Pataniscas Satânicas

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domingo, 24 de janeiro de 2016

Alone in kyoto


Quando visitámos Kyoto era Dezembro, e estava frio.


Depois da azáfama de Tokyo, o ambiente pacífico de Kyoto foi hipnotizante.

Kyoto é uma cidade de templos e bairros antigos, famosa pelas Geishas.


Não vimos de facto nenhuma Geisha. Essas continuam a ser raras e escondidas do olho público, mas andámos pelos antigos bairros de madeira onde elas era populares.


Visitámos Agarashyama, a floresta de bambu.


É o tipo de lugar onde no meio do Santuário de Yakasa...


...podemos encontrar gatos a dormir em cima de carros vintage de marcas de que eu nunca ouvi falar.


Kyoto é um dos poucos lugares que eu já visitei onde os templos religiosos são de facto acolhedores e inspiram tranquilidade.


É também onde podemos ver o Tommy Lee Jones a fazer publicidade a máquinas automáticas de café em lata.


Em Kyoto podemos visitar lugares que aparecem no Lost in Translation, como o Templo Heian.



Onde tanto podemos comer coisas tão bizarras como Okonomiyaki ou pastéis de ovo (?).



Ah, Kyoto.

Havemos de lá voltar.


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quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Japão

Passado aproximadamente um mês da viagem ao Japão, e continuo sem conseguir sumarizar a experiência.
Estava à espera de ter um laivo de inspiração que me permitisse escrever um texto todo bonito e espirituoso, para me gabar de ter ido ao Japão.
Isso não aconteceu.

Penso na viagem, e imediatamente vem-me à cabeça Tokyo, com 10 milhões de pessoas embaraçadas por terem de viver tão próximas umas das outras. Lembro-me de Shibuya, com os néons e os prédios com fachadas que passam vídeos e as meninas a gritarem "Sumimasen!" incessantemente. O mercado de peixe de Tsukiji, com mais peixe do que eu conseguia imaginar que existia, e de comer sushi às 8:30 da manhã num restaurante de rua. O parque de Hana Rinkyu, com os pinheiros manicurados e as paisagens planeadas. Fazer karaoke em Roppongi. Ir a um banho público em Asakusa.

Depois Nikko, que é do mais diferente de Tokyo que se pode imaginar, com pontes sagradas, o mausoléu do Tokugawa com um gato sobre-valorizado e embriagar-me com Sake

Kyoto, andar de bicicleta pelo bairro das geishas com casas centenárias, ser entrevistado por miúdos japoneses da primária, e um dos momentos mais perfeitos da minha vida quando estive no templo Shoren-In, com o sol a pôr-se.

Ir ao Monte Koya, e passear por um cemitério cheio de campas cobertas por musgo, até anoitecer.
Miyajima, onde estive num hostel gerido exclusivamente por homossexuais, vi um Torii flutuante, subi a uma montanha e aprendi caligrafia.

Lembro-me de estar em Hiroshima, na fachada de um dos poucos edifícios a sobreviver à bomba, e de sentir um genuíno, literal, arrepio pelas costas abaixo.

Um vulcão activo, no Monte Aso, e comer bolos e ver anime noite dentro com um japonês bêbedo.

Conversar com um monge budista em Nagasaki, fazer festas a tubarões em Osaka, apanhar chuva e neve em Kanazawa, fazer snowboard em Hakuba.

Todos estes momentos aglomeram-se na minha cabeça, a acotovelarem-se, a tentarem vir à superfície.
Mas são demasiados, são todos demasiado bons, demasiado deliciosos para ter na cabeça ao mesmo tempo. Surgem-me desorganizadamente e provavelmente nunca os vou conseguir digerir todos.

O que significa que o Japão vai ficar sempre à beira da minha consciência. Como quando nos lembramos de algo que sonhámos na noite anterior e tentamos lembrar-nos do sonho, apenas para ele se escapar por entre os dedos, e ficarmos apenas com imagens soltas e o eco emocional que deixou.

Este não é um texto bonito ou espirituoso.
Mas eu tinha de escrever alguma coisa acerca do Japão e, sinceramente, acho que isto é o melhor que consigo fazer.

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domingo, 5 de dezembro de 2010

Sake

Lembram-se do que vos disse no outro dia?

Estivemos este fim de semana em Nikko, que é uma cidadezinha com um grande complexo de templos, situada a 140 quilómetros a norte de Tokyo.
O principal templo é o do túmulo do Tokugawa Ieyasu, que unificou o Japão, iniciou toda uma nova dinastia e fechou as fronteiras do país durante cerca de 250 anos.

Mas o que realmente interessa é que hoje eu e o Ricardo decidimos que íamos comprar uma garrafa de Sake.
Estamos no Japão, em viagem, precisamos de sake. Tão simples quanto isso.

Já tínhamos feito uma experiência anterior, mas que não correu tão bem, porque bebemos alguma coisa que parecia vodka ou anti-congelante.

No entanto hoje fomos a uma lojinha de bebidas local, entrámos um bocado a medo porque aquilo parecia tudo muito caro. O dono da loja, como todos os lojistas, cumprimentou-nos quando entrámos, e fomos à procura de uma garrafinha.
Encontrámos uma pequenina a 390 yens e fomos pagar.

Depois pedimos ao homem que nos mostrasse copinhos de beber sake, e ele mostrou-nos uns pequeninos de porcelana brancos com umas letras azuis no fundo.
Eu perguntei-lhe "ikura deska?", que, disseram-me, significa "quanto custa?".
O homem parece pensar 2 segundos, abre-se num sorriso enorme e diz "present!".

Então eu aponto para um segundo copo, levanto dois dedos e volto a perguntar "ikura?". Ele pensa mais um bocado e repete "present!"

Resultado: eu e o Ricardo, estamos, neste momento, a beber sake em copos oferecidos por um japonês, em Nikko e a planear a viagem para Kyoto amanhã.

Não sei se isto compensa completamente meses de Harrison, mas estamos definitivamente no bom caminho.

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quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Tokyo

...é uma cidade gigantesca.

Maior que qualquer cidade que já tenham visto. Maior do que possam imaginar.

E tem milhões de pessoas. Em comboios, em escritórios, em escolas, em centros comerciais. Pessoas que se acotovelam e apinham, sempre muito delicadamente e silenciosamente.

Milhões de pessoas extremamente sozinhas. Sem falarem umas com as outras nos transportes públicos, nas ruas quase sempre a andar sem companhia.

A massa de pessoas é tão grande que se torna inindividualizável, sem cara, despersonalizada. Não é possível uma pessoa relacionar-se com a massa humana. Então as pessoas retraem-se e ficam no seu espaço pessoal sem dele saírem.

Mas quando falamos com elas, desfazem-se em amabilidade e simpatia. Mostram interesse genuíno, sorrisos sinceros, partilham uma piada se a entenderem.

Tokyo, apesar dos seus enormes arranha-céus, dos néons futuristas, dos templos e jardins perdidos no meio da urbe, é uma cidade carente de afecto.

Demorei a perceber que era isso que caracterizava esta cidade, mas é de facto isso.

All the lonely people, where do they all belong?

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quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Epilogo - Vemo-nos em Tokyo

Segundo dia depois do Harrison. E consigo ver o dia acabar sem pensar em nada de especial.
A vida costumava ser assim.

Lembro-me do dia em que acabamos medicina 2 na gastro. Saímos do hospital eufóricos metemo-nos no carro e eu conduzi furiosamente até carcavelos para enfiar os dedos dos pés na areia. Acabou. No caminho fizemos um epilogo para cada um de nós. Como se o filme tivesse acabado, e estivesse na altura de dizer ao espectador brevemente o que aconteceu a cada personagem.

He walks into the curve, waves back, and fades, in an Autumn afternoon...

Já me sentia a desaparecer há algum tempo. Nos dias em que estive sozinho na fml a estudar rodeado de crianças a fazer trabalhos, a contornarem-me como se eu já lá não estivesse, a ignorarem os meus olhares reprovadores ao barulho que estavam a fazer. Já não pertencíamos ali. Éramos como emigrantes retornados à terra 40 anos depois, sem contactos pelo meio. Estava tudo ali, mas era como se nada fosse o mesmo. O mesmo que começou a aplicar-se às olimpíadas, meses antes.

Claro que sei que este não é o fim da linha, mas é o fim de alguma coisa. O início do fim de uma infância/adolescência demorada, sem dúvida. Ano a ano, o mundo torna-se cada vez mais real. As nossas personalidades estão cada vez mais cristalizadas. Nós vamos ser assim.
Ontem, no juramento oficializaram a coisa. Parabéns, disseram-nos. Vocês já não são o futuro.
Ninguém pode viver para sempre na Terra do Nunca.

Agora deixo de ser o sidekick ao lado do doutor que põe em causa cada decisão que ele toma, para começar a tomar eu mais decisões. E fazer as minhas asneiras, de certeza.
I'm sure we'll have fun.

Pelo meio ficaram milhares de memórias. Umas mais interessantes, a maioria aborrecida. As minhas, as nossas memórias. Isso é que interessa.
O que interessa é que cantámos o white rabbit e o american pie, nos intervalos da chuva.
E conseguimos ver a letra.

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