educação e bem-estar.


Esta família real guardava um segredo.

O pequeno Alexei Nikolaevich, o único filho do casal, o mais novo, e o futuro Imperador Russo, sofria de Hemofilia.

A Hemofilia é uma doença que impede a capacidade natural do corpo de coagular feridas e parar hemorragias. Antes de 1960, quando tratamentos eficazes começaram a ser descobertos, a esperança média de vida dos que sofriam de Hemofilia era de apenas 11 anos.

Alexei sofria de uma variante mais rara da doença, que era também mais severa.
Tinha frequentemente inchaços extremamente dolorosos e debilitantes nos joelhos, cotovelos, virilhas, etc, que correspondiam a hemorragias dentro dos tecidos, que demoravam imenso tempo a passar.
Qualquer pancada, qualquer brincadeira, qualquer nariz a sangrar ou nódoa negra podia matar o herdeiro da coroa.





Alexei era uma criança sequestrada na sua casa, doente, sempre à beira da morte. A sua mãe, Alexandra, vivia obcecada com a sua saúde e protecção. A vida da família girava em torno da saúde da criança.

Pierre Gilliard, o tutor das crianças escreveu "Alexei era o centro de uma família unida, o foco de todas as suas esperanças e afectos. As suas irmãs adoravam-no. Era a alegria e orgulho dos seus pais. Quando estava saudável, o palácio transformava-se. Tudo e todos pareciam cheios de luz do Sol"


Alexandra carregava um segredo ainda maior: tinha sido ela a passar a doença ao seu filho.

Alexandra era neta da Raínha Victoria, Raínha do Reino Unido, Grã Bretanha e Irlanda. A Rainha Victoria teve 9 filhos que se casaram com outras famílias nobres do continente Europeu, o que lhe valeu a alcunha de a "Avó da Europa".
A Rainha Victoria era portadora do gene recessivo ligado ao X causador da Hemofilia. Isso significa que as mulheres da sua família eram portadoras assintomáticas da doença, mas os homens tinham a hipótese de sofrer da doença.

Raínha Victoria

A Tsaritsa Alexandra era portadora do gene, e carregava a culpa de ter sido a origem da doença que podia matar o filho que amava. Para o povo russo seria intolerável que a Tsaritsa, alemã de nascença, tivesse passado ao Herdeiro da Coroa Imperial a "Doença Inglesa".

Obcecada por proteger o filho, Alexandra recorreu aos médicos russos. Os seus tratamentos falhavam, dado que na altura a doença não tinha tratamento conhecido. Virou-se depois para a religião, aprendendo todos os rituais Ortodoxos e passando horas na capela privada da família, a rezar pela salvação do filho.

Nada funcionava.

Alexandra com o filho, Alexei
Finalmente, desesperada, começou a recorrer a místicos e curandeiros.

Rasputin, por essa altura, tinha ganho a fama de ser um Santo, por ter o poder de curar pela fé.

Em Março de 1907, depois de dois meses nos quais Alexandra tinha tido de chamar os médicos quarenta e duas vezes, Rasputin é convocado ao palácio real.
Rasputin passa várias horas a rezar por Alexei, apesar de todas as previsões dos médicos de que o rapaz iria morrer.

No dia seguinte, milagrosamente, o Tsarevitch Alexei demonstra melhorias significativas.

Desta forma, Rasputin passa a fazer parte da família.
Sempre que Alexei se magoava e tinha uma das suas crises, o que era frequente, Rasputin era chamado ao palácio real. Fechava-se com a criança, rezava durante longas horas, e o rapaz ficava melhor. Sem dores.


Pelo seu carisma e influência, Rasputin torna-se confidente pessoal da Tsaritsa Alexandra, aconselhando-a tanto em assuntos místicos do oculto, como de governação política.

Esta intimidade foi criticada tanto pela Igreja, que denunciava Rasputin como uma fraude e um herege, e pela classe política que temia a sua influência política.

Mesmo depois de o Director da Polícia Nacional ter informado Alexandra que Rasputin, bêbedo, se gabava de que o Tsar o deixava "cobrir" a sua mulher sempre que ele quisesse, Alexandra defendeu-o dizendo "Os Santos são sempre caluniados. Eles odeiam-no porque nós o amamos."

Nicholas não era alheio a isto, mas mesmo ele tinha dificuldade em afastar durante muito tempo o homem que aparentemente salvava a vida do seu filho.

Descubra o segredo do poder de Rasputin, e as consequências da sua influência no Império Russo na Parte II de O Monge Louco.

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domingo, 20 de setembro de 2015

Star Lord, ou a Construção de um Herói

Sim, sim, sim. Eu sei! Estou sempre a escrever sobre o Guardians of the Galaxy! Habituem-se!

- btw, este post contém SPOILERS -

Vi o filme pela sétima vez recentemente e pela primeira vez notei num pormenor que já me andava a arranhar o subconsciente há algum tempo:

O Peter Quill não aceita a mão da mãe em despedida antes de ela morrer.

Por pormenor que fosse, foi ao seguir esse fio narrativo que fez com que eu me apercebesse conscientemente de toda a construção de personagem do Peter Quill no filme.

Sim, eu às vezes sou lento a reparar neste tipo de coisas, mas com toda a música dos anos '80 e efeitos especiais fabulosos, é perdoável não reparar no percurso que faz a personagem principal.


Lembram-se logo na sequência inicial, que eu já desmontei ao pormenor, a interacção que o jovem Peter Quill tem com a mãe?

Temos uma criança que é apresentada como sendo altruísta, corajosa e heróica, lutando contra uma data de miúdos porque estavam a maltratar um animal indefeso.
A criança recebe um último presente da mãe que está a morrer e de seguida não consegue aceitar a sua mão em despedida, não conseguindo lidar com essas emoções.


O acto de rejeitar a mão da mãe atira esta personagem num percurso completamente diferente do que o que o esperava. Para começar é raptado por alienígenas!

Confrontar-se com a morte da mãe, rejeitar as emoções associadas, e ser violentamente removido do seu mundo, tudo num espaço de 10 minutos é uma experiência compreensívelmente traumática e é razoável assumir que seja o tipo de coisa que deixa marcas na personalidade de uma pessoa.

Mais importante do que isso, é o tipo de coisa que faz com que o percurso de vida desta criança seja radicalmente alterado, deixando-a perdida.

O desenvolvimento conturbado dessa criança e adolescente é aludido de forma cómica na maneira como é capturado pelo Corpsman Dey, dos Nova Corps (uma espécie de força policial).


Corpsman Dey: I picked this guy up a while back for petty theft. He’s got a code name.
Peter Quill: Come on, man. It’s a…it’s an outlaw name.
Corpsman Dey: Just relax, pal. It’s cool to have a code name. It’s not that weird.

O Corpsman Dey trata o Star lord como se ele fosse um adolescente delinquente que está sempre a ser preso por vandalismo e pequenos furtos, porque é isso que ele provavelmente foi durante imenso tempo. Um adolescente desenquadrado e perdido que recorreu às mentiras e ao crime para sobreviver.

Claramente o facto de ter sido criado sem pais, no seio de piratas do espaço que o queriam comer, tornou-o num adulto egoísta e em quem não se pode confiar.

Não é um herói!
Muito menos é o herói que o jovem Peter Quill mostrava o potencial de vir a ser.

O Star Lord que nos é apresentado, é um bandido! É um ladrão, mentiroso, arrogante! É um "honourless thief", um "A-Hole".



O Star Lord mantém essa atitude de mentiroso, arrogante e egoísta durante a maior parte do filme.

O único momento em que vemos emoções genuínas é quando lhe é confiscado o Walkman.
Nesse momento, perante a perspectiva de perder a música que era a única coisa que lhe restava da sua casa e da sua mãe, Star Lord fica enraivecido. É dos poucos momentos do filme em que o vemos verdadeiramente transtornado.


Outro momento importante, quando o Rocket diz que vai guardar uma bomba numa caixa, é quando percebemos que o Peter Quill ainda guarda o presente que a sua mãe lhe deu ao início do filme.

É notório que o presente é importante para Peter, que não está simplesmente esquecido. Mais importante que isso é o facto de o presente nunca ter sido aberto.
Será que Peter Quill continua a sentir culpa por não ter aceite a mão da mãe? Será que sente que não merece o último presente da sua mãe porque se desviou do heroísmo e altruísmo que ficaram para trás no planeta Terra?



Claro que pelo meio há um MacGuffin que ele rouba, o Big Bad é apresentado, ele tenta vender o MacGuffin e as outras personagens tentam roubá-lo, são todos presos, fim do primeiro acto, fogem, tentam vender o MacGuffin outra vez, descobrem que o MacGuffin é ultra-poderoso, chega o Big Bad que bate em toda a gente e leva o MacGuffin consigo, fim do segundo acto.

Imediatamente antes do fim do segundo acto, o Peter Quill tem um dos seus primeiros actos altruístas do filme com a Action Girl Gamora, por quem aparentemente começa a nutrir sentimentos genuínos.
Star Lord dá-lhe o seu capacete para salvar a Gamora do vácuo do espaço.
Apesar de tudo é um acto calculado porque ele sabe que os Piratas o vão salvar muito rapidamente.


Por todos estes problemas e complicações, a perspectiva do Peter Quill muda, e ao passo que antes só se importava consigo mesmo e com o quanto podia ganhar ao vender o MacGuffin, agora já quer salvar a Galáxia, e até convence os outros a ajudarem-no.


Claro que depois há mais lutas de naves espaciais, explosões, confrontam o Big Bad, despenham a nave espacial gigante e voltam a confrontar o Big Bad.

No momento final, no derradeiro confronto entre Star Lord e o Big Bad, o Star Lord decide agarrar o MacGuffin, sabendo que isso o vai destruir.


É o derradeiro acto altruísta, o auto-sacrifício para proteger todos os outros.
Este é o acto da criança que levava porrada dos outros meninos porque queria proteger um sapinho que não tinha feito mal a ninguém.


Por estar à beira da morte, ou pelos poderes mágicos do MacGuffin, Star Lord volta a ter uma visão da sua mãe com a mão estendida. Na realidade a mão que Star Lord está a ver é a de Gamora, que também se sacrifica para o ajudar.

Desta vez, em mais um momento de vida e morte, Peter Quill consegue aceitar a mão que lhe é oferecida, fechando assim o arco que tinha sido aberto no início do filme.



Juntamente com Gamora, também Drax e Rocket se juntam e, com o Poder da Amizade, conseguem controlar o MacGuffin e derrotar o Big Bad.


É neste momento que o Star Lord se transforma no Herói que sempre deveria ter sido.
O Peter Quill encontra-se de novo, a criança que estava perdida volta a encontrar o seu rumo.

No fim do seu desenvolvimento, após ter aceite a morte da mãe e de se ter transformado no herói que sempre deveria ter sido, Peter Quill consegue sentir que merece o presente que a mãe lhe tinha oferecido ao início do filme, e finalmente abre-o.



Habitualmente os filmes focam-se mais no enredo ou nas personagens. Filmes cheios de acção e efeitos especiais tendem a focar-se mais no enredo (porque é à custa dele que as coisas explodem) e filme mais lentos, mais introspectivos, tendem a focar-se mais no desenvolvimento das suas personagens (porque é à custa das emoções e dos pensamentos que isso acontece).

Para mim foi surpreendente que num filme que tem em primeiro plano um excelente enredo, e excelente acção com efeitos especiais, houvesse toda uma narrativa visual de desenvolvimento de personagem a acontecer em segundo plano, de forma quase despercebida.

Cada vez mais encontro motivos para gostar deste filme.


Eu gostava muito de dizer que isto é tudo da minha cabeça, mas foi parcialmente inspirado por esta thread no reddit, onde há gente a discutir e a analisar estas coisas até ao fim dos tempos.
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sábado, 19 de setembro de 2015

Tunes with Tangerine - Runaway, Aurora


Runaway, Aurora

Chosen by Tangerine.

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quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Corpos de Lewy

Abro os olhos, fecho os olhos.

Gosto de estar de olhos fechados. Eles chateiam-me menos.

Houve um tempo em que pensei que fechar os olhos ia ser a única maneira de distinguir o que era real do que eram fantasmas. Demorei pouco a perceber que a realidade perdeu substância suficiente para desistir de confiar nos meus sentidos. Demorei menos a perceber que não interessa. Para todos os propósitos práticos, a minha opinião sobre o que é real interessa muito pouco.

Também não é como se andasse a guiar autocarros. A realidade não precisa de substância quando é vista da altura conferida por uma cadeira de rodas.

Há um fantasma de bata branca a debitar as perguntas enfastiadas do costume:

''Em que ano estamos, sr António?'' ... ''Sabe quem é esta senhora?'' ...

''Ele hoje não lhe apetece dizer nada... ''

Diz a vaca que empurra a cadeira de rodas, a fingir que está preocupada. Sempre preocupada com as aparências. Vaca. Se eu me conseguisse mexer...

''Em que ano estamos, sr António?''

Será que este gajo se enxerga? Aqui a perguntar o ano em que estamos, com um calendário enorme em cima da mesa. E eu é que estou maluco.... se este otário quer fingir que é útil, pode esvaziar-me a algália, que o mijo está a entornar-se nas calças.

''Dona Júlia, acha que consegue trazer o seu marido à urgência na sexta feira?''

A única coisa que me faz parar de tremer a esta hora da manhã são dois dedos de bagaço. Está na segunda gaveta, lembro-me agora... Onde... ? Onde é que está a chave?

''Ele está a delirar outra vez...''

A vaca começou a chorar lágrimas de crocodilo... Um animal exótico, sem dúvida. Quando me deixei de conseguir mexer, a vaca demorou 5 minutos a enfiar-me numa cama automática, enquanto ela se enfiava na cama do vizinho da frente.... Deve ser para ganhar energia para empurrar o mono durante o dia.

As noites são piores. Às duas da manhã, ela liga a telefonia para não me deixar dormir.

''...Angola é nossa, é dos portugueses!''

Ela sabe que cada noite que não durmo, enlouqueço mais um bocado. Ao princípio irritava-me, mas agora canto e dou gargalhadas para espantar a bicharada. Para a vaca saber que vai ter que me envenenar, e quando o fizer, a vizinhança toda vai saber! Que se danem as aparências.

Não é como se ela não tentasse. Da última vez que recusei os comprimidos, a sopa sabia a veneno. Em menos de nada acordei no meio da selva, cheio de lama, com uma G3 na mão. Ao meu lado estava o soldado Joaquim e o Alferes Costa. Como é que eles estavam vivos não faço ideia. Não lhes perguntei porque tínhamos que continuar a disparar. Ao princípio mijei-me todo, mas depois fiquei feliz. Porra, conseguia mexer-me! Consigo mexer-me ao fim de não sei quanto tempo, e tudo o que posso fazer é matar pretos.
A vida é estranha...

''...Não quero meter o meu marido num lar. Ele cuidou de mim toda a vida...''

''Dona Júlia, você é que sabe da sua vida. Mas veja lá se não precisa de ajuda.''

''O que me custa é quando ele começa a gritar à frente de outras pessoas...''

''Voltou a acusá-la à em público?''

''....''

''Isso é a doença a falar. A demência faz com que os medos dele se tornem realidade.''

'' Eu sei. Mas não sei se aguento outra dessas... O que é que eu posso fazer...?''

''De-lhe mais um destes. E se ele estiver agitado, dissolva-lhe umas gotas destas na sopa.''


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terça-feira, 15 de setembro de 2015

Baader-Meinhoff, ou I'm So Meta Even This Acronym

Já vos aconteceu aprenderem um facto curioso aparentemente aleatório, ou lerem uma coisa que vos chama a atenção, e durante os dias ou semanas depois parece que esse facto aparece por todo o lado?

Por exemplo um dia lêem que um comboio de mercadorias tem em média 1500 a 2000 metros de comprimento (90 a 120 carruagens). Quando se está a mover a 85km/h pode precisar de mais de 1,5km para parar depois de os travões de emergência serem activados.

Depois no dia a seguir, sem sequer estarem à procura, voltam a encontrar outra menção a carruagens de mercadorias. E na semana a seguir aparece uma notícia sobre carruagens de mercadorias que demoram muito tempo a parar.
Depois na televisão há um documentário sobre comboios no Oeste Americano.

Acontece tanto que notam que está a acontecer!
É frequente o suficiente para chamar à atenção, fazer-vos parar e pensar "Que estranho! Ainda no outro dia vi outra notícia sobre comboios! Este é o quarto... quinto facto relativo a comboios que eu vejo só neste mês! Parece que os comboios me perseguem".


Se reconhecem isto de que eu estou a falar, e sentem que já o sentiram, então, caros leitores, o que sentiram foi o Fenómeno de Baader-Meinhoff!

O Fenómeno de Baader-Meinhoff define-se como a sensação subjectiva de que uma palavra, um nome, ou outra coisa que nos chamou a atenção recentemente, subitamente parece começar a surgir com uma frequência improvável.

A maioria das pessoas já o sentiu.

Na realidade esse dado específico, seja o comprimento médio de comboios de mercadorias, que a primeira câmara digital surgiu em 1975 ou que o nome Lego vem da frase em dinamarquês "leg godt" que significa "brinca bem", não estão de facto a aparecer com mais frequência.


Na realidade essa sensação é criada por um viés cognitivo. Um artefacto da nossa consciência. Uma inevitabilidade decorrente da maneira como a nossa consciência está organizada.
É uma Ilusão de Frequência.

Mas parece tão real! Não parece nada uma ilusão!

Isso é porque é um viés da nossa cognição. Não temos nenhuma maneira de entender o mundo a não ser através das ferramentas cognitivas que temos.
Se essas ferramentas tiverem pequenas distorções, toda a nossa consciência vai ter o reflexo dessas distorções. Não as vamos ver porque já fazem parte da maneira como a consciênca está construída.

Por isso o Fenómeno de Baader-Meinhof parece tão real.

Curiosamente o nome Baader-Meinhoff não tem nada a ver originalmente com vieses cognitivos.

O nome refere-se ao Grupo Baader-Meinhoff, um grupo terrorista de extrema-esquerda na Alemanha Ocidental nos anos '70, fundado por Andreas Baader e Ulrike Meinhoff, que viria a chamar-se Fracção do Exército Vermelho (Rote Armee Fraktion).



Portanto o nome provavelmente veio de alguém que aprendeu acerca do Grupo Baader-Meinhoff e depois durante as semanas seguintes só via referências ao Grupo por todo o lado.

Portanto o nome do fenómeno é em si mesmo um exemplo do próprio fenómeno.

Podem fazer o seguinte exercício:

Vão ao Google, e escrevam lá "I'm feeling curious".
Eu espero.


Já está? Que facto é que vos apareceu?

Agora lembrem-se desse facto, e durante as próximas semanas reparem se não vêm referências a esse facto a aparecer por todo o lado.

À medida que aparecem, podem ir tomando nota deles e depois verem o que é que os une a todos. De que maneira é que conseguem juntar todos numa única linha de raciocínio mais ou menos coerente.
Que ideia é que existe subjacente a todos esses exemplos que vos apareceram?

Dessa maneira conseguem unir os Jetsons, o 2001, o Fallout e o Blade Runner.

Ou pedras, pirâmides, agricultura, arranha-céus e a crise económica.

Ou ainda macacos, pizzas, nabos, ferramentas, agricultura e desenvolvimento tecnológico.

Ou quem sabe teoria do caos, clima, pirâmides, religião, arquitectura, filmes e o woody allen.

Ou, até, almas, neurónios, átomos, estrelas e o universo.


E é assim que se escreve um artigo das Pataniscas Satânicas!


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domingo, 13 de setembro de 2015

Glowy Red Eye

Desde sempre nos fascinámos com a ideia de de simulacros de nós mesmos.
A ideia de construir vida artificial.

São fascinantes porque são reflexos de nós mesmos. São a melhor versão de nós mesmos que conseguimos criar.Provavelmente por causa disso são tão frequentemente defeituosos e com instintos assassinos

Isto evoluiu dos homúnculos e dos golems para os andróides e para as inteligências artificiais.


Estes últimos são particularmente interessantes porque já representam uma compreensão melhor do fenómeno. Já fazem uma distinção entre o corpo mecânico e a mente electrónica que lá está dentro.

Como damos imensa importância à expressividade dos olhos, naturalmente acabámos por representar essas consciências artificiais através dos olhos.

Porque temos este medo de ser suplantados pelas nossas criações, porque sabemos que elas carregam os nossos defeitos e falhas, temos sempre medo que se virem conta nós 

Por causa disso e porque a AI é sempre imprevisível acabámos quase sempre por dar olhos vermelhos aos robots maléficos da nossa ficção. 


O primeiro e melhor exemplo disto é o H.A.L. do 2001.
No filme 2001: A Space Odyssey (1968), o H.A.L. é uma inteligência artificial que se torna homicida, e é representada por um olho desincorporado do mais profundo vermelho, inexpressivo e absolutamente ameaçador.


Blade Runner (1982) representa o extremo oposto do espectro. No Blade Runner todos os replicants (seres humanos artificiais) têm um brilho vermelho muito ténue nos olhos. É subtil mas é a marca inconfundível de um simulacro humano.


O Terminator (1984) é talvez a representação mais popular e reconhecível do trope. O olho vermelho exuda maldade e ameaça e todo o seu potencial dramático é explorado na totalidade.


Durante os anos 90 há uma desconstrução do trope. Até agora tivemos robots ou AIs que são simulacros de humanos, agora temos um humano que se parece com um robot.
Concordantemente, no Robocop (1987) ,o olho que vemos por baixo do metal não só é humano, como é azul. 
É uma imagem diametralmente oposta à do Terminator.


Na televisão tivemos os Cylons do Battlestar Galactica (2004-2009). Robots assassinos e implacáveis, soldados de uma espécie alienígena determinada a destruir a humanidade. 


Os robots do I, Robot (2004) quando se tornam maus ficam com uma luz vermelha no peito, no coração. É possível interpretar isto como sendo as emoções que estão corrompidas e não a consciência. 


No Wall-E (2008) temos o AUTO, a inteligência artificial da nave espacial Axiom, extremamente reminiscente do H.A.L.




Finalmente, e como expoente máximo deste trope, há o Ultron, do Avengers: Age of Ultron (2015).
O Ultron é a história do Pygmalion, do My Fair Lady, dentro do MCU.
O Tony Stark cria o Ultron para proteger o mundo, mas o Ultron vem com todos os defeitos e limitações morais do Tony Stark, e rapidamente decide destruir a humanidade.

É claro que tem os olhos vermelhos

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