Quinta-feira, 10 de Maio de 2012

Pensamentos sobre Epidemiologia

Estou a ter um curso de epidemiologia.

Eu devia gostar de epidemiologia.

Gosto de ciência, e a epidemiologia é uma meta-ciência.
É uma ciência que estuda ciência. Procura padrões, sistemas, erros.

Devia ser interessante.

No entanto quando estou a ter aulas de epidemiologia sinto que alguém pôs a minha alma numa prensa e está lentamente a esmagá-la enquanto me falam de reversões lineares qui-quadráticas em testes de wald com valores-p pouco significativos.

Porque, e isto é interessante, a Epidemiologia não devia existir.

E não digo que não deva existir, acho muito bem que exista. Mas é estranho que continue a existir.

Um tema, à medida que sabemos mais acerca dele, à medida que o estudamos, tende a suscitar mais interesse acerca dele mesmo. O interesse que gera é uma medida de sobrevivência da ideia.
Uma ideia mais interessogénica tem mais probabilidade de sobreviver ao longo do tempo do que uma ideia menos interessogénica.

A Epidemiologia é interessolítica.

Não me interpretem mal! Eu acho que a Epidemiologia é de suprema importância, extremamente útil e essencial para o avanço do conhecimento humano.

Mas existe um limiar de interesse que qualquer ideia tem de ultrapassar para se manter viva. E a maioria das ideias tem tendência a aumentar lentamente o seu interesse e assim manter-se acima desse limiar.

A Epidemiologia é das poucas ideias que de facto activamente diminui o seu próprio interesse abaixo do limiar de interesse.
É uma ideia auto-destrutiva.

Daí surpreender-me que continue a existir.

E existem pessoas que gostam!!! Como!?

Mais uma vez, estas pessoas são extremamente inteligentes, determinadas, zelosas do seu trabalho, investidas. Tenho a certeza que se as conhecesse melhor ia descobrir que são pessoas maravilhosas e de todo não tão aborrecidas como imagino que só possam ser.

Mas o problema é que a Epidemiologia É interessante...

Tenho uma relação de amor/tédio-destruidor-da-mente com a Epidemiologia.

Sexta-feira, 4 de Maio de 2012

Situções Bizarras _parte 1


Existem momentos em que me lembro de ti e de teres dito que Deus te odeia. Recordo-me então de me ter rido e de ter afirmado que Ele nos odeia a todos. Não fosse ter criado os 7 Aneis do Inferno. Não fosse eu acreditar que, se Ele de facto existir, tu e o R. estarão destinados a um anel bem inferior ao meu. Mas agora que começo a juntar as minhas pequenas experiências bizarras que se repentem a uma velocidade e grandeza variáveis, começo a tecer uma nova teoria. Não, Deus não me odeia. Deus, se existir como entidade Omnipotente e Omnipresente, goza comigo. Tem com certeza uma foto minha no seu belo quarto e cada vez que me envia mais uma situação bizarra ri-se que nem um perdido. E porque faz Ele isso? Claramente devido à sua situação solitária e familiar, mas acima de tudo, faz porque pode.

Então num belo dia, Ele levantou-se e reparou na minha foto. Sorriu com o seu ar venenoso e começou a magicar. Nesse dia recebi um telefonema da Direcção do Internato. “ Bom dia Dra C., estou a telefonar-lhe para lhe dar conta dos seus próximos estagios. Ora, nos próximos 3 meses irá fazer Cardiologia em Torres Vedras.” E isto até mete a sua piada, o gajo tem um humor negro desenvolvido. Tem a sua piada porque me mudei de Mafra para Cascais há uma semana. Porque deixei a minha casa que ficava a 1 hora de distancia do meu trabalho em Cascais para uma que fica a 5 minutos; e no proximo mês graças a esta mudança vou ficar a 2 horas do trabalho durante 3 meses (a pagar mais gasolina e portagens). E sabem o que torna isto ainda mais delicioso? Não tenho hipotese de mudar!

Por isso, se Deus existir, espero bem um dia encontrá-lo. Porque toda a situação é desiquilibrada. Ele pode gozar e brincar com a minha vida e eu limito-me a dizer mal d’Ele.

Raios.

Domingo, 29 de Abril de 2012

Londres

Londres...

Durante muito tempo não compreendia o hard-on colectivo que a maioria das pessoas parece nutrir por Londres.
Para mim sempre foi só mais uma cidade.
Quer dizer, eu compreendia que era uma cidade porreira e tal, mas nunca partilhei do deslumbramento que as pessoas à minha volta pareciam ter.

Fui a Londres.
Percebo o deslumbramento.

Londres é uma cidade com imensa coisa, e sobretudo com imensa história.
É uma cidade com uma alma velha e carregada com o peso de imensos acontecimentos. Cada canto, cada rua tem um significado histórico.
E quando digo histórico não é só antigo.
Oh, claro, há as estátuas e os palácios e as igrejas que são todos mais velhos que cuspir na sopa. Mas estão perfeitamente bem ao lado dos teatros da Broadway e da Abbey Road.

Há toda esta história, e a história pesa sobre a cidade. Os Londrinos têm uma atitude herdada de quem já viu tudo.

Depois há o tempo, que contribui imenso para a cidade.
Houve de facto momentos em que fez sol, mas durante esses momentos a cidade não era ela mesma. Era como se estivesse quase embaraçada por se mostrar ao sol.
Eu odeio chuva e frio e mesmo assim achei que a cidade só era ela mesma quando estava chuva e frio.

Tive oportunidade de passar várias noites num Pub meio perdido em Wembley. Foi giro ver os nativos no seu ambiente selvagem.
Estava lá durante um jogo de futebol (Barcelona-Chelsea) e os ânimos estavam elevados. Foi extremamente interessante.

Estar na Abbey Road, onde os Beatles tiraram a fotografia para a capa do Album foi quase religioso. Havia mais uma data de pessoas lá, todas a tirarem a mesma fotografia. Havia um sentimento partilhado, não expresso por ninguém. Não era preciso, todos os que lá estávamos sabíamos porque é que lá estávamos e compreendíamos o que nos tinha levado lá.

Por outro lado é uma cidade desconjuntada, demasiado grande, demasiado espalhada. A mesma história que lhe pesa e lhe dá carácter, dificulta-lhe a organização.
A maioria das ruas ainda tem uma distribuição quase medieval, tornando difícil a orientação.
A desolação urbana da revolução industrial ainda se nota em alguns lugares, os bairros sociais do início do século, com as suas chaminés características tornam a paisagem agressiva e fria.

É fácil perceber os londrinos, basta olhar para a cidade. Têm tanto com que se sentir orgulhosos como com que se sentir oprimidos.


Compreendo a fascinação pela cidade, mas não a consigo partilhar.

Quarta-feira, 25 de Abril de 2012

Pensamentos sobre Londres

- Em Londres chove muito

- O Metro de Londres é o melhor em que já estive, e só redobra o meu ódio ao Metro de Lisboa

 - Os Ingleses gostam muito de futebol

 - Comida de Pub é a melhor comida do mundo

 - Londres seria uma cidade fantástica se não chovesse tanto

 - Os arredores de Londres são terrivelmente feios. Quase tão feios como os arredores de Lisboa

 - Comida de Pub torna-se a coisa mais enjoativa do mundo se for comida durante mais do que três dias seguidos

- O Fish and Chips são as pataniscas de bacalhau britânicas.

 - Londres ainda mais do que Paris, transmite a sensação de ser uma cidade muito muito antiga. Não digo isto por ter edifícios antigos, mas pela própria disposição das ruas e da organização da cidade.

 - Londres é demasiado grande para seu próprio bem. Amesterdão, por exemplo, é muito mais visitável.

 - Londres não é um bom lugar para lojas de jogos e wargaming

 - Estou farto de chuva

Terça-feira, 10 de Abril de 2012

L'Apollonide (Souvenirs de la maison close)


Tinham-me recomendado este filme já há algum tempo e eu tive-o no computador durante mais algum tempo ainda antes de o ver.

O filme conta a história de uma casa de prostituição em Paris no início do Séc. XX, no último ano em que esteve aberta.

Se bem que "conta a história" não é particularmente preciso.
O filme não tem propriamente uma história com princípio meio e fim. É, tal como o título indica, uma colecção de lembranças, pequenos fragmentos de histórias, de episódios à volta das prostitutas que habitam a casa.
O filme nunca sai muito do seu caminho para nos apresentar cada uma das suas personagens. Pelo contrário, contenta-se em mostrar-nos pormenores e elementos das suas vidas diárias a partir dos quais somos livres de inferir a sua personalidade e vidas passadas.

Em termos formais o filme é uma representação de um aspecto social que estava em decadência e extinção: o da casa de prostitutas de alta sociedade. Estabelecimentos de luxo no qual os membros mais abastados da sociedade podiam ir para satisfazer a sua luxúria. Uma vez que a prostituição de rua era proibida, as mulheres não tinham autorização para saírem sem acompanhante, vivendo assim num regime de quase clausura.

O filme é, desse modo, filmado quase exclusivamente em interiores. E que interiores. Os sofás de veludo, as cortinas com padrões, os candelabros e os candeeiros de gás com luz riquíssima. Todo o filme tem um ambiente de meia-luz abafada que cria uma atmosfera ao mesmo tempo íntima e opressiva.

Há uma única cena de exterior, quando todas as mulheres e raparigas da casa vão dar um passeio ao campo, e somos presenteados finalmente com luz solar aberta e vento livre. Depois de todas as cenas de interiores, essa cena de exterior parece um fôlego de ar fresco para nos preparar para a segunda metade do filme.

Outra coisa extremamente interessante é a forma como o filme aborda as suas personagens.
As mulheres no filme, as prostitutas, não são mostradas como sendo vítimas oprimidas de uma sociedade machista. Mas também não são mostradas como devassas de baixa moral, ou nifomaníacas, nem tão pouco como heroínas do feminismo usando o sexo como arma para controlar os homens.
É dado a entender que a maioria delas escolheu a sua profissão voluntariamente como meio de obter independência financeira. Algumas são ingénuas, algumas são calculistas e frias, algumas são gentis e adoráveis. Todas são personagens credíveis e profundas.

De igual modo, os homens não são mostrados como monstros abusadores ou violentos, não são mostrados como sendo fracos de espírito que cedem aos seus impulsos mais baixos, ou sequer como pervertidos sexuais que têm de recorrer à prostituição para satisfazer os seus desejos mais bizarros.
São só elementos da sociedade, a maioria deles razoavelmente normal, alguns dos quais vão à Casa só para passar a noite.

E no entanto o filme é extremamente violento.
Há uma violência emocional que perpassa todo o filme, do início ao fim, que é subtil mas inescapável.
Está, obviamente, relacionada com a natureza da própria prostituição. Com a quebra e comercialização da intimidade, com a exposição e venda do próprio corpo, com a perda e cedência voluntária de controlo, a aceitação do risco da violência física e sexual.
Como me fez notar uma amiga minha (a mesma que me recomendou um filme) este é um aspecto emocional do filme que nenhum homem será capaz de completamente compreender, porque nenhum homem é uma mulher.

Uma nota final para a banda-sonora que é na sua maioria composta por música clássica, mas que por vezes, em surtos de anacronismo chocante, recorre a música dos anos '70, de alguma forma transmitindo de uma forma muito mais forte a intensidade emocional de determinadas cenas do que a música clássica alguma vez conseguiria.

Domingo, 8 de Abril de 2012

Martelo e Pregos


Um Interno chega ao gabinete do seu Orientador, e este está sentado à sua secretária com um ar solene.

Interno - Bom dia Dr. Chamou-me?
Orientador - Ah, bom dia! Sim, tenho uma proposta para si!
Interno - Ah?
Orientador - Sugeriram-me um tema que eu acho que seria extremamente interessante para um projecto de investigação!
Interno - Ah, isso é bom...
Orientador - Ainda não há muitos estudos nesta área, e de certeza que é publicável em várias revistas!
Interno - Huhum...
Orientador - ...
Interno - ...
Orientador - Eu acho que você devia-
Interno - Sabe eu tenho umas coisas para fazer e...
Orientador - É importante para o seu currículo.
Interno - Sim, eu sei...
Orientador - É importante ter trabalhos publicados durante o internato.
Interno - Pois...
Orientador - ...
Interno - ...
Orientador - Fazemos assim... você pode escolher entre fazer este estudo...
Interno - sim...?
Orientador - ... ou pregar o escroto ao tampo da mesa.
Interno - ...huh?
Orientador - Dou-lhe a escolher entre fazer este estudo ou pregar o seu escroto ao tampo da mesa. Agora.
abre uma gaveta e tira de lá de dentro um martelo e dois pregos, que deposita sobre o tampo da mesa, do lado do Interno
O Interno olha pensativamente para o martelo e pregos, depois para o orientador

Interno - têm de ser os dois pregos?
Orientador - Sim.
O Interno olha mais um momento para o martelo, depois levanta-se e começa a desabotoar o cinto.

corta para

Três médicos estão sentados à frente de uma secretária, e são o Júri de um exame do mesmo Interno.

Júri 1 - ...muito bem. Mas olhando para o seu currículo, vejo que não publicou trabalho nenhum durante o seu internato!
Júri 2 - Muito irregular.
Júri 3 - Deveras!
Interno - Ah... pois... eu escolhi não fazer esses trabalhos. Está explicado no Anexo 3
Júri 1 (folheia o relatório, lê atentamente) - Pregar o... Huh?! Porquê?! Porque é que você faria isso a si mesmo?
Interno - Não é que eu tenha gostado! Não é propriamente agradável pregar o escroto ao tampo da mesa! Dói como o caraças!
Júri 2 - Então porque é que você fez isso?
Interno - Bem... era melhor que fazer os estudos...
Júri 3 - Ok, bem visto... Quantos pregos?
Interno - Dois pregos...
Júri 3 assobia impressionado

corta para

Um doente está deitado numa cama de hospital, chega um médico.

Médico - Sr Silva, acho que vamos ter mesmo de operar.
Sr. Silva - que chatice Sr. Dr. então e quem é que me vai operar?
Médico - Bem, tenho dois excelentes internos, um deles já foi publicado várias vezes nas revistas da especialidade.
Sr. Silva - Ah, que bem... e foram trabalhos importantes?
Médico - Sim, quer dizer... na maioria foram revisões de artigos, ou estudos estatísticos.
Sr. Silva - Ah... e o outro?
Médico - o outro pregou o escroto ao tampo da mesa.
Sr. Silva - Ena... isso é de homem... quantas vezes?
Médico - pelo menos umas cinco ou seis.
Sr. Silva - com pregos de aço?
Médico - sim, dois de cada vez.
Sr. Silva - Eh lá! Isso sim, quero que seja esse cavalheiro a operar-me! Pregar o escroto ao tampo da mesa, isso sim, impõe respeito!