Pataniscas Satânicas

Pataniscas Satânicas

domingo, 17 de janeiro de 2016

Marvel v DC

 A diferença fundamental entre a Marvel e a DC? O humor como ferramenta de escrita? Fazer hijack de um comentário para escrever um artigo?

Vamos falar sobre isso.



Já antes analisei a fundo a história da competição cinematográfica entre a Marvel e a DC, mas mesmo assim nunca entrei especificamente sobre as diferenças fundamentais entre os dois universos.

A Marvel e a DC competem uma com a outra desde sempre, e continuam a par e passo a lançar obras paralelas.

Não é por acaso que neste ano saem o Batman v Superman (2016), que é sobre os dois principais heróis da DC a lutarem um contra o outro, e o Captain America: Civil War (2016) que é sobre os dois principais heróis do MCU, o Captain America e o Iron Man, a lutarem um contra o outro.


Os paralelismos entre o universo da Marvel e da DC são imensos. A maior parte dos heróis de uma e da outra são equivalentes entre si, e por vezes são mesmo cópias descaradas uns dos outros.

Mas apesar de podermos estabelecer paralelos tão claros como o Superman e o Captain America serem o The Leader para o The Lancer que são o Batman e o Iron Man, há diferenças fundamentais nestes heróis que tornam o mundo da Marvel um bicho muito diferente do mundo da DC.

Já há muito tempo que eu queria escrever sobre este tema, mas nunca soube exactamente por onde pegar.
Curiosamente foi o comentário do Ricardo no meu último post sobre o Avengers: Age of Ultron, que me deu a ponta perfeita por onde começar.

Ele diz assim, acerca do Age of Ultron:

"Acho que o tom leve e o humor excessivo são das melhores qualidades do filme!"

E tem toda a razão!



Nos últimos anos, à medida que a Marvel e a DC começam a construir os seus universos partilhados, nota-se uma diferença clara no tom dos seus filmes.

Enquanto que a DC constrói filmes com um tom sério e pesado, a Marvel vai sempre para um tom leve e cómico.
Isto não significa que os filmes da DC não tenham piadas ou que os filmes da Marvel não tenham momentos dramáticos, mas no geral o tom dos filmes têm-se mantido consistente.

O cerne disto tudo está no conteúdo: são filmes sobre super-heróis.

Filmes cujas personagens conseguem voar, disparar raios das mãos, e serem estupendamente inteligentes ou fortes, e lutarem contra palhaços assassinos, alienígenas genocidas ou exércitos de robots.

São histórias de aventura épicas, que funcionam tanto melhor quanto mais crescerem, quanto maior forem, quanto mais impossível parecer a tarefa e quanto menor forem as probabilidades de sucesso.
É um tipo de narrativa no qual os exageros são necessários para construir tensão e resoluções satisfatórias.

Ninguém se importa se o Herói salvar um gatinho de uma árvore, por muito realista que isso seja!

Mas se o Herói tiver de salvar New York de um gatinho gigante vindo do espaço com lasers na cabeça, subitamente temos uma história épica de aventura!


O problema reside no facto de que se se tentar contar a história ridícula do gatinho gigante vindo do espaço com lasers na cabeça que vai destruir New York com um tom sério e maduro, gera-se dissonância cognitiva e o ridículo da situação torna-se flagrante e desconcertante.

Se tentares contar a mesma história mas com um tom leve e cómico, o ridículo da situação está suportado por esse tom, não há dissonância cognitiva e os exageros não parecem descabidos.

O Man of Steel (2013) da DC leva-se muito a sério e cai no ridículo por isso.

Os Batmans também se levam a sério, e só não caem no ridículo porque têm o Christopher Nolan a fazer magia com a cinematografia. Mesmo assim a Bat-voz do Christian Bale está no limite do aceitável, e para muita gente quebra a suspensão da descrença.

A Marvel consegue ter coisas como o Guardians of the Galaxy (2014), que é o epítomo do tom leve e do humor excessivo!


Porque é que a DC não constrói então histórias com um tom leve e cómico, à semelhança da Marvel?

Devido a outra diferença fundamental entre a Marvel e a DC que está no nível de poder dos seus Heróis.

O Captain America consegue segurar um helicóptero, mas o Superman é um alienígena quase indestrutível que é capaz de destruir prédios com um murro. São ambos impressionantes à sua maneira, mas estão claramente em escalões diferentes.



E aí reside o problema.

Quando se começa com um herói que é indestrutível, imortal e tão poderoso que é frequentemente comparado com um Deus, é difícil arranjar um antagonista que crie alguma tensão.

Está bem que podem dizer que o Doomsday é AINDA mais forte que o Super Homem, mas ao nível ao qual o Super Homem é poderoso eu já não compreendo a diferença. São os dois inimaginavelmente fortes, e dizer que um é mais forte que o outro é o mesmo que dizer que existem infinitos que são maiores que outros.


São Gigantes a lutarem uns contra os outros lá em cima, e nós cá em baixo a vermos!
É espectacular, admito que sim, é impressionante! Mas não há maneira de eu me identificar com esses Gigantes.

Os Super-Heróis da Marvel, por poderosos que sejam, são pessoas normais. O Captain America era um escanzelado bem intencionado e o Iron Man era um fanfarrão irresponsável antes de ganharem poderes. É muito mais fácil identificarmo-nos com eles.

Mais importante que isso, não são todo-poderosos. Os seus poderes começam muito mais em baixo do que os Heróis da DC.

E como os Heróis da Marvel começam num patamar muito mais baixo, é muito mais fácil os conflitos tomarem proporções épicas simplesmente porque há mais espaço para construir escala e proporção; é muito mais fácil criar vilões muito mais poderosos do que eles, situações que parecem muito mais impossíveis, exactamente porque os heróis são quase mundanos.


E isto permite uma coisa extremamente interessante:

Um Herói mundano a olhar de baixo para cima para uma situação exageradamente épica vai reconhecer o exagero ridículo dessa situação com espanto e incredulidade.

Tal como nós.

E é esse reconhecimento do exagero ridículo, essa capacidade das personagens (com quem nos identificamos) de olhar para o mundo à sua volta e dizer "Isto é bizarro", que abre portas ao humor.
O espanto das personagens é o nosso espanto, portanto quando fazem piadas, mesmo que auto-conscientes, essas piadas reflectem o que nós próprios sentimos, e não parecem descabidas.

Um Deus indestrutível não chega a ficar incrédulo o suficiente com nada para que as piadas vindas da sua boca pareçam sinceras.

Mas desde que haja um tipo, que é pai-de-família, que diga:
"The city is flying and we're fighting an army of robots. And I have a bow and arrow. Nothing makes sense." 
fazendo um bocadinho de Lampshading e mostrar-nos que eles também estão por dentro da piada, que nós embarcamos alegremente em qualquer história estapafurdiamente épica que eles queiram vender!


De forma quase paradoxal, o facto de os Heróis da Marvel serem muito menos poderosos do que os Heróis da DC permite que se riam do seu mundo, e esse humor por sua vez abre portas a aventuras muito mais épicas do que as que a DC, com o seu tom sério, alguma vez conseguiria fazer sem cair no ridículo.

Portanto, sim, definitivamente, o tom leve e o humor excessivo destes filmes são uma das suas melhores qualidades.
São simultâneamente um sintoma de quão relacionáveis são as suas personagens, e uma ferramenta que permite que os filmes cresçam tanto quanto crescem.

Eu estou TÃO entusiasmado com isto tudo!!!!!!!


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sábado, 16 de janeiro de 2016

Tunes with Tangerine - New York City



New York City, The Chainsmokers

Chosen by Tangerine.


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quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

David Bowie, 1947-2016

Segunda feira esta semana acordámos com a notícia da morte de David Bowie.

Morreu um dos gigantes. Um daqueles que pela força imparável da sua imaginação, talento e criatividade, moldam a arte e a cultura à sua volta.

É uma perda irreparável.
Nunca mais haverá um David Bowie.


Nunca fui um fã de David Bowie.

Não no sentido em que tenha ouvido a sua música e tenha decidido que era algo de que não gostava, mas no sentido em que nunca investi a fundo na sua música e na sua obra. Mostraram-me outras coisas enquanto crescia (Beatles, sobretudo), e portanto o foco da minha atenção nunca recaiu especialmente sobre o Bowie.

Gosto muito da sua música e admiro imenso a sua produção artística, mas não sou um fã por respeito aos que podem de facto apelidar-se de fãs.

Mas apesar de nunca me ter debruçado especificamente sobre o Bowie, a verdade é que sempre soube que ele estava lá, e sempre o vi a aparecer por todo o lado.

A sua influência na música, na arte, na moda, e na cultura no geral foram tremendos e difíceis de quantificar.



Uma das maneiras mais engraçadas maneiras de medir o sucesso de uma figura pop é ver onde é que ela é referenciada na cultura pop.

Portanto, em jeito de tributo ao David Bowie, vamos ver onde é que, por força da figura que criou para si mesmo, acabou por ser referenciado noutros meios artísticos.

Por exemplo,

No jogo Metal gear Solid V: The Phantom Pain, existem os Diamond Dogs, a companhia militar privada fundada por Snake, cujo nome é uma referência directa a uma das canções de Bowie.

Toda a sequência de abertura do jogo é basicamente uma grande referência à letra da música Diamond Dogs, e era suposto ter sido acompanhado por essa mesma música.
No fim não foi usada a música Diamond Dogs, mas sim uma cover de outra canção de Bowie, The Man Who Sold the World.



Nas bandas desenhadas do Doctor Who, o companheiro do 11º Doctor, é John Jones, uma personagem directamente inspirada em Bowie.
Para além de partilharem o mesmo sobrenome, John Jones é um músico de Blues dos anos '60 sem sucesso que está fadado a tornar-se famoso como "Xavi Moonburst" e "The Tall Pale Earl", e muito do seu diálogo consiste de citações directas ou paródias às letras do Bowie


Em 1988 temos o filme Velvet Goldmine, realizado por Todd Haynes, que é sobre a ascenção meteórica à fama de uma estrela pop bisexual durante o movimento do Glam Rock dos anos '70. Não é decididamente um filme sobre David Bowie. O filme centra-se na personagem de Brian Slade, cujo alter-ego espacial, Maxwell Demon, não é o Ziggy Stardust. A sua banda, Venus in Furs, definitivamente não são os Spiders from Mars. Ao longo da sua vida, Slade apaixona-se por uma série de pessoas que de nenhuma forma se assemelham a Angie Bowie, Iggy Pop, Lou Reed, Mick Jagger ou Brian Eno.

Jonathan Rhys Meyers como Da- Brian Slade
No videoclip da música Dani California do album Stadium Arcadium dos Red Hot Chili Peppers, a banda veste-se de várias bandas rock, representando vários géneros musicais.
A determinada altura o Flea veste-se de Ziggy Stardust.




Ainda a propósito de bandas, os olhos de Murdoc, uma das personagens de Gorillaz, são directamente inspirados nos olhos assimétricos de David Bowie.


Na banda desenhada Sandman, escrita por Neil Gaiman, o aspecto da personagem Lucifer é directamente inspirado em David Bowie.


O visual de Lucifer na banda-desenhada homónima spinoff de Sandman, é inspirado num David Bowie correspondentemente mais maduro.


O grupo musical/cómico Flight of the Conchords tem vários vídeos onde David Bowie aparece em sonhos a uma das personagens, sempre com uma figura Gandalfiana.


Na série britânica Spitting Image, David Bowie é uma das muitas celebridadas transformada num boneco. Um dos sketches envolve Bowie e Mick Jagger a cantarem e dançarem juntos uma paródia do videoclip "Dancing in the Street"


No desenho animado Venture Bros. o líder da Guild of Calamitous Intent é o David Bowie, que tem a capacidade de alterar o seu aspecto físico.
Também na mesma série há uma sequência divertidíssima de tributo ao Space Oddity





Na curta metragem de Joss Whedon, Dr. Horrible's Sing-Along Blog, um dos vilões na Evil League of Evil chama-se Dead Bowie.



Finalmente, não posso deixar de referenciar uma das minhas preferidas, a versão que Chris Hadfield fez da canção Space Oddity, a bordo da Estação Espacial Internacional.




Though I'm past one hundred thousand miles
I'm feeling very still
And I think my spaceship knows which way to go
Tell my wife I love her very much, she knows
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terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Coreia do Norte e a Bomba H

Não sei o suficiente de política internacional para ter opinião sobre a Coreia do Norte.
São os maus, certo?

Ninguém gosta deles, ao ponto de haver candidatos presidenciais a terem necessidade de anunciar que resolveram descer a Coreia do Norte na lista de países que vão visitar se forem presidentes.

E francamente, acho que temos todos que fazer colectivamente: búúú! búúú! e apupar países que gostam de fazer explodir armas termonucleares.


Epá, agora cagaste o pé todo...

A bomba que a Coreia do Norte fez explodir, funciona através  da fusão de Hidrogénio em Hélio. Que é o mesmo processo pelo qual o sol produz energia.

O poder destrutivo de uma bomba de Hidrogénio vem do mesmo processo que faz o sol brilhar. É uma bomba que traz para a superfície terrestre um bocadinho daquilo que acontece no Sol.
A temperaturas mais elevadas.

E isto é a desculpa perfeita para falar de coisas fixes! Coisas que estimulam o nosso imaginário do que é uma bomba nuclear. Vamos falar de urânio, plutónio, massa crítica, raios gamma, raios X e de deutério!


Isto é um esquema de uma bomba termonuclear:


Quando o contador chega a zero, é detonada uma bomba de fissão primária (a bola amarela com o centro azul escuro). Normalmente através de um detonador (um feixe de neutrões), que actua sobre um isótopo radioactivo instável (como urânio 235, ou plutónio). A bomba é redonda, porque esta é a forma com menor massa crítica.


Se o isótopo estiver em quantidade suficiente (massa crítica), isto começa uma reacção em cadeia, que liberta muita energia... Mesmo muita. Esta energia toma a forma de radiação electromagnética de curto comprimento de onda, ou seja, feixes de raios X (que nós usamos para ver a gaiola que temos no peito), e raios gamma. Lembramos que exposição a estes mesmos raios gama transformaram o Bruce Banner no incrível Hulk, por isso são fixes.


Este é um argumento forte. Porque, entre outras coisas, isto:


Os raios gamma comprimem e aquecem um recipiente que contem 2 isótopos de Hidrogénio, o Tritium (1 protão + 2 neutrões) e o Deutério (1 protão + 1 neutrão), até às temperaturas elevadíssimas em que ocorre a fusão nuclear.

E é aqui que as coisas começam a aquecer... muito. Esses dois isótopos de Hidrogénio fundem-se!



Para formar Hélio. E um porradão de energia, que se manifesta por uma explosão apocalíptica. Este é o esquema da bomba, com os vários passos do processo resumidos:


A razão pela qual estes diagramas aborrecidos são importantes, é porque o efeito prático é este:


Uma bola de fogo com 2 quilómetros. Há um site que nos deixa simular um ataque nuclear numa cidade há nossa escolha.

Uma bomba de Hidrogénio em, por exemplo... Lisboa!

Estas imagens fazem-nos perceber que estas bombas não deviam existir.

Agora, no Centro do Sol, a temperatura é de cerca de 15.000.000 ºC.


Estas bombas podem provocam qualquer coisa como 10 vezes essa temperatura.

O que é espectacular, não me interpretem mal...

Mas não serve para nada, à excepção de poder ser o plano A quando um asteróide grande estiver em rota de colisão com a Terra. Isto, antes de mandar o Bruce Willis partir o asteróide às dentadas.


Não sei qual é a vossa opinião, mas eu acho que precisamos de menos bombas a explodir.
E quanto a bombas que tentam imitar o sol aqui na aqui na Terra, acho que também prescindia.

Espero que o kim jong-un leia este blog. Búúú, búúú!
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domingo, 10 de janeiro de 2016

Avengers: Age of Ultron - a Análise Final

Uma defesa desnecessária do Age of Ultron? Quantas coisas é que um filme tem de fazer bem para as pessoas não se importarem demasiado com as suas falhas? Outra vez a falar de coisas da Marvel?

Vamos falar sobre isso.


A minha fixação por tudo o que é Marvel Cinematic Universe já se tem vindo a mostrar evidente neste blog há algum tempo, e hoje vou só alimentar isso ainda mais.

Quando em Abril do ano passado ano fui ver o Avengers: Age of Ultron, e escrevi a crítica do filme, fiquei logo na altura a sentir que me faltava dizer imenso acerca do filme.

Entretanto já devo ter visto o filme umas 6 vezes pelo menos, e já tenho mais coisas a dizer acerca dele (se bem que me parece que ainda vou escrever mais acerca dele no futuro).

Outra coisa que me surpreendeu durante este tempo é que houve pessoas que NÃO GOSTARAM DO FILME TANTO QUANTO EU!!!
Não percebo como estas pessoas têm o descaramento de apresentar argumentos bem fundamentados a apontar erros numa coisa que eu gostei TANTO! How dare they?!

Há várias coisas que as pessoas da internet costumam apontar ao Age of Ultron, e no geral encaixam nas seguintes categorias:

- O Vilão não era ameaçador o suficiente
- O tom leve e o humor excessivo diminuía a gravidade do que estava em jogo
- Vários sub-enredos pareciam supérfluos e afectavam o ritmo do filme - como a visão do Thor, e o romance Black Widow/Hulk
- Se o filme é tão bom assim porque é que os fãs estão sempre a sair do seu caminho para defender o filme?

A minha resposta a estes é que os primeiros dois são razoavelmente subjectivos, o terceiro é talvez o mais razoável e não sei do que é que estão a falar em relação ao quarto.

Em vez de demonstrar como pessoas que discordam comigo estão enganadas, vou em vez disso chamar a atenção para todas as coisas que eu acho que o filme consegue fazer bem.


É um excelente filme de banda-desenhada

Primeiro que tudo, o Age of Ultron pretende ser um filme de banda-desenhada, com super-heróis e super-vilões.
Assume-se como um filme de entretenimento, e o seu objectivo é dar-nos 2 horas de divertimento com acção over-the-top, personagens coloridas, one-liners e o mundo a ser salvo mais uma vez.

O Age of Ultron não é o Jessica Jones, que pretende ser a adaptação Noir do hard-boiled pulp-fiction das histórias de detectives. O filme desde o primeiro momento que a única coisa que nos pretende dar é o equivalente a (como dizem os tipos dos Honest Movie Trailers) a despejar a nossa caixa de brinquedos e brincar com eles todos ao mesmo tempo.

Uma das únicas coisas que eu tenho pena, é de não termos tido a visão original do Joss Whedon para este filme, que seria uma história íntima de desconstrução das personagens.
Mas o filme não é isso porque tentou e falhou, mas porque foi tomada uma decisão de ir numa direcção diferente.

E o que o filme promete, o filme dá. É extremamente divertido, entusiasmante, com sequências de acção exageradas e satisfatórias, digasnde uma banda-desenhada.

A própria sequência de abertura do filme é a coisa mais banda-desenhada que podíamos querer, com cada uma das personagens a ter o seu glamour-shot antes de se juntarem todas para um plano conjunto que parece saído de um painel de uma página.


O Enredo

Este filme, à partida, nasce com um estigma que é difícil de ultrapassar: é filho do meio.

Vem depois do The Avengers (2012), que foi um dos maiores sucessos da Marvel, e vem antes do The Avengers: Infinity Wars (2018) que vai ser o culminar de 10 anos de filmes.

Tipicamente o filme do meio numa trilogia é o que está na pior posição, porque não só tem de dar continuidade ao anterior, o que lhe impõe exigências narrativas muito específicas, como não pode já dar uma resolução ao conflito iniciado ao mesmo tempo que estabelece as bases para o fim da trilogia.
Ao mesmo tempo, tem de ter uma história só sua com princípio meio e fim, encapsulada dentro destas limitações narrativas.

Apesar de não ser um The Empire Strikes Back (para sempre o poster child de filmes do meio que são os melhores da trilogia), a verdade é que o Age of Ultron consegue fazer aquilo a que se propõe.



Temos uma história baseada no mito clássico do Pigmaleão, do criador ser ultrapassado pela sua criação. Tony Stark, na sua ambição e húbris, cria uma Inteligência Artificial, o Ultron, para defender o planeta e conseguir a paz no mundo.
Claro que segundos depois de nascer o Ultron decide que a melhor maneira de fazer isso é destruir a humanidade, à la SkyNet. A acção desenvolve-se de lógica, com cada acto a determinar o seguinte, mantendo o ritmo a andar para a frente.
Depois de várias complicações cheias de acção e one-liners Whedonescos, o Ultron está pronto para transformar uma cidade num asteróide e rebentar com o planeta, mas claro que no fim os heróis conseguem impedir a catástrofe.
Há muito mais para dizer acerca do Ultron, mas preciso de um artigo inteiro para dizer acerca dele.

É exagerado, é teatral. Há imensa gente que queria que o Ultron fosse uma máquina de matar implacável, fria e eficiente, mas o facto de não o ser só o torna mais interessante como vilão.
Os paralelos entre Ultron e Tony Stark dizem muito acerca de ambas as personagens e ajudam a aprofundá-las e caracterizá-las melhor, e tornam o Ultron um vilão com quem eu estabeleço uma relação emocional mais significativa. Isso não aconteceria se ele fosse o Exterminador.

Como disse o Daniel Rosa no Big Show Bit que fizemos esta quinta-feira, o Age Of Ultron serve também de reflexo do Avengers (2012).
Enquanto que no The Avengers temos cada um dos heróis a encontrar-se a si mesmo (o Capitão América a definir-se como líder, o Tony Stark como herói que se auto-sacrifica, o Banner a abraçar o Hulk) no Age of Ultron há o processo inverso, e cada uma das personagens é reduzida à sua condição inicial (o Capitão América é só um soldado, o Tony Stark é um cientista louco megalomaníaco, o Banner é mesmo um monstro, etc).

O Desenvolvimento de Personagens

Apesar de haverem Inteligências Artificiais homicidas a causarem problemas, este filme cosnegue ser um dos que mais desenvolve as suas personagens.

Como já disse anteriormente, é neste filme que o Tony Stark ultrapassa o limiar subtil que o põe no trajecto para se transformar num vilão. A sua arrogância e a culpa que sente por acreditar que as suas acções vão levar à morte dos amigos, levam-no a construir um murderbot, acto pelo qual ele não chega de facto a desculpar-se, e que acredito que o vai levar a tornar-se numa personagem cada vez mais vilanesca nos próximos filmes.


Como já disse, vemos também o Steve Rogers a questionar-se e a duvidar de si mesmo, quando numa sequência de sonho que para todas as outras personagens mostra os seus piores medos, ele se vê a si mesmo num salão de dança onde se celebra o fim da guerra.
Ele reage a isso tornando-se ainda mais exigente na sua luta para ser altruísta, corajoso e salvar toda a gente, mas a partir desse momento todas as suas acções estão contaminadas por essa ideia "Será que o Capitão América quer de facto terminar o conflito"



Há imensa gente que critica o sub-enredo do romance entre o Bruce Banner e a Natasha Romanoff, mas eu gostei, acho que faz sentido.
Esse enredo mostra-nos uma Black Widow que finalmente começa a revelar-se mais humana, que quer fugir das complicações e conflitos que definiram a sua vida, e isso torna-a muito mais relacionável e humana.
O Bruce Banner, por seu lado vê não só o Hulk destruir uma cidade e matar não se sabe quantos inocentes, mas mais do que isso, percebe que o Hulk vai para sempre impedi-lo de viver uma vida normal.
A relação entre os dois desenvolve-os como personagens muito melhor do que qualquer outra sequência de acção o poderia fazer.



Temos finalmente o Hawkeye que queríamos e merecíamos desde o início.
Várias vezes na internet vemos pessoas a queixarem-se de que o Clint Barton, como um tipo que usa arco e flechas, está a fazer pouco num grupo onde há deuses, mas neste filme isso está respondido.
A personagem do Hawkeye é desenvolvida não como um tipo altamente eficiente e capaz de destruir prédios, mas como um pai.
Temos todo um sub-enredo com uma temática da família e relações pais-filhos à volta do Hawkeye, e da figura paternal dele não só em relação à sua própria família, à equipa, mas também em relação aos gémeos.



Os gémeos, a Scarlet Witch e o Quicksilver funcionam como adolescentes rebeliosos, perdidos, que andam com más companhias (murderbots), e o Hawkeye percebe-os desde o início.
Ele é o único que não se deixa levar pelos jogos mentais deles, o único cuja atitude perante eles é mais de irritação, frustração e exasperação do que propriamente tratá-los como inimigos. É protector acerca da Scarlet Witch, aconselhando-a e guiando-a, e irrita-se com o Quicksilver como se ele fosse um puto mimado (que é).
É o Hawkeye que de alguma forma redime estas duas personagens, e lhes permite tornarem-se heróis.

Depois há o Vision, mas para ele eu preciso de um artigo inteiro.

Set-Up para outros filmes.

Portanto, para além de ser um filme divertido, com bom ritmo e cenas de acção entusiasmantes; para além de ser um filme do meio e mesmo assim ter um bom enredo épico, auto limitado, que consegue ao mesmo tempo desconstruir as suas personagens; para além de desenvolver as personagens, tornando-as mais profundas, mais humanas e pessoais; este filme consegue também:

Preparar o Thor: Ragnarok (2017) durante a sequência de sonho de Thor, no qual ele vê todos os seus amigos no mundo dos mortos Asgardiano.



Preparar o Civil War (2016) ao mostrar que os Avengers quando são deixados à solta tendem a destruir cidades inteiras sem que aparentemente alguém os  responsabilize disso ou lhes peça satisfações, e mostrando como o Tony Stark e o Steve Rogers estão a desenvolver visões do mundo cada vez mais mutuamente exclusivas.



Preparar o Black Panther (2018), ao introduzir não só a importância do elemento do Vibranium, como também o país de origem dele, Wakanda, e um dos principais vilões do Black Panther, o Ulisses Klaue.



Preparar o Infinity War (2018), estabelecendo pela primeira vez que as Inifnity Gems estão a surgir por todo o lado, e com aquele stinger fabuloso no final onde vemos o Thanos a prenunciar que vai dar porrada a toda a gente.


Em conclusão

É inegável que o filme tem algumas falhas, mas essas falhas empalidecem face ao número impressionante de coisas que o filme consegue fazer bem.
Como espectador eu prefiro muito mais ir à procura das coisas boas que me entusiasmam acerca dos filmes do que ir à procura dos pormenores que falham.

Dito isso, aqui vai o Honest Trailers do Age of Ultron, que é hilariante.


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quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Rick and Morty

Um desenho animado que me fez querer ver alguns episódios duas vezes. Isso não acontecia há algum tempo. Talvez porque mistura ficção científica e humor de uma maneira que não se encontra com frequência.
Spoilers e tal...


Sobre uma família disfuncional, com um casal que vive com o pai dela, que é um cientista amargo, zangado com a vida e péssimo a inventar catchprases - Rick. O argumento gira à volta dos portais que ele cria para universos paralelos, para onde viaja com o neto - Morty. Em várias situações percebe-se que Rick daria a vida por Morty, mas a maior parte do tempo é desagradável e negligente com o neto. Além de que está permanentemente bêbado.


As aventuras de Rick e Morty são grotescas, violentas e sórdidas, mas muito originais. São uma distorção radical do formato clássico da família como centro de uma série de desenhos animados, como os Simpsons, ou o Family Guy. Basta pensar que a personagem central é o avô da família.

As falhas de Rick são toleráveis, porque ele é genial, e resolve qualquer situação.  Morty desempenha um pouco o papel de voz da consciência, tentando guiar moralmente os acontecimentos. Claro que muitas vezes acaba por acontecer precisamente o oposto.

A mãe, Beth, tem personalidade forte e assuntos mal resolvidos. É cirurgiã de cavalos, mas sente-se frustrada de não operar em humanos. Culpa aos filhos por terem nascido demasiado cedo, não lhe permitindo concretizar as suas aspirações, além de que herdou o gene que faz beber uns copos a mais.
O pai, Jerry, consegue ser pior. Um personagem sensível, mas inseguro, cobarde e egocêntrico.
Juntos, são o protótipo do casal codependente.


Summer é uma adolescente típica. Há um episódio em que convence Rick e Morty a caçarem vampiros na sua escola. Quando já estamos à espera que o episódio seja uma paródia ao Twilight, a cena muda, os vampiros estão todos mortos, e a narrativa segue uma direcção diferente.

Outros dos meus momentos preferidos incluem:

O episódio em que o ''Conselho dos Ricks'', uma reunião interdimensional de milhares de Ricks de dimensões diferentes se reúne na ''Cidadela dos Ricks'', para descobrir qual deles anda a matar os outros.


Get schwifty - uma musica que Rick e Morty cantam para apaziguar uma cabeça gigante que aparece no céu, e desafia a Terra - ''Show me what you've got!''. A música é um hino à música pop mainstream contemporânea. Completamente desinspirada, incentiva quem ouve a ''get schwifty'' (ficar sexualmente excitado numa festa, sob o efeito de drogas), a despir a roupa e a cometer loucuras aleatórias, como defecar no chão. Estas são todas as ideias expressas na música. Todas.


Mas para não ficarem com a ideia que o programa vive de músicas ordinárias, aqui vai outra - Goodbye moon man, uma música sobre a destruição iminente do nosso universo por um civilização de bufas telepáticas, que por alguma razão gostam de cantar.


''Waba lubba dub dub!!'' uma das catchphase de Rick, descobrimos depois que quer dizer: '' Estou em grande sofrimento. Por favor ajudem-me'', na língua dos homens-pássaro alienígenas.


É um programa com linguagem vulgar e violência gratuita, mas com uma sensibilidade incrível para realidades que normalmente não aparecem nos desenhos animados. Isto permite que as personagens tenham profundidade e se debatam conflitos relacionáveis, o que cria um contraste espectacular com o facto de estarem sempre a viajar para universos paralelos. Além de que se debatem com conflitos existenciais em situações comuns, sempre com humor cáustico.


''Nobody exists on purpose. Noboby belongs anywhere. Everybody is gonna die.

Come watch tv.''


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