Pataniscas Satânicas

Pataniscas Satânicas

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Hinos e Festivais de Verão

''Eternal Father strong to save,
Whose arm hath bound the restless wave,
Who bidd'st the mighty ocean deep,
Its own appointed limits keep;
Oh, hear us when we cry to Thee,
For those in peril on the sea...''

                  -Naval hymns - Eternal Father strong to save



Um dia, num passado não muito distante, estive em Londres a passar férias. Como não tinha dinheiro, acabei por ficar no Hostel mais barato que encontrei. A casa Baden-Powell, chamada assim em homenagem ao pai do Escutismo.

Não me lembro de muito da estadia. Mas lembro-me que num domingo, depois de descer a Cromwell Road a caminho do Hostel, cansado por várias incursões em atracções turísticas, ouvi um burburinho na distância.

O som cresceu de intensidade quando me aproximei do ginásio do Hostel. Percebi que se tratava de um cântico arrastado, litúrgico. Abri a porta, e deparei-me com muitas dezenas de Ingleses a cantar uma música que não conhecia.

''Eternal Father, strong to save...''

A cena era hipnótica. Senti os pêlos dos braços a eriçarem-se, o coração a acelerar no peito, e um revolver eléctrico na barriga. Um misto de reverência e de solenidade. Aqueles minutos de um hino sincero, fizeram mais pelo meu entendimento sobre a fé católica do que vários anos de catequese.

A minha memória transformou aquele ginásio despido numa Catedral majestosa, onde o eco daquele hino histórico reverberava em paredes de mármore com centenas de ingleses de peito erguido e cabeça curvada, cantando a Deus em uníssono com os tubos colossais de um órgão cerimonial.


O objectivo da música era que Deus, na sua misericórdia infinita, ajudasse e protegesse os filhos de Inglaterra quando eles estivessem no mar. E o revolver eléctrico que eu sentia na barriga deixava poucas dúvidas que o hino devia estar a funcionar na perfeição.

É difícil encontrar músicas contemporâneas, que provoquem emoções semelhantes.
Talvez ouvir o hino nacional antes da final do europeu de futebol entre Portugal e França.


Toda a gente no café olha fixamente a televisão. Pousam as mesmas garrafas de Sagres que acabaram de aparecer no spot publicitário imediatamente antes, alguns crentes põem a mão no peito e até os pratos de lombinhos descansam uns minutos, enquanto as câmaras percorrem os rostos dos jogadores que cantam a Portuguesa. Queremos que eles sintam o revolver eléctrico na barriga, e se algum deles não canta o hino, ou parece distraído, vai ser alvo de comentários depreciativos após o estádio explodir em aplauso.

Os hinos nacionais aclamam o nosso passado comum. Comum é a palavra chave aqui. A celebração do que partilhamos, a nossa herança colectiva. Não interessa muito o que está a ser celebrado. Qualquer povo, as emoções são as mesmas.

Em sociologia, há uma teoria que defende que os nossos auto conceitos pessoais, têm uma parte em comum. A parte em que acreditamos/percepcionamos que pertencemos a um grupo social relevante, com um conjunto de características mais ou menos bem definidas.

Chama-se a teoria de identidade social. Quando cantamos hinos, estamos a celebrar a parte do nosso auto conceito que percepcionamos como tendo em comum com todos os portugueses, ou com todos os benfiquistas, ou ou hino das crianças que estão a espera do início dos desenhos animados nos os anos 90.


Esta sensação de euforia solene, é uma qualidade de algumas músicas que mais ou menos formalmente vai aparecendo em várias músicas, hinos nacionais ou músicas pop/rock.

Por exemplo, em 1982, Sylvester Stallone pediu aos Queen para usar a música ''Another one bites the dust'', como música temática no filme Rocky III. Os Queen recusaram, e Stallone pediu ao grupo Survivor, para escrever uma música para o filme. O resultado vive na nossa memória colectiva como um dos melhores hinos desportivos, ainda ouvidos em muitos ginásios, e por quem quer que se queira motivar para atingir um objectivo.


A música celebra o individualismo, o sacrifício em nome da perseguição de um objectivo pessoal, contra todas as hipóteses, contra todas as dificuldades. Uma crença cega de que somos capazes de chegar lá, de concretizarmos os nossos sonhos, de sermos o que aspiramos. Sentimos um revolver na barriga, e corremos mais depressa, vamos mais longe.

Crença cega de que somos capazes. Outra maneira de dizer fé em nós próprios. Fé. Como os ingleses, que cantavam a fé em Deus para proteger os filhos de Inglaterra no mar.

Agora, porque é que Stallone queria usar uma música dos Queen no filme Rocky III? Talvez porque em 1977, um Freddie Mercury em cuecas andava a fazer isto pelos palcos do mundo.


Uma a seguir a outra, We will rock you, e We are the champions. Músicas eternas e geniais, que tocaram no fim dos torneios de muitos desportos durante décadas.

A percussão de 'We will rock you', cria a impressão que muitas pessoas dão força à música, e isso faz sentido, se pensarmos que a música foi inspirada num momento, em Birmingham, quando a plateia cantou o hino 'You will never walk alone', em resposta ao encore que os Queen tinham acabado de fazer.

Estes hinos dos anos 70 e 80 glorificam a busca individual de objectivos, mas também a força que temos juntos, o poder das emoções humanas. No entanto, mesmo quando descrevem a busca individual de objectivos, descrevem de maneira vaga o suficiente para poder ser sentida por qualquer pessoa. Não há uma música sobre um jovem que quer ser especialista em caranguejos-violinistas. Isso é um interesse de nicho. Mas um jovem que quer ser especialista em caranguejos violinistas, pode treinar para ter o melhor 'eye of the tiger' a descortinar quelípodos.


Ou coiso.

''Isso era bonito nos anos oitenta, mas e qualquer coisa mais recente? Toda a gente sabe que a música perdeu qualidade ao longo dos anos, e que hoje somos muito mais misantrópicos.''

Sei lá...



''I'm gonna fight'em off,
A seven nation army couldn't hold me back.
They're gonna rip it off,
Taking their time right behind my back.
And I'm talkin' to myself at night because I can't forget,
Back and forth through my mind,
Behind a cigarette''

Esta música energética dos White Stripes tem a força de um hino.

Não foi por acaso que durante o festival de verão inglês Glastonbury em 2017, que hordas de jovens ingleses começaram a cantar o nome do socialista, líder da oposição, e principal adversário de Theresa May.


O quê?!? Jovens de férias em países de primeiro mundo, a interromperem concertos das suas bandas favoritas para cantar o nome de um político ao ritmo da música Seven Nation Army dos White Stripes?

Was it Opposite Day?

Aconteceu num festival de verão.

Milhares de pessoas a assistirem a música ao vivo, a cantarem em uníssono, a dançarem como se ninguém estivesse a ver. A multidão ondula ao som da música energética, aplaude em sintonia os ritmos ou levantam os isqueiros a acompanhar as músicas que os levaram a gostar da banda.

Porque será que isto:


Quase que faz lembrar isto:


O palco esta iluminado a meia luz, a banda está em transe ofuscado por cortinas de fumo, e quando a música acelera, as luzes coloridas varrem a multidão que salta. Os amigos dançam abraçados, os casais beijam-se apaixonadamente.

A noite está morna da euforia contagiante que levou milhares de jovens a deixarem as suas casas em peregrinação a das grandes cidades até à periferia.

Aproveitem os hinos e o verão. Daqui a pouco faltam 3 meses para o Inverno.

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segunda-feira, 31 de julho de 2017

As Geringonças do Diabo - Estátuas Vivas

...''Las tumbas son para los muertos
Las flores para sentirse bien
La vida es para gozarla
La vida es para vivirla mejor
Calaveras e diablitos
Invaden mi corazón...''

Los Fabulosos Cadillacs - Calaveras e Diablitos

Turistas....

Quando tinha 16 anos, o meu filme preferido foi o Fight Club. Um filme em que Edward Norton contracenava com Tyler Durden (Brad Pitt), como duas personalidades da mesma pessoa que reagia de maneira agressivamente esquizofrénica contra o estilo de vida imposto à classe média americana pela sociedade de consumo. Foi o tema de um dos primeiros textos que escrevi nas Pataniscas.

Nas primeira meia hora do filme,  a personagem de Edward Norton infiltra-se em grupos de apoio a doentes com doenças malignas, onde conhece Marla Singer (Helena Bonham Carter).

Marla é outra infiltrada saudável, ou como ele lhe chama - 'A grande turista'.


That is unnerving.

Eles são turistas no meio de pessoas com doenças graves, para usufruir do que consideram interacção humanas genuína. Provavelmente porque quem está às portas da morte tem uma perspectiva elevada do que é verdadeiramente importante na vida.


Há alguma coisa que soa de falso, de pejorativo no conceito de turista. Alguém que não é de cá, que não conhece os costumes e a cultura, e que ainda por cima está de férias. Talvez por isso a hospitalidade é um sólido princípio católico_ ser amável para estranhos, que provavelmente nunca terão a possibilidade de reciprocar a gentileza.

Reajo de modo ambivalente aos turistas. Gosto de ver a rua cheia de gente meio perdida, com aspecto que está a participar num jogo de pista que exige uso de óculos escuros, mas por outro lado irritam-me quando estão a entupir os restaurantes, ou a olhar de maneira interrogativa para a máquina que vende bilhetes no metro

Provavelmente é inveja.

No caminho para o trabalho tenho que atravessar o Terreiro do Paço e a Baixa, e é impossível não lhes invejar o passo lânguido, o olhar panorâmico, a t-shirt casual. Estão por todo o lado. De mochila às costas, nas ruelas da mouraria,  sentados nas fontes do Rossio, reclinados nas cadeias das esplanadas a empunhar copos de vinho caro numa mão e pasteis de bacalhau recheados com queijo da serra na outra. Comem descontraidamente, enquanto enchem de gordura as páginas da última edição do lonely planet.

Nos últimos anos as caixas multibanco têm brotado na Baixa. Peço desculpa, não são caixas multibanco, são ''ATM's''. Que é estrangeiro para caixa multibanco que cobra comissões pouco simpáticas. E os turistas fazem fila atrás delas para sacar euros às centenas, a gastar nas lojas de souvenirs e nos pastéis de nata.


Toda a gente sabe que se os turistas gastarem dinheiro na economia local, isso é bom para o consumo, o que leva a crescimento e cria empregos. Mais procura ao longo do tempo leva à necessidade de criação de mais oferta. E a preços mais elevados. Mas será que isso é assim tão simples e sem efeitos adversos?

Já se os salários dos locais aumentarem, e forem eles a gastar dinheiro na economia, isso já não é bom (por algum motivo...), e vem aí o papão da Dívida, da Troika e o Diabo.

Não faço ideia o porquê destes dois pesos e duas medidas. Será que as notas dos turistas estão a vir directamente do Banco Central Europeu, enquanto as nossas vêm de um tabuleiro do monopólio edição Belzebu? Em vez de cartas da sorte, temos cartas da danação eterna da gentrificação, e provavelmente a autarquia demoníaca emite multas de estacionamento em barda e mete-as directamente na caixa da comunidade. Porque como as coisas estão, prefiro uma tarde a tomar banho no lago de fogo, a deixar o carro no parque dos Restauradores.


Será que é esse o significado dos estacionamentos na ''zona vermelha'' da cidade? A confirmar-se, os parquímetros deviam ser pintados de vermelho vivo e ter cornos compridos.


Acabo a tarde a dar a volta à Rua Augusta e a parar à beira de duas estátuas vivas, pintadas de bronze. As estátuas estão vestidas de fadista e de guitarrista, e suam debaixo do calor de julho por meia dúzia de moedas que casais de meia idade lhes deixam cair no chapéu, depois de lhes tirarem fotografias. A metáfora perfeita para o mercado de trabalho no período pós Troika.


As estátuas vivas fazem vénias delicadas, depois de uma fazer cócegas a um simulacro de guitarra portuguesa, a outra com um esgar de quem está a sentir uma Casa Portuguesa a correr-lhe nas veias, se não a vibrar-lhe nos lábios, com certeza. O fado mudo das estátuas vivas na Rua Augusta soa-me a ecos do ano distante de 2011.

Consigo ouvir comentadores que segregam frases enlatadas do enclave ideológico a que pertenciam quase todos. Entre segmentos noticiosos sobre a dívida pública e mudanças ao código de trabalho, um desempregado, deitado no sofá, absorve as palavras de idiotas engravatados no telejornal, que orientam a vidinha tentando agradar ao poder dominante. Pelo menos na altura... hoje as coisas estão menos certas para os Camilos Lourenços do mundo.

''Temos que empobrecer. Sair da zona de conforto. Criar o próprio emprego. Aproveitar o que o nosso país tem de melhor. Temos que promover a marca Portugal, fomentar o turismo. Está na hora de pôr em prática soluções criativas.''


Hum... Passado poucos anos, somos todos estátuas vivas num mercado de trabalho cada vez mais desregulado e global. 

O governo do PSD/CDS foi para a gaveta, e deu lugar a outro governo de compromisso. O que o centro e a esquerda têm em comum parece maior, depois de estarmos todos sujeitos ao terrorismo psicológico do governo dos bons alunos da Troika. Se provas faltassem que o alarmismo e o medo ainda dominam o pensamento da direita, basta ouvir Passos Coelho na oposição em 2016, com ameaças vagas de que vem aí o Diabo. 


A confiar nas sondagens, parece que a população atirou o Diabo pela escada abaixo, e ele ainda não deu todos os trambolhões que pode dar em direção à cave da mudança de liderança. 

Não veio o Diabo, mas nós estamos na encruzilhada a ver caminhos bloqueados à nossa frente. Parou (ou pelo menos desacelerou) a degradação da nossa vida operada por aqueles que acreditam que o Estado Português teve que resgatar uma série de bancos porque ''a culpa da crise é de todos'', e os bancos faliram porque a população ''gastou acima das suas possibilidades''.

Continuamos, no entanto, como estátuas vivas que fazem vénias delicadas e cantam fados mudos, tudo por meia dúzia de trocos que nascem de uma fresta de concórdia entre o centro e a esquerda.
Estamos melhor do que há 2 anos os fanáticos satânicos nos queriam fazer acreditar que estaríamos, por isso não me quero queixar demasiado. Às vezes uma fresta, uns trocos, umas mexidas no salário mínimo, é o que chega para imaginar uma luz ao fundo do túnel...


As luzes ao fundo do túnel têm o condão de poderem conter tudo o que se lhes quiser atribuir. Enquanto uns acreditam que a saída de uma situação de aperto está perto, outros têm uma perspectiva mais pessimista.


Depende de que narrativa se está mais habituado a acreditar.  

Mas se a esquerda acha que a luz ao fundo do túnel é a salvação da pátria, enquanto a direita diz que o demónio vem com um segundo resgate para nos espetar mais dívida no lombo, tenho que confessar que não faço ideia do que significa a luz ao fundo do túnel. 

Só sei continuo a ouvir falar estrangeiro na Terreiro do Paço.

Os russos e os ingleses param em frente às estátuas vivas, e vêm em duas cores: anemia pálida e vermelho caranguejo.

Passeiam pelas ruas da baixa com malas Prada a tiracolo, onde guardam a espada de dois gumes que é um poder de compra muito superior ao nosso. Por um lado, aumenta o consumo e o emprego na economia local. Por outro, a gentrificação que produz queima-nos os bolsos, como vingança irónica pelo nosso sol que lhes queima as costas. E não há Ambre Solaire factor 50 que nos valha contra o aumento dos preços das rendas dos imóveis e de alguns produtos de primeira necessidade.


Os turistas deambulam nos Restauradores e cruzam-se com velhotas de passo incerto, a caminho do sítio para onde todas as velhotas estão a ir.

Para outro sítio.

Porque os senhorios demoraram 27 segundos a perceber que podiam arrendar um apartamento por meia dúzia de tostões por mês a um casal de reformados com uma pensão média, ou meter um anúncio no  AirBnB e arrendar à segunda a suecos, à quinta a australianas e ao domingo a chineses.


Os senhorios com mais visão reaproveitam os bibelots e as loiças das senhoras idosas, e dão retoques na decoração retro/vintage nos quartos a alugar aos turistas do Air BnB.

É assim que um dálmata de loiça se encontra finalmente com um sofá Ektorp do IKEA, ou que uma máquina da costura se transforma numa mesa de apoio, onde se descansa um televisor LED da Samsung de 30 polegadas. 


É um admirável mundo novo, este que se ergue das cinzas do antigo. Mas será que se pode chamar a isto uma luz ao fundo do túnel? 

Não interessa muito... Como as coisas estão, esse futuro é tão fácil de parar como a rotação da Terra à volta do Sol. Seremos nós que teremos que nos adaptar à nova realidade.


Martin Ron (arte de rua) - ''A morte do bairro''
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quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Ozymandias

Século 19. A Marinha inglesa é a melhor e mais competente à face da terra e o pilar que sustenta o império britânico. Tal como a superioridade aérea permitiu a hegemonia Americana no século 20, a superioridade naval foi a base do império de sua Majestade no século anterior.

Nenhuma batalha demonstrou melhor a superioridade militar dos britânicos do que a batalha de Trafalgar, quando derrotaram as forças navais napoleónicas, e acabaram com a ameaça de uma invasão militar directa na Grã- Bretanha. Em 1805, trinta e três navios comandados pelo Almirante Horatio Nelson destruíram uma frota de 41, comandados pelo Almirante francês Pierre Charles Villenueve.


Nunca ninguém ouviu falar de Pierre Charles. Mas Lord Nelson, que morreu durante a batalha, contou com o eterno agradecimento de sua Majestade e tem uma estátua no centro de Londres. 
Na Trafalgar Square. Afinal, se não fosse ele, hoje em dia o Francês podia muito bem ser a língua oficial em Inglaterra.

O tamanho da coluna é proporcional à importância da vitória. 

Lord Nelson era veterano de várias batalhas, e não avesso a correr riscos. Num ataque a Tenerife perdeu o braço direito, e um olho numa batalha na Corsega.

Numa altura em que a ortodoxia das batalhas navais exigia que os navios se mantivessem em linhas paralelas, para maximizar a capacidade de concentrar o fogo dos canhões, e coordenar o movimento dos navios, Nelson dividiu a sua frota em duas linhas perpendiculares, e avançou a toda a vela contra os franceses.


Isto permitiu-lhe dividir os navios franceses em 3 grupos, e cercar o grupo do meio. Conseguiu obter uma vitória definitiva, numa época em que muitas batalhas navais acabavam em disputas sangrentas, com ambas as frotas desfeitas e os vencedores muito enfraquecidos.

A mensagem que o seu navio - HMS Victory - passou para o resto da frota antes da batalha, foi imortalizada nos livros de história e na cultura popular.


Além de que serviu de inspiração para as forças armadas (e para os civis) em conflitos posteriores.


No fim da batalha de Trafalgar, Lord Nelson morreu atingido por um atirador furtivo francês. Isto transformou-o num herói nacional instantâneo.

Depois da derrota em Trafalgar, o bloqueio/embargo comercial, surgiu como estratégia de recurso a Napoleão. O embargo não foi eficaz. Três países continuaram com trocas comerciais em grande escala com Inglaterra: Portugal, Espanha e a Rússia. 

Napoleão invadiu esses países como retaliação. Todos nos lembramos como isso correu. 
Cá, e na Rússia.

Portugal foi invadido pelo general francês Jean-Andoche Junot com cerca de 50.000 soldados. Napoleão invadiu a Rússia com mais de 600.000. O exército francês - Le Grand Armée - era o exército terrestre mais poderoso e eficaz do mundo.


Lisboa foi ocupada por Junot em 1807 (o Rei fugiu para o Brasil), e Moscovo foi ocupada por Napoleão em 1812. Os Portugueses revoltaram-se nos anos a seguir e expulsaram os Franceses com o apoio do general Inglês Wellington (o mesmo que iria acabar com todas as esperanças de Napoleão em Waterloo). Os Russos... Incendiaram a cidade de Moscovo e deixaram cinzas e gelo para Napoleão passar o Inverno. Ganharam a guerra depois de derrotados no campo de batalha. 

Se Napoleão fosse esperto, tinha evitado ir passar o Inverno à Rússia.


Se Napoleão fosse esperto, sabia que ninguém se mete com a marinha Inglesa.


Mas talvez a memória histórica do Inverno russo e a marinha inglesa tenha sido moldada pelas derrotas infligidas a Napoleão. 

Talvez Napoleão tenha perdido a guerra porque declarou guerra a demasiada gente. Talvez a Europa fosse demasiado grande e com demasiados povos, para aceitar um Imperador.

Não interessa. Não interessa mesmo.

Anos antes, em 1798, durante as campanhas Napoleónicas no Egipto, os soldados de Napoleão encontraram um fragmento de uma estátua enterrada na areia, do maior e mais poderoso faraó que o Egipto conheceu - Ramesses II. As suas campanhas militares e obras arquitectónicas foram reconhecidas pela história como impressionantes. Os seus exércitos de cerca de 100.000 soldados, tornavam o Egipto numa das maiores potências militar da época.


Os Franceses tentaram transportar a Estátua para França, mas pesava várias toneladas, e não conseguiram.

Depois da derrota de Napoleão em Waterloo (1815), os Ingleses começaram a tentar obter a Estátua de Ramesses II. Contrataram o Indiana Jones da época, um aventureiro chamado Geovanni Belzoni, que conseguiu enviar a estátua de 7 toneladas para Londres. Ainda hoje em 2016, podemos ver Ramesses II numa das alas do British Museum.

O buraco no peito, à direita, foi feito pelos homens de Napoleão, que tentaram arrancar a estátua às areias do Egipto

No ano em que o British Museum anunciou a chegada da estátua, um poeta - Percy Shelley- escreveu um poema que tinha como título o nome grego de Ramesses II - Ozymandias.

''I met a traveller from an antique land,
Who said: Two vast and trunkless legs of stone
Stand in the desert. Near them, on the sand,
Half sunk, a shattered visage lies, whose frown,
And wrinkled lip, and sneer of cold command,
Tell that its sculptor well those passions read
Which yet survive, stamped on these lifeless things,
The hand that mocked them and the heart that fed:
And on the pedestal these words appear:
'My name is Ozymandias, king of kings:
Look on my works, ye Mighty, and despair!'
Nothing beside remains. Round the decay
Of that colossal wreck, boundless and bare
The lone and level sands stretch far away.''


(trad)
Conheci um viajante de uma terra antiga
Que disse:—Duas gigantescas pernas de pedra sem torso
Erguem-se no deserto. Perto delas na areia,
Meio afundado, jaz um rosto partido, cuja expressão
Lábios franzidos em escárnio e comando frio
Dizem que seu escultor bem aquelas paixões leu
Que ainda sobrevivem, estampadas nessas coisas sem vida,
A mão que os zombava e o coração que os alimentava.
E no pedestal estas palavras aparecem:
"Meu nome é Ozymandias, rei dos reis:
Contemplem minhas obras, ó poderosos, e desesperai-vos!"
Nada resta: junto à decadência
Das ruínas colossais, ilimitadas e nuas
As areias planas e solitárias estendem-se na distância.

Todas as conquistas de Ramesses II reduzidas a cacos dispersos na areia a serem pilhados por exércitos 3000 anos depois. O tempo arrasa todos os Impérios. Ramesses, Napoleão, o Rei George III, memórias distantes metidas em livros cobertos de pó.

Mas a cultura... os memes, as ideias... essas coisas têm uma maneira de sobreviver, de se aperfeiçoar, de inspirar outros seres humanos a produzirem cultura. De reaparecer quando menos esperamos. 


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terça-feira, 27 de setembro de 2016

Quem vê Caras

Porque é que temos cara? Porque é que os presidente são bonitos? O que fazer para fugir ao Big Brother?

Vamos falar sobre isso!


Todos os dias estamos rodeados por pessoas, olhamos para elas, olhamos para as suas caras, mas para além dos mínimos essenciais para a comunicação, não olhamos realmente para elas.

Da próxima vez que estiverem com alguém que conhecem bem (os vossos pais, os vossos irmãos ou irmãs, namorados ou namoradas) olhem para as caras dessas pessoas como se fosse a primeira vez que a vêem. Reparem na forma do nariz, no arco das sobrancelhas. Desconstruam a cara.

É estranho.

Cria uma sensação de jamais-vu muito desconfortável.


Porque é que sequer temos caras?

As plantas não têm caras e safam-se bem. As esponjas, que não se esqueçam que são animais, também não têm caras e são dos animais que sobrevivem inalterados há mais tempo.

Então porque é que temos caras?

Basicamente porque a determinada altura os animais conseguiram dar o grande passo em frente de ter uma boca e um rabo que não fossem a mesma coisa.

Lembram-se quando falei das alforrecas e expliquei que o único simples orifício por onde entrava a comida era também o mesmo orifício por onde saíam os dejectos? Foi um grande avanço evolutivo ter dois buracos separados para comer e para cagar.


Se somos essencialmente tubos com dentes, com um buraco por onde entra comida, então faz sentido pôr os orgãos dos sentidos perto desse buraco por onde entra comida.

E se os orgãos dos sentidos estão lá, então mais vale pôr o cérebro lá perto para a informação dos sentidos não ter de viajar muito.

Depois o facto de sermos mamíferos e termos de mamar deu-nos músculos faciais fortes e ágeis que permitem uma enorme variedade de expressões faciais.

As principais zonas do cérebro responsáveis por reconhecer caras são a Área Facial Fusiforme, a Área Facial Occipital e o Sulco Temporal Superior.

Área Facial Fusiforme

São estas zonas as responsáveis pela Pareidolia, aquele fenómeno que nos faz ver caras nas nuvens, nas carpetes e nas torradas.


Quando há lesões nestas zonas, ocorre uma condição chamada Prosopagnosia, que é a incapacidade de reconhecer caras.

Crianças com Prosopagnosia frequentemente confundem membros da família, preferem desenhos animados porque as personagens vestem sempre as mesmas coisas, e têm dificuldade em reconhecer pessoas conhecidas em contextos diferentes (a professora na mercearia).

Crianças com doenças do espectro do Autismo também frequentemente têm dificuldade em reconhecer caras ou expressões faciais.

Pessoas famosas com Prosopagnosia são o Stephen Wozniak (co-fundador da Apple) o Stephen Fry (comediante) e a Jane Goodal (a que estudava macacos).


Por sua vez, a diminuição da expressividade facial é um sintoma típico de várias doenças.

Não só várias lesões directas ao Sistema Nervoso Central podem provocar vários tipos de paralisia facial, mas também doenças neurodegenerativas como o Parkinson levam a redução da expressividade.


Uma expressividade facial diminuída também está frequentemente presente em doenças do espectro do Autismo, na Esquizofrenia e na Psicopatia.


A expressividade facial é dos aspectos mais importantes na comunicação não-verbal humana. O contacto visual e micro-expressões conduzem imensa informação acerca das intenções, emoções e até mesmo o sentido daquilo que está a ser dito verbalmente.


Mais interessante ainda do que isso, bébés de 2-3 e 6-8 meses já demonstram um interesse inato por caras atraentes, demonstrando que os nossos padrões de beleza e atractividade são pelo menos em parte determinados evolutivamente.


A atractividade facial pode ser medida, e determinou-se que as características consideradas mais atraentes nas caras femininas são a simetria, lábios cheios, uma testa alta, cara larga, nariz pequeno, queixo pequeno, mandíbula estreita e recta, maçãs do rosto elevadas e olhos grandes ligeiramente afastados. 
Para os homens as características consideradas mais atraentes são a simetria, uma testa larga, parte inferior da cara relativamente mais longa, sobrancelhas e queixo proeminente, mandíbula forte e maçãs do rosto bem definidas.



Isto da atractividade não é só importante para nos ajudar a escolher com quem é que vamos fazer os bébés mais saudáveis.

Sistematicamente votamos nos líderes com as mesmas características faciais. Mandíbulas grandes, sobrancelhas e maçãs de rosto pronunciadas e testas altas são prevalentes em líderes eleitos.

Isto provavelmente terá mais uma vez a ver com robustez e saúde física. Em distritos com maior incidência de doença, os candidatos atraentes tinham o dobro da probabilidade de ganhar do que os candidatos menos atraentres.

Só como exemplo, o último presidente americano careca foi Dwight D. Eisenhower. Depois dele, e começando com o debate entre Nixon e Kennedy, todos os principais debates presidenciais foram filmados para a televisão, e desde então não houve mais nenhum presidente careca.



A tecnologia de reconhecimento facial tem evoluído imenso, e usa exactamente estas características faciais de que temos falado.

As distâncias entre os dois olhos, entre os olhos e o nariz, o comprimento do nariz, a relação do nariz com a boca, e outras características podem ser medidas automaticamente por software programado para o fazer, e depois comparadas a uma base de dados biométricos, possibilitando o reconhecimento automático e eficaz de caras.

Esta tecnologia têm evoluído imenso nos últimos anos e actualmente já são usadas técnicas de reconhecimento tridimensional (não é afectado por diferenças de luz nem pelo ângulo em que a cara é vista) e reconhecimento térmico (ignora óculos ou outros adereços)



Já usaram filtros do Snapchat, certo? Claro que sim. Aqueles que vos põem a parecer um cãozinho ou a chorar, ou o que seja. Horas e horas de divertimento.

O que o programa faz é essencialmente mapear a vossa cara e depois sobre esse mapa aplicar os filtros pré-definidos.


Então e aquela teoria de conspiração, de acordo com a qual o Snapchat estaria na realidade a criar uma base de dados gigantesca de caras de gente de todo o mundo (criminosos ou não) que depois pode vender ou dar a quem quiser que esteja interessado em seguir pessoas?

Uma boa maneira de escapar ao software de reconhecimento de caras é usar tatuagens, que interferem com o processo.

Até já existem tipos de tatuagens específicos foram desenhados para disromper o mais possível os programas de reconhecimento facial.

Futuro cyberpunk distópico, aqui vamos nós!






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terça-feira, 20 de setembro de 2016

Life in our Backyard

Uma das perguntas que mais curiosidade nos provoca desde que começámos a perceber mais ou menos como é que isto tudo funciona é se há vida no Universo!

Felizmente essa é uma pergunta fácil de responder, e a resposta é sim, caso contrário não estavam a ler isto.

Agora que esgotámos as piadas fáceis, a verdade é que tanto quanto sabemos a vida só surgiu uma vez, num único lugar, na história do Universo. O nosso próprio caso é a única evidência de vida no Universo.

Mas quando começamos a pensar que existem 100 BILIÕES de planetas só na nossa galáxia (galáxias essas das quais provavelmente existem mais 100 biliões delas no Universo Observável), começa a parecer muito pouco provável que a vida tenha surgido única e exclusivamente no nosso planetazinho.

São mesmo muitos planetas.


No entanto o Universo é um lugar mesmo muito grande, e a maior parte desses planetas estão mesmo muito longe de nós.

O mais próximo, que tenhamos descoberto, é o Proxima B, que está a uns meros 4,1 anos luz de nós, o que significa que estão agora a ver o Gangnam Style.


Isto pode-vos parecer pouco mas não se esqueçam que a Voyager 1, a sonda espacial lançada em 1977 só saiu do Sistema Solar 35 anos depois, em 2012, tendo viajado 18 100 000 000 Km (18 biliões) a uma velocidade de 61 200 Km/h (sim, 61 MIL quilómetros por hora).

A essa velocidade a Voyager demoraria cerca de  72 300 anos a chegar a Proxima B.

Portanto percebem o que eu queria dizer.

Longe.

Hubble ultra deep field
Mas esperem lá, que parvoíce é que eu estou para aqui a dizer?

Nós temos planetas no nosso próprio sistema solar! Aqui mesmo ao nosso lado! É verdade que ainda só chegámos à Lua, mas de certeza que é mais fácil chegar a Marte do que chegar a Proxima B!

Portanto se calhar não temos de ir tão longe para encontrarmos vida fora da Terra! Quais são os melhores lugares onde procurar? E de que maneira é que a vida poderia lá existir?

Vamos falar sobre isso!

Marte!

Desde o fim do século 19, quando Giovanni Schiaparelli em 1877 descreveu canais em Marte, que especulamos que pode haver lá vida. Em 1895 Percival Lowell publica o seu livro Marte, em que propõe que esses canais seriam sinais de uma antiga civilização, e que inspiraria a Guerra dos Mundos de H.G. Wells.

Mapa dos Canais de Marte, 1877 - Giovanni Schiaparelli
Mas sabemos que Marte não é um lugar particularmente simpático. Seja pela temperatura média de -63ºC, uma atmosfera demasiado fina para permitir água líquida, ou a ausência de magnetosfera para proteger a superfície da radiação solar e cósmica, Marte não é o lugar mais hospitaleiro à vida.

No entanto sabemos que no passado Marte teria sido mais habitável do que é hoje e teria um ambiente que era favorável à vida. Há evidência da existência de antigos rios em Marte, e o Curiosity Rover identificou a presença de enxofre, azoto, hidrogénio, oxigénio, fósforo e carbono nas pedras sedimentares do que teria sido um antigo rio ou lago. Este antigo reservatório de água teria sido excelente para o desenvolvimento de vida bacteriana, dado que não era nem demasiado oxidante, ácido ou salgado.


Mas queremos saber é se pode existir vida em Marte hoje!

Sabemos que actualmente existe água líquida corrente em Marte. Se bem que chamar "água" à salmoura que escorre pelas encostas abaixo exige alguma imaginação. Trata-se sobretudo de uma lama extremamente salgada, composta por percloratos, que não é nada simpática à vida.

No entanto, sabemos que existem bactérias archaea capazes de sobreviver nesse tipo de ambientes extremamente salinos, que poderiam estar a sobreviver no subsolo, protegidas da radiação.



Outro lugar onde provavelmente devíamos estar a procurar vida em Marte é à volta de uma estranhas formações negras que parecem aranhas que se formam à volta de geysers no pólo sul.

À medida que o Pólo Sul de Marte é exposto ao calor durante a primavera, o CO2 congelado descongela de baixo para cima, aumentando a pressão debaixo da superfície. Quando a pressão é suficiente, o CO2 é ejectado com enorme pressão e velocidade arrastando solo consigo, e causando as manchas negras que se vêem.

As manchas negras são sasonais, aparecendo e desaparecendo todas as primaveras.


Uma equipa de cientistas húngaros sugere que estas estranhas formações negras que rodeiam os geysers não poderiam ser causadas por nenhum fenómeno geológico. Sugerem em vez disso que poderiam ser causadas por microorganismos que hibernam no subsolo, e que quando a luz e a temperatura sobem, começam a fotosintetizar e a reproduzir-se na bolsa de líquido subterrâneo. 



Há actualmente duas missões, a ExoMars da ESA (lançada em Março de 2016) e a Mars 2020 da NASA, que levam instrumentos para pesquisar a existência de vida em Marte.

Europa


Não estou a falar dessa, estou a falar da lua de Júpiter. É a mais pequena das Luas Jovianas descobertas por Galileu (ligeiramente mais pequena do que a nossa Lua), e tem o nome de uma amante de Zeus chamada Europa.

Europa tem a particularidade de ter uma superfície perfeitamente lisa feita de gelo, com temperaturas que variam entre os -160ºC no equador e -220ºC nos pólos. A superfície é perfeitamente lisa porque está constantemente a ser formada e reformada, com o gelo a substituir-se como nas placas tectónicas na terra, mas muito mais depressa.

No entanto a força gravitacional que Júpiter exerce sobre Europa seria suficiente para aquecer o planeta e fazer com que houvesse uma camada de planeta composta por água líquida. 


Observações do telescópio Hubble que mostram plumas de vapor de água a serem disparadas do seu pólo sul também são evidência de água.

Quanta água?

Muita água!

Comparação da água presente em Europa, com a água presente na Terra
E onde há água, há a possibilidade de vida.

Devido à constante reformação da superfície, o gelo que está exposto ao espaço está sempre a ser substituído por gelo que vem das profundezas, fazendo com que esse oceano profundo não esteja hermeticamente selado.

Isto significa que materiais orgânicos, como aqueles que foram recentemente detectados na superfície, depositados por asteróides poderiam afundar-se no gelo e funcionar como sementes na água profunda.

Melhor ainda, a radiação cósmica que atinge constantemente o gelo de superfície seria capaz de transformar a água em oxigénio livre, que depois seria arrastado para o vasto oceano nas profundezas.

Portanto não só temos água, como blocos de construção orgânicos, como temos um ambiente riquíssimo em oxigénio?

Nop, não é isto que vai acontecer
Há duas missões aprovadas para estudar Europa. A a Jupiter Icy Moon Explorer (JUICE), aprovada em 2012 pela ESA, que vai fazer dois voos de baixa altitude, e a Europa Multiple-FlyBy Mission aprovada em 2015 pela NASA vai fazer 45 voos de baixa altitude na Lua, e um dos seus objectivos é encontrar um bom lugar para no futuro se aterrar uma sonda.  

Enceladus


Enceladus é o primo desconhecido de Europa. É a sexta maior lua de Saturno.

Também está coberto por gelo, esse gelo também parece estar em constante reconstrução (apesar de haver zonas mais antigas com crateras) também há evidência de um vasto oceano debaixo do gelo, e também tem as enormes plumas de vapor de água a serem ejectadas da sua superfície.


O que é fascinante é isto:

Esses jactos de vapor de água conseguem expelir 250kg de material por segundo a velocidades de cerca de 2100 Km/h.

Isto é suficiente para que esse material expelido fique preso nos anéis de Saturno (coisa que não acontece em Europa), o que permite que seja estudado.

Enceladus, visível contra o Anel E, com plumas a serem expelidas no pólo Sul
O que se descobriu, ao estudar as partículas presentes no Anel mais externo de Saturno, foram partículas de nano-silicatos com um tamanho específico, estritamente associado a reacções hidro-termais.

Ou seja, as partículas expelidas por Enceladus, presas nos anéis de Saturno, só podem ter sido formadas em fontes hidro-termais nas profundezas do planeta.

Ou seja, Enceladus tem fontes hidro-termais semelhantes às que temos na Terra.


É difícil pedir condições mais semelhantes às que acreditamos terem dado origem à vida no nosso próprio planeta.

Infelizmente não há actualmente missões programadas para estudar Enceladus, mas vários projectos, como a Titan and Enceladus Mission (TandEM) ou o Enceladus Life Finder (ELF).

Titan


Titan é a maior lua de Saturno, e o único satélite a possuir uma atmosfera densa.

Também é o único planeta (pronto, está bem, é uma lua) para lá de Marte do qual temos imagens de superfície.

No entanto, Titan não tem água. Nem na atmosfera, nem à sua superfície. Nem sequer tem dióxido de carbono.


Então se não tem água, porque é que o estamos a considerar como um bom alvo para vida?

Porque tem tudo o resto.

A sua atmosfera é composta por uma enorme diversidade de complexas moléculas orgânicas (tais como azoto, metano, hidrogénio, acetileno, etileno, etano). Estas moléculas formam-se nas camadas mais superiores da atmosfera, por causa da radiação, e depois caem para a superfície.

Para além disso, Titan tem lagos de metano líquido. Um deles, o Ontario Lacus, tem uma área de 15000 Km2.

Ligeia Mare - um lago de metano líquido
Conseguem imaginar? Um planeta (pronto é uma lua) com lagos e costas como na Terra!

O que acontece é que o metano líquido poderia funcionar como a água como meio para o desenvolvimento de vida.

Já foi provado que membranas celulares à base de acrilonitrilo (outra molécula orgânica também detectada na atmosfera de Titan) poderiam existir num meio de metano. Estas membranas celulares usariam azoto em vez de fósforo para as suas membranas fosfolipídicas, e teriam as mesmas propriedades destas como a auto-formação, flexibilidade e estabilidade.

Estes organismos hipotéticos usariam hidrogénio em vez de oxigénio para consumir o acetileno em vez de glucose, e produziriam metano em vez de dióxido de carbono.

Curiosamente, já houve estudos que comprovaram que apesar de o hidrogénio e o acetileno serem abundantes nas camadas superiores da atmosfera, a sua concentração diminui drasticamente perto da superfície.


O que é verdadeiramente fascinante acerca da possibilidade de vida em Titan, é que se a encontrássemos, e de facto não tivesse uma bioquímica baseada em oxigénio e água, isso significa que a vida é ainda mais flexível e variada do que antes imaginávamos, e que pode existir de maneiras muito mais criativas do que pensávamos.

A implicação mais importante disto é que nesse caso a vida no universo pode ser ainda mais abundante do que pensávamos antes.



A NASA está a planear uma missão a Titan, com o objectivo de pôr um submarino a navegar o seu maior lago de metano, o Kraken Mare.

O Kraken Mare (não me canso de dizer este nome) tem uma impressionante área de 400 000 Km2 e uma profundidade de 160 metros.



O submersível levaria instrumentos para estudar a composição do mar, as suas marés, e mais importante que isso, para procurar sinais de vida.

Infelizmente, devido literalmente ao alinhamento dos astros, uma missão não será possível pelo menos até 2038.

Mas hey, não é impossível que descubramos vida extra-terrestre ainda durante as nossas vidas!!!

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