Pataniscas Satânicas

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terça-feira, 5 de abril de 2016

But it's haaaaaaaard!

Problemas de matemática? Velhinhas confusas? Factores socio-económicos? Eu a queixar-me de que a vida é difícil?

Vamos falar sobre isso!



Deixem-me explicar-vos porque é que isto é difícil.

Lembram-se de quando estavam no secundário e tinham matemática?

E se pensarmos no assunto, a matemática que nos ensinavam no secundário era razoavelmente complicada (para mim era).
Davam-nos uma quantidade de números letras e gatafunhos de um lado, uma data de incógnitas e fracções e abstracções do outro lado, com um sinal de igual (=) no meio e diziam-nos "Agora provem que estas duas coisas são iguais uma à outra".

Aposto que se eu vos desse uma coisa destas hoje, e vos dissesse "olha, agora resolve esta equação", muitos de vocês iam começar a sentir-se desconfortáveis e a dizer mal de mim entredentes.



E aquilo não era simples (para mim).

Resolver uma daquelas equações mais complicadas dava trabalho, exigia uma ginástica mental que não é a que usamos habitualmente para resolver as coisas do dia-a-dia.
Porque resolver uma dessas equações matemáticas necessitava de uma compreensão muito forte de todas as regras e leis subjacentes.
E eram muitas regras e leis que tinham de estar presentes na nossa cabeça todas ao mesmo tempo para que sequer conseguíssemos começar a resolver o problema. Era preciso memorizá-las.

E cada passo da resolução tinha de estar muito bem pensado. Um erro mínimo num dos passos ia-se repercutir quase imperceptivelmente até que a determinada altura as coisas começavam a não fazer sentido e tínhamos um resultado errado.

Portanto para além de exigir uma compreensão e memorização muito forte de todas as bases, a resolução exigia imensa atenação a cada passo para garantir que não escapava nenhum pormenorzinho e no fim se chegava a um resultado certo.


E às vezes havia equações que necessitavam que se fosse resolver componentes do problema aparte. Lembram-se dessas?

Às vezes durante o processo de resolução do problema matemático chegávamos a uma componente que reconhecíamos como "Ah, isto é a equação daquele grego que inventou os números no ano 500 antes de Cristo! Eu posso resolver isto recorrendo à fórmula daquele italiano do séc XIV que também inventou uma data de números"

E tinham de pegar nessa componente do problema matemático e resolvê-la paralelamente. E muitas vezes essa resolução exigia usarem ferramentas e conhecimentos que nem estavam directamente relacionados com o problema original. Isso para depois poderem pegar no resultado que saísse daí e inseri-lo no problema matemático maior para poderem continuar a resolver esse.
Claro que resolver essa componente implicava o mesmo tipo de compreensão e atenção que tudo o resto. Se houvesse algum erro nessa componente, o resultado que daí saísse ia estragar toda a resolução do problema maior.

Portanto resolver um problema matemático grande exigia um conhecimento sólido das bases, uma atenção tremenda a cada passo e a capacidade de usar ferramentas diferentes em vários componentes simultâneamente, mantendo tudo em mente ao mesmo tempo para não escapar nada.


Agora imaginem que nesse problema matemático, as coisas não funcionavam matematicamente.

Ou seja, imaginem que 1+1 não é obrigatoriamente =2.

Imaginem que 1+1 também pode ser =1,89.

Ou =2,2.

Ou seja, neste problema que estão a tentar resolver, os resultados podem ser variáveis e ainda assim estarem certos, e quando tentam resolver 1+1 o resultado pode ser qualquer coisa entre 1,75 e 2,25.

Mais ainda, quando vos dizem 1, isso pode na realidade significar 0,95. Ou 1,07.
Sabem que 1 pode significar qualquer coisa entre 0,9 e 1,1, mas nunca têm a certeza do valor real.

Ou seja, os dados que vos dão não estão rigorosamente definidos, e os resultados que de lá saem têm uma variabilidade desconhecida mas inevitável.

Portanto imaginem resolver um problema matemático complexo, com imensos componentes diferentes, os quais têm de ser resolvidos todos paralelamente, com uma enorme atenção a cada um para evitar erros que possam estragar o resultado final, recorrendo a várias técnicas e ferramentas diferentes, e usando dados indefinidos e variáveis.


Agora imaginem que a pessoa que vos está a fornecer esses dados indefinidos e variáveis não percebe nada de matemática.

Essa pessoa fornece-vos esses dados de forma desordenada, e pode nem sequer vos dar todos os dados.
E que às vezes confunde 1 com 2 (que lembrem-se, à partida podem significar qualquer coisa entre 0,95 e 1,1 ou 1,95 e 2,1).

Portanto para resolverem o vosso problema têm de perguntar à pessoa "Então, é 1 ou 2?" e a pessoa responde "Acho que é 1" e vocês dizem "Tem a certeza?" e a pessoa responde "Se calhar pode ser 2? Talvez?"

Porque aquilo que vocês entendem como 1 pode não ser o mesmo que a pessoa entende como 1, portanto primeiro têm de se certificar que estão a falar do mesmo 1.

Ah, e a pessoa pode estar a mentir-vos propositadamente! Não nos esqueçamos dessa possibilidade.

Ou seja, os dados que a pessoa que não percebe nada de matemática vos está a dar para vocês resolverem o vosso problema de matemática que não funciona matematicamente, esses dados podem ser influenciados pelas emoções da pessoa.


E as emoções dessa pessoa podem ser influenciadas por tudo: desde a infância dessa pessoa, ao seu fundo cultural, às suas crenças religiosas, se tem família, quantos são, quanto dinheiro tem ou se o governo, por causa do clima económico global, lhe reduziu o salário e ela agora na fábrica onde trabalha tem de usar um capacete que lhe aperta a cabeça porque a Europa mudou as regras de segurança para as fábricas, e essa pessoa tem medo de perder o emprego.

E a melhor maneira de vocês saberem se o 1 dessa pessoa significa o 1 que vocês precisam para resolver o problema, é compreenderem a infância dessa pessoa, e conhecerem crenças religiosas e terem uma noção do clima económico global e das novas regras de segurança nas fábricas.

Agora imaginem que esta pessoa vos está a trazer este problema para vocês resolverem porque ela precisa da solução deste problema para poder viver a sua vida.

Ou seja, que o bem-estar e a qualidade de vida desta pessoa dependem de haver uma solução para o problema. Se não houver uma solução, esta pessoa vai estar em sofrimento emocional e físico, e a pessoa sabe isso, e por isso é que vos trouxe este problema para vocês resolverem.

E está sentada à vossa frente, a olhar para vocês, à espera que resolvam o problema, porque ela vai continuar em sofrimento se não o fizerem.


E agora imaginem que não só a solução tem de estar certa, mas que se estiver errada isso pode estragar ainda mais a vida a essa pessoa.
Não é impossível que, se se enganarem no resultado, esta pessoa MORRA.

Portanto não só é um problema complicado, com base em termos incertos, fornecidos por uma fonte que não é fiável, mas o resultado desse problema tem consequências enormes e potencialmente graves se não estiver certo.

E agora imaginem que a MANEIRA como dão essa solução à pessoa tem influência no resultado do problema.
Não basta chegarem à solução certa, a maneira como explicam a solução pode fazer com que o problema não fique resolvido de todo.

Porque não se esqueçam que esta pessoa não percebe nada de matemática, portanto mesmo que tenham conseguido chegar à solução de 1+1, ainda têm de traduzir o 2 para uma linguagem que a pessoa perceba.

E porque essa pessoa não percebe nada de matemática, se calhar não aceita o 2. Se calhar estava à espera de um 3 ou dava-lhe mais jeito um 4, e vocês têm de a convencer que não, é mesmo mesmo 2.

E não se esqueçam, é possível a pessoa MORRER se fizer o 3 ou o 4. Tem mesmo de ser o 2.
E se não fôr o 2 a culpa é vossa porque não traduziram o 2 de maneira a que a pessoa percebesse.


Agora imagine que a melhor maneira de a pessoa perceber e aceitar a sua solução é você investir emocionalmente nessa solução. Por outro lado um desligamento afectivo e uma abordagem intelectual e fria tem menor probabilidade de sucesso.

Se você conseguir criar um investimento emocional genuíno na solução e na pessoa, aumenta a eficácia da solução. Se você der uma parte de si mesmo, das suas emoções, se empatizar com a pessoa à sua frente, está a aumentar a probabilidade de essa pessoa não morrer.



Portanto.

Imaginem resolver um problema complexo, com imensos componentes diferentes, os quais têm de ser resolvidos todos paralelamente, com uma enorme atenção a cada um para evitar erros que possam estragar o resultado final, recorrendo a várias técnicas e ferramentas diferentes, e usando dados indefinidos e variáveis.
Esses dados são-lhe transmitidos por uma fonte que não compreende o problema e que não é fiável porque está influenciada por uma quantidade inumerável de factores psicológicos, culturais e económicos. Essa fonte não só quer muito uma solução para o problema, como você sabe que a solução para esse problema tem consequências enormes e potencialmente graves na vida dessa fonte.
A fonte do problema, que exige a sua solução, pode não compreender ou aceitar a sua solução, e a melhor de fazer com que isso aconteça é criar um investimento emocional e pessoal no problema.

Agora imaginem que têm 10 minutos para resolver este problema.

20 vezes por dia.

5 dias por semana.

Portanto...


... não me pagam o suficiente para isto.
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quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Como perguntar a alguém sobre a sua urina

Comunicar com os doentes é notoriamente difícil.

É difícil porque basicamente eu e os doentes falamos línguas diferentes. O doente sabe o que sente subjectivamente, e interpreta o que sente a partir do seu próprio ponto de vista com base na sua própria narrativa fluida, misturando sensações com emoções.

Eu falo em medicalês, que é uma linguagem exageradamente precisa, com cinco nomes diferentes para caracterizar cada sintoma, distinções precisas entre sinais e sintomas, com necessidade de provar ou negar pormenores que parecem irrelevantes, tudo numa linha de tempo muito exacta.

É difícil...

Desta vez consegui uma coisa rara, que foi uma conversa que tive com um amigo meu através de chat, e na qual, sem qualquer tipo de planeamento, este tipo de dificuldades se demonstraram de forma muito clara.



Só para terem um bocadinho de contexto, ele estava com queixas urinárias. Uma das coisas importantes a perceber nas infecções urinárias nos homens é a dificuldade de começar a urinar, que pode estar relacionado com patologia da próstata.
Se a próstata estiver aumentada de tamanho, como numa prostatite, bloqueia a uretra, e isso é sentido como dificuldade em começar a urinar porque é preciso primeiro vencer a pressão que a próstata aumentada provoca.

Ele é um tipo muito inteligente, de engenharia informática, que em qualquer outra situação consegue sempre explicar-se de forma extremamente clara.

Eu estava a perguntar-lhe acerca de uma data de sintomas, entre eles a dificuldade em iniciar a micção.

Eu: Tens dificuldade em começar a urinar?

Ele: Desde que comecei a usar o medicamento (Flavoxato, um medicamento para aliviar sintomas urinários) tenho alguma dificuldade.

Eu: E antes do medicamento?

Ele: Antes do medicamento não sentia tanto assim.

Eu: Isso quer dizer que sentias?

Ele: Não era significativo o suficiente para notar diferença.

Eu: Mas sentias ou não?

Ele: Era capaz de sentir alguma diferença mas não era uma dificuldade notória. Agora é notório. Tenho de contrair os abdominais.

Eu: Sentias mas não notavas? Não percebo.

Ele: Ok, quando vais urinar, começas imediatamente a urinar? Eu não. Demoro um bocado a começar, 1 segundo se tanto. Antes da medicação seria 1,5 segundos; não notava nada que me impedia e que necessitasse de contrair o que fosse.

Eu: Portanto, antes da medicação, o iniciar da micção era igual ao que sempre era?

Ele: Sim, simplesmente viria ao momento que viesse.

Eu: Pronto.

Ele: Demora um bocado mais mas nada de significativo

Eu: Demorava um bocado mais do que o normal?

Ele: Sim, os tais 0,5 segundos se tanto.

Eu: Mas isso não é o normal?

Ele: Normal seria 1 segundo. Como eu disse, a diferença não era significativa.

Eu: Mas havia uma diferença em relação ao normal ou não?

Ele: Havia diferença de tempo, mas não tinha de me contrair para urinar. A diferença de tempo era mínima, mas existia.

Eu: Então não era igual ao normal?

Ele: É igual ao normal mas demorava um bocado mais a sair.

Eu: Então era igual ou não?

Ele: Aaaaaaaah! Meu, eu sei o que tás a fazer, por isso vou-te responder à informática:
normal: standby de 1 segundo -> piss
com sintomas, sem medicação: standby de 1,5-2 segundos -> piss
com sinstomas, com medicação: standby de whatever -> contrair para mijar -> piss

Eu: Pronto! Então quando eu te perguntei se antes da medicação, se o iniciar da micção era igual ao normal, a resposta seria não. Correcto?

Ele: Exacto!

Eu: Pronto! Chiça que isto foi difícil!


Ainda neste momento, ao reler a conversa, tenho dificuldade em perceber porque é que foi tão difícil.

Na minha cabeça eu estava a perguntar uma coisa extremamente simples, uma pergunta de sim ou não.
Ele estava a tentar ajudar-me, a dar-me pormenores que me clarificassem o diálogo, mas na minha cabeça esses pormenores só tornavam a coisa mais ambígua ainda.
Eu não consegui fazê-lo perceber que só queria uma resposta de sim ou não.

Não estou a dizer que ele se expressou mal, não estou a dizer que eu fui picuinhas com as perguntas, estou a dizer que este tipo de comunicação é muito difícil de fazer bem.


Agora imaginem tentar arrancar informação medicamente relevante a uma velhinha de 78 anos, meio surda e a caminhar para a demência.


Deviam definitivamente pagar-me mais.


Ps: sim, sim, tenho o consentimento informado dele para postar esta conversa online!
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sexta-feira, 24 de julho de 2015

Porque é que os Profissionais de Saúde devem usar os telemóveis pessoais no local de trabalho


Deixem-me explicar-vos de que maneira isto não é estúpido.

Uma coisa que me irrita é quando as pessoas olham para as decisões do governo (reduzir pensões, cortar subsídios, diminuir férias, aumentar impostos) e o comentário que fazem é "Esta decisão não faz sentido, estes políticos devem ser estúpidos ".
Os políticos são muitas coisas, mas estúpidos geralmente não é uma delas. As decisões que tomam até fazem muito sentido se assumirmos que NÃO estão a ser tomadas para nos beneficiar.


Esta decisão de retirar os telefones aos centros de saúde é mais uma que corre o risco de ser vista como "uma estupidez".

Na prática o que acontece é que os telefones dos gabinetes médicos e dos enfermeiros deixam de ser capazes de fazer chamadas para o exterior, e para um médico usar o telefone tem primeiro de conectar-se à secretaria para lhe fazerem a chamada.

Esta medida de contenção de custos parte de dois pressupostos:

1 - Os custos de telefone são altos;
2 - Os enfermeiros e médicos usam os telefones do centro de saúde para fins pessoais;


Na realidade, devido a um erro administrativo,
todos os telefones são encastrados a ouro e diamantes.

Pegando por exemplo na Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo, podemos ver que quem lhes trata dos telefones é a MEO. Ora a MEO fornece chamadas sem limite grátis nacionais com um custo mensal fixo de 4€.

Mesmo assumindo que o Ministério da saúde não consegue um negócio melhor com a MEO, o custo mensal em chamadas telefónicas não depende do número de chamadas nem da duração das mesmas.

Portanto nem os custos de telefone são altos, nem dependem das chamadas que são feitas, o que invalida o pressuposto 1 e significa que esta medida não vai poupar nada.

Retirar os telefones aos médicos e enfermeiros na prática só vai criar mais um obstáculo ao normal funcionamento do dia-a-dia, irritando-os, aumentando a frustração ainda mais e fazendo com que estes profissionais não queiram trabalhar no Serviço Nacional de Saúde (SNS).


O pressuposto 2 parece saído de um filme de comédia americano dos anos '90, nos quais os pais de uma rapariga adolescente a impedem de fazer chamadas porque ela está sempre a falar com as amigas.

Virtualmente todos os profissionais de saúde têm, hoje em dia, um telemóvel pessoal. Muitas vezes comprado com o dinheiro que o estado lhes paga ao fim do mês, pela sorte de poderem trabalhar no paraíso que é um centro de saúde português.

Ninguém pensa, de facto, que os tempos de espera e custos associados ao SNS acontecem porque os médicos usam os telefones dos seus gabinetes para mexericar acerca do novo suplemento vitamínico que a Dona Clotilde está a usar esta semana.

Era DESTE tamanho!
Ou pelo menos não pensavam até ter saído esta notícia.

Como é sugerido pelas notícias, isto de telefonar às pessoas custa dinheiro. E os profissionais de saúde, como funcionários públicos que são, gostam de ''exercer a sua actividade profissional''. Ou, em linguagem reconhecida pelos jornalistas do Correio da Manhã, gostam de ''esfolar o contribuinte''.

Mesmo que esta medida não fosse aplicada, de tão ridícula e inútil que é, já tinha servido o seu propósito que é colocar na mente colectiva da população que os médicos são uns calões e que o SNS não presta.

Ou seja, esta medida não é estúpida, nem é sem-sentido.

Esta medida não é mais do que propaganda que tem por objectivo descredibilizar a classe médica e facilitar ao governo a tarefa de desmantelar o SNS.

Alguém andou a ler o meu guia de como Destruir o Serviço Nacional de Saúde para Tótós.


Na realidade eu devia era estar contente com esta medida.

Os médicos e enfermeiros, às vezes, tentam ligar aos doentes para recordar questões relacionadas com a saúde dos mesmos, assim como para os convocar para consultas. Estas questões ocupam tempo valioso dos profissionais, que poderiam estar a consultar calmamente o facebook no seu telemóvel pessoal. A consulta do facebook resulta em diminuição do stress dos profissionais, e prevenção do burnout. 

Ligar à Dona Clotilde, que metade das vezes não atende o telefone, e quando atende, é surda que nem uma porta, desgasta os profissionais. Fazer like no post do facebook da filha da D Clotilde, quando ela se queixa do tempo que perde nas Urgências com a mãe, é muito menos desgastante! E mais barato também!
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quinta-feira, 19 de março de 2015

Destruir o Serviço Nacional de Saúde para Tótós

Imagine que é o governante corrupto de uma república das bananas à beira mar plantada.
Como governante corrupto, o seu objectivo não é governar, mas sim roubar para si e para os seus amigos. Isto é importante. Não se ponha com conversas ou pretensões de moralidade, se você foi para o governo foi com o único proposito de roubar a maior quantidade de dinheiro possível.

Um dos lugares onde pode roubar mais é no Serviço Nacional de Saúde, com o benefício adicional de ajudar os seus amigos e o bónus de fragilizar ainda mais a população.

Vou agora explicar-lhe como o pode fazer em 6 passos simples, e só precisa de uma crise económica global para culpar e para mascarar a sua estratégia.


Passo 1 - desestabilizar os cuidados de saúde primários

Os cuidados de saúde primários são a mais importante componente de um serviço nacional de saúde, portanto são claramente o nosso ponto de partida.

Cada vez que um médico de família se reformar, em vez de abrir uma vaga para o substituir, passe os seus doentes para os outros médicos, aumentando as suas listas de 1500 para 1900 doentes. Não só paga menos salários, como sobrecarrega os médicos que restam, e aumenta os doentes sem médico.
Pode ainda atribuir mais tarefas burocráticas (como atestados para cartas de condução) aos médicos de família, para reduzir ainda mais a sua capacidade de resposta.



Passo 2 - desestabilizar os cuidados de saúde secundários

Pensava que nos íamos ficar pelos primários? Não, vamos destruir tudo!

Já que os cuidados de saúde primários estão com resposta insuficiente, as pessoas vão começar a recorrer mais aos cuidados hospitalares, sobretudo às urgências.
Portanto vai tirar médicos das enfermarias e dos seus trabalhos especializados para tratar de problemas e urgências que podiam ser tratados nos centros de saúde. 
Isto aumenta os custos de saúde obviamente, mas isso é uma coisa boa, como veremos mais à frente.
Pode aproveitar e ainda reduzir as comparticipações dos tratamentos hospitalares e aumentar o custo de acesso às urgências.

Entretanto os idosos internados nas enfermarias morrem, o que não é mau porque assim há menos reformas para pagar. 



Passo 3 - fortalecer os cuidados de saúde privados

As pessoas queixam-se que os hospitais não funcionam bem, que os cuidados nas enfermarias são maus os tempos de espera nas urgências são demasiado grandes, o Serviço Nacional de Saúde tem fama de ser demasiado dispendioso. 

Tudo isto são problemas que você mesmo criou em primeiro lugar e que agora lhe permitem fazer várias coisas.

Como as pessoas estão insatisfeitas com os serviços de saúde públicos, vão recorrer às clínicas e hospitais privados (dos amigos).
Como há pessoas que não querem ou não podem ir ao privado, e o Serviço Nacional de Saúde é insuficiente e tem fama de ser dispendioso, pode fazer contratos (pagos com os impostos das pessoas) para as pessoas irem ter cuidados de saúde a hospitais privados (dos amigos).

Não interessa que estas estratégias sejam mais dispendiosas para o país a curto e longo prazo. Lembre-se, o seu objectivo é roubar, não é ser coerente. 



Passo 4 - enfraquecer a classe médica

Um problema com os médicos é que têm a mania que são alguma coisa de especial, que são importantes para as pessoas e que prestam um serviço essencial ao país.
Adicionalmente enquanto está dependente de um número limitado de médicos para prestar cuidados de saúde, tem pouca margem de manobra e tem de ceder com mais facilidade às exigências desses poucos médicos.
Estas coisas são problemáticas porque de vez em quando os médicos chateiam-se e fazem greves e isso é chato porque aparece nas notícias, e as pessoa zangam-se e você tem de roubar um bocadinho menos durante algum tempo. 
Portanto é importante enfraquecer a classe médica. 

Se tiver os media no seu bolso (e que raio de governante corrupto é você se não tiver?) pode tomar medidas que na prática têm pouco ou nenhum impacto, mas que quando aparecem nas notícias transmitem uma ideia errónea que as pessoas não têm a informação necessária para distinguir da realidade


"os médicos agora tem de trabalhar 40 horas por semana" quando na realidade a vasta maioria já o fazia, e o que as pessoas pensam é que os médicos não querem trabalhar.
"todas as ofertas aos médicos têm de ser declaradas nos impostos" quando na realidade de vez em quando recebiam uns ovos de um doente e umas canetas feias, e o que as pessoas pensam é que os médicos andavam todos a receber carros por debaixo da mesa.
"Os médicos recebem fortunas para trabalhar nas urgências" e às vezes nem sequer querem aceitar esse dinheiro, quando na realidade esse dinheiro está a ser pago às empresas privadas (dos amigos) que os contratam com a mesma remuneração de sempre.

Pode ainda incomodar os médicos e dificultar-lhes a vida implementando controlo biométrico de assiduidade (mesmo em Unidades de Saúde Familiar, que funcionam por objectivos e não à hora). Pode poupar dinheiro (que pode depois roubar) em programas informáticos que funcionam mal para lhes atrasar as consultas e fazê-los parecer incompetentes em frente aos doentes.
Até lhes pode começar a baixar os salários, com a desculpa de que estão a perder eficiência (quando na realidade essa eficiência é medida por fasquias que você mesmo impõe de maneira a serem impossíveis de atingir).



Tudo isto com o objectivo, naturalmente, de dificultar o trabalho dos médicos no SNS e para os obrigar a reformarem-se ou a mudarem-se para o privado (que, mais uma vez, de certeza que vai dar um cabeçalho espectacularmente enviesado "Médicos recusam trabalhar no SNS").

Outra coisa inteligente que pode fazer é transformar os médicos num recurso abundante e, portanto, sem poder reivindicativo. Como é que faz isto?

Aumentando o número de faculdades de medicina e não regulando de todo o número de vagas, de maneira a produzir mais recém-licenciados em medicina do que o que sabe fazer com eles.
Até pode, se quiser, e sempre sob a desculpa de que existe falta de médicos (problema que você mesmo criou), abrir faculdades de medicina privadas (dos amigos).
Desta maneira, daqui a uns 4-5 anos quando todos estes internos se especializarem, você mantém o número de vagas de trabalho reduzidas, e assim pode ter imensos médicos à procura de emprego. Nessa altura você pode começar impôr toda e qualquer restrição que queira, porque a procura é muita e a oferta pouca, e nessa situação o poder está do lado de quem oferece.



Passo 5 - Criar uma nova classe de médicos

Finalmente pode construir toda uma nova classe de médicos formatados e treinados para servirem os seus propósitos.
Dado que o seu objectivo é ter o menor número de médicos possíveis a fazer o maior número possível de consultas, precisa de médicos com uma enorme capacidade de fazer consultas e de trabalhar para os números. Não importam na realidade os cuidados preventivos, o planeamento familiar, a saúde materna, a saúde infantil, o seguimento de doenças crónicas. O que você quer é que as pessoas não fiquem em casa muito tempo constipados e que vão trabalhar o mais depressa possível.

Pode então alterar a formação dos médicos de família de maneira a pôr de lado um treino virado para a compreensão inteligente e cuidados de qualidade, focando ao invés disso o trabalho direccionado por números e de decoranço.

Desta maneira não só estimula ainda mais médicos a irem para o privado, como garante que os que ficam são os autómatos que precisa para verem doentes a metro.



Passo 6 - Colher os benefícios

Portanto o que é que conseguiu atingir com esta estratégia?

Desorganizou completamente a estrutura do Serviço Nacional de Saúde, reduzindo a capacidade de resposta tanto de hospitais como de centros de saúde, de maneira a que os centros de saúde se tornaram em repartições públicas e os hospitais estão focalizados no tratamento urgente de problemas pouco graves.
Isto faz com que as pessoas deixem de recorrer ao Serviço Nacional de Saúde e passem a recorrer aos hospitais privados dos seus amigos.
Conseguiu também cortar as comparticipações nas despesas de saúde dos doentes, ao mesmo tempo que direcciona os seus impostos para dar dinheiro aos hospitais privados dos seus amigos.
Por causa destes problemas todos e da desorganização completa da saúde, as pessoas têm de recorrer a seguros de saúde (das seguradoras dos amigos).
Conseguiu afastar os médicos dos empregos seguros do estado e direccionou-os para a precaridade do trabalho privado (dos amigos), e reduziu enormemente a influência que pudessem ter na população.
Até conseguiu dar faculdades de medicina privadas para os seus amigos.

As pessoas começam a morrer imenso, mas pode pôr a culpa no tempo.

A cereja em cima do bolo é que uma população com menos saúde, mais preocupada com as doenças dos filhos e dos idosos, não sai tanto à rua para se manifestar!



Portanto resta tanto dinheiro para si e para os seus amigos que pode agora viver o resto da sua vida a subsistir exclusivamente numa dieta de lagosta recheada de lagosta, cocaína e prostitutas.

Não perca ainda os nossos outros guias práticos:
"Destruir o Ensino em Portugal para Tótós"
"Destruir a Indústria Nacional e Mercado de Trabalho para Tótós"
"Vender o País à China e fugir para um Paraíso Fiscal para Tótós"


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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Testículos

Podem não saber isto, ou nem sequer alguma vez terem pensado nisso, o que não seria de todo estranho dado que também não é algo em que eu quereria pensar.
Mas por vezes o meu dia de trabalho começa com a possibilidade de afagar os testículos de outro homem.

Não é que seja incrivelmente frequente, porque até nem é. Mas para mim já aconteceu vezes demais. Ou seja, mais do que uma.
Não gosto particularmente de tocar nos testículos de homens estranhos! Acho que é razoável.



Não tenho nada contra testículos, ou sequer contra tocar em testículos (aliás é uma coisa que recomendo), e nem sequer contra o gosto de tocar em testículos.
Sabe Deus que eu já andei a mexer nos meus! "Que é  isto? Isto é muito estranho! Mas é bom de uma maneira que não me parece certa. Olha olha! O escroto esta a mexer-se sozinho" com Deus ao meu lado, a ver (porque está em todo o lado).

Não, a mim o que me incomoda é ter de mexer nos tomates de estranhos. Logo pela manhã. Não sei se à tarde seria melhor, mas não consigo deixar de achar que de manhã é pior.


É embaraçoso para o doente, é chato para mim que tenho de ir buscar uma luva e andar a enfiar o dedo no escroto de outro homem.
Sabem como é o exame objectivo de uma hérnia inguinal, sabem? Não é agradável para ninguém envolvido!

Não é que me incomode de sobremaneira! Até já fiz coisas piores. Mas afagar os tomatinhos de um obeso logo a seguir ao pequeno almoço... eh pá...


Porque nem sequer é preciso a maioria das vezes! Nunca apanhei uma torção testicular aguda, nunca apanhei um tumor que ia destruir a vida do homem se eu não o diagnosticasse cedo.

Já meti o dedo no cu de muita gente, mas também já apanhei massas rectais suspeitas, hemorragias activas, próstatas pétreas, etc. Pude pensar: "Enfiar o meu dedo no cu de outra pessoa valeu a pena! Foi uma acção válida, com valor social e médico comprovado, e merecedora do meu tempo"



Nem sequer consigo ter o mesmo sentimento minimamente compensador em relação a mexer nos tomates de outro homem. A única coisa que me passa pela cabeça é "OH MEU DEUS PORQUE É QUE EU TENHO DE FAZER ISTO!?".

O que eu apanho quando faço palpações testiculares são homens de meia idade, geralmente bem aprumados, a quem disseram quando eram mais novos que era feio tocarem em si mesmos, e então quando chegam a uma idade em que já não têm sexo com a mulher que têm há vinte anos e começam a dedicar-se à nobre arte da masturbação é que notam "Olha! Há aqui para baixo coisas que eu nunca tinha reparado!"



E pensam em cancro. É claro que pensam em cancro! Porquê pensar em qualquer outra coisa quando se pode pensar em cancro? Porquê passar pelas preocupações de "estará inflamado?", "se calhar magoei sem dar por isso", "será uma infecção?", quando se pode perfeitamente atalhar directamente para "É cancro!"?
Ninguém vai ao médico com medo de ter uma gonorreia. Vão quando estão a urinar pus e sangue.
Mas vão ao médico com medo de cancro. Ninguém se imagina a ter gonorreia, apesar de ser mais prevalente que o cancro testicular.

Não, se vão ter uma doença, é cancro!



E é engraçado ver homens com medo de cancro! As mulheres com medo de cancro lidam com esse medo, pegam nele, assumem-no, expõem-no sem hesitação. Porque estão habituadas a ligar com emoções intensas. Porque têm um medo muito saudável e real do cancro! Cancro da mama, cancro do colo do útero! Sabem que estas coisas existem, que são frequentes e que merecem cautela e medo!

Mas os homens entram sem saber o que fazer ao seu medo "Eu, huh, pois... tenho aqui, quer dizer, sinto uma coisa... Acho que é uma emoção. E é forte. Acho que é medo. Não sei bem o que fazer com isto, mas lembrei-me que como você é médico talvez me possa ajudar com isto"

E lá tenho eu de empatizar com o homem, e reflectir as emoções dele para estabelecer uma ligação terapêutica, para lhe poder dizer de uma maneira que não o deixe mais desconfortável ou a sentir que eu não o levei a sério ou, pior ainda, que saia preocupado à mesma, que eles não só não tem nada como aquilo que ele sente é uma parte da anatomia normal deles na qual simplesmente nunca repararam.



Obviamente que ficam contentes por não terem cancro! Mas quando isso passa ficam ali com os tomates na mão a sentirem-ser embaraçados porque os vieram mostrar a um estranho!

E eu penso para mim mesmo "vá, são só uns testículos, é só anatomia, tens uma luva, sê profissional, aparenta estares aborrecido" mas a verdade é que nunca consigo estar indiferente.

E vou para casa a pensar nisso durante uns dias. E no fim penso se o doente também pensa em mim da mesma maneira...


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sábado, 20 de dezembro de 2014

Faz bem

Eu: o que é que estás a comer?
Mãe: Canela!
Eu: porque é que estarias a comer canela?
Mãe: porque faz bem à Diabetes!
Eu: Não faz na-... pera, estás a comer canela misturada com quê?
Mãe: Com mel e sumo de limão.
Eu: Ah, ISSO é que faz bem à Diabetes


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segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Pão

Vocês vêem-nos por aí.

São os filhos da revolução de '74, que nasceram no pós-ditadura, de pais que passaram dificuldades e trabalharam imenso e tiveram fome e sofreram a repressão.
Crianças que cresceram com a afluência de uma economia revitalizada, com o influxo dos subsídios da europa nos anos '80.
São aqueles que nos anos '90 no fim da adolescência, viriam a ser apelidados de Geração Rasca, simplesmente porque não tiveram de ultrapassar as mesmas dificuldades que a geração anterior teve de viver. Preguiçosos simplesmente porque a geração anterior não reconhecia os seus objectivos como válidos.

Cresceram bem, o retrato de uma classe média que estava bem na vida. Quase invariavelmente vestiram trajes pretos na faculdade, embebedaram-se muito, tocaram nas tunas, demoraram mais do que deviam a terminar o curso e ainda mais a arranjarem emprego. Mas no fim dos anos '90 e início de '00 ainda era relativamente fácil arranjar emprego. Posições administrativas, vendedores, paper-pushers. Mas com ilusões de grandeza e influência e eloquência.
São estes que vocês mais vêem a mandar bitaites sobre as políticas de direita e o socialismo e como isto é tudo uma vergonha.

Barrigas de cerveja e comezainas a ver futebol, de que sabem muito. Gordos.
Daqueles gordos que não tinham corpo para serem gordos, que parecem que engordaram demasiado depressa e ficaram tufados, sem pescoço.
Nunca foram ao médico. A obsessão com a saúde e o natural e o detox ainda não era como é hoje.
Mas a família chateia-os, as mulheres insistem, e agora que começam a chegar aos 40 e a sentir-se cansados quando sobem um lanço de escadas, decidem ir ao médico.

"Pois é Dr. não percebo como é que estou assim. Eu até tenho cuidado com o que como"

"Ah, sim, estou a perceber"

"Não como muitos fritos, corto sempre as gorduras da entremeada. Como peixe..."

"Peixe?"

"Sim, como muito bacalhau. Não percebo mesmo, não consigo perder peso"

"Pois, eu percebo que isto é uma coisa que o preocupa. E compreendo que sente dificuldade em perder peso"

"É isso mesmo Dr, você parece que lê a minha mente!"

"Deixe-me perguntar-lhe uma coisa... Você come pão à refeição?"

"Sim, um pãozinho"

"Um?"

"Bem, um ou dois"

"A todas as refeições?"

"Não, em todas não..."

"Você come muito pão?"

"Sim, eu como muito pão"

"Hmmmm... curioso! E será que há alguma relação entre esta coisa que você come imenso, todos os dias, durante os últimos 20 anos, e o facto de não conseguir perder peso?"

"Mas eu não como gorduras! Ponho pouca manteiga no pão!"

"Estranho como isso não parece ter funcionado sistematicamente durante estes anos todos..."

"Mas eu até faço exercício"

"Que exercício é que faz?"

"Quer dizer, eu mexo-me muito"

"Ah?"

"Sim, no trabalho... estou sempre a mexer-me de um lado para o outro"

"Estou positivamente boquiaberto de espanto e surpresa em como isso não tenha sido suficiente!"

"Pois, eu também não percebo"

"Vou sugerir-lhe uma coisa... Vai parar de comer pão, parar de beber coca-cola-"

"Como é que você sabe que eu bebo coca-col-"

"Xiu. E não é só coca-cola, é também os outros sumos todos"

"Mas o sumo de laranja é natural! Então o que é que bebo?"

"Água"

"..."

"E vai passar a fazer exercício. Qualquer coisa. Não importa o quê. Tem é de se mexer"

"E vou cortar nas gorduras!"

" >suspiro< Sim, está bem, pode ser..."


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quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Sobre o contínuo

Um dia escuro, numa sala iluminada de luzes amareladas, ouvi um Professor falar sobre merda.
Merda com sangue.

Fiz o meu caminho por entre as ondas de multidão à saída no metro, e forcei a porta de vidro automática, depois de perceber que o cartão magnético tinha escolhido o dia para embirrar comigo. ''Porque é que estou sempre atrasado para tudo?''
Estava a chover o pior tipo de chuva miudinha. Aquele que molha parvos e espertos.
Acelerei o passo, por entre a multidão de Sete Rios, até dobrar a esquina. Continuei aos ziguezagues, abrigado de varanda em varanda. Os guarda chuvas não foram feitos para mim. Perdi dezenas, até perceber isso.

Finalmente vejo a fachada do Instituto Português de Oncologia! Cheguei, e o meu cérebro decide finalmente que desculpa balbuciar, na improbabilidade de alguém questionar porque é que passam 20 minutos depois do início da aula, e eu só cheguei agora. Depois da segunda aula, é difícil convencer alguém de que andamos perdidos à procura da sala, mas a minha imaginação tem limites às 8 e meia da manhã.

Chego ao piso da Cirurgia. Vou à secretária, e pergunto se sabe onde está o Dr. Ela aponta-me uma sala à esquerda, e finalmente chega o momento. Atravesso a porta a calcular o sítio onde me vou sentar entre os colegas, enquanto finjo que o facto do Dr. ter parado de falar, não tem nada a ver comigo. Sento-me, amorfo, com olhos de carneiro mal morto, para afastar as atenções dos olhares reprovadores. Passado tempo suficiente, ele continua a falar, e eu ouço atenta e interessadamente. Onde está a folha de ponto? Porra, onde está a folha de ponto? Os meus colegas não me retribuem os olhares, e perco-me entre expressões amorfas, de carneiros mal mortos.

''... e é por isso que hematoquézias não quer dizer nada. É um termo inespecífico. Podem ser fezes com coágulos, ou fezes em cor de tijolo... E por causa de variações na velocidade do trânsito, de dificuldade na estimativa do volume, é difícil dizer a origem, ou a causa da hemorragia.''

Eu lembrava-me disto. Medicamente falando, o aspecto das fezes de alguém com suspeita de hemorragia gastrointestinal, permite ter uma ideia da localização da hemorragia. A regra em que os livros de semiologia concordavam, é que sangramento do doudeno para cima, fazia um desgraçado defecar alcatrão, e abaixo disso, uma paleta de misturas e combinações da sangue com merda, até a hemorragia ter localização no recto, e aí o desgraçado defecava o que os médicos chamam, de maneira tranquilizadora, ''sangue vivo''.

''...e é por isso, que hematoquézias não servem para nada. Os doentes fazem colonoscopias que frequentemente estão normais. E existem causas de hemorragia acima do ângulo de treitz, que podem manifestar-se por hematoquézias, se a motilidade intestinal estiver particularmente acelerada. O que os livros dizem, na prática, pode ser muito diferente. A realidade das coisas não cabe em caixas de diagnósticos. A realidade é fluída e contínua. E é assim que devem ver os doentes com hematoquézias. Podem estar a sangrar de qualquer lado, em vários metros de intestino.''

Holds true. Os psiquiatras perceberam isto há mais tempo. Muitos medicamentos, desenvolvidos originalmente para uma doença mental/neurológica, mostraram-se muito úteis em várias outras doenças mentais. Os antipsicóticos podem ajudar nas depressões profundas. Alguns anticonvulsivantes são excelentes estabilizadores do humor, ao passo que outros controlam a dor neuropática. As benzodiazepinas foram feitas para dormir e acalmar, e algumas são excelentes relaxantes musculares. Os antidepressivos podem ser usados para tratar a ansiedade, a anorexia nervosa, e mesmo a ejaculação precoce.

Muitos sintomas são contínuos que podem aparecer com intensidades variáveis em doenças diferentes. As doenças são caixas onde nem toda a gente cabe. As equações de sintomas que estão na tampa de cada caixa, não são suficientes para traduzir todas as realidades que podem decorrer de estar doente. Prova disso é existirem diagnósticos-saco, onde se arruma o que não cabe em mais lado nenhum... fadiga crónica, fibromialgia, cistite intersticial, cólon irritável, síndrome da boca queimada, manifestações somatoformes, ou o curioso conceito: ''sintomas não explicáveis medicamente''. Não sabemos o que é... mas sabemos o que não é... arranjámos uns rótulos para a nossa ignorância, e repetimos placidamente: ''é dos nervos, vizinha, é dos nervos...''

Muitas vezes não é bem claro onde uma classificação acaba e a outra começa.  2+2 são 4... mas só quase sempre... Uma epigastralgia com 2 vómitos e febre é uma gastroenterite, até ser uma pneumonia.  E a incerteza existe sempre... pode ser tolerável para alguns, mas certamente não para toda a gente.
Tudo o que podemos fazer é pensar, fundamentar as nossas escolhas, e agir de boa fé. Sabendo que podemos estar errados, e que estarmos errados, não decorre necessariamente de termos agido mal.
E saber que o papão não existe, e que a homeopatia é uma fraude.
Mas não digam estes dois últimos em voz alta.
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terça-feira, 21 de outubro de 2014

Cocaína

''Tenho falta de um medicamento que me dê força de manhã... Para fazer a minha vida... ''
e que medicamentos faz?
''Estes''
hum
''Tomo estes de manhã, estes à tarde, e estes, à noite...''
sim, e como se tem sentido?
''Não me sinto bem. Todos estes medicamentos me fazem mal.''
hum hum... e como é que acha que eu posso ajudar?
''Não sei bem... Trouxe aqui a lista dos medicamentos que tomo, para mostrar. E gostava que escolhesse aqueles que me estão a fazer bem, e aqueles que me estão a fazer mal... Para eu saber...''
hum, consigo começar a imaginar o que possa ter levado alguém a iniciar alguns destes...
''O que eu precisava mesmo, é de um que me desse força de manhã. Para eu fazer a minha vida''
hum hum...
''e não posso deixar de fazer os meus normais...''
hum hum....
''Então o que acha...?''
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quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Fun at the doctor

That's what happens when you feel bad for a long time. You go to the doctor, and tell him: ''doc, i've been feeling like shit lately.'' The doctor will then proceed to ask you some questions to see if you mean business: ''Have you lost weight? How do you sleep? Do you find less pleasurable some activities that you once enjoyed?...''

If you convince the doctor, he will give you some pills, and a rest from work. He'll call it a ''psych leave''. Apparently you are now depressed.

You ask what does that mean. Well, it means you feel like shit most of the time! Let's pretend you hadn't noticed that yet, and focus on the more important aspect, which is, you convinced a doctor that you are depressed! That guy is your accomplice now! You are entitled to fuck with him a little. Arrogant prick! Thinks he knows everything. You are probably depressed because you had to park your crappy car next to his Aston Martin. And you had to pay him half of your salary! That didn't help either.

First things first. Throw those pills away, they suck. They don't do anything at all. Then, go home, and throw a huge party! Spend all your social security money on it! Invite all your friends, and dance all night!

The next day, throw an even bigger party, under the theme: ''Celebrating my depression money!'' Get a lot of prostitutes on this one, and do a lot of drugs. This is important. Are you taking notes?
After the party, burn down your house, while laughing hysterically.
This way you will be in the paper the next day. How grandiose! You are famous now!

And that way, the doctor can read in the paper about you! Let him question his training over breakfast. Bastard!

After that, steal the doctors Aston Martin and drive it like the wind! Against a wall. Remember to dress flashy! Oh, and to get out of the car before the crash. You are crazy. Not stupid. It's not a fine line.

At some point, the competent authorities will come and take your social security money away. When that happens, go back to the doctor. He's your accomplice, tell him you need more money, or you will go to the police, and divulge your little ''ruse''. Use shady language, and threaten the fucker. Treat him like shit. Smack him in the head, like he's a schmuck. They are used to that.

Eventually, he will start to get hostile. If not, open his spatule box, and french kiss all his spatules. Fuck him. When he gets really pissed, tell him you are jesus christ, his lord and savior, and you will transform his body into solid gold, with the magic touch of your cock!

Answer his questions, until he tells you, with a heavy heart, that you are bipolar. And them the real fun can begin! You are now legally insane! And if you are worried about being forcefully committed for the rest of your days, rest easy, that was in the old days! Now, they want you on their wards, like they want you to shove their stethoscope in your arse, asking if they can hear the farts you are going to pass tomorrow! You'll be in the hospital a couple months, tops, and asleep most of the time.

After that, it's easy street, living on the government tit, whenever you want, for the rest of your life, you burden of the state!
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sexta-feira, 25 de julho de 2014

Dos benefícios inesperados de vestir um pijama horroroso

Fui hoje operado. Não se preocupem as minhas legiões de fãs, estou bem, de tal maneira que estou de perna cruzada na minha cama de hospital a escrever acerca do assunto.

Nota: a melhor maneira de convencerem os enfermeiros e os médicos de que estão bem e que vos devem dar alta é estar de pernas cruzadas na cama durante a visita.

Valorizo sempre imenso qualquer oportunidade de experienciar o Serviço Nacional de Saúde, ou qualquer serviço de saúde, porque é sempre fácil perder a perspectiva das coisas.

Tive uma experiência engraçada, e que não foi partirem ossos dentro da minha cabeça. Foi o seguinte:

Muitas vezes ouço ou leio acerca da despersonalização ou desumanização que acontece dos doentes nos hospitais.
Quando me despi completamente, vesti aquele pijama horroroso de hospital e me sentei numa cadeira de rodas com um saco de soro ao colo e fui arrastado corredor fora, consegui perceber bem essa despersonalização. Estava vulnerabilizado, nem a dignidade de andar pelo meu próprio pé me restava.

Não sabia bem o que dizer à enfermeira, que estava a tentar ser simpática. Senti-me particularmente embaraçado quando entrámos para o elevador apinhado de gente, e a cadeira de rodas em que eu estava ficou numa posição estranha, desconfortável para as outras pessoas. Senti vontade de lhes pedir desculpa.

Mas depois, e porque tenho o benefício da perspectiva, lembrei-me de uma coisa muito importante: eu era subitamente um doente!
Tinha um pijama horroroso e uma cadeira de rodas para prová-lo!
E os doentes ficam imediatamente despersonalizados e desumanizados!
Portanto que é que eu tinha para me preocupar?
A enfermeira não queria que eu lhe dissesse nada de especial. O dia dela ia correr tanto melhor quanto menos comentários e conversa da treta eu fizesse. O melhor que eu lhe podia fazer era ser um doente inexigente, silencioso e cordial.
As pessoas olhavam para mim e ignoravam-me ou, na pior das hipóteses, tinham pena. Eu estava desumanizado, era completamente invisível.

O meu embaraço e ansiedade social  desvaneceram-se tão rapidamente como tinham surgido.

Depois drogaram-me e deram-me umas marteladas dentro da cabeça, mas se falarem com as pessoas certas eu provavelmente estava a merecê-las.

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quarta-feira, 9 de julho de 2014

Hipermetropia de Especialista

Encontrei um pedaço de cadáver numa patanisca. ou pelo menos uma gótica/bruxa. Pessoas sobre as quais vale a pena tentar escrever...

Escrevia com determinação contrafeita e resignada. Batia nas teclas, exalava impacientemente quando tinha que apagar parte do texto. A indignação escapava-lhe por entre os dentes, juntamente com um liturgia de sílabas, que ficavam marteladas no teclado. Frequentemente reconhecemos que estamos a ser engrupidos e não podemos fazer muito sobre isso.
O rosto dela irradiava de um nariz pequeno, com duas sobrancelhas rasgadas, que sublinhavam rugas horizontais, muito proeminentes. O sobrolho dela fazia lembrar gaivotas em voo coordenado que dançavam de acordo com a excentricidade da situação, impondo respeito com voos cerrados simultâneos com pergunta desconfiadas, cuspidas de maneira seca e impaciente.
E este era o outro lado. O fim do caminho. E agora tinha mais liberdade! Era assistente. Finalmente podia assumir todas as posições que antes calava. Defender convicções, opinar... mas os batráquios regurgitados por alguém ex-impotente, fazem-se acompanhar de bílis suficiente para afogar quase todos os tipos de empatia, que ela podia ter granjeado.
Na hora do café em cochichos cúmplices com o chefe de serviço, confessava que achava os colegas invejosos e subservientes. O chefe de serviço sabia que ela não estava errada... mas apesar dos seus olhos rasgados, das sobrancelhas exponenciais de gavião em voo picado, não conseguia enxergar-se. Hipermetropia de especialista.
Agora eu tinha que a ouvir a descrever uma interacção que ela tinha tido com o chefe, em tom embevecido e sonhador...
Ele tinha-lhe pedido um favor, e ela salientava a própria independência, enquanto tomava a atitude que ela tinha escolhido, de acordo com o que percepcionava que seriam as preferências do chefe. Tapava as lacunas neste raciocínio com ''muita intimidade'', e um suposto ''respeito recíproco'', tipicamente atribuídos a figuras paternais.
Eu concordava efusivamente, colocava dúvidas de acordo com a minha percepção dos gostos dela, e bajulava-lhe os estados de espírito magnânimos. As reverberações da auto congratulação da cadeia de comando terminavam em mim... e como todos os rebentos de estetoscópio e bata branca, eu ficava calado. Apanágio do elo mais fraco. Os internos que tentassem passar este tipo de peneiras para as enfermeiras, tinham hipóteses iguais de ouvirem um elogio sarcástico, ou de apanhar com um escarro no olho.
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segunda-feira, 9 de abril de 2012

Martelo e Pregos


Um Interno chega ao gabinete do seu Orientador, e este está sentado à sua secretária com um ar solene.

Interno - Bom dia Dr. Chamou-me?
Orientador - Ah, bom dia! Sim, tenho uma proposta para si!
Interno - Ah?
Orientador - Sugeriram-me um tema que eu acho que seria extremamente interessante para um projecto de investigação!
Interno - Ah, isso é bom...
Orientador - Ainda não há muitos estudos nesta área, e de certeza que é publicável em várias revistas!
Interno - Huhum...
Orientador - ...
Interno - ...
Orientador - Eu acho que você devia-
Interno - Sabe eu tenho umas coisas para fazer e...
Orientador - É importante para o seu currículo.
Interno - Sim, eu sei...
Orientador - É importante ter trabalhos publicados durante o internato.
Interno - Pois...
Orientador - ...
Interno - ...
Orientador - Fazemos assim... você pode escolher entre fazer este estudo...
Interno - sim...?
Orientador - ... ou pregar o escroto ao tampo da mesa.
Interno - ...huh?
Orientador - Dou-lhe a escolher entre fazer este estudo ou pregar o seu escroto ao tampo da mesa. Agora.
abre uma gaveta e tira de lá de dentro um martelo e dois pregos, que deposita sobre o tampo da mesa, do lado do Interno
O Interno olha pensativamente para o martelo e pregos, depois para o orientador

Interno - têm de ser os dois pregos?
Orientador - Sim.
O Interno olha mais um momento para o martelo, depois levanta-se e começa a desabotoar o cinto.

corta para

Três médicos estão sentados à frente de uma secretária, e são o Júri de um exame do mesmo Interno.

Júri 1 - ...muito bem. Mas olhando para o seu currículo, vejo que não publicou trabalho nenhum durante o seu internato!
Júri 2 - Muito irregular.
Júri 3 - Deveras!
Interno - Ah... pois... eu escolhi não fazer esses trabalhos. Está explicado no Anexo 3
Júri 1 (folheia o relatório, lê atentamente) - Pregar o... Huh?! Porquê?! Porque é que você faria isso a si mesmo?
Interno - Não é que eu tenha gostado! Não é propriamente agradável pregar o escroto ao tampo da mesa! Dói como o caraças!
Júri 2 - Então porque é que você fez isso?
Interno - Bem... era melhor que fazer os estudos...
Júri 3 - Ok, bem visto... Quantos pregos?
Interno - Dois pregos...
Júri 3 assobia impressionado

corta para

Um doente está deitado numa cama de hospital, chega um médico.

Médico - Sr Silva, acho que vamos ter mesmo de operar.
Sr. Silva - que chatice Sr. Dr. então e quem é que me vai operar?
Médico - Bem, tenho dois excelentes internos, um deles já foi publicado várias vezes nas revistas da especialidade.
Sr. Silva - Ah, que bem... e foram trabalhos importantes?
Médico - Sim, quer dizer... na maioria foram revisões de artigos, ou estudos estatísticos.
Sr. Silva - Ah... e o outro?
Médico - o outro pregou o escroto ao tampo da mesa.
Sr. Silva - Ena... isso é de homem... quantas vezes?
Médico - pelo menos umas cinco ou seis.
Sr. Silva - com pregos de aço?
Médico - sim, dois de cada vez.
Sr. Silva - Eh lá! Isso sim, quero que seja esse cavalheiro a operar-me! Pregar o escroto ao tampo da mesa, isso sim, impõe respeito!
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quinta-feira, 14 de abril de 2011

Molecular Biology Pwns You

São raras as vezes em que uma tal intersecção de campos de conhecimento se proporciona, mas quando acontece é verdadeiramente um momento de rara beleza.

Hoje na consulta de Oncologia, apareceu um jovem de 29 anos.

E antes que me comecem a gritar "Gozar com pessoas com cancro é ir longe demais" deixem-me já dizer que este jovem já tinha o seu cancro controlado e estava a ir à consulta de revisão de 1 ano, e que estava tudo bem.

Este jovem tinha em particular o seguinte facto: estava a usar uma t-shirt geek.

Ora o que acontecia há alguns anos no que tocava a comunicação de sub-culturas, era que esta estava basicamente confinada ao mundo da música. Duas pessoas que se cruzassem na rua, e uma delas estivesse a usar uma t-shirt de uma banda extremamente obscura que ambas conhecessem, teriam imediatamente um ponto de contacto e comunicação, sem precisarem de dizer o que quer que fosse, e que era completamente inescrutável à vasta maioria da população.

Como eu dizia isto era um fenómeno razoavelmente confinado às subculturas musicais.
Actualmente toda a gente tem t-shirts de tudo e mais alguma coisa. O fenómeno de se parecer esperto usando t-shirt generalizou-se, e então existem imensas pessoas com t-shirts a dizer "O Pluto é filho da Pluta" ou então "Faz-me um Bico" com uma ilustração de um pássaro sem bico.

O que isto proporcionou foi que os geeks (em rápida ascensão de popularidade, um tema para outro post) tivessem uma nova porta aberta para comunicarem entre si e à exclusão de todas as outras pessoas (na maioria das vezes para grande surpresa do geek ele mesmo).

Nomeadamente, este jovem que me apareceu hoje na consulta vinha com uma t-shirt com a seguinte ilustração:

pwn

Naturalmente que o médico sénior com quem eu estava perguntou ao jovem "O que é a P-W-N age?".
O jovem, esboçando um sorriso de satisfação que bordejava o condescendente e o embaraçado (condescendente por ser possessor de um conhecimento de nicho extremamente obscuro de que a população em geral não faz ideia que existe e embaraçado por ser por possessor de um conhecimento de nicho extremamente obscuro de que a população geral não faz ideia que existe) e passou a explicar:
Pwn é um termo de internet associado aos shooters, que é usado quando alguém consegue obter uma vitória humilhante sobre o seu adversário. Esse adversário foi pwned.

O médico sénior esboçou um sorriso vagamente interessado e condescendente e ignorou o rapaz durante o resto da consulta.

Eu no entanto senti uma simpatia fraterna por aquele geek. Eu também já usei t-shirts ininteligíveis para a maioria das pessoas e tive de as explicar embaraçadamente.
Naquele momento só não expressei o meu apoio a um fellow-geek porque estava do lado de cá da secretária e não ficava bem começarmos a discutir que jogos jogávamos.

Outro dado interessante é que este jovem geek tinha tido um cancro testicular.

Sim, isso mesmo: um cancro testicular.

O que eu pensei na altura foi: "Não há mais teabagging para este jovem..."

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terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

O país das alforrecas

À medida que o tempo passa fico mais surpreendido com os adultos. Os seniores, if you will. Estou cansado de ouvir conversas de café sobre o quão mal isto está. Porque não haja dúvidas, o quão mal isto está já destronou há anos a meteorologia como tema mais debatido em ascensores, cafés, e à mesa do jantar. O quão mal isto está, ou o já viste onde isto chegou.

Isto realmente já chegou a um ponto que... estou farto desta treta. Parece moda andarem de um lado para o outro a lamuriarem-se sobre coisas. Porra. Calem-se. Isto está mal. Já sei. O governo não presta. Vem aí o FMI. A oposição é pior. Estão a cortar-nos o salário. Estão a cortar-nos os apoios. Os impostos estão a subir. O desemprego está a aumentar. Não há condições de trabalho. estão a destruir a saúde e a educação. As crianças estão mais estúpidas. O Benfica não está a jogar nada.

Esta é uma excelente época para lamúrias.
Eu não tenho problema nenhum com lamurientos. Tenho problemas com frustrados lamurientos. É verdade que muitas coisas não estão brilhantes... Por exemplo, no barreiro, hospital distrital, não há hemoculturas para anaeróbios. Por exemplo. É uma coisa básica que falta. Mas isto não incomoda muita gente, excepto os desgraçados que tiverem sepsis por anaeróbios. E esses normalmente estão calados. E depois é só uma questão de uma pessoa ter sepsis pelo bicho certo. Também não é assim tão dificil...
O que incomoda, e com toda a justiça, é a baixa de salários, a desvalorização das horas extraordinárias, é a carga de trabalho para lá do razoável, são os bancos de 24 h sem saída de banco, é a falta de comodidade no trabalho.

Isso é que mobiliza as pessoas para fazer reuniões para discutir maneiras de lutar contra a situação. Foi isso que aconteceu a semana passada, no meu local de trabalho. Fez-se a reunião, e decidiu-se que era melhor não fazer nada. Porque as horas extraordinárias podiam estar a ser mal pagas, mas as pessoas têm que pagar contas... e manter um determinado estilo de vida. Por isso é melhor não enfrentar administrações. Greves então, nem pensar. Fazem azia. Sindicatos, vade retro. Nunca na vida. Que nojo. Esses charlatões não querem é trabalhar.

Assim, ontem tive o prazer de ver as coisas voltarem ao que deviam ser. Fomos todos almoçar, e dizer mal do governo, da administração, dos MGF's, dos doentes e do vizinho do lado. Bandidos. Querem é roubar. Chupistas.

Fazer alguma coisa... epa, o que é que nós podemos fazer?
Nada, claro. Nós somos alforrecas. As alforrecas não reclamam. As alforrecas ficam na areia a secar ao sol, até que vem um puto de 5 anos, obeso, espetá-las com canivetes que apanhou da areia.
As alforrecas são bichos simpáticos que habitam em cada um de nós.

Lembro-me de duas frases: ''a democracia é o único sistema que garante que nenhum povo tenha um governo melhor do que merece'', e outra, dita por um espanhol radicado em Portugal, que trabalha comigo: ''Mijam-nos em cima, e temos que acreditar que chove.''

Vivam as lamúrias.
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quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Primum Non Nocere

Existe este princípio ético que nos é inculcado durante todo o curso de medicina, que é o primum non nocere, que significa, basicamente "em primeiro lugar, não fazer mal".
É o princípio da não-maleficiência, de acordo com o qual a primeira preocupação para um médico será nunca prejudicar o seu doente.

Se pensarem bem no assunto, há qualquer coisa de perturbador nesta ideia.

Estão a dizer aos alunos de medicina, com muita veemência e muito ênfase, "Não façam mal aos doentes!!! Sobretudo não lhes façam mal! Preocupem-se sempre se não lhes estão a fazer mais mal que bem!"

Não deviam estar a dizer aos alunos de medicina: "Melhorem a vida dos vossos doentes! Ponham-nos melhores ainda do que estavam antes de ficarem doentes!"?

Eu sei que isto pode parecer idealista, mas consegue ser melhor que o realismo deprimente que é "Ao menos tentem não matar os vossos doentes!".

É como se um oficina de mecânicos, em vez de publicitar que "Pomos o seu carro como novo!", anunciasse orgulhosamente, com um sorriso e um piscar de olho, que "Prometemos que tentamos não destruir o seu carro!"

Que um mecânico não nos põe o carro pior do que estava está subentendido. A expectativa básica é que ele o conserte, o ideal é que o deixe melhor do que estava.

Anunciar, à partida, que não nos vão destruir o carro, não me parece uma boa estratégia publicitária.

É como os cartazes publicitários da Câmara Municipal de Lisboa que eu tenho visto pelas ruas ultimamente, que anunciam orgulhosamente que já não há esgotos não-tratados a desaguar directamente para o rio Tejo.

Ora se eu estivesse na Câmara Municipal de Lisboa e tivesse conseguido finalmente fazer com que não houvesse esgotos não-tratados a desaguar para o Tejo, o que eu definitivamente não fazia era anunciá-lo como se isso fosse o melhor do mundo! Calava-me muito bem caladinho com esperança que ninguém notasse que só agora é que isso tinha sido conseguido, e se alguém me perguntasse, respondia que não, nunca tinha havido esgotos não-tratados para o Tejo.

Se sentem necessidade de enfatizar Primum Non Nocere, isso dá a entender que acontece tantas, mas tantas vezes, um médico fazer mais mal que bem a um doente, que de facto se justifica fazer do Primum Non Nocere um dos pricípios éticos da medicina, e não o "Deixem o doente ainda melhor do que estava".

E isto não é especulação...

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segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

First Day

Hoje um dia começou outra vez. Segundo muitos um dia importante. O primeiro dia de trabalho. Por isso, levantei-me e pus-me a caminho para Torres Vedras. Somos um grupo de 24 de recem-graduados, que foram recebidos como heróis locais pelo pessoal hospitalar.

Depois de uma recepcção calorosa da direcção hospitalar, dei por mim a receber um cafesito distribuido pela Directora clínica e a comer bolinhos que ela lá tinha. Tirámos a bela da foto de grupo e levaram-nos a conhecer o hospital.

Às 15h estava a caminho de casa. Feliz e contente. Hoje durmo em frente ao mar, amanhã entro às 9h e … os meus bancos são só em dias uteis. ;)

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