Pataniscas Satânicas

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terça-feira, 5 de julho de 2016

Substitutos de Audiência - ou como construímos e destruímos os nossos heróis

A Kristen Stewart talvez não seja assim tão má actriz? o Spider-Man é o sonho molhado de um adolescente? Quem é que faz e desfaz os heróis da Marvel?

Vamos falar sobre isso
Já falei acerca da importância de ter personagens relacionáveis e do uso de tropes para atingir esse efeito, e hoje quero falar-vos de outro dos meus tropes preferidos e que é a convergência perfeita entre essas duas coisas:

O Substituto da Audiência.


Toda a gente criticou imenso a interpretação da Kristen Stewart nos filmes Twilight por ser inexpressiva, inespecífica, monocórdica, e aborrecida. O que faltava perceber era que a sua personagem tinha sido escrita dessa maneira propositadamente para ela ser a Substituta da Audiência.

Um Substituto da Audiência é uma personagem com quem a audiência não só simpatiza, mas com quem se identifica activamente.
Por intermédio do Substituto da Audiência os espectadores podem mais facilmente sentir-se imersos no mundo ficcional e, identificando-se com ele, sentir que vivem mais proximamente as suas aventuras.

A Bella Swan, não é mais do que uma personagem vazia, cujas acções são difíceis de interpretar, e cuja história é contada na primeira pessoa, em quem as adolescentes da audiência podem projectar a sua própria personalidade. A autora chegou mesmo a admitir que nos livros evitou descrevê-la fisicamente para facilitar que as leitoras se imaginassem na sua posição.


O Gordon Freeman não diz literalmente nada durante todo o jogo do Half-Life, nunca lhe vemos a cara dentro do jogo, e quando finalmente em materiais promocionais lhe vemos a cara, tem o aspecto de um nerd genérico.

Para que o Substituto da Audiência funcione é absolutamente necessário que identificação que a audiência tem com ele seja muito forte.
Muito mais do que o Herói que tem alguma forma de conflito interno com o qual a audiência se identifica para se preocupar com ele, mas que de resto tem uma quantidade enorme de capacidades que a audiência não possui, o Substituto da Audiência deve ser o mais semelhante possível ao seu público alvo para maximizar essa auto-identificação.

Gordon Freeman é um nerd genérico mudo, em quem qualquer nerd de ficção científica pode projectar a sua personalidade, e que vai ter aventuras num mundo de ficção científica onde luta contra alienígenas com armas de raios. Ele é o intermédio perfeito para que o jogador se sinta imerso nas aventuras.



O Dr. Watson, side-kick do Sherlock Holmes, também é outro exemplo clássico de um Substituto da Audiência.

Ninguém se identifica realmente com o excêntrico, heroinómano, génio, bizarro Sherlock Holmes, mas é muito mais fácil revermo-nos no terra-a-terra, razoável, quase mundano, Dr. Watson.

É o Dr. Watson que faz as perguntas que nós quereríamos fazer, e é ao Dr. Watson que o Sherlock Holmes dá as explicações que nós precisamos de ouvir.


O Bilbo Baggins é outro Substituto de Audiência. A personagem que é insegura, sem poderes ou características heróicas, que gosta é de sossego e calma, e reage com espanto e medo às coisas fantásticas que lhe acontecem quando sai da sua zona de conforto?

Não é por acaso que Martin Freeman interprete tanto o Dr. Watson como o Bilbo Baggins, bem como o Tim, que no The Office também era a personagem mais normal e razoável com quem era mais fácil identificarmo-nos.


Penny e Leonard, no The Big Bang Theory, servem como Substitutos da Audiência para o público não-geek e geek, respectivamente.
Para o público não-geek, quando um dos personagens faz uma referência obscura a alguma coisa na cultura Geek, a Penny está sempre lá para perguntar sarcasticamente do que é que ele está a falar, algo que o público está a pensar nesse exacto momento.
Para o público geek, o Leonard é um geek genérico sem os defeitos mais estereotípicos dos seus amigos (não é pervertido como o Howard, não tem medo de mulheres como o Raj, não é um idiota arrogante como o Sheldon).

É claro que depois de os autores estabelecerem firmemente com quem é que a audiência se deve identificar, torna-se fácil brincar com essa ideia para pôr na cabeça da audiência algumas ideias (conscientes ou não).


No Kick-Ass, depois de percebermos que é suposto identificarmo-nos com a personagem principal, que é um adolescente nerd que gosta de bandas-desenhadas e queria ser um super-herói (e quem de nós escapa realmente a essa descrição) o filme vai-nos mostrando realmente quão patética é a personagem.
Kick-Ass está sempre a levar tareões, é constantemente humilhado por todos, a rapariga de quem gosta só se interessa por ele quando ele finge ser homossexual, e quando descobre que não é manda o seu namorado dar-lhe mais uma tareia e depois manda-lhe vídeos dela mesma a fazer felácios ao namorado.
Começa por ser uma representação do adolescente normal, mas no fim já começa a ser só mauzinho, explorando a identificação inicial que a audiência teve com a personagem para a fazer sentir-se mal consigo mesma.


No extremo oposto está o Spider-Man.

Peter Parker foi criado propositadamente para que os adolescentes se pudessem identificar com ele. Era também um adolescente nerd, com dificuldade em falar com raparigas, que era alvo dos tipos populares que jogavam desportos.
No entanto, depois de estabelecer a identificação entre a audiência e a personagem, Stan Lee dá-lhe de facto super-poderes. Se for bem executado é uma forma brilhante de criar investimento por parte da audiência, porque viver a fantasia de ter super-poderes é tão mais forte quanto maior for a identificação com a personagem inicial.
Este terá sido um dos principais factores que tornaram o Spider-Man uma das personagens mais populares e transversalmente reconhecíveis da Marvel.

É nestas circunstâncias que temos uma variação do Substituto da Audiência, que se chama o Ascended Fanboy (fã ascendido? não sei, tentem vocês traduzir).


Harry Potter é um Ascended Fanboy; o Luke Skywalker também; ambos começam como personagens adolescentes, sem poder e vulneráveis, que admiram um mundo fantástico do qual querem fazer parte, e acabam a tornarem-se poderosas e salvadoras de todo esse mundo.

O sucesso e popularidade destas personagens é um testemunho ao poder do Substituto da Audiência e do Ascended Fanboy.

É um exercício extremamente interessante que podem fazer da próxima vez que estiverem a ver um filme, ou a ler um livro, tentar identificar qual é a personagem que os autores querem com que vocês se identifiquem, e depois prestar particular atenção ao que lhe acontece.

Quero agora dar-vos mais dois exemplos muito específicos que para mim demonstram a força subtil de um Substituto de Audiência bem executado.


Phil Coulson é uma personagem no Marvel Cinematic Universe que é um agente da SHIELD, e que funciona como intermediário entre os super-heróis e a organização do governo.
Não tem super-poderes, tem um nome mundano e veste roupas mundanas, as suas opiniões são geralmente razoáveis mas não diz sequer muita coisa, é um empregado do governo; ao mesmo tempo é um fã de super-heróis e colecciona cromos vintage do Captain America.

Faz-vos lembrar alguém?

Esta representação ambulante do fã de BD envelhecido (o público alvo dos filmes) tem a sorte de ser amigalhaço de todos os Super-Heróis, e de vez em quando dispara uma grande arma de raios, o que não está muito longe de o tornar num Ascended Fanboy.

SPOILER ALERT



No filme Avengers (2012) o Phil Coulson é morto ao confrontar-se com o Big Bad, e é a sua morte que, no fim, motiva os Super-heróis a unirem-se como uma equipa e a irem lutar a batalha final.

O Substituto da Audiência tem o privilégio de viver no mundo dos Super-Heróis que admira e de experienciar de perto as suas aventuras. No entanto essa proximidade acaba por levar à sua morte, que ele aceita porque teve oportunidade de lutar contra o Big Bad.
É por causa da morte do Substituto da Audiência que os Super-Heróis atingem o seu potencial máximo, e é para vingar a sua morte que vão finalmente derrotar o Big Bad.

É um reconhecimento tremendo ao fã, e algo que lhe inflaciona imenso o ego, esta ideia de que é tão importantes que os Heróis vão lutar em seu nome. Ao mesmo tempo enfatiza a sua mortalidade e chama a atenção de que quem sobrevive no fim são os Heróis, e não os fãs.

A morte de Coulson é um elemento narrativo extremamente poderoso e com uma mensagem muito mais complexa e subtil do que poderíamos pensar inicialmente.


Alguns anos e meia-dúzia de filmes depois, após muita destruição e mortes colaterais de civis inocentes, já ninguém pode ignorar que os Super-Heróis também fazem muitos estragos. Por esse motivo os governos do mundo querem regulá-los e controlar quando e onde vão ser heróicos.
Isto leva ao conflito interno presente no Captain America: Civil War (2016) onde somos apresentados pela primeira vez a Helmut Zemo.

Apesar de isso não nos ser explicado ao início do filme, a família de Helmut Zemo morreu acidentalmente numa das batalhas dos Heróis contra outro Big Bad.

Sabemos pouco ou nada da vida da sua personagem para além do facto de ter tido uma família, ser um humano normal, sem poderes; não tem um nome de código, não usa uma máscara, e durante o filme nunca parece ser abertamente malvado, sendo sempre simpático e cordial com toda a gente.

É motivado pela morte trágica e desnecessária da sua família a querer vingar-se dos Heróis e a querer impedir que o mesmo aconteça a outras pessoas. Não é ele que cria o conflito entre os Heróis, e para além de o aproveitar para executar o seu plano, acaba por ter pouco contacto com os Heróis.

Hmmmm... Uma personagem com poucas características distintivas, sem super-poderes, vulnerável, e com problemas e motivações com os quais nos podemos identificar...

Será que Helmut Zemo é o Substituto da Audiência no filme Captain America: Civil War (2016)?


Num filme com um número impressionante de personagens cheias de super-poderes, Zemo, apesar de ser o vilão, é aquele que mais se assemelha a nós, com quem é mais fácil identificarmo-nos.
A sua motivação também é extremamente relacionável, e na única cena em que o vemos fazer activamente mal a alguém, ele passa imenso tempo a explicar que só o faz por necessidade e preferia não o fazer.

Tudo nele está pensado para que seja fácil identificarmo-nos com ele. E no entanto é o Vilão.

E isso é desconfortável.

E mais do que ser o Vilão, é o único Vilão em todo o Marvel Cinematic Universe que conseguiu ganhar contra os Heróis.

Sem acesso a poderes ou recursos ilimitados, e apenas com a sua inteligência, determinação e argúcia, Zemo consegue prejudicar mais os Heróis do que qualquer cientista louco, alienígena conquistador, ou robot genocida antes dele, e sobrevive para contar a história.


Portanto por um lado temos um Substituto da Audiência que existe para transmitir a mensagem emocionalmente forte de que os Heróis se importam com ele, que lutariam por ele, mas que isso implica que ele morre.

Por outro lado temos um Substituto da Audiência que existe para transmitir a mensagem emocionalmente muito mais complicada e ambígua de que os Heróis podem irresponsavelmente destruir a sua vida, e que ele pode suplantar-se aos Heróis, destruindo-os, e ainda assim sobreviver.

Não estou a dizer que há aqui uma mensagem subjacente propositada ou algum tipo de subtexto que ultrapasse o foco dos filmes.

Estou a dizer que a Marvel consegue usar ferramentas narrativas muito subtis, executá-las com uma mestria impressionante, para provocar efeitos emocionais extremamente específicos no seu público.

E quando foi a última vez que viram cinema de blockbusters de super-heróis, ou qualquer tipo de cinema for that matter, que tivesse este tipo de qualidade narrativa?


Just sayin'...
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quinta-feira, 26 de maio de 2016

Spider-Man: There and Back Again

Felizes por verem o Spider-Man no filme do Captain America? Têm de agradecer à Coreia do Norte?

Vamos falar sobre isso


No início dos anos '60, depois do sucesso dos Fantastic Four, houve um interesse renovado dos adolescentes em comprar bandas-desenhadas. Para tentar aproveitar esse interesse Stan Lee propõe-se a criar uma nova personagem com a qual esse público adolescente se pudesse identificar.

Assim, Stan Lee cria Spider-Man, uma personagem que estava no secundário, era um geek inseguro, e que tinha de lidar com coisas como raparigas, bullies e bailes de finalistas, para além de ter super-poderes e lutar contra vilões,

Homem-Aranha estreia-se a 15 de Agosto de 1962 no Amazing Fantasy #15, e a personagem do Peter Parker tinha 15 anos nesse primeiro número. Apesar de a maioria das personagens adolescentes dessa altura terem o epíteto de Rapaz-[Qualquer coisa], Stan Lee decidu chamar-lhe Homem-Aranha porque tencionava que a personagem pudesse crescer e amadurecer juntamente com o seu público-alvo.


Terá sido essa fórmula que fez com que o Spider-Man se tornasse um dos mais populares e reconhecíveis heróis da Marvel.

Já teve até agora, para além da longa lista de títulos de banda-desenhada, 9 programas de televisão, 5 jogos de computador, 2 programas de rádio e inclusivamente um musical com música escrita pelos U2.


Apesar de toda a sua popularidade, isso não impediu que a Marvel no início dos anos 90 começasse a perder imenso dinheiro e influência, com a saída de vários artistas importantes, ao ponto em que, em 1996, declaram falência.

Numa tentativa de recuperar algum dinheiro e tornar as suas personagens mais populares a um público maior, a Marvel começa a vender licenças dos seus heróis a várias produtoras de cinema.

Os X-Men e o Daredevil são vendidos à Fox, o Blade é vendido à New Line Cinema, e o Spider-Man é vendido à Sony.

A Sony não perde tempo e produz três filmes do Spider-Man (Spider-Man, 2002, Spider-Man 2, 2004, e Spider-Man 3, 2007) realizados por Sam Raimi e protagonizados por Tobey Maguire, qualquer um dos quais se torna extremamente popular, com o terceiro filme a render mais de 890 milhões de dólares.


Entretanto a Marvel, parcialmente à custa da venda destas licenças, consegue recuperar-se financeiramente para fundar os seus próprios estúdios e começar a produzir os seus próprios filmes com os Marvel Studios.

O seu primeiro filme, Iron Man, em 2008 é um enorme sucesso para surpresa de toda a gente, e permite aos Marvel Studios continuarem a expandir o seu Universo, produzindo filmes dos seus outros heróis mais famosos como o Hulk, o Thor e o Captain America, culminando no Avengers em 2012, que junta todos os heróis num único filme e que viria a render uns impressionantes 1,5 BILIÕES de dólares.


Com todo este dinheiro, a Marvel começa a recuperar as licenças dos seus heróis, o Daredevil, por exemplo, e os fãs começam a sonhar em ver o Spider-Man juntar-se aos Avengers (como acontece na banda-desenhada).

No entanto esses sonhos são deitados por terra quando, no mesmo ano do Avengers, a Sony produz o The Amazing Spider-Man (2012), agora protagonizado por Andrew Garfield, e em 2014 o The Amazing Spider-Man 2.


Este último foi globalmente rejeitado pelos fãs por ter uma história que fazia pouco sentido e demasiados personagens, tendo uma pontuação de apenas 53% no Rotten Tomatoes.

Parecia que os fãs do Spider-Man iam ficar presos a filmes medíocres durante muito tempo, porque apesar das más críticas, a Sony não parecia querer largar a licença do Spider-Man.

No entanto, em 2014 acontece uma coisa de que ninguém estava à espera.


Seth Rogen e James Franco escrevem e protagonizam The Interview (2014), uma comédia na qual dois jornalistas são convidados a entrevistarem o ditador Norte Coreano Kim Jong-Un, mas são recrutados pela CIA para o assassinar. O filme é produzido e distribuído pela Sony.

A Coreia do Norte é mais conhecida pela sua Ditadura Hereditária, Culto de Personalidade do Grande Líder, e frequentes ameaças de ataques nucleares do que pelo seu sentido de humor, e portanto não acharam grande piada ao filme.

Em Dezembro de 2014 um grupo de hackers chamado Guardians of Peace, que o FBI confirmou estar ligado ao governo Norte Coreano, ameaçou ataques terroristas aos cinemas que exibissem o filme.
Quando vários cinemas começam a anunciar que não vão exibir o filme nas suas salas, a Sony decide cancelar a estreia do filme, e distribuí-lo directamente na internet.

O grupo Guardians of Peace consegue também invadir os servidores da Sony e tornam públicos vários terabytes de informação confidencial dos estúdios, incluindo várias trocas de e-mails relacionadas com os filmes do Spider-Man.


Esses e-mails revelaram várias coisas interessantes. Descobrimos que uma das coisas que preocupava a Sony era garantir que o Peter Parker era branco e heterossexual, grandes dúvidas e discussões sobre se o Spider-Man devia ter teias mecânicas ou orgânicas, as sugestões do guru dos Marvel Studios, Kevin Feige, sobre o que deveria ter sido feito para melhorar o Amazing Spider-Man 2, e até discussões sobre tornar o Spider-Man num millenial, vegano que usa o snap-chat e tem uma comunidade de seguidores.

Apesar de os e-mails mostrarem que já estavam abertas as discussões entre a Marvel e a Sony sobre o destino do Spider-Man, foram estes e-mails que revelaram a dificuldade que a Sony estava a ter em lidar com a personagem do Spider-Man e a capacidade que a Marvel tinha para o fazer muito melhor.

Foi pressão criada pelos fãs depois de perceberem que afinal os seus sonhos podiam ser concretizados, e quão mal representada a sua personagem preferida poderia ficar se isso não acontecesse, que no fim provavelmente fez pender a balança no sentido de a Marvel poder incluir o Spider-Man no Captain America: Civil War.


Portanto todos os fãs que tiveram dificuldade em manter as calças secas durante o Civil War, podem agradecer ao Grande Líder Kim Jong-Un e à sua falta de sentido de humor o facto de termos aquela hero-landing espectacular depois de roubar o escudo ao Captain America.


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terça-feira, 3 de maio de 2016

Capitão América: Guerra Civil - a Crítica

Este filme é TÃO BOM!!! >>>SEM SPOILERS<<<

Vamos falar sobre isso.


Vamos fazer uma lista do que é que este filme se propõe fazer:
  • Explicar as consequências do que acontece nos filmes anteriores
  • Pôr o  Marvel Cinematic Universe (MCU) em conflito de maneira a iniciar a Fase 3
  • Pôr 12 (!!!) personagens famosas num filme ao mesmo tempo (duas das quais inéditas)
  • Terminar o arco narrativo da personagem do Captain America
  • Ser um blockbuster de Verão
Não é uma tarefa pequena. Não se esqueçam que o Age of Ultron também tentou fazer muita coisa ao mesmo tempo (mais do que o Civil War) e acabou por sofrer por causa disso.

O que é impressionante neste filme até nem é a qualidade excelente de tantos dos seus elementos, mas o facto de os conseguir fazer todos tão bem e ao mesmo tempo.


Uma das coisas que mais me impressiona neste filme é a qualidade da história que é contada.

A premissa do filme, de que os Avengers andam a agir como vigilantes, sem responsabilidade e provocando danos colaterais, está extremamente bem estabelecida ao início do filme. A história não só pega nos eventos de filmes anteriores como em coisas que acontecem no próprio filme para definir de forma muito clara, e sobretudo imparcial, o problema de que os Avengers precisam de alguém a supervisioná-los.

Esta imparcialidade da forma como o problema é apresentado é extremamente importante porque permite que a personalidade tanto do Steve Rogers (Chris Evans) como do Tony Stark (Robert Downey Jr.), e as suas histórias em filmes anteriores, se expresse de forma orgânica face ao problema, pondo-os num conflito que surge naturalmente.

As várias facetas da temática ideológica/política de liberdade e auto-determinação vs controlo e regulação vão sendo exploradas nas atitudes e decisões das personagens quando confrontadas com a necessidade de escolher um lado do problema. O conflito ideológico manifesta-se nas acções das personagens, e quase nunca é discutido abertamente.


Mas apesar deste conflito político/ideológico subjacente à narrativa, o filme nunca deixa de ser um filme do Captain America. Steve Rogers é mostrado de forma ainda mais humanizada e vêmo-lo cada vez mais perdido, cada vez mais desorientado num mundo que insiste em fazer compromissos morais.

Isto faz com que o Steve Rogers não tome sempre as melhores decisões, apesar de estar sempre a seguir o seu compasso moral. A sua amizade e lealdade para com Bucky Barnes (Sebastian Stan) põem-no em rota de colisão com Tony Stark, e o seu arco narrativo é levado até à sua conclusão lógica e, em retrospectiva, inevitável.

O próprio Tony Stark é muito desenvolvido neste filme. Percebemos imenso das suas motivações e inseguranças, o que justifica perfeitamente as suas atitudes durante o filme. Apesar da na maior parte das vezes ser o antagonista da história, é difícil discordar dele.

Este para-a-frente-e-para-trás de nos dar a perspectiva do Steve Rogers e do Tony Stark mexe com as nossas emoções, obriga-nos a voltar atrás sobre com quem concordamos, e essa manipulação emocional faz com que nos importemos imenso com estas personagens.


Por falar em personagens, este filme tem imensas, e todas tão boas.

É um tributo à capacidade de realização dos Irmãos Russo e dos argumentistas terem conseguido introduzir tantas personagens secundárias, e mesmo assim dar a cada uma delas um momento ao sol.
Todas as personagens têm excelentes momentos memoráveis, nenhuma delas é desperdiçada, a presença de todas é justificada, todas têm algo importante/útil a fazer eou a dizer durante o filme.

A continuação da história do Bucky está muito bem construída, e a sua relação com o Steve Rogers está perfeitamente expressa nas suas interacções durante o filme. Esta história é tanto a conclusão do arco narrativo do Bucky Barnes como do Steve Rogers.

Com tudo o que este filme faz, ainda consegue introduzir duas personagens novas ao MCU.

O Black Panther (Chadwick Boseman) é fantástico. O seu fato é espectacular, o seu estilo de luta é perfeitamente distinto do das outras personagens, tem imenso impacto na história, as suas motivações são fortes, e até possui um curto arco narrativo.

O Spider-Man é talvez uma das melhores coisas do filme, e definitivamente o melhor Spider-Man de sempre. Tom Holland transmite uma mistura de entusiasmo e inexperiência que retratam perfeitamente o que seria um adolescente genial com super-poderes.


Finalmente, temos Helmut Zemo.

Num filme com tanto conflito entre as personagens principais, o papel do vilão é complicado. Se for um vilão demasiado grande, acaba por ofuscar o conflito principal e desfocar a atenção da narrativa que realmente importa. Se for irrelevante, então está lá só a ocupar espaço.

Para mim, Daniel Brühl faz uma interpretação perfeita de um vilão que ocupa um papel narrativo complicado. Zemo acaba por funcionar como um desencadeador de eventos que mexem a narrativa para a frente de forma quase despercebida ao início, e cujas consequências vão crescendo.
Tem pouco tempo de ecrãn, e talvez pouco tempo para Daniel Brühl nos dar um vilão realmente carismático, mas eu diria que este filme tem exactamente o único vilão que poderia ter.

No meio de um enredo que consegue fazer malabarismo entre o conflito de ideologias políticas, crescimento de personagens, um mistério que se vai desvendando, a narrativa nunca se perde. Nunca perdemos noção de qual é o fio-narrativo que devemos seguir, e a história avança de forma entusiasmante e apelativa.

Resulta, no fim, numa história incrivelmente poderosa e emocional, que nos faz importar tanto com ideologias como com as decisões pessoais de personagens levadas ao limite.


Finalmente, e apesar de o filme conseguir ter momentos verdadeiramente pesados e emocionalmente intensos, nunca deixa de ser fantásticamente divertido.

As sequências de acção estão muito bem filmadas, apenas com alguns momentos de shaky-cam que ocasionalmente são confusos, mas com uma coreografia de lutas muito intensa e reminiscente do Winter Soldier. Há piadas na proporção perfeita, e que constroem as relações entre as personagens.

A sequência de acção no Aeroporto é das melhores cenas de acção que já vi no cinema, e a sua montagem parece música.

É um dos filmes mais entusiasmantes e divertidos que eu já vi.
Não é só o melhor filme de super-heróis já feito até hoje, é um dos melhores filmes que eu já vi.

É muito provável que, à semelhança do The Dark Knight (2008), o Captain America: Civil War venha a ser considerado a fasquia a partir do qual todos os outros filmes de super-heróis passam a ser julgados

Se gostam de filmes da Marvel vão adorar este filme. Se gostam de filmes de Super-heróis ou filmes de acção vão adorar este filme. Se são cinéfilos e apreciam boa escrita, boa realização e boa montagem vão adorar este filme!

Vão mas é ver o filme!

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terça-feira, 26 de abril de 2016

The Road to Civil War - Iron Man

O Iron Man a nascer da Guerra Fria? Nevoeiros de moralidade em tons de cinzento? De que maneira é que o percurso do Tony Stark justifica a sua atitude no Civil War?

Vamos falar sobre isso!


Outra diferença curiosa entre o Captain America: Civil War e o Batman V Superman: Dawn o Justice, é que o BvS põe em conflito duas personagens da Idade de Ouro da Banda-desenhada.

Essa altura idílica que começou no pré-Segunda Guerra Mundial, em que podíamos ter Detectives-Morcegos e Super-Alienígenas a saltar por todo o lado, que ninguém achava isso estranho! Não se esqueçam que o nosso Capitão-[Nação] também nasceu nessa altura em que os Americanos estavam envolvidos na guerra mais paradigmática da luta-do-bem-contra-o-mal de sempre.

O Captain America, quando é criado em 1941, representa os valores dessa América Pós-Guerra, que vê o mundo a preto-e-branco. O Captain America tem sempre a certeza de qual é a coisa certa e justa a fazer.

O Iron Man é criado em 1963, no pico da Guerra fria.


Em Outubro de 1962, durante 13 dias, os Estados Unidos da América e a USSR tiveram mísseis nucleares apontados uns aos outros. Ficou conhecido como a Crise dos Mísseis Cubanos, e considera-se que tenha sido um dos momentos em que estivemos mais próximo de uma Guerra Nuclear global.

Pior que isso, toda a crise, as negociações e as especulações foram mediatizadas e transmitidas nas televisões do mundo todo. Havia medo. Homens crescidos iam cavar abrigos de bomba no quintal para proteger a família. Se havia alguma coisa que a cultura desta altura detestava era a guerra, e tinha imensa desconfiança pelos militares.

O Tony Stark representa tudo o que o público detestava. Era o capitalista perfeito, lucrava com a produção e venda armas ao exército, era absurdamente rico.

O Iron Man nasce deste nevoeiro moral em que a América estava. Esta já não era uma América que idolatrava o soldado, com um idealismo ingénio na liberdade e justiça.
Não, esta era uma América que já não sabia se podia confiar no seu governo, em que é muito mais difícil apontar os maus-da-fita.


No primeiro Iron Man (2008) o Tony Stark tem uma moralidade perfeitamente cinzenta, não fazendo nenhuma distinção sobre o que está certo ou errado. Vende despreocupadamente armas quer a exércitos ou terroristas, desde que haja lucro nisso. Não está a matar ninguém directamente, mas está a aproveitar-se da guerra para lucrar?

Estes meandros morais, esta incerteza do que está certo ou errado, são a antítese da moralidade preto-e-branco do Captain America. O Iron Man é um herói clássico da Idade Prateada da Banda Desenhada.
Nasceram em alturas diferentes, têm maneiras diferentes de olhar para o mundo.

Um vê-o a preto e branco e o outro em tons de cinzento.

Um vê sempre qual é a direcção certa, o outro está sempre à procura de atalhos.



Por causa dessa sua flexibilidade moral, o Tony Stark acaba muitas vezes por não tomar as melhores decisões.

É a sua arrogância que faz com que seja capturado por terroristas no deserto. É por isso que fica com um buraco no peito e tem de construir uma armadura para escapar.

É essa tecnologia que ele criou que leva o Obadiah Stane a usar essa tecnologia para construir uma armadura só sua para matar o Stark.

O Iron Man cria os seus próprios problemas.

Obadia Stane - Iron Monger
No Iron Man 2 (2010) os principais conflitos continuam a surgir por causa do próprio Tony Stark.

É a sua decisão de anunciar ao mundo que é o Iron Man, e a subsequente fama e publicidade que ele ganha com isso, que desperta a atenção do seu vilão, o Ivan Vanko. Ivan Vanko cujo pai era um cientista que foi roubado por Howard Stark, o pai de Tony Stark.

É a invenção da armadura do Iron Man que despoleta uma corrida às armas; o que leva o Justin Hammer, presidente da empresa concorrente à Stark Industries, a querer construir armaduras e a contratar o Ivan Vanko para o fazer.

É a sua irresponsabilidade, quando se embebeda e destrói metade da casa com a armadura vestida, que faz com que o exército fique com a sua armadura.

Ivan Vanko - Whiplash
Sistematicamente, nas histórias do Iron Man há esta temática de que ele toma as decisões erradas, ou que é ele que está a provocar todos os problemas.

No Iron Man 3 (2013) o Tony Stark está com Stress Pós-Traumático depois de ter decidido juntar-se aos Avengers para lutar contra os alienígenas que estavam a invadir Nova Iorque.

É ele que humilha o Aldrich Killian, empurrando-o para medidas desesperadas, e que o leva a criar toda uma conspiração para transformar pessoas em armas e inventar um terrorista.

É ele que literalmente convida o Mandarin a vir rebentar-lhe com a porta de casa.

Aldrich Killian - poderes Extremis
No Age of Ultron (2015) o Tony Stark toma a mãe de todas as más decisões, e decide criar uma Super-Inteligência Artificial que vai proteger a humanidade. Claro que cinco minutos depois essa AI torna-se genocida e os Avengers têm de ir limpar a porcaria do Tony Stark.

No processo destroem mais uma cidade, Sokovia.


Depois da destruição de Sokovia vem o Governo dizer aos Avengers "Olhem, vocês não podem simplesmente andar por aí a destruir coisas só porque têm poderes! As pessoas têm medo! Quem é que é responsável se alguém se magoar? É preciso que alguém esteja de olho em vocês"

O governo quer controlar os Avengers, e quer que assinem os Acordos de Sokovia, que lhes dará o poder de fazerem exactamente isso.

Por esta altura temos um Iron Man que repetidamente viu que uma única pessoa a controlar muito poder vai inevitavelmente ser corrompido por esse poder.
O Tony Stark está pessoalmente familiarizado com o risco de tomar más decisões e dessas más decisões provocarem ainda mais estragos.

Este Tony Stark está pronto para finalmente admitir que é preciso alguém a regular o poder dos Avengers para impedir que eles causem mais danos colaterais desnecessários.

É claro que ele vai ver a razão nos Acordos de Sokovia, e lutar contra o Captain America a favor deles.


Portanto por um lado temos o Captain America, que começa aliado ao governo, mas à custa da sua moralidade branco-e-preto acredita que é mais seguro ter indivíduos a tomar decisões morais do que confiar em organizações que podem ser corrompidas, e que acaba a lutar contra o governo.

Por outro lado temos o Iron Man, que começa como um rebelde contra o governo, mas à custa da sua moralidade cinzenta acaba por ver que os indivíduos são demasiado falíveis para controlarem tanto poder e que inevitavelmente vão usá-lo mal, e que acaba a agir a favor do governo.

Venha daí a Guerra Civil, para vermos como é que isto se resolve!


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quinta-feira, 21 de abril de 2016

The Road to Civil War - Captain America

A origem do Captain America? Porque é que ele tem uma moralidade preto-e-branco? De que maneira é que o percurso dele justifica a sua atitude no Civil War?

Vamos falar disso!

Como eu já disse, o Captain America é um produto da propaganda da Segunda Guerra Mundial, foi criado por Joe Simon e Jack Kirby, com a sua primeira banda desenhada a surgir em Março de 1941.

É claro que a Segunda Guerra Mundial começou a 1 de Setembro de 1939, mais de um ano antes do aparecimento do Captain America, mas não se esqueçam que a América não entrou logo para a guerra. Lembram-se quando é que a América entra oficialmente na Segunda Guerra Mundial?

A 7 de Dezembro de 1941 os Japoneses lançam o ataque ao porto americano de Pearl Harbour, que impulsiona os EUA a juntarem-se aos Aliados na luta contra os poderes do Eixo.

Ou seja, o Captain America esmurra o Hitler no queixo cerca de 6 meses antes da entrada da América na Guerra.

O Captain America é um produto do conflito mais preto-e-branco da nossa história. Temos os representantes da liberdade a lutarem contra os Nazis! 


Apropriadamente, no seu primeiro filme, o Captain America: The First Avenger (2011), Steve Rogers é um tipo magrinho mas que quer lutar contra os Nazis porque acredita que é esse o seu dever. Não porque quer lutar, não porque quer ser um herói, simplesmente porque essa é a coisa certa a fazer.

Convenientemente há um programa do exército que está à procura de recrutas a quem aplicar os Vita-Rays que juntamente com Soro do Super-Soldado inventado pelo Dr. Erskine, é capaz de dar a qualquer pessoa capacidades sobre-humanas de força, agilidade e durabilidade.

O Steve Rogers não é escolhido para ser o Captain America porque é um soldado perfeito, capaz de seguir ordens obedientemente e eficazmente, ele é escolhido porque é um homem BOM, porque tem um fortíssimo sentido de moralidade.

O Captain America nunca tem dúvida nenhuma acerca do que está certo e errado. Para ele todos os problemas são preto-e-branco. Foi aí que ele nasceu.


No seu primeiro filme não só está a lutar contra os Nazis, mas descobre que os próprios Nazis são uma espécie de incubadora à organização ainda mais sinistra que é a Hydra.

A Hydra está a usar o poder do Tesseract, uma das Infinity Stones, para criar um exército imparável que vai conquistar o mundo.

No fim é o Captain America que, contra todas as probabilidades, consegue desmantelar a organização maléfica e no fim sacrifica-se para destruir o Tesseract.


Como costuma acontecer neste tipo de histórias, obviamente, o Captain America fica melhor e é descongelado mesmo a tempo para poder participar em mais aventuras no Avengers (2012)

No Avengers o Captain America não tem propriamente um papel muito central, mas apesar de tudo há detalhes que nos dizem muito acerca da sua personagem.

No início do filme vêmo-lo desorientado, sem um lugar no mundo, até que o Nick Fury o convence a voltar a juntar-se à SHIELD para os ajudar a lutar contra uma invasão de alienígenas.

No entanto, a meio do filme, o Captain America descobre que afinal a SHIELD estava a investigar e a desenvolver as mesmas armas que a HYDRA tinha usado na Segunda Guerra Mundial.

No entanto, continua a haver a invasão de alienígenas, e o Captain America, com a sua moralidade preto-e-branco, sabe exactamente para onde dirigir a sua atenção, e as armas da HYDRA ficam um pouco esquecidas.


Mas será que um herói da Segunda Guerra Mundial, com uma bandeira no peito e com esse tipo de morais fixas na pedra consegue continuar a ser uma personagem actual e apelativa?

Como qualquer escritor vos dirá, uma das melhores ferramentas narrativas para dar interesse a uma personagem é dar-lhe um conflito interno. Um problema em que os valores pessoais da personagem chocam entre si, e isso cria angústia e sofrimento à personagem. Faz com que ela tenha dúvidas e hesitações e cometa erros, faz com que a interacção dela com o enredo seja mais complexa, e torna-a muito mais relacionável (porque todos nós temos conflitos internos também).

Mas o Captain America não tem conflitos internos. O Captain America tem sempre a certeza de qual é a decisão certa em qualquer situação.

Como é que se escreve uma história interessante para uma personagem que tem uma moralidade estritamente preto-e-branco?

É fácil. Basta metê-la num ambiente em que a moralidade seja o mais cinzenta possível.


No Captain America: The Winter Soldier (2014), Steve Rogers está completamente desenquadrado do mundo em que vive, sem referências, sem amigos, e muito deprimido. É um homem perdido no tempo. Passa os seus dias a visitar os amigos mortos nos museus e as antigas namoradas demenciadas nos lares de terceira idade.

Ao mesmo tempo, a organização para quem sempre trabalhou, a SHIELD, está a tentar implementar um programa de vigilância dos cidadãos para eliminar ameaças antes de elas sequer se manifestarem, algo que está em directa contradição com os seus valores rígidos de liberdade.

No filme o Captain America acaba por descobrir que a HYDRA infiltrou a SHIELD e que está a planear usar esse programa de vigilância para controlar o mundo, e que o seu amigo de infância, o Bucky Barnes, sofreu uma lavagem cerebral pela HYDRA e anda a assassinar pessoas.

O Captain America acaba a ser perseguido pela SHIELD/HYDRA ao mesmo tempo que tenta recuperar o seu amigo. A única coisa que o ajuda a manter-se são e a não perder o rumo no meio de todos estes problemas é o seu compasso moral sólido e estritamente branco-e-preto.


Depois do Age of Ultron (2015), e depois de uma data de filmes em que os Avengers se fartam de destruir coisas e provocar estragos a uma escala global, chega o governo e diz "Olhem, as pessoas estão a ficar assustadas com vocês, têm de parar de destruir coisas. É preciso ter alguém a regular-vos"

O governo quer controlar o poder dos Avengers, e quer que assinem os Acordos de Sokovia, que lhes dará o poder de fazerem exactamente isso.

Por esta altura temos um Captain America que repetidamente viu que as instituições organizadas podem ser corrompidas e que o governo não é de confiança.

Este Captain America aprendeu à sua custa que a única coisa em que pode confiar é em si mesmo e no seu próprio sentido de bem e mal.
Aprendeu que é mais seguro ter pessoas individuais a tomarem decisões morais, do que confiar em organizações para assumirem o poder e decidirem o que fazer com ele, porque inevitavelmente vão ser corrompidas.

É claro que ele vai rejeitar os Acordos de Sokovia e lutar contra o Tony Stark a favor deles.

Venha daí a Guerra Civil.

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