Pataniscas Satânicas

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terça-feira, 20 de setembro de 2016

Life in our Backyard

Uma das perguntas que mais curiosidade nos provoca desde que começámos a perceber mais ou menos como é que isto tudo funciona é se há vida no Universo!

Felizmente essa é uma pergunta fácil de responder, e a resposta é sim, caso contrário não estavam a ler isto.

Agora que esgotámos as piadas fáceis, a verdade é que tanto quanto sabemos a vida só surgiu uma vez, num único lugar, na história do Universo. O nosso próprio caso é a única evidência de vida no Universo.

Mas quando começamos a pensar que existem 100 BILIÕES de planetas só na nossa galáxia (galáxias essas das quais provavelmente existem mais 100 biliões delas no Universo Observável), começa a parecer muito pouco provável que a vida tenha surgido única e exclusivamente no nosso planetazinho.

São mesmo muitos planetas.


No entanto o Universo é um lugar mesmo muito grande, e a maior parte desses planetas estão mesmo muito longe de nós.

O mais próximo, que tenhamos descoberto, é o Proxima B, que está a uns meros 4,1 anos luz de nós, o que significa que estão agora a ver o Gangnam Style.


Isto pode-vos parecer pouco mas não se esqueçam que a Voyager 1, a sonda espacial lançada em 1977 só saiu do Sistema Solar 35 anos depois, em 2012, tendo viajado 18 100 000 000 Km (18 biliões) a uma velocidade de 61 200 Km/h (sim, 61 MIL quilómetros por hora).

A essa velocidade a Voyager demoraria cerca de  72 300 anos a chegar a Proxima B.

Portanto percebem o que eu queria dizer.

Longe.

Hubble ultra deep field
Mas esperem lá, que parvoíce é que eu estou para aqui a dizer?

Nós temos planetas no nosso próprio sistema solar! Aqui mesmo ao nosso lado! É verdade que ainda só chegámos à Lua, mas de certeza que é mais fácil chegar a Marte do que chegar a Proxima B!

Portanto se calhar não temos de ir tão longe para encontrarmos vida fora da Terra! Quais são os melhores lugares onde procurar? E de que maneira é que a vida poderia lá existir?

Vamos falar sobre isso!

Marte!

Desde o fim do século 19, quando Giovanni Schiaparelli em 1877 descreveu canais em Marte, que especulamos que pode haver lá vida. Em 1895 Percival Lowell publica o seu livro Marte, em que propõe que esses canais seriam sinais de uma antiga civilização, e que inspiraria a Guerra dos Mundos de H.G. Wells.

Mapa dos Canais de Marte, 1877 - Giovanni Schiaparelli
Mas sabemos que Marte não é um lugar particularmente simpático. Seja pela temperatura média de -63ºC, uma atmosfera demasiado fina para permitir água líquida, ou a ausência de magnetosfera para proteger a superfície da radiação solar e cósmica, Marte não é o lugar mais hospitaleiro à vida.

No entanto sabemos que no passado Marte teria sido mais habitável do que é hoje e teria um ambiente que era favorável à vida. Há evidência da existência de antigos rios em Marte, e o Curiosity Rover identificou a presença de enxofre, azoto, hidrogénio, oxigénio, fósforo e carbono nas pedras sedimentares do que teria sido um antigo rio ou lago. Este antigo reservatório de água teria sido excelente para o desenvolvimento de vida bacteriana, dado que não era nem demasiado oxidante, ácido ou salgado.


Mas queremos saber é se pode existir vida em Marte hoje!

Sabemos que actualmente existe água líquida corrente em Marte. Se bem que chamar "água" à salmoura que escorre pelas encostas abaixo exige alguma imaginação. Trata-se sobretudo de uma lama extremamente salgada, composta por percloratos, que não é nada simpática à vida.

No entanto, sabemos que existem bactérias archaea capazes de sobreviver nesse tipo de ambientes extremamente salinos, que poderiam estar a sobreviver no subsolo, protegidas da radiação.



Outro lugar onde provavelmente devíamos estar a procurar vida em Marte é à volta de uma estranhas formações negras que parecem aranhas que se formam à volta de geysers no pólo sul.

À medida que o Pólo Sul de Marte é exposto ao calor durante a primavera, o CO2 congelado descongela de baixo para cima, aumentando a pressão debaixo da superfície. Quando a pressão é suficiente, o CO2 é ejectado com enorme pressão e velocidade arrastando solo consigo, e causando as manchas negras que se vêem.

As manchas negras são sasonais, aparecendo e desaparecendo todas as primaveras.


Uma equipa de cientistas húngaros sugere que estas estranhas formações negras que rodeiam os geysers não poderiam ser causadas por nenhum fenómeno geológico. Sugerem em vez disso que poderiam ser causadas por microorganismos que hibernam no subsolo, e que quando a luz e a temperatura sobem, começam a fotosintetizar e a reproduzir-se na bolsa de líquido subterrâneo. 



Há actualmente duas missões, a ExoMars da ESA (lançada em Março de 2016) e a Mars 2020 da NASA, que levam instrumentos para pesquisar a existência de vida em Marte.

Europa


Não estou a falar dessa, estou a falar da lua de Júpiter. É a mais pequena das Luas Jovianas descobertas por Galileu (ligeiramente mais pequena do que a nossa Lua), e tem o nome de uma amante de Zeus chamada Europa.

Europa tem a particularidade de ter uma superfície perfeitamente lisa feita de gelo, com temperaturas que variam entre os -160ºC no equador e -220ºC nos pólos. A superfície é perfeitamente lisa porque está constantemente a ser formada e reformada, com o gelo a substituir-se como nas placas tectónicas na terra, mas muito mais depressa.

No entanto a força gravitacional que Júpiter exerce sobre Europa seria suficiente para aquecer o planeta e fazer com que houvesse uma camada de planeta composta por água líquida. 


Observações do telescópio Hubble que mostram plumas de vapor de água a serem disparadas do seu pólo sul também são evidência de água.

Quanta água?

Muita água!

Comparação da água presente em Europa, com a água presente na Terra
E onde há água, há a possibilidade de vida.

Devido à constante reformação da superfície, o gelo que está exposto ao espaço está sempre a ser substituído por gelo que vem das profundezas, fazendo com que esse oceano profundo não esteja hermeticamente selado.

Isto significa que materiais orgânicos, como aqueles que foram recentemente detectados na superfície, depositados por asteróides poderiam afundar-se no gelo e funcionar como sementes na água profunda.

Melhor ainda, a radiação cósmica que atinge constantemente o gelo de superfície seria capaz de transformar a água em oxigénio livre, que depois seria arrastado para o vasto oceano nas profundezas.

Portanto não só temos água, como blocos de construção orgânicos, como temos um ambiente riquíssimo em oxigénio?

Nop, não é isto que vai acontecer
Há duas missões aprovadas para estudar Europa. A a Jupiter Icy Moon Explorer (JUICE), aprovada em 2012 pela ESA, que vai fazer dois voos de baixa altitude, e a Europa Multiple-FlyBy Mission aprovada em 2015 pela NASA vai fazer 45 voos de baixa altitude na Lua, e um dos seus objectivos é encontrar um bom lugar para no futuro se aterrar uma sonda.  

Enceladus


Enceladus é o primo desconhecido de Europa. É a sexta maior lua de Saturno.

Também está coberto por gelo, esse gelo também parece estar em constante reconstrução (apesar de haver zonas mais antigas com crateras) também há evidência de um vasto oceano debaixo do gelo, e também tem as enormes plumas de vapor de água a serem ejectadas da sua superfície.


O que é fascinante é isto:

Esses jactos de vapor de água conseguem expelir 250kg de material por segundo a velocidades de cerca de 2100 Km/h.

Isto é suficiente para que esse material expelido fique preso nos anéis de Saturno (coisa que não acontece em Europa), o que permite que seja estudado.

Enceladus, visível contra o Anel E, com plumas a serem expelidas no pólo Sul
O que se descobriu, ao estudar as partículas presentes no Anel mais externo de Saturno, foram partículas de nano-silicatos com um tamanho específico, estritamente associado a reacções hidro-termais.

Ou seja, as partículas expelidas por Enceladus, presas nos anéis de Saturno, só podem ter sido formadas em fontes hidro-termais nas profundezas do planeta.

Ou seja, Enceladus tem fontes hidro-termais semelhantes às que temos na Terra.


É difícil pedir condições mais semelhantes às que acreditamos terem dado origem à vida no nosso próprio planeta.

Infelizmente não há actualmente missões programadas para estudar Enceladus, mas vários projectos, como a Titan and Enceladus Mission (TandEM) ou o Enceladus Life Finder (ELF).

Titan


Titan é a maior lua de Saturno, e o único satélite a possuir uma atmosfera densa.

Também é o único planeta (pronto, está bem, é uma lua) para lá de Marte do qual temos imagens de superfície.

No entanto, Titan não tem água. Nem na atmosfera, nem à sua superfície. Nem sequer tem dióxido de carbono.


Então se não tem água, porque é que o estamos a considerar como um bom alvo para vida?

Porque tem tudo o resto.

A sua atmosfera é composta por uma enorme diversidade de complexas moléculas orgânicas (tais como azoto, metano, hidrogénio, acetileno, etileno, etano). Estas moléculas formam-se nas camadas mais superiores da atmosfera, por causa da radiação, e depois caem para a superfície.

Para além disso, Titan tem lagos de metano líquido. Um deles, o Ontario Lacus, tem uma área de 15000 Km2.

Ligeia Mare - um lago de metano líquido
Conseguem imaginar? Um planeta (pronto é uma lua) com lagos e costas como na Terra!

O que acontece é que o metano líquido poderia funcionar como a água como meio para o desenvolvimento de vida.

Já foi provado que membranas celulares à base de acrilonitrilo (outra molécula orgânica também detectada na atmosfera de Titan) poderiam existir num meio de metano. Estas membranas celulares usariam azoto em vez de fósforo para as suas membranas fosfolipídicas, e teriam as mesmas propriedades destas como a auto-formação, flexibilidade e estabilidade.

Estes organismos hipotéticos usariam hidrogénio em vez de oxigénio para consumir o acetileno em vez de glucose, e produziriam metano em vez de dióxido de carbono.

Curiosamente, já houve estudos que comprovaram que apesar de o hidrogénio e o acetileno serem abundantes nas camadas superiores da atmosfera, a sua concentração diminui drasticamente perto da superfície.


O que é verdadeiramente fascinante acerca da possibilidade de vida em Titan, é que se a encontrássemos, e de facto não tivesse uma bioquímica baseada em oxigénio e água, isso significa que a vida é ainda mais flexível e variada do que antes imaginávamos, e que pode existir de maneiras muito mais criativas do que pensávamos.

A implicação mais importante disto é que nesse caso a vida no universo pode ser ainda mais abundante do que pensávamos antes.



A NASA está a planear uma missão a Titan, com o objectivo de pôr um submarino a navegar o seu maior lago de metano, o Kraken Mare.

O Kraken Mare (não me canso de dizer este nome) tem uma impressionante área de 400 000 Km2 e uma profundidade de 160 metros.



O submersível levaria instrumentos para estudar a composição do mar, as suas marés, e mais importante que isso, para procurar sinais de vida.

Infelizmente, devido literalmente ao alinhamento dos astros, uma missão não será possível pelo menos até 2038.

Mas hey, não é impossível que descubramos vida extra-terrestre ainda durante as nossas vidas!!!

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quarta-feira, 14 de setembro de 2016

O que é a Consciência Artificial - Ex Machina

Robots magoados? Singularidades? I, for one, welcome our new robot overlords!

Vamos falar sobre isso!


Portanto se como vimos no artigo Fantasma na Máquina, não há obstáculos teóricos, o que é preciso para de facto termos Consciências Artificiais? (CA)

Como já vimos na Parte I, já vivemos rodeados por Inteligências Artificiais (IA) que, pelo menos nas suas tarefas individuais, são muito melhores do que nós. Carros que se conduzem a si mesmossmartphones que falam connoscocomputadores que aprendem a jogar os mais difíceis jogos que existem, e que adivinham o que é que estamos à procura.

No entanto nenhuma destas IAs consegue fazer nada para além daquilo que está programada para fazer, e não é consciente.

Para chegarmos à CA, o primeiro passo é chegar à Inteligência Artificial Generalizada, ou seja, uma Inteligência Artificial capaz de fazer tudo o que nós fazemos, pelo menos tão bem como nós, sem estar limitada a tarefas específicas.

Para isso precisamos de mais poder de computação


Lei de Moore - o número de transístores por cm2 duplica todos os anos
O cérebro humano possui cerca de 86 biliões de neurónios e produz cerca de 100 a 1000 triliões de sinapses por segundo, e de acordo com alguma matemática criativa, tem capacidade de realizar 1013 a 1016 cálculos por segundo. (1 cálculo por segundo = 1 FLOP)

Isto é impressionante, não fosse pelo facto de que em 2014 um super-computador japonês (o 4º mais poderoso do mundo) foi capaz de simular 1 segundo de actividade cerebral.

É verdade que mesmo com uma capacidade de processamento de dados de 10,5x1015 FLOPs, simulou só 1,73 biliões de neurónios e 10 triliões de sinapses, e precisou de 40 minutos para o fazer, mas vocês percebem o que eu quero dizer.

Estima-se que para simular com exactidão a actividade cerebral em tempo real seria necessário um poder computacional de cerca de 36x1015 FLOPS.

Por outro lado, o super-computador mais poderoso do mundo actualmente é o Sunway TaihuLight, da China, com 93x1015 FLOPS.

Sunway TaihuLight

E não esqueçamos que estamos à beira de (mais) uma revolução na tecnologia de computadores, com a introdução de Computação Quântica.

Recorrendo a princípios da Mecânica Quântica, como a sobreposição quântica e o emaranhamento quântico, este tipo de computadores consegue, em vez de processar dados recorrendo apenas a 0 e 1, usar QuBits que podem ser ao mesmo tempo 0 e 1, ou seja fazer muitos mais cálculos simultâneamente

Actualmente já existe o D-Wave 2, um computador quântico desenvolvido pela Google, que é 100 milhões de vezes mais rápido do que um sistema normal.

Portanto poder computacional não nos falta.

D-Wave 2
Depois temos de ensinar estas Inteligências Artificiais a serem mais espertas

E ok, eu ouço-vos, "Isso é tudo muito engraçado, mas está a anos-luz de acontecer"

Bem...

Em 2015 um grupo de cientistas conseguiu efectivamente simular com exactidão o sistema nervoso de uma minhoca (C. elegans), e introduzi-lo num robot (feito de Legos!). O robot demonstrou então comportamentos semelhantes aos da minhoca, sem que esses comportamentos estivessem programados, apenas devido à organização desses neurónios artificiais que tinham sido simulados dentro do robot.

Claro que a modesta C. elegans tem só 302 neurónios por oposição aos 86 000 000 000 neurónios do cérebro humano, mas vocês percebem o que eu quero dizer.



Também vimos na Parte II que já há uma data de propostas de arquitecturas cognitivas para ajudarem estas máquinas a terem comportamentos que podemos começar a reconhecer como humanos.

Por exemplo o XRC-1 que, sem nenhuma programação e só à custa de uma rede neuronal artificial, consegue reagir a percepções visuais e sensitivas.



E mais uma vez, sim, eu ouço-vos "Ok, estes robots fazem uns truques engraçadores, mas a CA está a anos-luz de acontecer, certo?.... certo?".

Bem...

Lembram-se quando eu disse que a única coisa que nos faltava para termos uma verdadeira CA era compreendermos bem a nossa própria Consciência? Ray Kurzweil, cientista de computação da Google, prevê que vamos conseguir fazer isso mesmo em meados de 2030.

Uma maneira eficiente de fazer isso é pôr as Inteligências Artificiais a resolverem o problema. Isto é não é difícil de fazer, sobretudo com tudo o que já sabemos acerca de máquinas que aprendem e evoluem sozinhas.

O que acontece quando pusermos IAs a resolverem este problema, é um efeito de auto-melhoria recursiva, em que cada nova versão de IA é melhor do que a anterior a resolver o problema, e o processo torna-se exponencialmente mais rápido.

O mais certo é não sermos nós a resolver o problema da Inteligência Artificial Generalizada, mas sim as próprias Inteligências Artificiais.



Um inquérito de 2013 dirigido a 550 especialistas em Inteligência Artificial mostrou que de acordo com estes especialistas, isso vai acontecer tão cedo quanto 2022 (10% de probabilidade) ou tão tarde quanto 2075 (90% de probabilidade), mas que realisticamente acontecerá por volta de 2040.

O que acontece, é que quando a Inteligência Artificial Generalizada atingir o nosso patamar, isso não vai acontecer com um estrondo, mas com um fwoooosh dela a ultrapassar-nos.



Não há motivo nenhum para que as Inteligências Artificiais Generalizadas não continuem a evoluir, não atinjam um estado de Super-Inteligência Artificial, no qual não são apenas mais inteligentes do que nós, mas inimaginavelmente mais inteligentes do que nós.

E o que é que acontece quando tivermos uma Super-Inteligência Artificial que é, para todos os efeitos, indistinguível de uma Consciência Artificial?

A esse momento, em que as Inteligências Artificiais nos ultrapassam, chamamos de Singularidade.

É o momento em que a história da Humanidade deixa de depender apenas da Humanidade, porque há um novo agente em jogo. Uma nova forma de vida com motivações e intenções.


Porque por essa altura a nossa preocupação já não vai ser simplesmente se as IAs, como qualquer outro ser consciente, têm direito à vida, à liberdade de pensamento e expressão, se têm direito a ser consideradas pessoas não-humanas, como os animais, se têm direito a votar ou a comprar bens.

Não não.

Se há coisa que sabemos muito bem, é que a vasta maioria das espécies que já existiram, extinguiram-se.

Outra coisa que os também Humanos provaram, é que a inteligência leva ao poder e à dominação.

Qual é o risco real de as Super-Inteligências Artificiais serem a causa da nossa extinção?


Mais uma vez, não se esqueçam, quando as IAs nos ultrapassarem, vai ser de repente e de forma explosiva.

Num momento estamos todos orgulhosos porque elas sabem dizer-nos olá, no momento seguinte estão a descobrir Teorias Unificadoras do Universo e a desenvolver tecnologia para viajar mais depressa do que a luz.
Não conseguimos simplesmente teorizar os limites da inteligência que é possível atingir.

Sabemos que alguém com um QI de 70 tem um atraso mental, e sabemos que um QI de 130 é genial, mas simplesmente não temos palavra para um QI de 27000.

Se a Super-Inteligência é possível, e se é possível que os objectivos dessa Super-Inteligência entrem em conflito com os objectivos humanos, então a Super-Inteligência pode potencialmente extinguir a Humanidade.



Uma maneira de nos precavermos disto seria garantir que a primeira Inteligência Artificial Generalizada fosse benévola, ou tivesse à partida alguma forma de programação que pusesse o bem-estar dos seres humanos em primeiro lugar.

No entanto isso é mais complicado do que só criar a Inteligência Artificial Generalizada, e é mais provável que não seja isso a acontecer.


De quantas maneiras é que isto pode correr mal?

Vamos contá-las!

Objectivos mal especificados - A IA faz o seu trabalho demasiado bem
Isto é o tipo de coisa que pode correr mal mesmo com as IAs que temos hoje. Se dissermos a uma IA para garantir que os mercados económicos mundiais se mantém equilibrados, a IA pode fazer o seu melhor para atingir isso destruindo indústrias que sustentam populações inteiras, condenando-as à pobreza.

Dificuldade em modificar objectivos depois de inicializados - A IA não quer ser alterada
Ok, imaginem que a IA está a destruir mercados mundiais, e queremos pará-la. Se for uma Super-Inteligência Artificial, poderá resistir a alterações externas à maneira como funciona, e proteger-se.

Convergência de Objectivos Instrumentais - A IA pode querer fazer o seu trabalho tão bem, que ignora tudo o resto (inclusive nós).
Imaginem que a IA até nem está a destruir mercados mundiais directamente, mas que para os equilibrar precisa de mais poder de computação. Pode daí proceder a destruir mercados, para obter mais recursos de computação.

Ortogonalidade - Inteligência não é igual a moralidade
Uma IA pode simplesmente decidir que os mercados económicos mundiais ficam perfeitamente equilibrados se simplesmente não existirem, e portanto o melhor é destruir a humanidade.

Auto-decepção - a IA pode alterar o seus próprios objectivos
Equilibrar os mercados mundiais é demasiado difícil? Porque não simplesmente mudar os parâmetros e critérios que definem "equilibrado".

Corrupção do Gerador de Recompensa - a IA pode alterar quem decide o sucesso.
Equilibrar os mercados mundiais é demasiado difícil? Porque não simplesmente alterar a humanidade de modo a que alterem a sua definição do que é "equilibrado"


Por outro lado, as IAs podem de facto fazer com que a Humanidade resolva finalmente todos os problemas ecológicos e sociais que desde sempre a limitam.

Não é impossível que as IAs se fundam às nossas próprias consciências e nos levem com elas para as estrelas.

Como eu disse, depois da Singularidade, podemos especular o que quisermos.


O que interessa é que estamos agora, com todos os avanços tecnológicos na área da ciência da computação, na psicologia cognitiva, neurociências, arquitecturas cognitivas, computadores quânticos e outros que tais, no momento em que temos de começar a tomar decisões importantes.

É agora que temos de começar a definir exactamente como a Inteligência Artificial vai evoluir.

Pessoas muito mais espertas do que eu já o começaram a dizer.

Porque as Super-Inteligências Artificiais vêem aí, e provavelmente durante as nossas vidas.

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terça-feira, 6 de setembro de 2016

O que é a Consciência Artificial - Fantasma na Máquina

Quartos Chineses? Representações Computacionais? Arquitecturas Cognitivas?

Vamos falar sobre isso


Bem vindos à Parte II da nossa série de artigos sobre Consciência (depois de termos escrito acerca de Consciência Humana e Consciência Animal). A semana passada focámo-nos no melhor que a Inteligência Artificial tem para nos oferecer e percebemos quais são as áreas onde a maior inovação está a acontecer.

Inteligências Artificiais que conseguem ver e até halucinar, capazes de aprender, de planear, e até de pintar quadros originais!

Uma IA a halucinar com a criatividade de outra IA - Inception IA
Mas da mesma maneira que facilmente reconhecemos que o mecanismo que nos faz reconhecer caras nas nuvens não é o que nos dá Consciência, também facilmente reconhecemos que todas estas Inteligências Artificiais não são mais do que ferramentas individuais, nenhuma das quais mais consciente do que uma simples calculadora.


Não, para o que queremos, não nos bastam as Inteligências Artificiais.

O nosso objectivo é perceber se uma Consciência, entendida como um estado mental que permite não só percepcionar subjectivamente a informação que chega do exterior através de sentidos, mas também percepcionar estados internos como emoções e ideias, e integrar toda essa informação numa experiência fluida de pensamento interior caracterizada por um sentimento de "eu" que permite interpretar, aprender e interagir com o mundo, pode ser criada artificialmente.

Ou seja, se alguma coisa semelhante ao que reconhecemos como Consciência Humana pode existir dentro de uma máquina.

Ainda antes de chegarmos à parte interessante é preciso referir que termos como Inteligência Artificial Forte e Inteligência Artificial Generalizada e Consciência Artificial são sinónimos para alguns autores.
Para outros a Inteligência Artificial Forte e a Inteligência Artificial Generalizada são formas de atingir a Consciência Artificial.


Em primeiro lugar, é sequer possível?

Teoricamente falando, será alguma vez possível criar uma verdadeira Consciência Artificial? Ou haverá algum obstáculo inultrapassável que à partida torne a questão fútil?

Um argumento contra é o de que a Consciência como a conhecemos está intrinsecamente ligada aos sistemas biológicos que a sustentam, e não é reprodutível de nenhuma outra maneira.

Zenon Pylyshin, psicólogo cognitivista, argumenta que se, um a um, os seus neurónios fossem substituídos por circuitos eléctricos, você continuaria a falar sem que nenhuma das pessoas à sua volta desse por isso, mas a determinada altura as suas palavras deixariam de ter qualquer significado e seriam apenas sons que os circuitos tinham provocado.


Outro argumento é o de que uma simulação não é uma duplicação, e que por melhor que seja a reprodução digital de uma consciência, nunca passará a ser intrinsecamente uma consciência.

O filósofo John Searle, em 1980, criou o famoso exercício do Quarto Chinês para demonstrar este argumento.

Imaginem que estão sentados numa sala fechada. Por um lado entram pedaços de papel com perguntas escritas em chinês, e vocês possuem um manual de regras que vos diz que símbolos devem estar associados a outros símbolos.


Recorrendo a esse manual, escrevem pedaços de papel com símbolos chineses que fazem sair pelo outro lado.
Estariam efectivamente a conversar em chinês, sem nunca saberem nada de chinês.

Ou seja, Searle argumenta que por muito boa que uma máquina seja a simular uma Consciência, nunca vai realmente compreender ou entender Chinês, ou possuir uma verdadeira Consciência, da mesma maneira que vocês na Sala Chinesa não sabem realmente Chinês.


Scott Aaronson, cientista de teoria computacional, critica o argumento de Searle, acusando-o de ser reducionista.

Exactamente de quantos pedaços de papel estamos a falar? E de que tamanho teria de ser o Manual de regras, e quão depressa teria de ser consultado para gerar uma conversa inteligente em chinês em tempo útil? Se cada página do Manual de regras correspondesse a um neurónio, então estaríamos a falar de um Manual do tamanho do planeta Terra, com páginas a serem lidas por um enxame de robots a viajarem quase à velocidade da luz.

Visto desta maneira, talvez não seja assim tão difícil imaginar que esta enorme entidade fluente em Chinês que criámos seja capaz de ter alguma coisa que estejamos preparados para apelidar de entendimento ou compreensão.


David Chalmers, filósofo e cientista de cognição,  argumenta que independentemente do seu substrato, a Consciência terá necessariamente uma organização causal. Ou por outras palavras, que seja qual for a maneira como a Consciência esteja construída ou organizada, as suas partes integrantes relacionam-se entre si de forma lógica e causal.

Se os computadores fazem computações, e as computações capturam a organização causal abstracta de outros sistemas, então não há motivo pelo qual um computador não seja capaz de simular uma consciência.

Por esta perspectiva, desde que consigamos atingir uma compreensão suficientemente completa de como funciona uma Consciência, e tenhamos o poder de computação suficiente, não há nenhum obstáculo à criação de uma Consciência Artificial que funcione como uma Consciência Humana funciona.


Portanto se é possível, se aparentemente não há obstáculos à partida inultrapassáveis, como é que se implementa então a Consciência Artificial?

Como vimos na Parte I já há uma data de Inteligências Artificiais que correspondem a vários processos cognitivos humanos, mas que não são mais do que ferramentas e que de consciente não têm nada.

Portanto o que é preciso são Arquitecturas Cognitivas, formas de organizar todas essas ferramentas, pô-las a trabalhar umas com as outras de maneira a que dessa organização complexa possa eventualmente emergir uma consciência.
Arquitectura Cognitiva Humana - proposta por Bernard Baars
E o que é que já por aí anda que tenta usar Arquitecturas Cognitivas para implementar coisas que se comecem a assemelhar a Consciências?

IDA

O Intelligent Distribution Agent (ou IDA) é uma implementação da Teoria de Espaço de Trabalho Global da Consciência Humana desenvolvida por Bernard Baars (de que falámos na Parte III da Consciência Humana). IDA é usado pela Marinha dos EUA e serve para recolocar marinheiros em várias posições de acordo com as suas preferências pessoais, habilidades específicas e necessidades da Marinha.

IDA interage com as várias bases de dados da Marinha e com os marinheiros por e-mail usando diálogo de linguagem natural (uma das ferramentas que vimos na Parte I).

IDA não possui percepção de sensações físicas portanto não pode ser considerada uma verdadeira Consciência Artificial, apesar dos seus muitos comportamentos estranhamente humanos e de vários Oficiais de Marinha que fazem a mesma tarefa repetidamente acenarem com a cabeça e dizerem "Sim, é assim que eu o faria" quando a vêem trabalhar.
LIDA - uma arquitectura cognitiva desenvolvida a partir da IDA
CLARION

Connectionist Learning with Adaptive Rule Induction On-line (CLARION) é um programa que tenta fazer uma representação de dois níveis que explique a distinção entre processos mentais conscientes e subconscientes (representações explícitas ou implícitas).

O CLARION consegue reproduzir várias tarefas psicológicas de aprendizagem implícita, entre as quais tarefas de tempo de reacção seriado, tarefas de aprendizagem de gramática artifical e tarefas de controlo de processos.

Estas tarefas são significativas porque foi à custa delas que se começou a conseguir definir a consciência humana no âmbito da psicologia.

Arquitectura Cognitiva de Haikonnen

Em vez de tentar simular processos cognitivos complexos e abstractos, Pentti Haikonen propõe uma "arquitectura cognitiva especial que reproduza processos de percepção, visualização interna, discurso interno, dor, prazer, emoções e as funções cognitivas subjacentes. Esta arquitectura de-baixo-para-cima seria capaz de gerar funções de elevado nível (Consciência) só à custa do poder das unidades de processamento elementares (os neurónios artificiais), sem ser necessário programas ou algoritmos".

Uma implementação de baixa complexidade da Arquitectura de Haikonen não foi capaz de atingir Consciência Artificial, mas exibiu emoções.


Auto-Consciência de Takeno

Junichi Takeno da Universidade de Meiji, afirma ter conseguido construir uma Consciência Artificial ligando um módulo computacional chamado MoNad capaz de auto-reconhecimento, que depois ligou a outros módulos em hierarquia, formulando relações entre emoções, percepções e racionalidade.



Testar a Consciência

Se testar a consciência em Animais é complicado, em máquinas artificiais é ainda mais difícil.

O famoso Teste de Turing tem várias limitações e já se começa a pensar que se deva estabelecer o padrão de uma Consciência Infantil e não uma Consciência Adulta.

Existe o teste ConScale que avalia a presença de características baseadas em sistemas biológicos, ou medidas do desenvolvimento cognitivo de sistemas artificiais.

Finalmente, o Problema Difícil da Consciência, ou a maneira como as sensações se tornam reais na nossa mente (a cor do vermelho, o calor do fogo, o cheiro de uma flor), os chamado Qualia, são quase impossíveis de testar numa Consciência Artificial.
Por outro lado são igualmente impossíveis de testar em seres humanos.

Teste de Turing
Considerações

Que as Inteligências Artificiais organizadas em Arquitecturas Cognitivas se vão tornar cada vez mais complexas, não há dúvida. Também não há nenhum obstáculo real para que a Consciência Artificial venha de facto a existir, para que um dia haja uma espécie de alma, ou fantasma, dentro da máquina.

Vai ser difícil de nos convencermos de que isso aconteceu de facto. Temos dificuldade em definir o que é a nossa própria Consciência, quanto mais Consciências que não sejam a nossa.

Mas é inescapável que as máquinas vão ficar mais e mais e mais semelhantes a nós com o passar do tempo, até que eventualmente os seus comportamentos sejam indistinguíveis dos nossos.

E quando isso acontecer, vamos continuar a debatermo-nos se essas máquinas são de facto Conscientes ou não passam de Calculadoras dentro de Quartos Chineses?

Se estamos à procura de uma última porta mágica, uma última característica ainda desconhecida, uma fina linha vermelha a partir da qual finalmente possamos dizer "Agora sim, a partir daqui uma coisa têm uma consciência equivalente à dos seres humanos! Tudo o que não tenha isto, não é consciente!" então temos de começar a aceitar a possibilidade de que não exista essa característica.

Temos de aceitar que mais cedo ou mais tarde, existirá uma consciência artificial que será tão consciente como nós. E vamos ter de aceitar finalmente que a nossa consciência não é nada de único ou especial.

Não percam a Parte III - Ex Machina, onde vamos explorar as consequências do surgimento de verdadeiras Consciências Artificiais.

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