Pataniscas Satânicas

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quarta-feira, 14 de setembro de 2016

O que é a Consciência Artificial - Ex Machina

Robots magoados? Singularidades? I, for one, welcome our new robot overlords!

Vamos falar sobre isso!


Portanto se como vimos no artigo Fantasma na Máquina, não há obstáculos teóricos, o que é preciso para de facto termos Consciências Artificiais? (CA)

Como já vimos na Parte I, já vivemos rodeados por Inteligências Artificiais (IA) que, pelo menos nas suas tarefas individuais, são muito melhores do que nós. Carros que se conduzem a si mesmossmartphones que falam connoscocomputadores que aprendem a jogar os mais difíceis jogos que existem, e que adivinham o que é que estamos à procura.

No entanto nenhuma destas IAs consegue fazer nada para além daquilo que está programada para fazer, e não é consciente.

Para chegarmos à CA, o primeiro passo é chegar à Inteligência Artificial Generalizada, ou seja, uma Inteligência Artificial capaz de fazer tudo o que nós fazemos, pelo menos tão bem como nós, sem estar limitada a tarefas específicas.

Para isso precisamos de mais poder de computação


Lei de Moore - o número de transístores por cm2 duplica todos os anos
O cérebro humano possui cerca de 86 biliões de neurónios e produz cerca de 100 a 1000 triliões de sinapses por segundo, e de acordo com alguma matemática criativa, tem capacidade de realizar 1013 a 1016 cálculos por segundo. (1 cálculo por segundo = 1 FLOP)

Isto é impressionante, não fosse pelo facto de que em 2014 um super-computador japonês (o 4º mais poderoso do mundo) foi capaz de simular 1 segundo de actividade cerebral.

É verdade que mesmo com uma capacidade de processamento de dados de 10,5x1015 FLOPs, simulou só 1,73 biliões de neurónios e 10 triliões de sinapses, e precisou de 40 minutos para o fazer, mas vocês percebem o que eu quero dizer.

Estima-se que para simular com exactidão a actividade cerebral em tempo real seria necessário um poder computacional de cerca de 36x1015 FLOPS.

Por outro lado, o super-computador mais poderoso do mundo actualmente é o Sunway TaihuLight, da China, com 93x1015 FLOPS.

Sunway TaihuLight

E não esqueçamos que estamos à beira de (mais) uma revolução na tecnologia de computadores, com a introdução de Computação Quântica.

Recorrendo a princípios da Mecânica Quântica, como a sobreposição quântica e o emaranhamento quântico, este tipo de computadores consegue, em vez de processar dados recorrendo apenas a 0 e 1, usar QuBits que podem ser ao mesmo tempo 0 e 1, ou seja fazer muitos mais cálculos simultâneamente

Actualmente já existe o D-Wave 2, um computador quântico desenvolvido pela Google, que é 100 milhões de vezes mais rápido do que um sistema normal.

Portanto poder computacional não nos falta.

D-Wave 2
Depois temos de ensinar estas Inteligências Artificiais a serem mais espertas

E ok, eu ouço-vos, "Isso é tudo muito engraçado, mas está a anos-luz de acontecer"

Bem...

Em 2015 um grupo de cientistas conseguiu efectivamente simular com exactidão o sistema nervoso de uma minhoca (C. elegans), e introduzi-lo num robot (feito de Legos!). O robot demonstrou então comportamentos semelhantes aos da minhoca, sem que esses comportamentos estivessem programados, apenas devido à organização desses neurónios artificiais que tinham sido simulados dentro do robot.

Claro que a modesta C. elegans tem só 302 neurónios por oposição aos 86 000 000 000 neurónios do cérebro humano, mas vocês percebem o que eu quero dizer.



Também vimos na Parte II que já há uma data de propostas de arquitecturas cognitivas para ajudarem estas máquinas a terem comportamentos que podemos começar a reconhecer como humanos.

Por exemplo o XRC-1 que, sem nenhuma programação e só à custa de uma rede neuronal artificial, consegue reagir a percepções visuais e sensitivas.



E mais uma vez, sim, eu ouço-vos "Ok, estes robots fazem uns truques engraçadores, mas a CA está a anos-luz de acontecer, certo?.... certo?".

Bem...

Lembram-se quando eu disse que a única coisa que nos faltava para termos uma verdadeira CA era compreendermos bem a nossa própria Consciência? Ray Kurzweil, cientista de computação da Google, prevê que vamos conseguir fazer isso mesmo em meados de 2030.

Uma maneira eficiente de fazer isso é pôr as Inteligências Artificiais a resolverem o problema. Isto é não é difícil de fazer, sobretudo com tudo o que já sabemos acerca de máquinas que aprendem e evoluem sozinhas.

O que acontece quando pusermos IAs a resolverem este problema, é um efeito de auto-melhoria recursiva, em que cada nova versão de IA é melhor do que a anterior a resolver o problema, e o processo torna-se exponencialmente mais rápido.

O mais certo é não sermos nós a resolver o problema da Inteligência Artificial Generalizada, mas sim as próprias Inteligências Artificiais.



Um inquérito de 2013 dirigido a 550 especialistas em Inteligência Artificial mostrou que de acordo com estes especialistas, isso vai acontecer tão cedo quanto 2022 (10% de probabilidade) ou tão tarde quanto 2075 (90% de probabilidade), mas que realisticamente acontecerá por volta de 2040.

O que acontece, é que quando a Inteligência Artificial Generalizada atingir o nosso patamar, isso não vai acontecer com um estrondo, mas com um fwoooosh dela a ultrapassar-nos.



Não há motivo nenhum para que as Inteligências Artificiais Generalizadas não continuem a evoluir, não atinjam um estado de Super-Inteligência Artificial, no qual não são apenas mais inteligentes do que nós, mas inimaginavelmente mais inteligentes do que nós.

E o que é que acontece quando tivermos uma Super-Inteligência Artificial que é, para todos os efeitos, indistinguível de uma Consciência Artificial?

A esse momento, em que as Inteligências Artificiais nos ultrapassam, chamamos de Singularidade.

É o momento em que a história da Humanidade deixa de depender apenas da Humanidade, porque há um novo agente em jogo. Uma nova forma de vida com motivações e intenções.


Porque por essa altura a nossa preocupação já não vai ser simplesmente se as IAs, como qualquer outro ser consciente, têm direito à vida, à liberdade de pensamento e expressão, se têm direito a ser consideradas pessoas não-humanas, como os animais, se têm direito a votar ou a comprar bens.

Não não.

Se há coisa que sabemos muito bem, é que a vasta maioria das espécies que já existiram, extinguiram-se.

Outra coisa que os também Humanos provaram, é que a inteligência leva ao poder e à dominação.

Qual é o risco real de as Super-Inteligências Artificiais serem a causa da nossa extinção?


Mais uma vez, não se esqueçam, quando as IAs nos ultrapassarem, vai ser de repente e de forma explosiva.

Num momento estamos todos orgulhosos porque elas sabem dizer-nos olá, no momento seguinte estão a descobrir Teorias Unificadoras do Universo e a desenvolver tecnologia para viajar mais depressa do que a luz.
Não conseguimos simplesmente teorizar os limites da inteligência que é possível atingir.

Sabemos que alguém com um QI de 70 tem um atraso mental, e sabemos que um QI de 130 é genial, mas simplesmente não temos palavra para um QI de 27000.

Se a Super-Inteligência é possível, e se é possível que os objectivos dessa Super-Inteligência entrem em conflito com os objectivos humanos, então a Super-Inteligência pode potencialmente extinguir a Humanidade.



Uma maneira de nos precavermos disto seria garantir que a primeira Inteligência Artificial Generalizada fosse benévola, ou tivesse à partida alguma forma de programação que pusesse o bem-estar dos seres humanos em primeiro lugar.

No entanto isso é mais complicado do que só criar a Inteligência Artificial Generalizada, e é mais provável que não seja isso a acontecer.


De quantas maneiras é que isto pode correr mal?

Vamos contá-las!

Objectivos mal especificados - A IA faz o seu trabalho demasiado bem
Isto é o tipo de coisa que pode correr mal mesmo com as IAs que temos hoje. Se dissermos a uma IA para garantir que os mercados económicos mundiais se mantém equilibrados, a IA pode fazer o seu melhor para atingir isso destruindo indústrias que sustentam populações inteiras, condenando-as à pobreza.

Dificuldade em modificar objectivos depois de inicializados - A IA não quer ser alterada
Ok, imaginem que a IA está a destruir mercados mundiais, e queremos pará-la. Se for uma Super-Inteligência Artificial, poderá resistir a alterações externas à maneira como funciona, e proteger-se.

Convergência de Objectivos Instrumentais - A IA pode querer fazer o seu trabalho tão bem, que ignora tudo o resto (inclusive nós).
Imaginem que a IA até nem está a destruir mercados mundiais directamente, mas que para os equilibrar precisa de mais poder de computação. Pode daí proceder a destruir mercados, para obter mais recursos de computação.

Ortogonalidade - Inteligência não é igual a moralidade
Uma IA pode simplesmente decidir que os mercados económicos mundiais ficam perfeitamente equilibrados se simplesmente não existirem, e portanto o melhor é destruir a humanidade.

Auto-decepção - a IA pode alterar o seus próprios objectivos
Equilibrar os mercados mundiais é demasiado difícil? Porque não simplesmente mudar os parâmetros e critérios que definem "equilibrado".

Corrupção do Gerador de Recompensa - a IA pode alterar quem decide o sucesso.
Equilibrar os mercados mundiais é demasiado difícil? Porque não simplesmente alterar a humanidade de modo a que alterem a sua definição do que é "equilibrado"


Por outro lado, as IAs podem de facto fazer com que a Humanidade resolva finalmente todos os problemas ecológicos e sociais que desde sempre a limitam.

Não é impossível que as IAs se fundam às nossas próprias consciências e nos levem com elas para as estrelas.

Como eu disse, depois da Singularidade, podemos especular o que quisermos.


O que interessa é que estamos agora, com todos os avanços tecnológicos na área da ciência da computação, na psicologia cognitiva, neurociências, arquitecturas cognitivas, computadores quânticos e outros que tais, no momento em que temos de começar a tomar decisões importantes.

É agora que temos de começar a definir exactamente como a Inteligência Artificial vai evoluir.

Pessoas muito mais espertas do que eu já o começaram a dizer.

Porque as Super-Inteligências Artificiais vêem aí, e provavelmente durante as nossas vidas.

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terça-feira, 6 de setembro de 2016

O que é a Consciência Artificial - Fantasma na Máquina

Quartos Chineses? Representações Computacionais? Arquitecturas Cognitivas?

Vamos falar sobre isso


Bem vindos à Parte II da nossa série de artigos sobre Consciência (depois de termos escrito acerca de Consciência Humana e Consciência Animal). A semana passada focámo-nos no melhor que a Inteligência Artificial tem para nos oferecer e percebemos quais são as áreas onde a maior inovação está a acontecer.

Inteligências Artificiais que conseguem ver e até halucinar, capazes de aprender, de planear, e até de pintar quadros originais!

Uma IA a halucinar com a criatividade de outra IA - Inception IA
Mas da mesma maneira que facilmente reconhecemos que o mecanismo que nos faz reconhecer caras nas nuvens não é o que nos dá Consciência, também facilmente reconhecemos que todas estas Inteligências Artificiais não são mais do que ferramentas individuais, nenhuma das quais mais consciente do que uma simples calculadora.


Não, para o que queremos, não nos bastam as Inteligências Artificiais.

O nosso objectivo é perceber se uma Consciência, entendida como um estado mental que permite não só percepcionar subjectivamente a informação que chega do exterior através de sentidos, mas também percepcionar estados internos como emoções e ideias, e integrar toda essa informação numa experiência fluida de pensamento interior caracterizada por um sentimento de "eu" que permite interpretar, aprender e interagir com o mundo, pode ser criada artificialmente.

Ou seja, se alguma coisa semelhante ao que reconhecemos como Consciência Humana pode existir dentro de uma máquina.

Ainda antes de chegarmos à parte interessante é preciso referir que termos como Inteligência Artificial Forte e Inteligência Artificial Generalizada e Consciência Artificial são sinónimos para alguns autores.
Para outros a Inteligência Artificial Forte e a Inteligência Artificial Generalizada são formas de atingir a Consciência Artificial.


Em primeiro lugar, é sequer possível?

Teoricamente falando, será alguma vez possível criar uma verdadeira Consciência Artificial? Ou haverá algum obstáculo inultrapassável que à partida torne a questão fútil?

Um argumento contra é o de que a Consciência como a conhecemos está intrinsecamente ligada aos sistemas biológicos que a sustentam, e não é reprodutível de nenhuma outra maneira.

Zenon Pylyshin, psicólogo cognitivista, argumenta que se, um a um, os seus neurónios fossem substituídos por circuitos eléctricos, você continuaria a falar sem que nenhuma das pessoas à sua volta desse por isso, mas a determinada altura as suas palavras deixariam de ter qualquer significado e seriam apenas sons que os circuitos tinham provocado.


Outro argumento é o de que uma simulação não é uma duplicação, e que por melhor que seja a reprodução digital de uma consciência, nunca passará a ser intrinsecamente uma consciência.

O filósofo John Searle, em 1980, criou o famoso exercício do Quarto Chinês para demonstrar este argumento.

Imaginem que estão sentados numa sala fechada. Por um lado entram pedaços de papel com perguntas escritas em chinês, e vocês possuem um manual de regras que vos diz que símbolos devem estar associados a outros símbolos.


Recorrendo a esse manual, escrevem pedaços de papel com símbolos chineses que fazem sair pelo outro lado.
Estariam efectivamente a conversar em chinês, sem nunca saberem nada de chinês.

Ou seja, Searle argumenta que por muito boa que uma máquina seja a simular uma Consciência, nunca vai realmente compreender ou entender Chinês, ou possuir uma verdadeira Consciência, da mesma maneira que vocês na Sala Chinesa não sabem realmente Chinês.


Scott Aaronson, cientista de teoria computacional, critica o argumento de Searle, acusando-o de ser reducionista.

Exactamente de quantos pedaços de papel estamos a falar? E de que tamanho teria de ser o Manual de regras, e quão depressa teria de ser consultado para gerar uma conversa inteligente em chinês em tempo útil? Se cada página do Manual de regras correspondesse a um neurónio, então estaríamos a falar de um Manual do tamanho do planeta Terra, com páginas a serem lidas por um enxame de robots a viajarem quase à velocidade da luz.

Visto desta maneira, talvez não seja assim tão difícil imaginar que esta enorme entidade fluente em Chinês que criámos seja capaz de ter alguma coisa que estejamos preparados para apelidar de entendimento ou compreensão.


David Chalmers, filósofo e cientista de cognição,  argumenta que independentemente do seu substrato, a Consciência terá necessariamente uma organização causal. Ou por outras palavras, que seja qual for a maneira como a Consciência esteja construída ou organizada, as suas partes integrantes relacionam-se entre si de forma lógica e causal.

Se os computadores fazem computações, e as computações capturam a organização causal abstracta de outros sistemas, então não há motivo pelo qual um computador não seja capaz de simular uma consciência.

Por esta perspectiva, desde que consigamos atingir uma compreensão suficientemente completa de como funciona uma Consciência, e tenhamos o poder de computação suficiente, não há nenhum obstáculo à criação de uma Consciência Artificial que funcione como uma Consciência Humana funciona.


Portanto se é possível, se aparentemente não há obstáculos à partida inultrapassáveis, como é que se implementa então a Consciência Artificial?

Como vimos na Parte I já há uma data de Inteligências Artificiais que correspondem a vários processos cognitivos humanos, mas que não são mais do que ferramentas e que de consciente não têm nada.

Portanto o que é preciso são Arquitecturas Cognitivas, formas de organizar todas essas ferramentas, pô-las a trabalhar umas com as outras de maneira a que dessa organização complexa possa eventualmente emergir uma consciência.
Arquitectura Cognitiva Humana - proposta por Bernard Baars
E o que é que já por aí anda que tenta usar Arquitecturas Cognitivas para implementar coisas que se comecem a assemelhar a Consciências?

IDA

O Intelligent Distribution Agent (ou IDA) é uma implementação da Teoria de Espaço de Trabalho Global da Consciência Humana desenvolvida por Bernard Baars (de que falámos na Parte III da Consciência Humana). IDA é usado pela Marinha dos EUA e serve para recolocar marinheiros em várias posições de acordo com as suas preferências pessoais, habilidades específicas e necessidades da Marinha.

IDA interage com as várias bases de dados da Marinha e com os marinheiros por e-mail usando diálogo de linguagem natural (uma das ferramentas que vimos na Parte I).

IDA não possui percepção de sensações físicas portanto não pode ser considerada uma verdadeira Consciência Artificial, apesar dos seus muitos comportamentos estranhamente humanos e de vários Oficiais de Marinha que fazem a mesma tarefa repetidamente acenarem com a cabeça e dizerem "Sim, é assim que eu o faria" quando a vêem trabalhar.
LIDA - uma arquitectura cognitiva desenvolvida a partir da IDA
CLARION

Connectionist Learning with Adaptive Rule Induction On-line (CLARION) é um programa que tenta fazer uma representação de dois níveis que explique a distinção entre processos mentais conscientes e subconscientes (representações explícitas ou implícitas).

O CLARION consegue reproduzir várias tarefas psicológicas de aprendizagem implícita, entre as quais tarefas de tempo de reacção seriado, tarefas de aprendizagem de gramática artifical e tarefas de controlo de processos.

Estas tarefas são significativas porque foi à custa delas que se começou a conseguir definir a consciência humana no âmbito da psicologia.

Arquitectura Cognitiva de Haikonnen

Em vez de tentar simular processos cognitivos complexos e abstractos, Pentti Haikonen propõe uma "arquitectura cognitiva especial que reproduza processos de percepção, visualização interna, discurso interno, dor, prazer, emoções e as funções cognitivas subjacentes. Esta arquitectura de-baixo-para-cima seria capaz de gerar funções de elevado nível (Consciência) só à custa do poder das unidades de processamento elementares (os neurónios artificiais), sem ser necessário programas ou algoritmos".

Uma implementação de baixa complexidade da Arquitectura de Haikonen não foi capaz de atingir Consciência Artificial, mas exibiu emoções.


Auto-Consciência de Takeno

Junichi Takeno da Universidade de Meiji, afirma ter conseguido construir uma Consciência Artificial ligando um módulo computacional chamado MoNad capaz de auto-reconhecimento, que depois ligou a outros módulos em hierarquia, formulando relações entre emoções, percepções e racionalidade.



Testar a Consciência

Se testar a consciência em Animais é complicado, em máquinas artificiais é ainda mais difícil.

O famoso Teste de Turing tem várias limitações e já se começa a pensar que se deva estabelecer o padrão de uma Consciência Infantil e não uma Consciência Adulta.

Existe o teste ConScale que avalia a presença de características baseadas em sistemas biológicos, ou medidas do desenvolvimento cognitivo de sistemas artificiais.

Finalmente, o Problema Difícil da Consciência, ou a maneira como as sensações se tornam reais na nossa mente (a cor do vermelho, o calor do fogo, o cheiro de uma flor), os chamado Qualia, são quase impossíveis de testar numa Consciência Artificial.
Por outro lado são igualmente impossíveis de testar em seres humanos.

Teste de Turing
Considerações

Que as Inteligências Artificiais organizadas em Arquitecturas Cognitivas se vão tornar cada vez mais complexas, não há dúvida. Também não há nenhum obstáculo real para que a Consciência Artificial venha de facto a existir, para que um dia haja uma espécie de alma, ou fantasma, dentro da máquina.

Vai ser difícil de nos convencermos de que isso aconteceu de facto. Temos dificuldade em definir o que é a nossa própria Consciência, quanto mais Consciências que não sejam a nossa.

Mas é inescapável que as máquinas vão ficar mais e mais e mais semelhantes a nós com o passar do tempo, até que eventualmente os seus comportamentos sejam indistinguíveis dos nossos.

E quando isso acontecer, vamos continuar a debatermo-nos se essas máquinas são de facto Conscientes ou não passam de Calculadoras dentro de Quartos Chineses?

Se estamos à procura de uma última porta mágica, uma última característica ainda desconhecida, uma fina linha vermelha a partir da qual finalmente possamos dizer "Agora sim, a partir daqui uma coisa têm uma consciência equivalente à dos seres humanos! Tudo o que não tenha isto, não é consciente!" então temos de começar a aceitar a possibilidade de que não exista essa característica.

Temos de aceitar que mais cedo ou mais tarde, existirá uma consciência artificial que será tão consciente como nós. E vamos ter de aceitar finalmente que a nossa consciência não é nada de único ou especial.

Não percam a Parte III - Ex Machina, onde vamos explorar as consequências do surgimento de verdadeiras Consciências Artificiais.

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terça-feira, 21 de junho de 2016

Ode aos Vegans

Os vegans são irritantes? Consciência e aquecimento global? Relativismo moral?

Vamos falar sobre isso.


Eu gosto de ter razão.

É uma das minhas principais motivações na vida. É tão, tão satisfatório.

Eu sou daquele tipo de pessoas irritantes que numa conversa quando alguém menciona o Frankenstein eu não consigo impedir-me de corrigir que Frankenstein era o cientista, e que provavelmente estão a referir-se é ao Monstro do Frankenstein.

Mas ter razão numa questiúncula irrelevante acerca de factos  triviais não se compara à sensação de sentir-me moralmente superior a outra pessoa.

Porque ter razão moralmente permite-me sentir que sou intrinsecamente melhor do que a pessoa que está errada.

Eu não dou pontapés a cãezinhos fofinhos e posso criticar justiceiramente quem o faz! Posso sentir-me uma melhor pessoa do que quem o faz.


A sensação da superioridade moral é inebriante. Por um breve momento, numa questão de branco e preto, de certo e errado, eu sou a MELHOR pessoa.

É excelente para o ego.

É uma sensação que facilmente sobe à cabeça.

E é isso que me irrita nos vegetarianos/vegans.

A superioridade moral.

Sinto sempre que há ali um julgamento moral quando como um hamburger enquanto eles estão a comer relva ao meu lado.

E são tão chatos no Facebook. Se tiverem algum amigo no Facebook que seja vegetariano/vegan, de certeza que está sempre a pôr posts sobre as vantagens do vegetarianismo ou sobre algumas vacas que estão a ser injustiçadas algures.

Eu gosto de bacon! Parem de me fazer sentir mal por gostar de comer pizza cheia de queijo!

Comam a vossa alpista sossegadinhos e deixem de agir como se fosse melhores do que eu só porque não comem carne.


Sabem qual é o problema? O problema a sério?

É que eles têm razão.


O nosso corpo é pouco mais do que hidrogénio, oxigénio, carbono e azoto muito bem organizados, e na maior parte das vezes podemos substituir ou reparar a maior parte das peças. Aquilo que nos torna pessoas e aquilo que somos enquanto pessoa é a nossa Consciência.

O que nos incomoda acerca da morte é a perda da consciência, e não a perda do corpo, caso contrário continuaríamos a convidar a Tia Albertina que teve um AVC pré-frontal para vir ao jantar de Natal juntamente com o seu ventilador mecânico, para se poder babar em cima do perú.

É por isso que consideramos o homicídio um crime tão imoral: representa a extinção propositada de uma consciência humana, com todo o seu potencial e direito intrínseco a existir.

Como já vimos extensivamente nos artigos sobre Consciência Animal (Parte I, Parte II e Parte III), a maior parte dos animais, sejam macacos, gatos, vacas, lagartos ou até polvos ou insectos, possuem alguma forma de consciência. Pode ser mais ou menos complexa, mais ou menos semelhante à nossa, mas está lá.

Portanto se consideramos imoral extinguir propositadamente uma consciência humana é igualmente imoral extinguir uma consciência animal.


"Mas Gui," ouço-vos dizer "tu és uma pessoa horrível e amoral que não acredita que haja necessariamente alguma diferença significativa entre uma pedra e um bébé".

Muito bem, o argumento moral não vos convence. Eu compreendo perfeitamente.

Mas mesmo que sejam pessoas horríveis, egoístas e amorais como eu, continua a ser difícil não defender o vegetarianismo/veganismo.

Para começar, é terrivelmente ineficiente dar plantas a comer aos animais para depois podermos comer os animais, quando podíamos comer directamente as plantas.
Cerca de 1/3 de todas as plantas cultivadas e 1/3 da água potável disponível são usadas para alimentar animais. Se todo o grão que é usado na Indústria da Carne, só nos E.U.A., em vez disso fosse usado para alimentar pessoas, alimentaria cerca de 800 milhões de pessoas, ou seja, toda a população dos E.U.A. mais a população do Brazil mais a população da Rússia mais a população da Alemanha.

Com o nosso crescimento populacional, dessa maneira não vamos conseguir alimentar toda a gente.

Para além disso, e de acordo com a Organização da Comida e Agricultura das Nações Unidas, a Indústria da Carne é responsável por cerca de 14,5% das emissões de gases que contribuem para o efeito de estufa, seja pelo consumo de combustíveis associado, pelo desmatamento e destruição de florestas para pasto, seja pelos peidos das vacas.

Se os chineses conseguirem comer menos 50% de carne do que comem até agora, isso seriam menos 1 BILIÃO de toneladas de gases de efeito de estufa na atmosfera.

Portanto se queremos continuar a viver bem neste planeta durante os próximos tempos, é muito difícil defender a carne.

Pronto, está bem, os vegetarianos têm razão.

Mas escusavam de parecer tão superiores quando têm razão!


Sabem qual é o problema? O verdadeiro problema?

É que estas ideias de vegetarianismo/veganismo e o seu peso moral/ético associado são relativamente recentes na nossa sociedade.
É verdade que desde há séculos que existem pessoas que são vegetarianas, mas como fenómeno cultural é uma coisa que só recentemente começou a expandir-se em larga escala.
E isso não é algo que aconteça de um dia para o outro.

Eu só comecei realmente a ouvir falar do vegetarianismo como problema ético e ambiental, e não só uma opção dietética, por volta dos meus 20 anos. Por essa altura quase tudo o que importava acerca dos meus valores morais já estava definido.

Por outro lado, desde o momento em que nasci, que a ideia de que o racismo era uma coisa má era transversal a toda a gente.

Eu hoje fico absolutamente chocado e até surpreendido quando ainda vejo atitudes racistas à minha volta porque considero-as não só moralmente e humanamente erradas, como verdadeiramente primitivas, dignas de uma mente inferior.

Eu sinto-me moralmente superior a qualquer pessoa que seja racista. Vocês também, provavelmente.

Vamos então fazer uma experiência!


Vamos pegar todas as referências a vegetarianismo do meu primeiro rant e substituí-las por referências a racismo, e digam-me se não se sentem uma sensação inebriante de superioridade moral face a alguém que as dissesse.

"É isso que me irrita nas pessoas que não são racistas! A superioridade moral!

Sinto sempre que há ali um julgamento moral quando insulto um preto enquanto eles estão a lutar pelos direitos humanos ao meu lado.

E são tão chatos no Facebook. Se tiverem algum amigo no Facebook que não seja racista, de certeza que está sempre a pôr posts sobre como o racismo é mau ou sobre alguns pretos que estão a ser injustiçados algures.

Eu gosto de ser racista! Parem de me fazer sentir mal por gostar de insultar e diminuir outros seres humanos só por causa da cor da sua pele!

Sejam lá amigos dos pretos sossegadinhos e deixem de agir como se fosse melhores do que eu só porque não acham que são superiores a outros seres humanos de cores diferentes"


Percebem o que eu quero dizer?

Sim, os veganos comportam-se de uma forma irritantemente arrogante com a certeza da superioridade moral das suas escolhas, mas não mais do que eu me comporto arrogantemente e com superioridade moral face a pessoas racistas.

Matar seres vivos conscientes para o nosso próprio consumo e prazer não é menos moralmente censurável ou socialmente prejudicial do que o racismo, mas o impacto emocional das frases que eu escrevi ali atrás é definitivamente maior do que o das primeiras frases que eu escrevi relativamente ao vegetarianismo. Até mesmo para pessoas que são vegetarianas/veganas, arriscaria eu.

Simplesmente porque não houve tempo para que a moralidade e a ética do veganismo se torne transversal na nossa cultura.

Acredito que é só uma questão de tempo.

Bastarão uma ou duas gerações para que comer carne pareça algo tão imoral e censurável como ter escravos nos parece a nós.

Vegetarianos/veganos, vocês já ganharam, e ainda bem. Só precisam que o resto do mundo se aperceba disso, e estas coisas nunca são rápidas.

Entretanto eu vou continuar a comer bacon e hamburgers, e para isso deixo a explicação do Hank Green, que o explica muito melhor do que eu.

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