Pataniscas Satânicas

Pataniscas Satânicas

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Cnidaria - alienígenas no mar

Biota Ediacariana? Alforrecas? Alforrecas? Alforrecas?

Vamos falar sobre isso.


Como dissemos há pouco tempo, a vida na Terra começou há cerca de 4100 milhões de anos (que é por si só um porradão de tempo, e surpreendentemente próximo da formação da própria Terra, há 4600 milhões de anos).

No entanto entre surgir vida e surgir vida que fosse multicelular e complexa, visível a olho nu, passaram-se 3500 milhões de anos.

Ou seja, durante 3500 milhões de anos no planeta Terra, a vida mais complexa que existia não passava de extensos tapetes microbianos. Era o melhor e mais sofisticado que a vida na Terra tinha a oferecer.

Tapete Microbiano

Só no período Ediacariano, há 630 milhões de anos, é que surgem as primeiras formas de vida cujos fósseis não exigem um microscópio para serem vistos.

Sabemos pouco acerca dos organismos que existiam nessa altura. Os seus fósseis sugerem formas orgânicas radiadas, frondosas e sésseis, formando discos e braços, provavelmente fixos ao substrato, imóveis.



Não se sabe se eram protozoários gigantescos, se eram líchens, ou se eram um Filo completamente diferente que não sobreviveu e não deixou descendentes.

Mas a teoria mais plausível (tem um ou outro buraco), é que seriam Cnidaria.

Os Cnidaria que conhecemos hoje são essencialmente as Alforrecas e os Corais.


 As Alforrecas e Corais representam basicamente uma estrutura esferóide que se dobrou sobre si mesma, criando uma cavidade.
Os Cnidaria vêm em duas variedades, Medusa ou Pólipo.


O mesmo organismo - duas formas, medusa e pólipo
Os fósseis mais antigos destes animais verdadeiramente primordiais têm 560 e 500 milhões de anos.
Claro que a fossilização não é fácil em animais cujo corpo tem a consistência de gelatina, portanto é perfeitamente possível que estes animais já existissem há mais tempo.

Haootia quadriformis
Fóssil de Haootia com 560 milhões de anos
Fóssil de Alforreca com 500 milhões de anos, e equivalente morfológico moderno
Tento imensas vezes imaginar esse mundo. Esse planeta Terra incrivelmente primitivo com as suas primeiras criaturas.
A superfície era inóspita, cozida por radiação ultra-violeta.

Mas o fundo dos mares era um jardim de corais e outras criaturas presas ao fundo, a ondular, envoltos por milhões e milhões de alforrecas das mais bizarras formas e aspectos.


Talvez venha daí o fascínio hipnotizante de olhar para uma alforreca a nadar, uma forma de vida tão primitiva que chega a parecer alienígena.
São criaturas que se mantém muito muito semelhantes às que existiam há 500 milhões de anos, antes sequer existirem animais minimamente reconhecíveis (isso aconteceria com a explosão do Câmbrico).


Vendo a variedade e bizarria das formas que estes seres vivos conseguem atingir actualmente, é quase impossível imaginar que outras formas ainda mais bizarras não terão existido.











Apesar disso, são animais mesmo mesmo muito simples.

São comspostos por 95-98% de água

Não têm sistemas de orgãos especializados em digestão, osmoregulação, respiração, circulação; nem sequer têm um sistema nervoso central.
Os seus tecidos são oxigenados por difusão simples, directamente da água para as células.


Têm um saco gastrointestinal onde a comida é digerida e depois expelida pelo mesmo orifício.
Ou seja, lembram-se quando eu disse que os animais eram basicamente tubos com dentes? As alforrecas ainda estão num estadio evolutivo tão primitivo que esse tubo ainda não tinha evoluído um buraco em cada uma das pontas.

Surpreendentemente (ou não) possuem um sistema nervoso, se bem que este não passe de apenas alguns neurónios ligados entre si, formando uma Rede Nervosa, com apenas alguns gânglios nervosos.
Esta Rede Nervosa faz com que o seu simples Esqueleto Hidrostático se contraia de forma coordenada e harmoniosa, permitindo um movimento de contração-pulsação do corpo que faz com que a alforreca nade.
Algumas até têm estruturas nervosas fotossensíveis, ou seja, olhos muito, muito primitivos.


Definitivamente uma das coisas mais características das Alforrecas, é que os seus raios picam.

Isto deve-se a células especializadas, os Cnidócitos, que só existem nos Cnidaria. Os Cnidócitos são sensíveis a estímulos mecânicos, e quando são tocados expelem um organelo em forma de farpa, que penetra a pele das suas presas, injectando toxinas.

Mecanismo de acção dos Cnidócitos
Cnidócito sob microscópio electrónico
Cnidócitos a serem expelidos
Eu podia escrever muito acerca das toxinas libertadas pelos cnidócitos, mas porquê perder tempo?

A Chironex fleckeri é uma espécie de alforreca com uma forma cubóide, cujo veneno tem uma dose letal (LD50) de 0,04mg/kg, que provoca um aumento de potássio que leva a paragem cardíaca em apenas 2-5 minutos, e é responsável por 20 a 40 mortes todos os anos nas Filipinas.

Chironex sp.
Ainda não estão convencidos que as alforrecas são a coisa mais estranha de sempre?

As alforrecas reproduzem-se sexualmente, da maneira que conhecemos habitualmente, produzindo um ovo que depois se transforma numa Planula, que depois se transforma num pólipo que é fixo e não anda a nadar.

Depois, esse pólipo reproduz-se assexuadamente num processo chamado Estrobilação, no qual vai libertando clones de si mesmos que nadam livremente, camados Éfiras, que irão crescer para se tornarem alforrecas adultas.


Estrobilação
Éfira
Existe inclusive uma espécie de alforreca, a Turritopsis dohrnii, que depois de atingir a idade adulta é capaz de reverter a um estado de pólipo colonial e sexualmente imaturo para recomeçar o ciclo. A Turritopsis dohrnii é assim biologicamente imortal.

Turritopsis dohrnii
As alforrecas também podem ser assustadoramente grandes, como a espécie Nomura, que pode atingir um diâmetro de 2 metros e pesar 90kg.


Querem assustador, dou-vos assustador. A Stygiomedusa gigantea, é uma alforreca gigante, com cerca de 100cm de diâmetro, que habita o fundo dos mares, é completamente negra, e só recentemente foi filmada viva.


Mais impressionante é que continuamos a descobrir espécies novas de alforrecas.

Em Abril de 2016, a National Oceanic and Atmospheric Administration descobriu uma nova espécie de alforreca a 3700 metros de profundidade.

A estranheza da sua forma é hipnotizante, o seu aspecto é alienígena.

O que eu quero dizer com isto tudo, é que tanto quanto sabemos as alforrecas são uma das primeiras e mais simples formas que a vida multicelular pode ter. Não é irrazoável imaginar que a vida que se desenvolva em mares de outros planetas possa também passar por este tipo de morfologia.

Se assim fosse, não me espantava nada ver um animal destes a flutuar nos mares de um planeta alienígena.

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quinta-feira, 11 de agosto de 2016

It's a fiddle!

''There's a sucker born every minute.''
- P.T. Barnum


Todos os verões aparecem notícias de um ou outro tipo de burla que vitimiza quem vai de férias. São histórias que envolvem agentes de viagens, ou pessoas que alugam casas que não existem, ou que não possuem.

Estas histórias despertam a nossa empatia porque no verão, todos nós juntamos uns trocos para ir para a praia apanhar sol e ler o jornal.

O jornal não é feito para nos descontrair. O jornal é feito para o maior número possível de pessoas comprarem o jornal. E isso consegue-se provocando indignação e integrando narrativas simples. Porque indignação é bem mais fácil do que provocar do que sentimentos de bem estar, ou do que estimular senso crítico. E é mais fácil ler uma notícia quando a manchete já nos transmitiu uma forte inclinação emocional em relação à situação descrita.

Quando sabemos que outros na nossa situação não conseguiram o seu merecido descanso, porque algum aldrabão lhes ficou com o dinheiro criando falsas expectativas, ficamos naturalmente indignados.

Esta é uma narrativa que desperta um sentimento de injustiça reconhecível e transversal.


Abuso de confiança de alguém vulnerável, neste caso idosos, é dos crimes que mais indignação cria em quem ouve a narrativa. Quando o burlão veste a pele de uma figura de autoridade (neste caso médico), mais o ouvinte se revolta.

Mas como já exploramos extensamente, todas as narrativas podem ser invertidas. A realidade não é preta e branca, a moralidade pode distribuir-se em espectros, e a maior parte das situações que acontecem no mundo real permitem várias leituras e opiniões.

Alguns burlões não nos despertam sentimentos de revolta tão fortes.


Nem alguns burlados nos despertam assim tanta empatia.


Por exemplo, lembram-se de um famoso príncipe da Nigéria, que precisava que alguém pagasse uma pequena taxa para poder transferir a sua imensa fortuna para um país ocidental?


Pois. O contexto é diferente. Conseguimos pensar para nós próprios que alguém que acredita nesta história da carochinha, quase que merece ser burlado.

Até porque a história do príncipe da nigéria, não é nova. Começou no século 16, e na altura era um prisioneiro espanhol, injustamente acusado. Era sempre um membro da realeza (figura de autoridade) que através de uma amigo, pedia anonimato e uma pequena quantia para subornar os guardas da prisão. Depois de conseguir fugir, o prisioneiro espanhol iria certamente recompensar principescamente a alma generosa o suficiente para o ajudar durante aquele período difícil.


Porque é que não temos pena do otário que cai na esparrela do prisioneiro espanhol, ou do príncipe da nigéria?

Bem, porque aqui a narrativa é mais refinada. O falso médico que burla o idoso, abusa da confiança dele usando os medos que os seres humanos têm da doença e da morte. O prisioneiro espanhol, por outro lado apela à credulidade e à ganância do burlado.

São ambos desonestos, mas só um deles tem uma narrativa que é ''aceitável'' inserir na cultura de massas.

Através da aplicação de algumas regras narrativas, é possível colocar o público numa situação em que é possível a empatização com os aldrabões.


Mesmo na vida real isto pode acontecer, e aconteceu. E não só com os burlões, mesmo com os criminosos que não têm problemas em provocar violência em grande escala.

Durante os anos 30, a miséria na América era muita, e os assaltos a bancos eram frequentes. Os bancos não eram muito populares na altura (imagine-se porquê...), e um assaltante de bancos tornou-se famoso porque tinha o hábito (possivelmente apócrifo) de destruir os registos das dívidas das pessoas, que assim ficavam livres das mesmas. O seu nome - Charles ''Pretty Boy'' Floyd.


O desemprego era altíssimo, a sociedade vivia um estado de salve-se quem puder, rareavam as oportunidades, e prevalecia a lei do mais forte. Era difícil julgar com malévolo alguém que não tem que comer, só vê miséria à sua volta, e resolve pegar numa arma e assaltar um banco.

Este ambiente social agressivo criou terreno fértil para a imaginação do público ''validar'' e romancear o crime organizado.  E o crime organizou-se, e de que maneira.
A época de John Dillinger, Bonnie and Clyde e Al Capone. Histórias que ficaram eternas na cultura Americana.


Algo de semelhante se passou com a máfia italiana, uns anos depois. Francis Ford Coppola usou os estreitos laços familiares pelo que os italianos são conhecidos, os seus temperamentos impulsivos e explosivos, e mostrou que as melhores intenções de protecção da família podem levar à violência mais gratuita. Todos nós temos família. E não sabemos bem quais os limites dos actos que estaríamos dispostos a cometer para proteger as pessoas que nos são próximas.


Lembram-se desta cena?


Santino ''Sonny'' Corleone agride de maneira brutal o marido da irmã, porque ela estava a ser vítima de volência doméstica. É difícil conciliar a angústia de ver alguém ser espancado, com o sentimento de que o marido da irmã de Sonny merecia algum tipo de castigo...

Coppola prepara-nos para uma cena semelhante, depois de nos informar que a irmã de Sonny foi novamente vitima de agressões. Mas desta vez a cena acaba assim...


Sonny é traído pela sua impulsividade e pela sua ''dedicação'' à sua família. Pela previsibilidade do seu amor à sua irmã.

Na prática foi assassinado mais um gangster, num filme de gangsters. Mas o setup, a gestão de expectativas, a proximidade que sentimos com os conflitos internos das personagens, neste momento, para mim, fazem deste filme uma das melhores coisas que vi desde sempre.


Ok, mais que raio têm os violinos a ver com isto tudo??? A verdade é que este post é um confidence trick em si mesmo. Um abuso da vossa confiança. Para a semana mais adrabices :)

Entretanto Gui, olha aqui um gajo a fazer caras!

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terça-feira, 9 de agosto de 2016

Leader - Lancer

Captain America, Superman, Tintin, Woody - Iron Man, Batman, Haddock, Buzz.

Vamos falar sobre isso


Mesmo as pessoas mais distraídas não podem ter deixado de notar numa dicotomia interessante nos filmes de super-heróis recentes.

Por um lado tínhamos o Superman, ideal humano da justiça, moralidade e liberdade, às cabeçadas com o Batman, que é uma personagem muito mais espertalhona, que usa dinheiro e tecnologia e inteligência para resolver os problemas de maneira mais moralmente questionável.

Por outro lado tínhamos o Captain America, ideal humano da justiça, moralidade e liberdade, às cabeçadas com o Iron Man, que é uma personagem muito mais espertalhona, que usa dinheiro e tecnologia e inteligência para resolver os problemas de maneira mais moralmente questionável.



O que estamos a ver, e que se torna tão evidente quando pômos estas quatro personagens lado a lado, é a relação difícil que um Leader tem sempre com o seu Lancer.

Tipicamente, sempre que hajam equipas de personagens ou grupos de personagens, estas vão muito tipicamente ter papéis que desempenham na dinâmica desse grupo.

No caso específico de que estamos a falar, o Leader é, como o nome indica, o líder do grupo. Pode ser um estratega brilhante, carismático, sensato, teimoso, ou alguma combinação dessas características. É habitualmente o Herói da história.

O Lancer funciona na maior parte das vezes como amigo ou companheiro do Leader, e é habitualmente o oposto deste. Se o Leader é limpinho e bem comportado, o Lancer vai ser rude e irreverente; se o Leader é muito motivado e relativamente amoral, o Lancer vai ser relaxado e muito sensato.

Esta dicotomia funciona muito bem para criar diálogos e interacções entre as personagens, e até para criar conflito entre elas.

Woody - Buzz












O Woody e o Buzz de Toy Story são um exemplo típico. O Woody é o brinquedo mais antigo e mais espertalhão e que dobra as regras, o Buzz é o brinquedo moderno, mais denso e mais rígido.

Hellboy - Abe Sapien














Em Hellboy esta relação está particularmente bem demarcada, ainda por cima porque mantém o contraste vermelho azul presente nos nossos exemplos iniciais. O Hellboy é vermelho, grande, bronco e muito forte, o Abe Sapien é azul, pequeno, inteligente, e frágil.

Tintin - Capitão Haddock
















Há muitos exemplos destes na BD Europeia, mas decidi dar como exemplos o Tintin e o Capitão Haddock. Um é um bem disposto, calmo e que resolve problemas com a cabeça, o outro é um velho que está zempre zangado, é dado a acessos de fúria e resolve as coisas à pancada.

Cyclops - Wolverine














Uma das rivalidades mais populares na banda-desenhada, de um lado temos o Cyclops, que é tímido, rígido, estratégico e tem um poder que lhe permite terminar lutas as coisas à distância, e o Wolverine, que é carismático, faz as coisas como lhe apetece, por instinto e as garras só lhe permitem lutar corpo a corpo.

Kirk - Spock












A relação Leader - Lancer em Star Trek é óbvia, com o Kirk a ser a personagem impulsiva e emocional, e o Spock a ser a personagem ponderada e cerebral.

Arthur - Lancelot
















Nem mesmo a literatura clássica escapa aos tropes, e enquanto que o Rei Artur é (classicamente) um grande líder, mas mulherengo, o seu melhor amigo Lancelot, é o melhor na espada e de amores únicos para a vida toda (infelizmente apaixona-se pela Guinevere, Rainha de Artur, criando conflito entre as duas personagens.


Robin Hood - Little John













Uma das parelhas de Leader e Lancer mais conhecidas de sempre, acho que já nem vale a pena começar a apontar os contrastes.

Mal - Zoe















Do já velhinho Firefly, chega-nos o Mal, que é o líder desbocado, carismático e que usa uma pistola, e a Zoe, que é o braço direito, silenciosa, de poucas palavras e que usa uma caçadeira.

Ted - Barney














Rick Grimes - Daryl












Apesar de The Walking Dead ser a desgraça que é, a relação entre Rick e Daryl é um exemplo típico do Leader e do Lancer.

Freddy - Shaggy














Até mesmo no Scooby Doo é possível estabelecer a dicotomia entre o Fred, o líder do grupo, limpinho e certinho, do Shaggy, o seu amigo despassarado, sujo e aparentemente pedrado.

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Ainda aqui estão? Ainda não desistiram do artigo?

Sim, acabou aqui. Estavam à espera de uma conclusão muito esperta?

Não, hoje não.

Hey, não podem ser todos o melhor texto de semrpe!
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