Pataniscas Satânicas

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terça-feira, 22 de março de 2016

Batman v Superman: o Detective Morcego contra o Super-Alienígena

Quem são os avôs do Batman? O que é que o Superman tem a ver com o Tintin? Mais um artigo para nos aproveitarmos da proximidade de blockbusters?

Vamos falar sobre isso.


Portanto não tarda nada o Batman e o Superman vão estar aí à porrada um contra o outro, e estamos todos muito entusiasmados com isso e vamos ver o filme e vamos escrever sobre o filme, provavelmente para dizer que o Civil War é melhor, e o Batman v Superman: Dawn of Justice é realizado pelo Zack Snyder e tem o Ben Affleck e o Henry Cavill e o Jeremy Irons e o Jesse Eisenberg a fazer de Lex Luthor que é provavelmente o que me entusiasma mais acerca do filme, e acho que já tenho as keywords todas de que o motor de busca do Google precisa para ir buscar este post quando as pessoas procurarem por coisas relacionadas com isto.

Mas eu sempre achei muito interessantes estes dois heróis da DC, que são os seus dois heróis mais reconhecíveis.

Já falámos antes da diferença essencial entre os heróis da Marvel e da DC, mas nunca explorámos realmente quem são o Batman e o Superman.

Claro que por esta altura já toda a gente sabe que o Batman é o Bruce Wayne e que o Superman é o Clark Kent. Não é disso que estamos a falar.

Tentem afastar-se do que sabem destes heróis e olhem para eles como se fosse a primeira vez.


Se pensarem bem no assunto, o Batman é um orfão milionário que se veste de morcego à noite para combater o crime e resolver crimes, recorrendo a equipamento científico avançado.
O Superman é um alienígena que vem do planeta Krypton e que na terra tem poderes sobre-humanos e um sentido de moralidade inatacável.

A nossa primeira pista para entender isto está na origem destes heróis.

O Superman e o Batman surgem pela primeira vez em 1938 e '39, respectivamente. São ambos heróis pré-Segunda Guerra Mundial, ao passo que o Captain America (1941) e o Iron Man (1962) são os dois heróis do pós-guerra (o Iron Man é um herói que nasce do clima da guerra fria).

Isto significa que o Superman e o Batman vão representar uma cultura americana ainda relativamente inocente e jovem, dos anos '30 e para quem os heróis ainda não estavam relacionados com a guerra.

Quem são esses heróis?


Em 1905 estreia a peça de teatro das aventuras do Scarlet Pimpernel, que para as gerações mais recentes é quase inteiramente desconhecido, mas que ainda foi uma referência cultural relevante para o meu pai nascido em 1948.

O Scarlet Pimpernel era um aristocrata inglês durante a revolução francesa que salvava outros ingleses do violento governo revolucionário francês. O Scarlet Pimpernel escondia a sua identidade, marcando os seus feitos apenas com uma flor vermelha, e resgatava os outros ingleses recorrendo a secretismo e disfarces!

É familiar?


Em 1919 é publicada a primeira aventura de Zorro.

Diego de la Vega é um nobre espanhol-californiano durante a época do governo Mexicano em Los Angeles durante 1821 e 1846. Diego veste-se de negro, usa uma máscara para esconder a sua identidade e usa a sua agilidade e esperteza para proteger as pessoas comuns e os indígenas do tirânico governo espanhol.

Já começa a ser reconhecível?

Douglas Fairbanks em "The Mask of Zorro" de 1925
No seguimento de detectives extremamente inteligentes capazes de desvendar crimes só com o poder da sua inteligência, como Sherlock Holmes (1887), em 1931 surge pela primeira vez a personagem de Dick Tracy, um detective policial duro e inteligente e já com uma distintiva queixada quadrada.

Dick Tracy também não tem super-poderes, mas em vez disso usa a sua inteligência, dispositivos electrónicos avançados e ciência forense para resolver os crimes.



Também em 1931 surge a personagem do The Shadow, que originalmente era apenas a personagem que apresentava um programa de radio de mistérios criminosos com o mesmo nome.
A personagem rapidamente ganhou popularidade e mereceu uma banda-desenhada só para si, e eventualmente alguns filmes.

O The Shadow é uma personagem misteriosa, que se vestia de negro, tinha uma máscara, uma identidade secreta, e durante a noite ia combater o crime em nome da justiça, intimidava os criminosos à submissão e era conhecido pelos seus poderes de dissimulação.

"The Shadow" - acho que já perceberam onde é que eu estou a chegar com isto
O Batman é uma amálgama de todos estes heróis das revistas pulp, misturando os tropes dos aristocratas aborrecidos, detectives inteligentes e justiceiros nocturnos.

Então e o Superman?


As origens do Superman não são menos curiosas e surpreendentes.

Edgar Rice Burroughs escreve em 1912 o primeiro romance de Tarzan, que viria a ser adaptado para banda desenhada em 1929 por Hal Foster.

Tarzan é um humano que cresceu fora da corrupção da sociedade, com morais puros e uma coragem inabalável que entram em conflito com as pressões de uma sociedade à qual ele não esta habituado. Não atrapalha nada o facto de ele ser o epítomo da condição física perfeita.

Tarzan, ilustrado por Hal Foster, 1929
Tarzan, Ilustrado por Burne Hogarth, 1938


 Edgar Rice Burroughs cria também em 1912 a personagem de John Carter.

John Carter era um homem da Virginia, antes da Guerra Civil Americana e que detinha os valores do Sul-pré-guerra da honra e da Cortesia.
John Carter acaba por se encontrar deslocado no planeta marte, onde descobre que por causa da gravidade, a sua força e agilidade físicas são agora sobre-humanas, possui uma espécie de imortalidade, o que lhe permite salvar os marcianos nativos.


Esta busca das origens do Superman não estaria completa sem falarmos de Buck Rogers (1929) e Flash Gordon (1934), ambos exploradores espaciais, ambos com capacidades sobre-humanas, e que dão relevo às fontes de ficção científica do Superman.


Finalmente, uma última nota em relação ao Superman, tem a ver com o facto de que o alter-ego dele ser um repórter. O Clark Kent é um repórter para o jornal Daily Bugle em Metrópolis (cujo nome é directamente inspirado do filme de ficção científica de Fritz Lang de 1927 com o mesmo nome).

Mas porquê um repórter?

Porque nessa altura ser um repórter era uma coisa entusiasmante e excitante para os jovens, como evidenciado pela popularidade do Tintin (1929), outro repórter/jornalista que anda pelo mundo em aventuras.


Portanto, temos o Batman que é descendente directo de aristocratas vigilantes misteriosos que resolvem crimes recorrendo à sua inteligência e dispositivos científicos, funcionando como neto do Zorro e do Sherlock Holmes, e filho do The Shadow e do Dick Tracy.:
E temos o Superman que é o ideal da forma física e dos morais inatacáveis vindos de uma origem alienígena à sociedade normal, com habilidades sobre-humanas que também têm surgem da sua origem extra-terrena. É neto do Tarzan e filho do Joh  Carter, primo do Tintin e passou muito tempo co o Flash Gordon e o Buck Rogers.

Portanto, quando forem ver o Batman v Superman, e acharem bizarra a história do Detective Morcego que luta contra o Super-Alienígena, e se vos der a impressão que isso mais parece uma historieta dos anos '30, então é porque é mesmo.


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domingo, 17 de janeiro de 2016

Marvel v DC

 A diferença fundamental entre a Marvel e a DC? O humor como ferramenta de escrita? Fazer hijack de um comentário para escrever um artigo?

Vamos falar sobre isso.



Já antes analisei a fundo a história da competição cinematográfica entre a Marvel e a DC, mas mesmo assim nunca entrei especificamente sobre as diferenças fundamentais entre os dois universos.

A Marvel e a DC competem uma com a outra desde sempre, e continuam a par e passo a lançar obras paralelas.

Não é por acaso que neste ano saem o Batman v Superman (2016), que é sobre os dois principais heróis da DC a lutarem um contra o outro, e o Captain America: Civil War (2016) que é sobre os dois principais heróis do MCU, o Captain America e o Iron Man, a lutarem um contra o outro.


Os paralelismos entre o universo da Marvel e da DC são imensos. A maior parte dos heróis de uma e da outra são equivalentes entre si, e por vezes são mesmo cópias descaradas uns dos outros.

Mas apesar de podermos estabelecer paralelos tão claros como o Superman e o Captain America serem o The Leader para o The Lancer que são o Batman e o Iron Man, há diferenças fundamentais nestes heróis que tornam o mundo da Marvel um bicho muito diferente do mundo da DC.

Já há muito tempo que eu queria escrever sobre este tema, mas nunca soube exactamente por onde pegar.
Curiosamente foi o comentário do Ricardo no meu último post sobre o Avengers: Age of Ultron, que me deu a ponta perfeita por onde começar.

Ele diz assim, acerca do Age of Ultron:

"Acho que o tom leve e o humor excessivo são das melhores qualidades do filme!"

E tem toda a razão!



Nos últimos anos, à medida que a Marvel e a DC começam a construir os seus universos partilhados, nota-se uma diferença clara no tom dos seus filmes.

Enquanto que a DC constrói filmes com um tom sério e pesado, a Marvel vai sempre para um tom leve e cómico.
Isto não significa que os filmes da DC não tenham piadas ou que os filmes da Marvel não tenham momentos dramáticos, mas no geral o tom dos filmes têm-se mantido consistente.

O cerne disto tudo está no conteúdo: são filmes sobre super-heróis.

Filmes cujas personagens conseguem voar, disparar raios das mãos, e serem estupendamente inteligentes ou fortes, e lutarem contra palhaços assassinos, alienígenas genocidas ou exércitos de robots.

São histórias de aventura épicas, que funcionam tanto melhor quanto mais crescerem, quanto maior forem, quanto mais impossível parecer a tarefa e quanto menor forem as probabilidades de sucesso.
É um tipo de narrativa no qual os exageros são necessários para construir tensão e resoluções satisfatórias.

Ninguém se importa se o Herói salvar um gatinho de uma árvore, por muito realista que isso seja!

Mas se o Herói tiver de salvar New York de um gatinho gigante vindo do espaço com lasers na cabeça, subitamente temos uma história épica de aventura!


O problema reside no facto de que se se tentar contar a história ridícula do gatinho gigante vindo do espaço com lasers na cabeça que vai destruir New York com um tom sério e maduro, gera-se dissonância cognitiva e o ridículo da situação torna-se flagrante e desconcertante.

Se tentares contar a mesma história mas com um tom leve e cómico, o ridículo da situação está suportado por esse tom, não há dissonância cognitiva e os exageros não parecem descabidos.

O Man of Steel (2013) da DC leva-se muito a sério e cai no ridículo por isso.

Os Batmans também se levam a sério, e só não caem no ridículo porque têm o Christopher Nolan a fazer magia com a cinematografia. Mesmo assim a Bat-voz do Christian Bale está no limite do aceitável, e para muita gente quebra a suspensão da descrença.

A Marvel consegue ter coisas como o Guardians of the Galaxy (2014), que é o epítomo do tom leve e do humor excessivo!


Porque é que a DC não constrói então histórias com um tom leve e cómico, à semelhança da Marvel?

Devido a outra diferença fundamental entre a Marvel e a DC que está no nível de poder dos seus Heróis.

O Captain America consegue segurar um helicóptero, mas o Superman é um alienígena quase indestrutível que é capaz de destruir prédios com um murro. São ambos impressionantes à sua maneira, mas estão claramente em escalões diferentes.



E aí reside o problema.

Quando se começa com um herói que é indestrutível, imortal e tão poderoso que é frequentemente comparado com um Deus, é difícil arranjar um antagonista que crie alguma tensão.

Está bem que podem dizer que o Doomsday é AINDA mais forte que o Super Homem, mas ao nível ao qual o Super Homem é poderoso eu já não compreendo a diferença. São os dois inimaginavelmente fortes, e dizer que um é mais forte que o outro é o mesmo que dizer que existem infinitos que são maiores que outros.


São Gigantes a lutarem uns contra os outros lá em cima, e nós cá em baixo a vermos!
É espectacular, admito que sim, é impressionante! Mas não há maneira de eu me identificar com esses Gigantes.

Os Super-Heróis da Marvel, por poderosos que sejam, são pessoas normais. O Captain America era um escanzelado bem intencionado e o Iron Man era um fanfarrão irresponsável antes de ganharem poderes. É muito mais fácil identificarmo-nos com eles.

Mais importante que isso, não são todo-poderosos. Os seus poderes começam muito mais em baixo do que os Heróis da DC.

E como os Heróis da Marvel começam num patamar muito mais baixo, é muito mais fácil os conflitos tomarem proporções épicas simplesmente porque há mais espaço para construir escala e proporção; é muito mais fácil criar vilões muito mais poderosos do que eles, situações que parecem muito mais impossíveis, exactamente porque os heróis são quase mundanos.


E isto permite uma coisa extremamente interessante:

Um Herói mundano a olhar de baixo para cima para uma situação exageradamente épica vai reconhecer o exagero ridículo dessa situação com espanto e incredulidade.

Tal como nós.

E é esse reconhecimento do exagero ridículo, essa capacidade das personagens (com quem nos identificamos) de olhar para o mundo à sua volta e dizer "Isto é bizarro", que abre portas ao humor.
O espanto das personagens é o nosso espanto, portanto quando fazem piadas, mesmo que auto-conscientes, essas piadas reflectem o que nós próprios sentimos, e não parecem descabidas.

Um Deus indestrutível não chega a ficar incrédulo o suficiente com nada para que as piadas vindas da sua boca pareçam sinceras.

Mas desde que haja um tipo, que é pai-de-família, que diga:
"The city is flying and we're fighting an army of robots. And I have a bow and arrow. Nothing makes sense." 
fazendo um bocadinho de Lampshading e mostrar-nos que eles também estão por dentro da piada, que nós embarcamos alegremente em qualquer história estapafurdiamente épica que eles queiram vender!


De forma quase paradoxal, o facto de os Heróis da Marvel serem muito menos poderosos do que os Heróis da DC permite que se riam do seu mundo, e esse humor por sua vez abre portas a aventuras muito mais épicas do que as que a DC, com o seu tom sério, alguma vez conseguiria fazer sem cair no ridículo.

Portanto, sim, definitivamente, o tom leve e o humor excessivo destes filmes são uma das suas melhores qualidades.
São simultâneamente um sintoma de quão relacionáveis são as suas personagens, e uma ferramenta que permite que os filmes cresçam tanto quanto crescem.

Eu estou TÃO entusiasmado com isto tudo!!!!!!!


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