Pataniscas Satânicas

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terça-feira, 15 de março de 2016

O Papão vive dentro da sua cabeça

O que é que se passa dentro da sua cabeça? Técnicas de manipulação social? Outra vez o Papão?

Vamos falar sobre isso!



Alguma vez pararam e ouviram o que se passa dentro da vossa cabeça?

Aquelas ideias e pensamentos aleatórios e semi-inconscientes que andam constantemente por aqui a saltar dentro. 

Há coisas muito estranhas a passarem-se dentro da sua cabeça, e você sabe que sim. 

Eu sei que sim porque isso também se passa dentro da minha cabeça.

E não estou a falar daquelas ideias idiotas e semi-aleatórias que temos todos, que representam o barulho de fundo das roldanas da nossa consciência.


Estou a falar daquelas ideias desagradáveis que lhe surgem na cabeça.

Você sabe quais são. 

São aquelas ideias que você nunca conta nas histórias que começam por "No outro dia pensei numa coisa mesmo estranha".

Estou a falar daquelas ideias mesquinhas e más. Daquilo que gostávamos de dizer às pessoas de quem não gostamos, aquilo que gostávamos de fazer às pessoas que nos fizeram mal, ou que estão à nossa frente na fila do supermercado.

Aquelas ideias que nos fazem pensar "o que RAIO é que me está a passar pela cabeça?" e se isso significa que há alguma coisa de errado connosco.

Há algumas coisas bem horrorosas a passarem-se na sua cabeça. 

Eu sei.



Eu sei, porque isso também me acontece.

E se me acontece a mim acontece-lhe a si também, porque nem eu nem você somos especiais, e porque é razoável assumir que partilhamos a mesma experiência humana.

As nossas consciências funcionam todas da mesma maneira, é natural que tenham todas os mesmos defeitos. 

Sabendo isso, a atitude mais razoável é pensar que se toda a gente tem estas experiências e estas ideias horríveis na cabeça, então isso provavelmente não é assim nada especial, e mais vale não lhes dar demasiada importância.



Mas agora imagine que dizemos a uma criança, ainda numa idade em que tudo o que é dito pelos adultos é uma verdade inabalável, que essas ideias más eram postas na sua cabeça pelo Diabo.

A violação! Convencer uma criança de que há ideias dentro da sua mente que são lá colocadas por uma entidade externa, contra a vontade dela, e sem que ela possa fazer o que quer que seja para se defender, que está completamente à mercê dessa invasão.

Dizer a uma criança que ela não pode estar segura dentro da sua própria mente.

E esses pensamentos intrusivos, essas ideias mesquinhas que às vezes nos passam pela cabeça, que são normais e inevitáveis, subitamente transformam-se em ideias que foram lá colocadas maliciosamente.

Isso é uma das características da esquizofrenia. Os esquizofrénicos frequentemente acreditam que as suas ideias podem ser roubadas por outros, que conseguem pôr ideias nas cabeças dos outros, o que os outros lhes podem pôr ideias na sua própria cabeça.

Ha! Those wacky christians!


Não, melhor ainda!

Imagine que dizíamos à criança que Deus era capaz de ler os seus pensamentos! Que Deus estava sempre a observar e a ver e a ouvir TUDO, que sabe TUDO.


Lá se vai qualquer possível noção de privacidade. Não há nenhum espaço seguro. Nenhum lugar onde se possa pensar em segurança, nem sequer dentro da nossa cabeça.

Com todas as restrições que aqueles tipos punham no pensamento, até poderíamos pensar que não queriam que as pessoas o fizessem?

Sim? Talvez?


Mas podemos fazer ainda melhor!

Dizemos à criança que ideias e impulsos geneticamente programados, martelados no comportamento por centenas de milhões de anos de evolução, completamente inevitáveis, também são pecado!


Até lhe podemos dizer que ela consegue suprimir esses impulsos se se esforçar o suficiente. Se for boa pessoa vai conseguir não ter ideias más. Que ela é tanto melhor pessoa quanto mais eficaz for a impedir os pensamentos perigosos.

Mas que se não conseguir a culpa é dela. Se falhar isso foi um pecado, porque não se esforçou o suficiente.

Que até pode não dizer a ninguém, mas Deus sabe.


E não faz bem à cabeça de uma pessoa. Passar a vida toda, desde a mais pequena infância, a pensar "não posso, não posso, não posso, não posso, não posso".

Porque qualquer governo ou ditador de meia tigela pode encher as pessoas de propaganda, e ter polícias secretas, ou leis para impor bons costumes, e censura e tortura e isso tudo.

Mas quando começamos a falar de mudar as ideias dentro da cabeça das pessoas, de convencer as pessoas a auto-censurarem os próprios pensamentos, aí estamos claramente no jogo das religiões.

Esse é um jogo que o Papão sabe trabalhar bem.


Porque não é preciso ser-se um crente da religião.

Basta crescer numa cultura moldada e estabelecida em séculos de tradição cristã.
Vão ser esses os valores que as pessoas partilham, quer vão rezar aos domingos ou não. Essas ideias e conceitos vão ser transversais a toda a população, vão compôr o fundo memético de todas as conversas e interacções.

Nunca fui religioso na minha vida, e no entanto, em alguns aspectos muito importantes, não sou menos cristão do que alguns desses comedores de hóstias.

É assim tão eficiente que o Papão é.


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terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Quando o Papão vem visitar

Temos de lidar com o Papão quase diariamente, mas a verdade é que se formos seguindo as regras  dele, passamos despercebidos.

Isto é importante.

Afinal, um dos preceitos nos quais o Papão se baseia é "mantém-te dentro das linhas", e é razoavelmente coerente a recompensar ou a punir de acordo com a obediência a essa ideia.

A maior parte das pessoas nem se apercebe bem da existência das linhas, porque foram criadas de maneira a aceitar as linhas como leis da natureza.

Para os de nós que conseguem ver as linhas, não é difícil perceber onde é que estão, e que são largamente arbitrárias.
Isto pode ser irritante, porque ser capaz de ver as linhas costuma correlacionar-se com não gostar da imposição de andar dentro das linhas.

Há duas maneiras de lidar com isto.

Podem tornar-se no Herói Trágico.



O Herói Trágico revolta-se contra a existência das linhas, e é incapaz de viver em paz com o facto de as outras pessoas todas terem de andar dentro delas, recusa-se a andar dentro das linhas e então decide lutar contra o Papão.

Isto é um erro.

Não se ganha contra o Papão.

Na maior parte das vezes os Heróis Trágicos que lutam contra o Papão fazem-no porque albergam alguma forma de idealismo moral, crenças de coerência e rigor ideológico, altruísmo ou de valor do sacrifício-em-prol-do-bem-comum, que os faz acreditar que têm uma hipótese, por remota que seja, de vencer contra o Papão.

Essas crenças morais ou ideológicas, invariavelmente idealistas que promovem o auto-sacrifício foram lá postas em primeiro lugar pelo próprio Papão. Os heróis que por vezes surgem, inflamados por essas crenças, são um efeito secundário perfeitamente previsível, esperado e facilmente resolvido.

O Papão inventou o jogo, escreveu as regras, e previu não só o surgimento de Heróis Trágicos, como pôs em prática ferramentas para lidar com eles à medida que surgem.


O único acto de resistência contra o Papão que pode trazer algum tipo de ganho é enganá-lo.

Porque, apesar de todo o seu poder, o Papão nem é muito esperto, e muito menos é omnisciente.
Aqui surge a segunda maneira de lidar com as linhas do Papão.

Podem tornar-se no Espertalhão Preguiçoso.



O Espertalhão Preguiçoso vê as linhas do Papão, mas aceita-as como um facto inescapável da vida, decidindo não lutar contra elas, mas sim arranjar estratagemas para esconder o facto de que nem sempre anda dentro delas.

Se o Papão não reparar em nós, conseguimo-nos safar com uma data de coisas. Desde que não demos muito nas vistas, se não fizermos muito barulho, sobretudo se não falarmos muito do Papão, ele deixa-nos sozinhos para fazermos mais ou menos o que quisermos.

Não é particularmente difícil enganar o Papão, desde que não se seja muito óbvio. É preciso escolher os logros, investir apenas naqueles com boa probabilidade de sucesso e poucas consequências se falharem.

Enganar o Papão é entusiasmante. Dissimular uma transgressão dá uma sensação de liberdade que é intoxicante, e cria a ilusão de que há controlo sobre o Papão e as suas linhas.

Esta sensação de liberdade intoxicante pode fazer com que o Espertalhão Preguiçoso se comece a esticar nas suas transgressões. A ganância é o maior erro do Espertalhão Preguiçoso. É preciso saber muito bem onde é que estão as linhas, e quais nunca podem ser ultrapassadas.

Obviamente que se começarmos a fazer ondas, a dizer palavras de que o Papão não gosta, a picar o papão com um pau, ou, pior que tudo, chamar a atenção para o facto de o Papão existir, aí o Papão repara em nós e a nossa vida piora significativamente.

Chatear o Papão é mau, porque depois ele vem em toda a sua fúria, fogo, e burocracia e torna a nossa vida num inferno kafkiano que nos vai fazer desejar não ter nascido.



Mas se formos espertos, não tivermos complexos de heroísmo ou martírio, e soubermos dizer as coisas evitando as palavras proibidas, até é possível safarmo-nos durante a maior parte do tempo.

Infelizmente o Papão também previu a existência do Espertalhão Preguiçoso.

Contrariamente ao Herói Trágico que anuncia a sua existência e que vai ter com o Papão para ser sumariamente esmagado, o Espertalhão Preguiçoso é mais difícil de apanhar.

Portanto o Papão vem visitar uma vez por ano, quase como o Pai Natal.

É a altura do ano em que o Papão vem espreitar por cima do ombro do Espertalhão Preguiçoso para ver se ele se está a manter dentro das linhas.
Vem fiscalizar, auditar, avaliar, examinar, ver se as contas estão pagas, se os requerimentos foram todos preenchidos em triplicado, ver se os feijões foram todos adequadamente contados.

Esta é a pior altura para o Espertalhão Preguiçoso, porque contrariamente ao que se poderia pensar, custa mais ao Espertalhão Preguiçoso andar dentro das linhas do que ao Herói Trágico.

Mas quando o Papão vem visitar, o Espertalhão Preguiçoso tem de baixar a cabeça, contar os feijõezinhos todos, andar certinho dentro das linhas.


Não dura muito tempo, habitualmente, mas as consequências de falhar à visita do Papão são grandes, e é difícil esconder os atalhos às linhas. 
Como a maioria das coisas que o Papão exige, nem é sequer extremamente difícil sobreviver à visita do Papão, mas exige trabalho árduo, auto-sacrifício e abnegação. Tudo coisas que o Preguiçoso Espertalhão detesta.
A visita do Papão serve mais para meter medo ao  Espertalhão Preguiçoso, e para o relembrar que o Papão não desapareceu. Para lhe relembrar que as linhas estão lá e que ele não se pode esticar nos atalhos.

Sobretudo para o o Espertalhão Preguiçoso não começar a dar ideias às outras pessoas, fazendo-as reparar nas linhas pela maneira como não as segue.

É uma forma de controlo.

Porque no fim de contas, os Espertalhões Preguiçosos são muito mais perigosos para o Papão do que os Heróis Trágicos.
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terça-feira, 3 de novembro de 2015

Advogado do Papão

O que é que o Papão alguma vez fez por nós?

Vamos descobrir.


Já falámos várias vezes acerca do Papão neste blog. É um dos nossos temas preferidos.
Não é difícil perceber que não somos fãs do Papão.

É razoável afirmar que o Papão anda a chatear-nos a todos há muito tempo.

Mesmo hoje, quando temos tanta internet com tanta pornografia e outras coisas divertidas para fazer, anda por aí o papão a dizer "Nãooo... não se toquem tanto".

Quando penso que posso descansar um bocadinho, relaxar e escrever coisas parvas no blog, lá vem o papão espreitar por cima do meu ombro para ver se eu estou a trabalhar o suficiente.

Ele vem e diz-me "Olha, agora tens de passar mais 3 meses a contar feijões".

"Mas passar 3 meses a contar feijões é uma grande perda de tempo e não beneficia ninguém!" replico eu, de forma razoável.

"Bem, o objectivo não é realmente esse, pois não?" diz o Papão, ao mesmo tempo que cria complexos de culpa e crenças de obrigação e dever em crianças da primária.

E eu passo 3 meses a contar feijões, porque não se ganha contra o Papão.


Não deixa de ser curiosa esta fixação por contar feijões porque essas são exactamente as duas coisas mais importantes que o Papão nos deu.

Primeiro o Papão convenceu uma data de homens das cavernas caçadores recolectores a pararem quietos num lugar durante tempo suficiente para plantarem coisas e fazerem crescer feijões.

O medo da fome e o desejo de segurança levaram os nossos antepassados a abandonar o nomadismo e a caça para se focarem no trabalho árduo, repetitivo e aborrecido da agricultura.


A segunda coisa, imediatamente decorrente da primeira, foi a invenção da escrita.
Já que tínhamos feito crescer tantos feijões, agora não os íamos perder! E para não os perder tínhamos de saber quantos tínhamos, e para isso tínhamos de inventar números e escrevê-los numa pedra.

Foi o início da escrita.

Inscrições Sumérias, 2600 AC
E pronto, as duas coisas mais importantes para a civilização humana como a conhecemos.
A agricultura e a escrita.

Só para relembrar, fomos humanos durante cerca de 190 000 anos até que estas duas coisas se desenvolvessem.

Quando a agricultura e a escrita foram dominadas, as civilizações começaram a crescer por todo o lado como cogumelos.


Não vamos discutir agora se foi uma boa ideia ou não, mas podemos definitivamente concordar que é infinitamente mais confortável.

Mas houve outra coisa extremamente importante que o Papão deu às pessoas que decidiram obedecer ao Papão: protecção de todas as outras pessoas que decidiram não obedecer ao Papão.

Pensavam que toda a gente decidiu obedecer ao Papão? Se nem hoje gostamos de obedecer ao Papão, na altura isso era uma ideia ainda mais complicada de aceitar.

Portanto todas as pessoas que acharam que ficar paradas e fazer crescer feijões e depois contá-los não era para elas, continuaram simplesmente a ser nómadas.

E do que é que tribos nómadas habituadas a caçar gostam mais?

Ora, de pessoas que se juntam quietinhas num lugar a acumular recursos.


Foram os Povos do Mar para os Egípcios,

Os Arameus, os Suteus e os Caldeus para a Babilónia.

Uma lista infindável de tribos germânicas deitaram abaixo o Império Romano.

E quem é que se pode esquecer dos Mongóis e dos seus tsunamis de destruição e pilhagem.

Mongóis a matarem Polacos aos montes, 1241
Não é que as tribos nómadas tenham alguma coisa de pessoal contra a civilização, é só que as civilizações são presas tão fáceis.

É uma relação normal de predador e presa.
Os bisontes ficam quietinhos num lugar a comer e a engordar, e depois vêm os leões e comem-nos.

Só que os nossos antepassados tinham o Papão do lado deles.

É óbvio quem é que ganhou esse conflito.

Ciganos a serem expulsos de um acampamento, em França
Os nómadas continuam por aí.

Continuam a tentar predar as civilizações, e a conseguir fazê-lo com relativo sucesso. Mas nada como antes.
O Papão tornou-se demasiado poderoso, demasiado organizado. Trata-os como parasitas e ressente-se do seu nomadismo e da sua rejeição das regras.

São muito menos, apenas 30-40 milhões, e são na maior parte das vezes relegados para as franjas da sociedade. Têm dificuldade em integrar-se.

Nós somos descendentes dos que decidiram obedecer ao Papão. Eles ainda não se convenceram que a isso seja uma boa ideia.

Há vantagens e desvantagens de obedecer ao Papão.

Por um lado temos a segurança e conforto da civilização, por outro lado eu tenho de passar 3 meses a contar feijões.

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segunda-feira, 3 de agosto de 2015

O Papão vem do Norte - Parte III

Bem vindos à terceira e última parte de O Papão vem do Norte.

Se não leram a Parte I ou a Parte II, sugiro que o façam agora, mas se não vos apetecer, podem começar por aqui.

Anteriormente já expliquei como os Romanos tinham medo dos Bárbaros que vinham do Norte Gelado, e como a Igreja Católica os converteu a todos em crentes obedientes e trabalhadores, e que isso lhes deu muito muito dinheiro.
A Igreja Católica era tão corrupta, que um senhor alemão chamado Martinho Lutero protestou muito e escreveu um texto que criticava a Igreja, e com isso iniciou um movimento.

Este movimento, que ficou conhecido como a Reforma Protestante, era uma enorme ameaça ao poder da Igreja Católica, dado que punha em causa não só a sua validade espiritual mas também o seu poder económico.
A ideologia Protestante de igualdade e crítica à corrupção e abuso do poder da igreja espalha-se pela Europa como um vírus, levando a revoltas de camponeses na Alemanha e a guerras religiosas em França e em muitos outros lugares.


A Igreja não perdeu tempo a perseguir e a queimar na fogueira milhares de Protestantes, esperando com isso impedi-los de contagiar outros países com estas ideias perigosas de contenção de custos e combate de corrupção. Um excelente exemplo disso é o Massacre do Dia de S. Bartolomeu, no qual entre 5 000 e 30 000 protestantes foram mortos.

Apesar dos seus melhores esforços, a Igreja Católica não conseguiu evitar que vários países se tornassem declaradamente Protestantes, perdendo poder sobre eles e, sobretudo, muito dinheiro!

Agora adivinhem lá em que países é que o Protestantismo pegou?

Protestantismo (azul) na Europa, no fim da Reforma Protestante
Nos países do Norte!

Nestes países a cultura e valores Protestantes levaram a população a valorizar uma ética de trabalho dura e a guardar as riquezas acumuladas para os investimentos. O Calvinismo e outros grupos Protestantes mais austeros proibiam efectivamente o desperdício de dinheiro e identificavam a compra de luxos como um pecado.

O Papão já vos começa a parecer mais familiar?

Nós, no Sul, ficámos com a Igreja Católica e com o seu esbanjamento e corrupção, e começámos a demonizar e a transformar o Papão de maneira a representar esses valores de austeridade e trabalho árduo.

Martinho Lutero como a Corneta do Diabo
Portanto o que é que aconteceu?

Tínhamos medo dos Bárbaros do Norte Gelado, e por isso ensinámos-lhes o jogo da Civilização para os tentar controlar e tirámo-los da idade do ferro para a primeira idade da razão.
Depois eles ganharam-nos a esse jogo.

Esta ideologia de austeridade, trabalho árduo, privação de prazeres é, naturalmente, muito boa para se ganhar poder económico, de tal maneira que hoje ainda se vê uma grande divisão económica entre países Católicos (do Sul) e países Protestantes (do Norte).

Os Bárbaros do Norte Gelado transformaram-se nos países mais ricos e desenvolvidos da Europa, e agora estão a cobrar ao Sul anos e anos de corrupção e má-gestão económica.

De certa forma a guerra religiosa entre os Protestantes e os Católicos perdeu o seu cariz religioso mas continuou-se como uma guerra económica, que os do Norte estão a ganhar.


Quem é o nosso Papão actual?

O nosso Papão actual é representado pelas medidas de Austeridade, pelo aumento das horas de trabalho, pelos ideais do trabalho-árduo e do auto-sacrifício, pelo aumento dos impostos, da redução das férias.

E este Papão vem do Norte. Da Alemanha, da Inglaterra, da Escandinávia.

A narrativa da actual crise sócio-económica encaixa no trope do Grim Up North.
Vêmo-nos a nós mesmos como o Underdog do Sul que está a ser injustamente atacado pelo Dark Lord do Norte, que quer que trabalhemos mais e ganhemos menos.


Uma série como o Game of Thrones é uma metáfora particularmente adequada para a situação actual.

Temos uma população empobrecida, sistematicamente maltratada pelos seus governantes corruptos e debochados, que vão ter de pôr de lado os seus conflitos internos (entre si e com as suas populações) para conseguirem unir forças e lutar contra a ameaça comum que vem do norte Gelado, que os quer transformar em zombies.


Temos de nos organizar, temos de lutar, porque não tenham dúvida nenhuma...

Winter is Coming.


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segunda-feira, 27 de julho de 2015

O Papão vem do Norte - Parte II

Como é que um Bárbaro se transforma num Padre? Descubram agora, na Parte II de O Papão vem do Norte!

Na Parte I expliquei que a prevalência na nossa cultura do trope Grim Up North, com a sua correlação entre o Mal e o Norte Gelado, tem a sua origem na nossa cultura Românica através da qual herdámos o seu medo dos Bárbaros que vinham do norte.

Mas este Papão dos Romanos, o bárbaro selvagem e violento que vem do norte para comer as crianças romanas que não comem a sopa toda, não corresponde bem ao nosso Papão actual que é culpador, austero, severo, que prega o auto-sacrifício e a penitência e limita os prazeres.

Como é que o Papão se transmuta de uma imagem para a outra, sem no entanto nunca deixar de vir do Norte Gelado?

Para o compreendermos temos de começar pela Igreja Católico-Romana.


O cristianismo torna-se a única religião oficial do Império Romano no ano 380 e é uma das principais ferramentas na sua política expansionista e conquistadora. 
Espalham a fé cristã por toda a Europa e quando Roma cai a Igreja Católica é a única coisa que resta para manter acesa a luz piloto da civilização.

Não é uma tarefa fácil se se é uma religião pacifista de "oferecer a outra face" sem exércitos profissionais. 
A melhor ferramenta que tinham era o monopólio da Palavra de Deus. Portanto, em vez de combater directamente os Bárbaros do Norte, a Igreja dá continuidade ao que os Romanos tinham iniciado antes, e continua a converter e a civilizar as tribos.
É mais fácil ensiná-las a terem medo do Papão e depois dizer que se é o representante do Papão na Terra, e os únicos capazes de transmitir a vontade do Papão.


Não podemos esquecer nunca a mentalidade da população desta altura: era um povo completamente ignorante, maioritariamente analfabeto (mesmo a nobreza), incrivelmente supersticioso e profundamente religioso.
Não havia distinção nenhuma entre pensamento mágico e pensamento lógico, e a preocupação com o futuro da alma era uma coisa muito importante na vida diária.

Portanto quando a Igreja Católica dizia ao povo que se não se privassem dos prazeres terrenos, se não trabalhassem muito, se não fossem obedientes, as suas almas iam ser atormentadas para o resto da eternidade, eles acreditavam, pegavam na enchada e iam cavar.


O que acontece quando se tem uma mão de obra do tamanho de um continente, obediente e a trabalhar de graça é que se enriquece muito.

Com as quantidades exageradas de dinheiro vêm os excessos, a opulência e a corrupção.

A Igreja Católica tornou-se notória nessa altura pela sua riqueza e deboche, que podem ser encapsulados na figura do Papa Alexandre VI, chamado Rodrigo Bórgia, acusado de excesso de gastos, venda de cargos da Igreja (simonia), lascívia, e nepotismo.

Papa Alexandre VI
A Santa Igreja Católica Romana podia dar-se a estes luxos, riquezas e corrupções, porque o Sul da Europa, como já dissemos na Parte I, era muito fértil e havia sempre muita comida.
Mesmo que num ano houvesse excesso de gastos ou as reservas de comida fossem desviadas para alimentar um exército qualquer, ou um governador corrupto decidisse ficar com elas, havia sempre umas pontinhas que restavam que davam para que a população não morresse à fome.
No ano a seguir voltavam a plantar e recuperavam as reservas todas outra vez.

Mais valia reunir os pobres todos e cagar-lhes em cima
No Norte da Europa, onde havia muito frio e gelo e havia menos luz e menos calor, a terra era menos fértil, e os invernos extremamente rigorosos. Não havia margem de erro possível.
Se numa aldeia houvesse corrupção e a comida fosse açambarcada ou desviada, morria tanta gente que no ano seguinte não havia gente suficiente para voltar a plantar, e morria a aldeia inteira.

Não havia espaço para a corrupção. Tinha de ser tudo contado e igualmente distribuído por todos, se queriam ter hipótese de sobreviver.
É razoável pensar que teriam ficado chocados e indignados com os gastos exagerados dos países do Sul.

Por curioso que possa parecer, o que os chocava mais até era a venda de Indulgências.


Porque aparentemente se passarem séculos a ensinar ao povo que se sofrerem e forem obedientes e subservientes o suficiente podem livrar-se do pecado original e ganhar o paraíso e a vida eterna mas depois permitirem aos ricos e nobres que comprem a sua entrada no paraíso apesar de todos os excessos e pecados que cometeram, isso chateia as pessoas.

Existiam até padres especializados na venda de Indulgência, chamados quaestores que tentavam obter a maior quantidade de dinheiro possível por cada Indulgência vendida, a troco da salvação eterna. Este dinheiro acabava por ir parar às mãos da Igreja ou do Rei local, e era usado para a construção de Catedrais ou para financiar Crusadas.

Martinho Lutero
Essas desigualdades criaram tensões que foram crescendo e crescendo até que um padre alemão chamado Martinho Lutero se chateia e um dia, em 1517, prega na porta da igreja um documento a criticar a Santa Igreja Católica Romana e o Papado.

Esse documento criticava sobretudo a venda de Indulgências, políticas doutrinais acerca do purgatório, juízo particular e a autoridade do Papa. Promovia uma noção de igualdade entre os homens, promovia a educação e refutava a ideia de que algumas pessoas nasciam já com direitos divinos a serem ricas.

Outra coisa extremamente importante que Martinho Lutero fez foi traduzir a Bíblia do latim para o alemão vernacular, o que permitiu à população leiga ler pela primeira vez a Palavra de Deus.
A importância disto não pode ser minimizada, mas eu precisava de todo um outro artigo para o explicar.



Basicamente, o povo começou a ler a bíblia e a interpretar à sua maneira as histórias que lá vinham.
Em particular, aperceberam-se da figura de Jesus Cristo como um pobre que defende os pobres, e abraçaram a ideia de que não havia nenhuma lei divina que os obrigasse a serem pobres a vida toda.

(Curiosamente, na narrativa bíblica da história de Jesus Cristo passada em Jerusalem, os invasores maus-da-fita vêm de Roma, a Norte).

Estas ideias espalharam-se viralmente pelos pobres e camponeses da Europa, que decidiram fazer alguma coisa acerca do assunto.
Escusado será dizer que a Igreja Católica não gostou nada disso.

O que é os camponeses europeus fizeram, e o que é que a Igreja fez acerca disso?
Descubram na Parte III de O Papão vem do Norte.

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quarta-feira, 15 de julho de 2015

O Papão vem do Norte - Parte I

A série de televisão Game of Thrones é uma metáfora da crise sócio-económica actual! 
Deixem-me explicar-vos porquê.

Já falei do poder da narrativa, e de como a nossa cultura/sociedade é reflectida pelas histórias que contamos acerca de nós mesmos.
Também já falei várias vezes do poder do Papão, e de como foi instrumental no início da civilização e da espécie humana.
Como é natural as histórias que contamos acerca do Papão dizem muito acerca do nosso passado e da maneira como interpretamos o mundo actualmente.

Um trope particularmente importante neste contexto, é o Grim Up North.

The Frozen Legion
O Trope caracteriza-se por uma associação directa entre os Poderes do Mal e as terras frias, escuras, remotas e inóspitas de onde ele vem, geralmente chamadas simplesmente "O Norte".
O Dark Lord tem sempre uma fortaleza no Norte, de onde várias raças maléficas imunes ao frio, geralmente mortos-vivos, saem para estragar a vida aos homens, elfos e anões das terras quentes do sul.

Este trope, e a sua associação entre o Norte, o frio e a morte, está presente na nossa cultura de muitas maneiras
- na banda desenhada 30 Days of Night, os vampiros são frios e imunes ao frio, como em imensas outras representações de vampiros
- nos livros do Tolkien, o Deus do Mal, Morgoth, tem fortalezas no norte gelado, Angband e Utumno.
- no jogo de computador Warcraft III/World of War os principais vilões são a Frozen Legion, um exército de mortos-vivos que vivem no Norte Gelado
- no universo do Game of Thrones o Norte é particularmente importante, sendo de onde vem os White Walkers, que reanimam os corpos dos mortos para destruir o mundo


Utumno, fortaleza de Morgoth

E muitos outros exemplos de que de certeza se lembram.

Porquê?

Porque é que esta associação entre o Mal e o Norte Gelado é tão transversal à nossa cultura?

Em primeiro lugar há a associação imediata entre o calor de um corpo vivo e o frio de um corpo morto.
Depois, como também já expliquei, a Civilização nasceu à custa da Agricultura, e nessas sociedades agrícolas primitivas a Primavera e o Verão correspondiam a períodos de produtividade, colheita e abundância, aos quais se seguiam os meses de frio do Outono e do Inverno nos quais havia escuridão, frio, fome, doença e morte.

Também importante, e intimamente relacionado com isso, é o facto de que essas sociedades agrícolas primitivas só podiam desenvolver-se em locais particularmente férteis onde conseguissem fazer crescer as suas plantas. Isso implica necessariamente que as primeiras civilizações surgiriam sobretudo para o sul, onde é mais quente, e próximo da água.
E de facto os primeiros lugares onde a agricultura foi inventada foram exactamente o Egipto, a Mesopotâmia e a Suméria, todas ali no quentinho do sul, próximo do mediterrâneo


Durante os séculos que se seguiram o padrão foi-se mantendo sempre mais ou menos o mesmo, com as sociedades humanas mais avançadas a localizarem-se à volta do Mediterrâneo, onde é quentinho e há muita água.


De todas estas civilizações mediterrânicas os Gregos e os Romanos foram quem mais influenciou a nossa cultura ocidental actual. Muitas coisas que hoje consideramos as bases da nossa sociedade vieram dos gregos e dos romanos, desde a democracia, legislação que trata todos os cidadãos de forma igual, a filosofia que deu origem à ciência moderna, a arquitectura e a engenharia civil, tácticas militares e a ideia de um exército profissional, segurança e saúde pública, tribunais, aqueductos, até mesmo a narrativa das suas obras literárias, poéticas e teatrais.

Os Romanos, no seu melhor, eram a civilização mais sofisticada e avançada que o mundo já tinha visto na história da humanidade.
É seguro dizer que aquilo que hoje consideramos a nossa sociedade foi largamente herdado dos Romanos e dos Gregos. Não seria de espantar então, que também tivéssemos herdado os seus medos.

E de que é que os Romanos (mais recentes que os Gregos), tinham medo?

Dos Bárbaros.


Os Bárbaros, para os Romanos e para os Gregos, eram os povos não-civilizados, que não falavam latim, e que sistematicamente e regularmente atacavam para roubar, pilhar, violar e matar.
Foram um dos principais problemas do Império Romano Ocidental, e um dos principais factores que levaram à sua queda.

E de onde é que vinham os Bárbaros?


Vinham do Norte!

Eram os Germanos, os Alamanos, os Visigodos, os Gauleses, os Anglos, os Saxões, os Francos, os Pictos, os Godos, os Lombardos, uma multitude interminável de tribos bárbaras, sujas, feias, selvagens, indisciplinadas que vinham do norte da Europa, aterrorizar os Romanos vestidos de toga, acabados de sair de um banho público.

Durante séculos, o Império Romano foi atacado por esta ameaça bárbara que vinha do Norte Gelado, e esse medo ficou profundamente enraízado nessa cultura que nós herdámos!

Mesmo depois da queda de Roma, quase cinco séculos depois, quando Carlos Magno é coroado o primeiro Santo Imperador Romano e consegue trazer alguma forma de civilização de volta à Europa, volta a ter problemas com tribos bárbaras vindas do norte, desta vez os Eslavos, os Pictos, os Danos e outros Vikings que tais.

As civilizações do Sul sempre tiveram medo das Ameaças do Norte. Quando os pais romanos queriam meter medo aos filhos, falavam-lhe do Papão vindo do Norte que os ia matar se eles não comessem a sopa.

Mas como é que o Papão dos Romanos se transformou disto:


Nisto:


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segunda-feira, 15 de junho de 2015

Homofobia e o Papão

Cada vez que vejo que há pessoas genuinamente homofóbicas fico razoavelmente divertido.

É divertido de se testemunhar no mesmo sentido que era engraçado ver o racismo casual e semi-inocente da minha avó de 80 anos.
É um artefacto, um fóssil vivo de idades passadas. Já ninguém fala como a minha avó falava dos pretos
É chocante e antropologicamente fascinante ao mesmo tempo.



É isso que sinto em relação a pessoas homofóbicas. São estúpidas, e eu tenho sempre uma curiosidade mórbida em ver até onde chega a estupidez das pessoas.
Dou-lhes trela, não os critico. É uma homofobia quasi-inocente, com poucas consequências.
É como ver macacos a tirarem macacos do nariz.

Mas é fácil esquecer, ao olhar para os risíveis homofóbicos mongolóides, que o comportamento deles é motivado pelo Papão.
Porque o papão aparentemente não gosta que andem por aí tipos másculos a acariciarem-se mutuamente. É feio!

Costuma surgir a discussão (não faço sequer ideia como é que ainda há pessoas que sentem que esta é uma discussão que vale a pena ter) sobre se se nasce homossexual ou se a homossexualidade é uma escolha.



Porque era chato admitir que se pode nascer homossexual, porque nesse caso era o próprio Papão que estava a criar homossexuais, e o Papão nunca se pode contradizer.

Não, a homossexualidade, é uma escolha, balbuciam eles. Claramente aquele homem decidiu introduzir o seu pénis no esfíncter anal daquele outro homem. Foi uma escolha, uma decisão propositada e provavelmente premeditada.

As pessoas que têm dois dedos de testa replicam que não é sequer esse o cerne da discussão. Da mesma maneira que uma pessoa nasce a gostar da genitália do sexo oposto, há quem se interesse por genitália parecida à sua. É intrínseco e imutável.


Mas este argumento tem uma falha. Parte de uma suposição errada, que o deixa vácuo de sentido.
Este argumento assume que os homofóbicos são mais movidos pela estupidez do que pelo Papão.
Assume que os atrasados mentais não conseguiram perceber que os homossexuais já nascem daquela maneira e que por isso presumem que qualquer coisa em contrário só pode partir de uma escolha.

Não não. Os homofóbicos não têm problemas com que alguém nasça homossexual, isso é de somenos importância.

Mas que decidam agir de acordo com essa orientação sexual? Ah isso é que o Papão proibiu especificamente!


Os homofóbicos sabem que os homossexuais não podem simplesmente escolher ter interesses diferentes. Sabem-no perfeitamente. Mas também sabem que os homossexuais podem escolher fingir, e reprimir-se e abafar-se e não deixar transparecer que são quem são.

Qualquer comportamento é uma escolha.
Eu escolho levantar-me e ir trabalhar e ser simpático. É um comportamento que eu detesto, que remédio tenho eu senão comportar-me assim.

Os homofóbicos não se importam realmente que para os homossexuais seja doloroso reprimir-se. Ou se calhar até se importam.
Mas mais importante que isso é não desobedecer ao Papão!
Se é preciso sofrer para não desobedecer ao Papão, então que assim seja.

Os homofóbicos dirão aos homossexuais para se esconderem, mostram-lhes que independentemente do que sintam, não podem é demonstrar a sua homossexualidade, porque isso é mau.


E os homossexuais de facto decidem expressar-se naturalmente.
Decidem não se reprimir e escolhem ser quem são.

É uma escolha, e é essa escolha que irrita os homofóbicos.
Porque é uma escolha a favor do próprio e não do Papão.
Porque é uma escolha que vai directamente contra a vontade do Papão.

E isso é mau. É perigoso.

É por isso que os homofóbicos não são só estúpidos, também são más pessoas.
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