Pataniscas Satânicas

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quarta-feira, 15 de outubro de 2014

New Adult: os romances Harlequim com um twist

Eu gosto de ler. Sempre gostei de ler, mas como tudo na vida este gosto alterou-se com os anos. Se no inicio li histórias adequadas para a idade, na faculdade tornei-me uma snob relativamente à leitura. Eu não lia qualquer coisa. Eu lia histórias com qualidade comprovadamente superior. Eu lia autores existencialistas e críticos sociais e era uma deprimida… Yup. Quando lês demasiado Dostoyevsky nasce um desespero em relação ao mundo, uma apatia continuada e uma incapacidade inexplicável de perceber que existe uma possibilidade de mudança. Ou simplesmente a minha depressão maravilhosa adorava banhar-se nas histórias de personagens com finais miseráveis.

Após estes anos gloriosos de leituras profundas que moldaram a minha personalidade de maneira incontornável, a verdade é que a depressão passou. E não, não deixei de gostar de ler clássicos ou livros de qualidade, mas passei a apreciar (e a culpar-me muito por isso) ler livros com finais felizes, romances que me façam sorrir. Descobri todo um mundo de romances contemporâneos, históricos, fantasia, steampunk, paranormal e distopia. Tornei-me numa leitora relativamente aleatória. Sim, continuo a seguir a lista dos “1001 livros a ler antes de morrer”, mas sou muito mais comedida. E como sou fan do Goodreads descobri um género extraordinário: New Adult.

Resumidamente, este género é o somatório de todos os clichés do Young Adult (típica personagens principais decalcadas do “Twilight”, insta-love, triângulos amorosos, dinâmica amor-ódio, declaração amorosa dramática, rapaz possessivo e anulação da personagem feminina em prol do “amor”), mas com descrições de cenas sexuais desde os primeiros capítulos da história. As descrições sexuais fariam corar as escritoras do “Harlequim e Bianca” que via a minha mãe ler nas velhas praias de Quarteira. Assim tão pormenorizadas, com tudo para todos os gostos. É só uma questão de procurar. Deixem-me apenas avisar, comparativamente com o que é descrito nos livros não há homem que se compare. A quantidade e qualidade sexual descrita mata qualquer desejo pelo vosso parceiro atual… Just saying…

E nem é componente sexual exagerada sem nexo que me faz realmente confusão nestes livros. O que me preocupa e não me faz sentido é ter lido partes de livros em que as violações são justificadas pelas autoras. Em que a violência verbal e física é demonstrada como sendo uma prova de carinho e amor. E isto arrepia-me. Desculpem, provavelmente estou a ser moralista, mas ler um livro em que o raciocínio da personagem feminina após ser violada é “Ele utilizou o meu corpo sem a minha permissão, mas é tão bonito e musculado”, dá-me náuseas. Ler um livro em que tudo aquilo que ainda hoje se luta em termos de igualdade de géneros é jogado para o lixo e a realidade é distorcida e apresentada a jovens como sendo algo aceitável e até mesmo um objetivo a alcançar diz que não avançámos muito como seres humanos.


E porque é que me interesso? Bom, primeiro, porque estudos têm demonstrado um aumento da violência entre casais jovens. Segundo porque eu trabalho também com jovens e noto uma aceitação das vicissitudes da vida como se fosse algo a aspirar. Terceiro, porque sou um ser humano do sexo feminino que tem um imenso orgulho do trabalho que tantas mulheres tiveram para que eu hoje pudesse ter os direitos que tenho. Quarto, porque violações e violência simplesmente não são aceitáveis… Quinto, porque o Ricardo e o Gui estavam fartos de me chatear a dizer que não contribuía em nada para este blog, e assim calo-os por mais um ano. :P
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quinta-feira, 31 de julho de 2014

Guerra dos Livros

Há uma guerra a acontecer de que provavelmente não se aperceberam, e é uma coisa razoavelmente grande, e com consequências razoavelmente importantes.

Nada de realmente importante dadas outras questões mais importantes, mas ninguém vem a este blog para questões importantes.
Ninguém vem a este blog [ponto final]

Estou a falar do conflito entre a Amazon e a Hachette.

VS

Provavelmente já ouviram falar da Amazon, gigante das vendas online, mas provavelmente nunca ouviram falar da Hachette, uma das cinco maiores editoras dos EUA, pertencente à maior editora francesa que é a terceira maior editora do mundo, que detém os direitos de livros de autores como Stephen Colbert, Emiliy Dickinson, Christopher Hitchens, Martin Luther King, Nelson Mandela, Stephenie Meyer, J.D. Salinger e Nicholas Sparks.

O que é que acontece, então?

Acontece que os e-books são o futuro.

Sim, sim, eu sei, vocês gostam de mexer nas páginas e ter o livro nas mãos e gostam do cheiro do papel, e essa snobice pretensiosa toda.
Não estou a dizer que estão enganados, essas coisas são de facto agradáveis.
Mas eu sou um snob pretensioso e sei reconhecer snobice pretensiosa quando a ouço e isso são tretas snobs e pretensiosas, portanto calem-se.

Os e-books são o futuro. E a Amazon vende muitos e-books.

E, ao que parece, é muito muito fácil vender produtos digitais online. Basta ter um único ficheiro de meia dúzia de kilobytes guardado num servidor qualquer, as pessoas transferem uma quantidade relativamente enorme de dinheiro e podem fazer download do ficheiro.
Sem custos de impressão, de transporte, nada. Depois de comprar o direito de vender o livro, tudo o resto é quase 100% lucro.

Outra vantagem muito grande de ter uma plataforma online de venda de produtos digitais, é que é muito muito fácil brincar com preços e promoções e saldos. Basta ir à base de dados e alterar os preços. Tão simples como isso.
Isso permite uma grande flexibilidade e um grande poder de manipulação do mercado, permite adaptar com grande fineza os preços às procuras dos compradores.
Tem funcionado ás mil maravilhas para a Steam, por exemplo.

O problema foi que a Hachette não achou piada que a Amazon andasse a brincar assim com os preços dos seus livros. Exigiram mais controlo sobre os preços. Provavelmente exigiram uma maior percentagem dos lucros.
Imagino que a conversa tenha corrido mais ou menos assim:

Hachette - vocês não podem mexer assim nos preços dos nossos livros!
Amazon - claro que podemos! somos a Amazon, fazemos o que quisermos! voltem para as vossas prensas móveis, imprimir bíblias do Gutenberg, enquanto nós definimos o futuro.
Hachette - ai é? olhem que se não fizerem o que mandamos, não vos deixamos mais vender os nossos livros!
Amazon - ok, vamos deixar de vender os vossos livros.
Hachette - óptimo! Isso - não! esperem, o quê?

E não foi só tornarem indisponíveis para venda livros da Hachette, porque a Amazon percebe como as pessoas na internet funcionam. A amazon tornou mais lenta a expedição de livros da Hachette, tirou o botão de pré-venda dos livros da Hachette. Basicamente começou a irritar os compradores.

Perderam dinheiro, mas a Hachette perdeu ainda mais.

Outro grupo de pessoas que ficou irritado foram os autores. Aquelas pessoas que precisam que os seus livros sejam vendidos para comerem ao fim do mês.

Até o Neil Gaiman veio dizer umas coisas muito poéticas e profundas acerca de como os livros são sagrados e não devem servir de arma de arremesso numa batalha económica entre duas superpotências das vendas de livros.

Foi aí que a Amazon deu o seu golpe de génio.

A Amazon fez a seguinte proposta: enquanto durasse esta disputa legal entre a Amazon e a Hachette, os autores da Hachette receberiam 100% dos lucros da venda dos seus livros.

KA-BLAM!!!

A Amazon acabou de oferecer aos autores mais lucro do que alguma vez eles tiveram com a Hachette.
Obviamente alguns autores não gostaram, vieram dizer que não querem ser usados na guerra, mas isso é inconsequente. 
Alguns autores, muitos, provavelmente, vão aceitar. Porque dinheiro.
E vão passar a escrever directamente para a Amazon, cortando um intermediário, que lhes vai dar mais dinheiro do que eles recebiam antes, o que os vai motivar a escrever mais livros.
E isso é bom.

A não ser é claro que a Amazon consiga um monopólio da venda de livros, e os monopólios nunca são coisas agradáveis, mas isso, mais uma vez, também é provavelmente inevitável.
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